O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 9 de 69

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O Circo da Noite

Tiro ao alvo

LONDRES, DEZEMBRO DE 1884

 

O alvo está precariamente pendurado numa parede do quarto, entre

estantes altas e pinturas a óleo com molduras vistosas. Está quase camuflado nas sombras, apesar de seu estampado gritante, mas a faca o atinge toda vez que é arremessada, bem perto da mosca, meio recoberta por um recorte de jornal espetado no centro.

É uma resenha teatral, um artigo cuidadosamente recortado do Times de Londres. Uma resenha favorável; alguns poderiam defini-la como entusiasmada. Mesmo assim, foi colocada naquela posição de execução, e uma faca de cabo de prata é atirada nela. A faca atravessa o papel e afunda na cortiça do alvo. E só é retirada para que o processo se repita.

A faca é arremessada com muita elegância, pelo cabo, de forma a girar e girar perfeitamente até a ponta da lâmina encontrar o alvo, por Chandresh Christophe Lefèvre, cujo nome está impresso na última linha do mencionado recorte de jornal.

A frase que contém seu nome foi o que irritou Monsieur Lefèvre a ponto de usá-la como alvo. Uma única frase, que diz o seguinte: “M. Chandresh Christophe Lefèvre continua a romper os limites do teatro moderno, deslumbrando seu público com um espetáculo quase transcendental.”

A maioria dos produtores teatrais gostaria de ser elogiado dessa forma. Recortaria o artigo para um livro de resenhas, guardando-o como referência e recomendação.

Mas não esse produtor teatral específico. Não. O produtor Chandresh Christophe Lefèvre concentra-se na penúltima palavra. Quase. Quase.

A faca voa mais uma vez pelo aposento, sobre móveis de veludo e madeira finamente trabalhada, passando perigosamente perto de uma garrafa de cristal com conhaque. Dá rápidos giros, cabo sobre lâmina, e novamente se crava no alvo. Dessa vez acerta no papel quase esfarrapado entre as palavras “público” e “espetáculo”, destruindo totalmente o trecho “com um”.

Chandresh segue a faca, retira a lâmina do alvo com cuidado, mas faz um pouco de força. Atravessa o aposento mais uma vez, a faca em uma das mãos, uma taça de conhaque na outra, e dá meia-volta, arremessando rápido, mirando naquela horrível palavra. Quase.

Com certeza ele está fazendo alguma coisa errada. Se suas produções são apenas quase transcendentais, quando a possibilidade de verdadeira transcendência existe um pouco além, esperando para ser atingida, deve haver algo mais que precisa ser feito.

Ele vem pensando nisso desde que a resenha foi posta em sua mesa, cuidadosamente recortada e rotulada por seu assistente. Outras cópias foram arquivadas para a posteridade, pois as de sua mesa costumam enfrentar destinos horríveis enquanto Chandresh agoniza com cada palavra.

Chandresh adora reações. Reações genuínas, não simples aplausos educados. Costuma valorizar mais as reações do que o próprio espetáculo. Afinal, um espetáculo sem plateia não é nada. É na reação do público que vive o poder das apresentações.

Ele cresceu no teatro, sentado em camarotes no balé. Como era uma criança inquieta, logo se cansou das danças sempre parecidas e preferiu observar a plateia. Para ver quando sorriam ou se sobressaltavam, quando as mulheres suspiravam e quando os homens começavam a cochilar.

Por isso não surpreende muito que agora, tantos anos depois, ele continue mais interessado no público do que na própria apresentação. Embora a apresentação precise ser espetacular para provocar as melhores reações.

E como não é capaz de observar as expressões de todos os espectadores em todas as apresentações de todos os espetáculos (espetáculos que variam de dramas pungentes a dançarinas exóticas, e alguns que criativamente combinam as duas coisas), ele precisa confiar nas resenhas.

Mas havia algum tempo não lia uma resenha que o tivesse deixado tão envergonhado. E certamente havia anos nenhuma o tinha feito chegar ao arremesso de facas.

Agora a lâmina acerta a palavra “palco”.

Chandresh vai retirá-la, bebericando o conhaque no caminho. Por um momento, observa o artigo quase destruído com curiosidade, examinando as palavras quase ilegíveis. Em seguida grita por Marco.

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Com seu ingresso na mão, você segue uma fila contínua de espectadores até o circo, observando o movimento rítmico do relógio preto e branco enquanto aguarda.

 

Além da bilheteria, o único caminho à frente é através de uma pesada cortina listrada. Uma a uma as pessoas passam por ela, desaparecendo de vista.

Quando chega a sua vez, você afasta a cortina e dá um passo adiante, só para ser engolido pela escuridão quando a cortina se fecha outra vez.

Seus olhos demoram alguns instantes para se adaptar, e então minúsculos pontos de luz começam a aparecer como estrelas, forrando a parede escura a sua frente.

Embora alguns instantes atrás você estivesse tão próximo de seus colegas visitantes do circo que poderia tocá-los, agora está sozinho ao tatear o caminho ao longo de um túnel que parece um labirinto.

O túnel se retorce e faz curvas, as minúsculas luzes são a única iluminação. Não há como saber quanto você andou ou em que direção está se locomovendo.

Enfim você encontra outra cortina. O tecido parece suave como veludo em suas mãos e se abre com facilidade a seu toque.

A luz do outro lado é ofuscante.

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