O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 29 de 69

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O Circo da Noite

Colaborações

SETEMBRO — DEZEMBRO DE 1893

 

Marco chega ao escritório de Sr. Barris em Londres poucos minutos

antes do horário marcado, e fica surpreso ao encontrar o espaço, normalmente bem arrumado, em alvoroço, entulhado de caixotes parcialmente cheios e caixas empilhadas. A escrivaninha não está visível, soterrada embaixo de todo aquele caos.

— Já é tão tarde assim? — pergunta Sr. Barris quando Marco bate na porta aberta, incapaz de entrar por não ter onde pisar. — Eu devia ter deixado o relógio do lado de fora, está num desses caixotes. — Aponta para uma fileira de grandes caixotes de madeira encostados na parede, mas é impossível saber se um deles está tiquetaqueando. — E devia ter aberto caminho também — acrescenta, empurrando caixas para os lados e recolhendo pilhas de plantas baixas enroladas.

— Desculpe a intromissão — diz Marco. — Eu queria falar com o senhor antes que deixasse a cidade. Poderia esperar até o senhor estar instalado novamente, mas achei melhor discutir a questão pessoalmente.

— É claro — diz Sr. Barris. — Eu queria lhe dar umas cópias das plantas do circo. Estão por aqui em algum lugar. — Folheia a pilha de plantas, verificando etiquetas e datas.

A porta do escritório fecha-se em silêncio, sem ter sido tocada.

— Posso fazer uma pergunta, Sr. Barris? — indaga Marco.

— Com certeza — responde ele, ainda envolvido com os rolos de papel.

— Quanto o senhor sabe?

Sr. Barris larga as plantas e se vira, empurrando os óculos para enxergar melhor a expressão de Marco.

— Quanto eu sei sobre o quê? — pergunta, depois de uma pausa longa demais.

— Quanto Srta. Bowen lhe contou? — indaga Marco em resposta.

Sr. Barris olha para ele com curiosidade por um momento antes de falar.

— Você é o oponente dela — diz, com um sorriso espalhando-se pelo rosto quando Marco balança a cabeça. — Eu nunca teria adivinhado.

— Ela falou com você sobre a competição — continua Marco.

— Apenas em termos genéricos — confirma Sr. Barris. — Celia me procurou alguns anos atrás e perguntou o que eu diria se ela me contasse que tudo o que faz é real. Respondi que teria de acreditar na palavra dela ou achar que era mentirosa, e que nunca teria sonhado que uma dama tão adorável fosse uma mentirosa. Depois me perguntou o que eu poderia projetar se não tivesse de me preocupar com restrições como a gravidade. Foi o começo do Carrossel, mas imagino que você já saiba disso.

— Eu deduzi até aí — diz Marco. — Embora não tivesse certeza de quanto o senhor sabia.

— Veja, estou numa posição em que posso ser muito útil. Acredito que mágicos de palco empregam engenheiros para fazer seus truques parecerem algo que não são. Nesse caso, eu faço o serviço oposto: estou ajudando uma mágica verdadeira a parecer uma elaboração inteligente. Srta. Bowen chama isso de lastrear, tornar crível o inacreditável.

— Ela teve algo a ver com o Observatório Estelar? — pergunta Marco.

— Não, o Observatório é totalmente mecânico — responde Sr. Barris. — Posso mostrar as plantas estruturais, se conseguir encontrá-las nesta bagunça. Foi inspirado numa visita à Exposição Colombiana em Chicago no começo do ano. Srta. Bowen insistiu em que não poderia aperfeiçoá-lo, embora eu ache que ela pode ter algo a ver com a manutenção de seu funcionamento adequado.

— Então o senhor também é um mágico — observa Marco.

— Talvez nós simplesmente façamos coisas parecidas de formas diferentes — comenta Sr. Barris. — Considerando que Srta. Bowen tem um oponente à espreita em algum lugar, eu pensei que não estaria precisando de qualquer assistência. Os animais de papel, por exemplo, são incríveis.

— Obrigado — diz Marco. — Eu improvisei bastante tentando criar tendas que não precisassem de desenhos e projetos.

— É por isso que você está aqui? — pergunta Sr. Barris. — Por alguma planta baixa?

— Em primeiro lugar, eu queria saber ao certo o que você sabe a respeito do jogo — diz Marco. — Eu poderia fazer o senhor esquecer completamente esta conversa, é claro.

— Ah, não há necessidade de tanta precaução — retruca Sr. Barris balançando a cabeça com veemência. — Garanto que sou capaz de permanecer neutro. Não gosto de escolher lados. Posso ajudar você ou Srta. Bowen quanto desejarem sem revelar nada do que você ou ela me disserem em segredo. E não vou dizer uma palavra a qualquer um. Pode confiar em mim.

Marco arruma uma pilha instável de caixas enquanto pensa no assunto.

— Tudo bem — diz. — Embora eu deva admitir que estou surpreso com a maneira como está aceitando tudo isso, Sr. Barris.

Sr. Barris reage com uma risadinha.

— Admito que, de todos nós, eu pareço o menos provável — diz. — O mundo é um lugar mais interessante do que imaginava quando fui àquele primeiro Jantar da Meia-Noite. Será porque Srta. Bowen pode dar vida a uma criatura feita de madeira num carrossel ou por você poder manipular minha memória, ou porque o próprio circo expandiu as fronteiras do que eu sonhava ser possível, até antes de começar a pensar numa verdadeira mágica? Não sei dizer. Mas não trocaria isso por nada.

— E não vai revelar a minha identidade à Srta. Bowen?

— Não vou dizer nada — anuncia Sr. Barris. — Você tem a minha palavra.

— Neste caso — começa Marco —, eu agradeceria sua ajuda em algo.

 

*

 

QUANDO A CARTA CHEGA, Sr. Barris teme por um momento que Srta. Bowen fique aborrecida com o andamento das coisas, ou que faça perguntas sobre quem é seu oponente, já que ela vai perceber facilmente que ele agora está ciente desse fato.

Mas, quando abre o envelope, o bilhete dentro diz apenas: Posso fazer alguns acréscimos?

Ele responde informando-a de que aquilo fora especificamente projetado para ser manipulado pelas duas partes, e que, portanto, ela pode acrescentar o que quiser.

 

*

 

CELIA ATRAVESSA um salão cheio de neve, com flocos brilhantes prendendo-se aos seus cabelos e à barra do vestido. Estende a mão, sorrindo ao ver os cristais derretendo em sua pele.

Há portas alinhadas por toda a extensão do salão e ela escolhe uma bem no final, deixando uma trilha de respiração condensada ao entrar num aposento onde precisa se desviar para não colidir com uma cascata de livros suspensos no teto, as páginas se abrindo em ondas congeladas.

Estende a mão para tocar o papel, o aposento inteiro balançando delicadamente enquanto vira as páginas.

Demora um bom tempo para encontrar outra porta, escondida num canto escuro, e ri quando suas botas afundam na areia fofa que se espalha pelo aposento.

Celia encontra-se num reluzente deserto branco, com um céu noturno brilhante que se estende em todas as direções. A sensação de espaço é tão ampla que ela precisa esticar o braço para encontrar uma parede escondida nas estrelas, e ainda se surpreende quando seus dedos tocam na superfície sólida.

Tateia as paredes estreladas, percorrendo sua extensão em busca de uma saída.

— Isso é horroroso — diz a voz de seu pai, embora ela não consiga enxergá-lo na luz difusa. — Você devia estar trabalhando em separado, não nessa... justaposição promíscua. Eu avisei sobre essa colaboração, não é a maneira adequada de mostrar as suas habilidades.

Celia suspira.

— Eu acho bastante inteligente — responde. — O que poderia ser melhor do que competir com alguém na mesma tenda? E você não pode chamar isso de colaboração. Como posso estar colaborando com alguém cuja identidade eu nem conheço?

Ela vislumbra o pai olhando para ela e se vira, prestando atenção na parede.

— Então, o que é superior? — pergunta. — Uma sala cheia de árvores ou uma sala cheia de areia? Você ao menos sabe quais são as minhas? Isso está ficando cansativo, papai. Está claro que meu oponente tem habilidades à altura. Como você vai determinar quem é o vencedor?

— Isso não é problema seu — sibila o pai, mais perto de seu ouvido do que ela gostaria. — Você é uma decepção, eu esperava mais de sua parte. Você precisa fazer mais do que isso.

— Fazer mais é exaustivo — protesta Celia. — Eu só posso controlar esse tanto.

— Não é o suficiente — observa o pai.

— Quando será o suficiente? — pergunta ela, mas não há resposta, pois está sozinha entre as estrelas.

Celia se senta no chão e pega um punhado de areia branca perolada, que deixa cair lentamente entre os dedos.

 

*

 

SOZINHO EM SEU APARTAMENTO, Marco constrói pequenos aposentos com pedaços de papel. Corredores e portas confeccionados com páginas de livros e recortes de plantas baixas, recortes de papel de parede e fragmentos de cartas.

Compõe câmaras que levam a outras, criadas por Celia. Escadas que cercam as paredes dela.

E deixa espaços abertos para ela responder.

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