O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 30 de 69

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O Circo da Noite

O tique-taque do relógio

VIENA, JANEIRO DE 1894

 

O escritório é grande, mas parece menor que o volume do que há dentro

dele. Embora algumas paredes sejam de vidro jateado, a maior parte é bloqueada por armários e prateleiras. O estirador perto das janelas está quase escondido no caos meticulosamente organizado composto por papéis, diagramas e plantas. O homem de óculos sentado à mesa é quase invisível, misturado ao ambiente. O som de seu lápis rabiscando o papel é tão metódico e preciso quanto o tique-taque do relógio no canto da sala.

Alguém bate à porta de vidro jateado e o lápis se imobiliza, embora o tique-taque do relógio não se perturbe.

— Uma tal de Srta. Burgess quer falar com o senhor — informa um assistente na porta aberta. — Diz que não quer incomodar, caso o senhor esteja ocupado.

— Não é nenhum incômodo — responde Sr. Barris, largando o lápis e levantando-se da cadeira. — Por favor, faça-a entrar.

O assistente sai do umbral da porta e é substituído por uma jovem com um elegante vestido de babados em renda.

— Olá, Ethan — saúda Tara Burgess. — Peço desculpas por aparecer sem avisar.

— Não há necessidade, minha querida Tara. Você está adorável, como sempre — responde Sr. Barris, beijando-a no rosto.

— E você não envelheceu nem um dia — replica Tara, com sinceridade.

O sorriso dele vacila e ele olha para outro lado, indo fechar a porta atrás dela.

— O que a traz a Viena? — pergunta. — E onde está sua irmã? Eu quase nunca as vejo separadas.

— Lainie está em Dublin, com o circo — responde Tara, voltando a atenção para o que há no aposento. — Eu... não estava muito no clima e achei melhor viajar um pouco sozinha. Visitar amigos que moram longe me pareceu um bom começo. Eu teria mandado um telegrama, mas resolvi meio de repente. E não sabia ao certo se seria bem-vinda.

— Você é sempre bem-vinda, Tara — observa Sr. Barris. Oferece uma cadeira, mas ela nem percebe e continua andando ao redor das mesas cobertas de modelos de construções altamente detalhados, parando aqui e ali para observar melhor: o arco de uma porta, a espiral de uma escadaria.

— Fica difícil perceber a diferença entre velhos amigos e parceiros de negócios em casos como o nosso, acho — observa Tara. — Se somos pessoas que mantêm conversas formais para encobrir segredos ou algo mais do que isso. Esse é uma maravilha — acrescenta, parando diante do modelo de uma elaborada coluna aberta com um relógio suspenso no centro.

— Obrigado — responde Sr. Barris. — Ainda está longe de ser concluído. Preciso mandar as plantas completas para Friedrick começar a construção do relógio. Imagino que será muito mais impressionante quando estiver em escala.

— Você tem as plantas para o circo aqui? — pergunta Tara, olhando para os diagramas espetados nas paredes.

— Não, na verdade, não. Deixei tudo com Marco em Londres. Eu queria guardar cópias em arquivos, mas devo ter esquecido.

— Você já se esqueceu de guardar cópias de algum de seus outros projetos? — pergunta Tara, passando o dedo pela fileira de armários com longas prateleiras estreitas, todas repletas de papéis cuidadosamente organizados.

— Não — responde Sr. Barris.

— E... não acha isso estranho? — pergunta Tara.

— Não exatamente — responde Sr. Barris. — Você acha?

— Eu acho muitas coisas do circo estranhas — observa Tara, brincando com a renda no punho da manga.

Sr. Barris senta-se à escrivaninha, recostando-se na cadeira.

— Vamos discutir o que você veio discutir ou vamos continuar dando voltas? — pergunta. — Eu costumo ficar tonto com facilidade.

— Eu sei que isso não é verdade — diz Tara, acomodando-se numa cadeira em frente a ele, embora o olhar continuasse vagando pelo aposento. — Mas seria bom falar diretamente, para variar, e me pergunto se algum de nós ainda lembra como fazer isso. Por que você deixou Londres?

— Acho que saí de Londres pela mesma razão por que você e sua irmã viajam com tanta frequência — responde Sr. Barris. — Excesso de olhares curiosos e cumprimentos insinceros. Duvido que alguém tenha percebido que o dia em que meu cabelo parou de rarear foi o dia em que o circo estreou, mas depois de um tempo todos notaram. Enquanto nossa Tante Padva continua envelhecendo bem e qualquer coisa relacionada a Chandresh pode ser definida como excêntrica, nós estamos sob um tipo diferente de escrutínio, por estarmos mais próximos da normalidade.

— É mais fácil para os que podem simplesmente desaparecer no circo — diz Tara, olhando pela janela. — De vez em quando Lainie sugere que nós duas também o sigamos, mas acho que seria apenas uma solução temporária, pois somos instáveis demais para isso.

— Você poderia apenas relaxar — comenta Sr. Barris em voz baixa.

Tara balança a cabeça negativamente.

— Quantos anos até não adiantar mais ficar mudando de cidade? Qual é a alternativa? Mudar nossos nomes? Eu... não gosto de ser forçada a essas farsas.

— Não sei — responde Sr. Barris.

— Há muito mais coisas acontecendo do que temos conhecimento, disso eu tenho certeza — observa Tara com um suspiro. — Tentei conversar com Chandresh, mas era como se estivéssemos falando idiomas diferentes. Não gosto de não fazer nada quando algo claramente não está certo. Eu me sinto... não tolhida, mas algo parecido, e não sei o que fazer a respeito.

— E está procurando respostas — diz Sr. Barris.

— Não sei o que estou procurando — responde Tara, e por um instante seu rosto se contrai como se fosse romper em lágrimas, mas volta a se recompor. — Ethan, às vezes você sente como se estivesse o tempo todo sonhando?

— Não, acho que não.

— Estou achando difícil distinguir entre o sono e a vigília — explica Tara, puxando a renda do punho outra vez. — Não gosto de ficar no escuro. Também não gosto muito de acreditar em coisas impossíveis.

Sr. Barris tira os óculos e limpa as lentes com um lenço antes de responder, examinando-o contra a luz em busca de manchas.

— Eu já vi muitas coisas que poderia ter considerado impossíveis antes, ou inacreditáveis. Não tenho mais parâmetros bem definidos para essas questões. Prefiro exercer minhas funções da melhor forma possível e deixar os outros trabalharem em paz.

Abre uma gaveta da mesa, e depois de procurar tira um cartão de visita que contém apenas um nome. Mesmo de cabeça para baixo, Tara pode facilmente discernir o A e o H. Sr. Barris pega um lápis e anota um endereço de Londres embaixo do nome impresso.

— Acho que nenhum de nós sabia exatamente em que estávamos nos envolvendo — sentencia. — Se você insiste em se aprofundar nessa história, acho que ele pode ser o único de nós capaz de ajudar, embora não garanta que estará disponível.

Desliza o cartão em direção a Tara. Ela o observa com atenção antes de guardá-lo na bolsa, como se não tivesse certeza de que fosse real.

— Obrigada, Ethan — diz sem olhar para ele. — Agradeço muito, de verdade.

— Não há de quê, minha querida — responde Sr. Barris. — Eu... espero que encontre o que está procurando.

Tara apenas balança a cabeça, distraída, e pouco depois os dois passam a discutir outras questões de menor importância, enquanto o relógio segue tiquetaqueando as horas da tarde e a luz além das janelas de vidro jateado esmaece nitidamente. Sr. Barris a convida para jantar, mas ela recusa com delicadeza e sai sozinha.

Sr. Barris volta a sua mesa de desenho, e mais uma vez o arranhar do lápis e o tique-taque do relógio se harmonizam.

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