O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 13 de 69

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O Circo da Noite

A tatuagem da contorcionista

LONDRES, SETEMBRO DE 1885

 

Mais ou menos uma vez por mês, sem regularidade exata, realizam-se

Jantares da Meia-Noite, aos quais os convidados agora se referem mais comumente como Jantares do Circo. São uma amálgama de evento social e reunião de negócios.

Mme. Padva está sempre presente, assim como uma ou as duas irmãs Burgess. Sr. Barris comparece sempre que sua agenda permite, pois ele viaja bastante e não tem a disponibilidade de que gostaria.

Sr. A. H... raramente aparece. Tara comenta que tem a impressão de que as reuniões mais produtivas, depois do jantar, ocorrem quando ele está lá, embora apresente apenas sugestões ocasionais a respeito de como o circo deveria funcionar.

Nessa noite específica, somente as damas estão presentes.

— Onde está o nosso Sr. Barris esta noite? — indaga Mme. Padva quando as irmãs Burgess chegam sozinhas, uma vez que ele normalmente as acompanha.

— Está na Alemanha — respondem Lainie e Tara em uníssono, fazendo Chandresh rir ao lhes servir as taças de vinho.

— Está atrás de um relojoeiro — continua Lainie, sozinha. — Algo a respeito de uma encomenda para o circo. Ele estava bastante entusiasmado antes de partir.

O jantar dessa noite não tem nenhum divertimento programado, nem mesmo o costumeiro acompanhamento de piano, e mesmo assim o entretenimento entra pela porta sem ser anunciado.

Ela se apresenta como Tsukiko, mas não esclarece se esse é o seu nome ou sobrenome.

É pequena, mas não minúscula. Os cabelos longos e negros estão arrumados em elaboradas tranças no alto da cabeça. Veste um casaco escuro grande demais para ela, mas sua postura é tal que parece se alongar como uma capa e o efeito é bastante elegante.

Marco a deixa no vestíbulo, esperando pacientemente debaixo da imponente estátua de ouro de uma cabeça de elefante, enquanto tenta explicar a situação a Chandresh, o que, claro, resulta em todos os convidados se reunirem no corredor para averiguar a razão do alarde.

— O que a traz aqui a esta hora? — pergunta Chandresh, perplexo. Coisas mais estranhas que um entretenimento inesperado já aconteceram na maison Lefèvre, e a pianista às vezes realmente manda uma substituta quando não está disponível para um dos jantares.

— Eu sempre fui notívaga. — É a única resposta de Tsukiko, que não dá mais detalhes sobre qual reviravolta do destino a levou àquele lugar àquela hora, mas o sorriso que acompanha seu comportamento enigmático é caloroso e contagiante. As irmãs Burgess imploram para que Chandresh a deixe ficar.

— Nós estávamos nos sentando para jantar — diz Chandresh com um muxoxo —, mas seja bem-vinda, junte-se a nós na sala de jantar para... seja o que for que deseja fazer.

Tsukiko faz uma mesura, e o sorriso aparece outra vez.

Enquanto as demais convidadas entram na sala de jantar, Marco pega o casaco dela, hesitando ao ver o que ela veste por baixo.

Tsukiko está usando um minúsculo vestido transparente que seria considerado escandaloso em outro ambiente, mas aquele grupo não se escandaliza com tanta facilidade. Parece mais uma faixa de seda preta mantida no lugar por um corpete bem apertado do que de fato um vestido.

E não é exatamente o pequeno tamanho da roupa que chama a atenção de Marco, mas a tatuagem que ondula sinuosa por sua pele.

À primeira vista é difícil dizer o que seja; respingos de marcas pretas que circundam seus ombros e pescoço, terminando pouco acima do decote na frente e desaparecendo atrás dos laços do corpete preto. É impossível dizer até onde vai aquela tatuagem.

Com um exame mais detalhado, pode-se perceber que o turbilhão da tatuagem é mais do que simples marcas pretas. É uma cascata fluente de símbolos alquímicos e astrológicos, sinais antigos representando planetas e os elementos, registrados com tinta negra na pele clara. Mercúrio. Chumbo. Antimônio. Uma lua crescente aparece na nuca; um hieróglifo egípcio perto da clavícula. Há ainda outros símbolos: runas nórdicas, caracteres chineses. São incontáveis tatuagens, mas todas se mesclam e fluem num gracioso desenho que a adorna como uma joia incomum e elegante.

Tsukiko percebe o olhar de Marco, e, apesar de ele não ter perguntado a respeito, ela diz em voz baixa:

— É parte do que fui, do que sou e do que serei.

Depois sorri e caminha até a sala de jantar, deixando Marco sozinho no vestíbulo no momento em que o relógio começa a soar as badaladas da meia-noite e o primeiro prato é servido.

Deixa os sapatos na entrada e vai descalça até uma área perto do piano, que recebe a melhor luz dos lustres e dos candelabros.

De início fica apenas parada, calma e relaxada, enquanto os comensais a observam com curiosidade, e logo fica claro qual é o seu estilo de entretenimento.

Tsukiko é contorcionista.

Tradicionalmente, contorcionistas se retorcem para a frente ou para trás, dependendo da flexibilidade de sua coluna, e seus truques e apresentações são baseados nessa diferença. Tsukiko, porém, é uma das raras contorcionistas cuja flexibilidade é a mesma nas duas direções.

Ela se movimenta com a graça de uma bailarina formada, um detalhe que Mme. Padva percebe e menciona num sussurro para as irmãs Burgess antes mesmo do início das proezas mais impressionantes.

— Você conseguia fazer isso quando era bailarina? — pergunta Tara, quando Tsukiko ergue a perna até uma altura impossível acima da cabeça.

— Minha agenda social seria muito mais concorrida se conseguisse — responde Mme. Padva balançando a cabeça.

Tsukiko é uma artista habilidosa. Acrescenta floreios perfeitos, mantém posições e faz pausas por intervalos de tempo ideais. Embora retorça o corpo em posições inimagináveis, que parecem dolorosas, seu sorriso angelical não se altera.

A modesta plateia esquece a conversa e o jantar enquanto observa a apresentação.

Mais tarde, Lainie comentará com a irmã que tinha certeza de estar ouvindo música, embora não houvesse som algum além do farfalhar da seda sobre a pele e do crepitar da lareira.

— É sobre isso que eu tenho falado — diz Chandresh, batendo com o punho na mesa, rompendo de repente aquele silêncio encantado. Tara quase derruba o garfo que estava segurando, distraída, alcançando-o antes que batesse em seu prato, já pela metade, de ostras escaldadas em vermute. Tsukiko, no entanto, continua seus graciosos movimentos, imperturbável; apenas seu sorriso intensifica-se de forma evidente.

— Isso? — pergunta Mme. Padva.

— Isso! — repete Chandresh, apontando para Tsukiko. — Tem exatamente o sabor que se espera do circo. Incomum porém lindo. Provocativo, mas ainda assim elegante. Foi o destino que a trouxe aqui esta noite. É dela que precisamos, não vou aceitar nada menos que isso. Marco, traga uma cadeira para essa dama.

Um lugar é posto à mesa para Tsukiko. Ela sorri confusa quando se senta com os outros.

A conversa que se segue envolve mais uma coerção criativa do que uma verdadeira proposta de trabalho, e o assunto se desvia várias vezes para balé, moda contemporânea e mitologia japonesa.

Após cinco pratos e uma boa quantidade de vinho, Tsukiko se deixa persuadir e aceita o convite para se apresentar em um circo ainda não existente.

— Muito bem — diz Chandresh. — Temos nossa contorcionista. Já é um começo.

— Não deveria haver mais do que um? — pergunta Lainie. — Uma tenda inteira, como a dos acrobatas?

— Tolice — replica Chandresh. — É melhor ter um único diamante perfeito do que um saco de pedras irregulares. Vamos fazer uma vitrine e colocá-la no pátio ou coisa assim.

A questão é considerada resolvida, ao menos naquele momento, e durante a sobremesa e os drinques após o jantar o único assunto discutido é o circo propriamente dito.

 

*

 

AO SE DESPEDIR, Tsukiko deixa um cartão com Marco com informações de onde pode ser encontrada, e logo se torna uma figura constante nos Jantares do Circo, em geral se apresentando antes ou depois da refeição, para não distrair os convidados durante o jantar.

Continua sendo a favorita de Chandresh, um critério de referência sempre lembrado do que o circo deveria ser.

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