O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 62 de 69

Páginas do PDF

O Circo da Noite

Consequências

NOVA YORK, 1º DE NOVEMBRO DE 1902

 

Apesar de o entorno haver mudado, o circo parece exatamente igual ao

que era em suas terras, pensa Bailey quando enfim chega até a cerca, com uma dor forte no lado direito do abdome e ofegante por ter corrido por uma área formada mais de bosques do que de campo aberto.

Mas há diferenças. Leva algum tempo para recuperar o fôlego ao lado dos portões, observando o cartaz em que se lê

 

Fechado devido ao mau tempo

 

que cobre o que tem o horário de funcionamento.

É o cheiro, ele percebe. Não é mais o reconfortante aroma de caramelo misturado com a fumaça da madeira de uma fogueira. É o odor pesado de alguma coisa queimada e molhada, uma fragrância doce e nauseante.

Faz com que fique enjoado.

Não se ouve nenhum som no interior da cerca de ferro retorcido. As tendas estão absolutamente imóveis. Apenas o relógio atrás dos portões faz algum movimento, tiquetaqueando devagar as horas da tarde.

Bailey logo descobre que não vai conseguir passar pelas barras da cerca de forma tão fácil como quando tinha 10 anos. O espaço é estreito demais, não adianta tentar passar encolhendo os ombros. Tinha esperanças de que Poppet estivesse a sua espera, mas não há ninguém à vista.

A cerca é alta demais para ser escalada, e Bailey considera esperar na frente dos portões até o pôr do sol quando avista um galho de árvore retorcido que não alcança a cerca, mas chega perto, pendendo sobre os espetos de ferro retorcido no alto.

De lá ele poderia pular. Se conseguisse o ângulo certo, poderia pousar no caminho entre tendas. Mas, se entrasse pelo ângulo errado, podia ser que quebrasse uma perna, mas isso seria um problema menor, que poderia ser resolvido depois, e ao menos ele estaria dentro do circo.

Subir na árvore é fácil, e o galho que se aproxima do circo é forte o bastante para permitir que fique bem perto da cerca. Mas Bailey não consegue manter o equilíbrio, e sua tentativa de um salto gracioso acaba se tornando algo como uma queda planejada. Aterrissa no caminho de mau jeito, rolando até a lateral da tenda e arrastando uma grande quantidade de pó branco do chão junto com ele.

As pernas estão doloridas, mas parecem bem, ainda que seu ombro esteja esfolado e as palmas das mãos, arranhadas e sujas de pó e terra. O pó sai fácil das suas mãos, mas adere como uma tinta ao casaco e às calças do terno novo. E agora está sozinho no circo outra vez.

— Verdade ou consequência — murmura consigo mesmo.

Folhas secas e frágeis dançam em volta dos seus pés, trazidas pelo vento através da grade. Manchas da cor do outono perturbam o preto e branco.

Bailey não sabe para onde ir. Perambula pelas trilhas esperando ver Poppet ao virar cada esquina, mas só vê listras e vazio. Afinal vai em direção ao pátio, onde fica a fogueira.

Ao fazer uma curva que dá para o espaço aberto do pátio da fogueira, fica mais surpreso com o fato de o fogo não estar aceso do que a ausência de alguém esperando por ele.

Mas a figura perto do caldeirão de ferro retorcido não é Poppet. Essa mulher é mais baixa, os cabelos muito escuros. Quando ela se vira, está com uma longa piteira de prata nos lábios e a fumaça volteia em torno de sua cabeça como pequenas serpentes.

Demora para reconhecer a contorcionista, pois só a tinha visto antes sobre uma plataforma retorcendo-se em formas impossíveis.

— Você é Bailey, certo? — pergunta ela.

— Sou — responde Bailey, perguntando-se se todos no circo sabem quem ele é.

— Você está atrasado — diz a contorcionista.

— Atrasado para quê? — pergunta Bailey, confuso.

— Duvido que ela consiga aguentar muito mais tempo.

— Quem? — indaga ele, embora surja em sua cabeça o pensamento de que a contorcionista poderia estar se referindo ao próprio circo.

— E, claro — continua —, se você tivesse chegado mais cedo as coisas poderiam ter sido diferentes. Sincronia é uma coisa delicada.

— Onde está Poppet? — pergunta Bailey.

— Srta. Penelope está indisposta no momento.

— Como ela pode não saber que estou aqui? — questiona.

— Ela pode muito bem saber que está aqui, mas isso não muda o fato de estar indisposta no momento, como mencionei.

— Quem é você? — questiona. Seu ombro está trêmulo e ele não consegue identificar o momento em que tudo começou a não fazer sentido.

— Pode me chamar de Tsukiko — responde a contorcionista, dando uma longa tragada no cigarro.

Atrás dela, o monstruoso caldeirão de ferro batido está inerte e vazio. O chão ao redor, geralmente com espirais pintadas de preto e branco, é agora apenas escuridão, como se tivesse sido engolido pelo espaço vazio.

— Achei que o fogo nunca se apagasse — diz Bailey, aproximando-se.

— Nunca se apagou antes — diz Tsukiko.

Aproximando-se da borda do caldeirão de ferro ainda quente, Bailey fica na ponta dos pés para espiar lá dentro. Está quase cheio de água da chuva, a superfície escura ondulando com a brisa. O solo sob seus pés é negro e enlameado, e, ao dar um passo para trás, chuta sem querer um chapéu-coco.

— O que aconteceu? — pergunta.

— É um pouco difícil de explicar — responde Tsukiko. — É uma história longa e complicada.

— E você não vai me contar, não é?

Ela inclina um pouco a cabeça, e Bailey pode ver a sugestão de um sorriso dançando ao redor dos seus lábios.

— Não, não vou.

— Ótimo — resmunga Bailey baixinho.

— Vejo que você adotou a insígnia — observa Tsukiko, apontando com o cigarro para o cachecol vermelho. Bailey não sabe ao certo como responder, mas ela continua, sem esperar uma explicação. — Suponho que se possa dizer que foi uma explosão.

— A fogueira explodiu? Como?

— Lembra que eu disse que era difícil explicar? Continua sendo.

— Por que as tendas não pegaram fogo? — pergunta Bailey, olhando ao redor para a infinidade de listras. Algumas tendas mais próximas estão sujas de lama, mas nenhuma está queimada, apesar do solo calcinado ao redor.

— Por causa de uma façanha da Srta. Bowen — explica Tsukiko. — Desconfio de que sem essa precaução os danos teriam sido bem maiores.

— Quem é Srta. Bowen? — indaga Bailey.

— Você faz muitas perguntas — diz Tsukiko.

— Você não responde a muitas delas — contra-ataca Bailey.

O sorriso agora se mostra por inteiro, curvando-se de uma forma que Bailey acha preocupantemente amistosa.

— Eu sou apenas uma emissária — elucida Tsukiko. — Estou aqui para atuar como um comboio e escoltar você até uma reunião que discutirá essas questões, suponho, porque no momento sou a única pessoa viva que tem alguma ideia do que aconteceu, e de por que você está aqui. É melhor guardar suas perguntas para outra pessoa.

— E quem seria essa pessoa? — questiona Bailey.

— Você vai ver — responde Tsukiko. — Venha comigo.

Faz um aceno convidando-o a segui-la, conduzindo-o ao redor da fogueira até o outro lado do pátio. Percorrem uma pequena trilha até uma passagem adjacente, placas de lama aderindo aos até então engraxados sapatos de Bailey.

— Aqui estamos. — Tsukiko para na entrada de uma tenda e Bailey se aproxima para ler o cartaz, identificando-a assim que vê as palavras escritas.

 

Feras temíveis e estranhas criaturas

Maravilhas em papel e névoa

 

— Você não vem comigo? — pergunta Bailey.

— Não — responde Tsukiko. — Sou apenas uma emissária, lembra? Estarei no pátio, caso precise de mim.

Com isso ela faz um aceno educado e retorna pelo caminho por onde tinham vindo, e ao observá-la se afastando Bailey percebe que as botas dela não se sujam com a lama.

Quando ela desaparece em uma esquina, o garoto entra na tenda.

OceanofPDF.com