O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 12 de 69

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O Circo da Noite

Condolências

NOVA YORK, MARÇO DE 1885

 

O anúncio no jornal afirma que Hector Bowen, mais conhecido como

Próspero, o Mágico, artista de palco e mágico de grande renome, morreu de ataque cardíaco em sua casa no dia 15 de março.

Discorre sobre seu trabalho e seu legado por alguns parágrafos. A idade está errada, um detalhe que poucos leitores percebem. Uma discreta observação no final do obituário menciona que ele deixou uma filha de 17 anos, Srta. Celia Bowen. Esse número está mais exato. Há também uma nota informando que, embora o funeral seja privado, condolências podem ser enviadas para o endereço de um dos teatros locais.

As cartas e os cartões são reunidos, guardados em sacos e levados por mensageiros para a residência particular dos Bowen, uma casa na cidade que já está transbordando arranjos florais sóbrios, de acordo com a circunstância. O aroma dos lírios é enjoativo, e, quando Celia não consegue mais suportar, transforma todas as flores em rosas.

Celia deixa as condolências empilhadas na mesa da sala de jantar até começarem a invadir o saguão. Não está disposta a lidar com aquilo, mas não consegue simplesmente jogar tudo fora sem ler.

Quando não consegue mais evitar o assunto, prepara um bule de chá e começa a fuçar a montanha de papéis. Abre as correspondências uma a uma e as separa em pilhas.

Os carimbos postais indicam que elas vêm de todas as partes do mundo. Algumas cartas são longas e sinceras, plenas de uma genuína tristeza. Outras são votos vazios e elogios indiferentes aos talentos de seu pai. Muitas comentam que os remetentes não sabiam que o grande Próspero tinha uma filha. Outras se lembram dela com carinho, descrevendo uma linda garotinha que a própria Celia não se lembra de ter sido. Umas poucas incluem assustadoras propostas de casamento.

Essas, especificamente, Celia transforma em bolas de papel, depois as mantém na palma da mão e se concentra até que entrem em combustão, restando apenas cinzas que ela espana até virarem nada.

— Eu já sou casada — fala para o ar, girando o anel da mão direita que cobre uma antiga e visível cicatriz.

Entre as cartas e os cartões, há um envelope cinza.

Celia o retira da pilha e corta-o com um abridor de cartas de prata, pronta para jogá-lo fora como fez com os outros.

Contudo, esse envelope, diferentemente dos demais, é endereçado ao seu pai, embora a data do selo seja posterior à sua morte. O cartão em seu interior não é uma nota de pêsames nem uma condolência por sua perda.

Não contém nenhuma saudação. Nem assinatura. As palavras escritas à mão dizem:

 

Sua vez.

 

e nada mais.

Celia vira o cartão, mas não há nada no verso. Nem mesmo a marca de uma papelaria macula sua superfície. Não existe um endereço de remetente no envelope.

Ela lê diversas vezes as duas palavras escritas no papel cinza.

Não consegue definir se o sentimento que sobe pela sua espinha é de entusiasmo ou temor.

Abandonando as condolências restantes, Celia pega o cartão e sai da sala, subindo a escada de caracol que leva ao escritório no andar superior. Tira um molho de chaves do bolso e, com impaciência, abre três fechaduras para acessar o quarto que está banhado pela luz brilhante da tarde.

— O que isso quer dizer? — pergunta Celia, segurando o cartão à sua frente ao entrar.

A figura pairando perto da janela se vira. Onde bate a luz do sol, ela é quase invisível. Parte de um ombro parece estar faltando, o alto da cabeça desaparece numa nuvem de poeira flutuando ao sol. O restante é transparente, como um reflexo num vidro.

O que resta de Hector Bowen lê o bilhete e ri com gosto.

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