O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 64 de 69

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O Circo da Noite

Transmutação

NOVA YORK, 1º DE NOVEMBRO DE 1902

 

Se conseguisse abrir a boca, Celia gritaria.

Mas há muito que controlar entre o calor e a chuva com Marco em seus braços.

Por isso se concentra só nele, levando tudo o que ele é junto com ela ao se desgarrar. Agarrando-se à lembrança de todos os toques de pele entre os dois, de todos os momentos que passaram juntos. Levando-o junto com ela.

De repente, é o nada. Sem chuva. Sem fogo. Uma planície calma e branca feita de nada.

Em algum lugar do nada, um relógio começa a bater meia-noite.

Pare, pensa Celia.

O relógio continua a badalar, mas ela sente o silêncio descer.

A transposição é a parte mais fácil, percebe Celia.

O problema é a recomposição.

É como curar as pontas dos dedos cortadas na infância, só que levado ao extremo.

Há muito a equilibrar ao tentar encontrar as margens outra vez.

Seria simples se abandonar.

Seria muito mais fácil se deixar levar.

Muito menos doloroso.

Celia luta contra a tentação, contra a dor e o caos. Luta para se controlar e controlar o entorno.

Escolhe um ponto no qual se concentrar, o lugar mais familiar em que consegue pensar.

Lentamente, numa lentidão agonizante, ela se recompõe em segurança.

Até se encontrar em sua tenda, no meio de um círculo de cadeiras vazias.

Sente-se mais leve. Diluída. Levemente atordoada.

Mas não é um reflexo do que já foi. Está inteira outra vez, respirando. Pode ouvir o coração batendo, rápido mas estável. Até o vestido parece ser o mesmo, cascateando ao seu redor, não mais molhado pela chuva.

Gira e ele adeja ao seu redor.

A tontura começa a melhorar quando se concentra, ainda surpresa com a própria façanha.

Então percebe que tudo na tenda ao redor está transparente. As cadeiras, as luzes penduradas, até as listras das paredes parecem sem substância.

E ela está só.

 

*

 

PARA MARCO, O MOMENTO da explosão dura muito mais.

O calor e a luz se estendem de forma infinita enquanto ele abraça Celia em meio à dor.

Depois Celia não está mais.

Não resta nada. Nada de fogo. Nada de chuva. Nada de chão sob seus pés.

Sua visão começa a se alternar entre sombra e luz, a escuridão substituída por uma planície branca que mais uma vez é consumida pela escuridão. Sem parar.

 

*

 

O CIRCO MUDA EM TORNO DE CELIA, tão fluido quanto as ilusões de Marco.

Visualiza onde quer estar, e lá está ela. Não sabe nem dizer se está se movendo ou manipulando o circo ao seu redor.

O Jardim de Gelo está deserto e em silêncio, nada mais que uma brancura fria e imaculada em todas as direções.

Apenas uma fração da Sala de Espelhos reflete sua imagem, e alguns mostram somente uma mancha brilhante do que seria seu vestido cinza-claro, ou o movimento das fitas esvoaçantes atrás dela.

Pensa ter visto Marco no vidro, a barra do paletó ou um lampejo do colarinho, mas não tem certeza.

Muitos espelhos estão vazios em suas molduras trabalhadas.

A névoa no Zoológico se dissipa lentamente enquanto ela faz sua busca na tenda, sem encontrar nada a não ser papel.

O Poço de Lágrimas nem chega a ondular, a superfície está suave e lisa, e Celia é incapaz de agarrar uma pedra para jogar na água. Não consegue acender uma vela na Árvore dos Desejos, embora as que estejam nos galhos continuem queimando.

Perambula de sala em sala dentro do Labirinto das Câmaras. Salas que ela criou, que levam a outras que Marco fez e novamente para as dela...

Celia consegue senti-lo. Tão próximo que pensa poder encontrá-lo em cada curva, atrás de cada porta.

Mas só vê penas flutuando com leveza e cartas de baralho planando. Estátuas prateadas com olhos cegos. Assoalhos pintados como um tabuleiro de xadrez com os quadrados vazios.

Há vestígios dele por toda a parte, mas nada em que possa se concentrar. Nada em que possa se agarrar.

O corredor coberto de neve, forrado de portas de diferentes tamanhos e cores, mostra marcas que poderiam ser pegadas, ou apenas sombras.

E Celia não consegue saber para onde levam.

 

*

 

MARCO ENGASGA QUANDO O AR ENCHE SEUS PULMÕES, como se estivesse debaixo d’água e não soubesse.

Seu primeiro pensamento coerente é que não esperava que estar aprisionado numa fogueira fosse tão frio.

O ar gelado é áspero e cortante, ele só consegue enxergar brancura em todas as direções.

Quando seus olhos se adaptam, consegue discernir a sombra de uma árvore. Os galhos de um salgueiro esbranquiçado pela neve cascateiam ao seu redor.

Dá um passo à frente, sentindo o chão surpreendentemente macio sob os pés.

Ele está no centro do Jardim de Gelo.

A fonte no centro parou, as águas em geral borbulhantes estão quietas e pacíficas.

A brancura torna difícil entender, mas o jardim todo está transparente.

Marco olha para as mãos. Estão um pouco trêmulas, mas parecem sólidas. Seu terno continua escuro e opaco.

Ergue a mão até uma rosa próxima e seus dedos passam pelas pétalas, que oferecem apenas uma leve resistência, como se a flor fosse feita de água, não de gelo.

Ainda está olhando para a rosa quando ouve um leve suspiro.

 

*

 

CELIA LEVA AS MÃOS À BOCA, ainda sem acreditar no que está vendo. A visão de Marco no Jardim de Gelo é a mesma que imaginou tantas vezes antes, mas, sozinho naquela expansão gelada de flores, ele nem parece real, apesar de a escuridão de seu terno contrastar com o caramanchão de rosas claras.

Marco se vira e olha para ela. Assim que vê os olhos dele, todas as suas dúvidas somem.

Por um instante ele parece tão jovem que Celia consegue ver o garoto que já foi, anos antes de conhecê-lo, quando já estavam ligados mas ainda distantes um do outro.

São tantas as coisas que deseja dizer, coisas que temia não ter jamais oportunidade de dizer para ele. Mas só uma parece importante.

— Eu amo você — diz.

As palavras ecoam pela tenda, provocando um leve farfalhar das folhas congeladas.

 

*

 

MARCO CONTINUA OLHANDO para Celia enquanto ela se aproxima, achando que é tudo um sonho.

— Achei que tinha perdido você — diz ela ao se aproximar, a voz transformada num sussurro trêmulo.

Ela parece tão substancial quanto ele, mas não transparente como o jardim. Parece viva e vibrante contra o fundo branco, um rubor brilhante na face, os olhos escuros orlados de lágrimas.

Marco leva a mão ao rosto dela, temeroso de que seus dedos passem através dela como fizeram com a rosa.

O alívio que sente quando ela é sólida e viva ao seu toque é insuperável.

Ele a toma em seus braços, as lágrimas escorrendo para os cabelos dela.

— Eu amo você — diz quando consegue recuperar a voz.

 

*

 

OS DOIS FICAM ENLAÇADOS, e não querem se largar.

— Eu não podia deixar você fazer aquilo — diz Celia. — Não pude deixar você partir.

— O que você fez? — pergunta Marco, ainda sem saber ao certo o que aconteceu.

— Usei o circo como uma pedra de toque — explica Celia. — Não sabia se ia funcionar, mas não podia deixar você, eu tinha que tentar. Tentei levá-lo comigo, mas não o encontrei e achei que o tivesse perdido.

— Estou aqui — diz Marco, acariciando o cabelo dela. — Estou aqui.

Não era o que ele esperava, ser libertado do mundo e reintegrado a um local fechado. Marco não se sente confinado, apenas separado, como se ele e Celia estivessem sobrepostos ao circo, em vez de contidos nele.

Olha ao redor, para as árvores, as longas hastes congeladas do salgueiro descendo em cascatas, as topiarias que ladeiam a trilha mais próxima como fantasmas.

Só então percebe que o jardim está derretendo.

— A fogueira se apagou — anuncia Marco. Ele consegue sentir o vazio agora. Pode sentir o circo todo ao redor, como se grudasse nele como névoa, como se pudesse estender a mão e tocar a cerca de ferro apesar da distância. Consegue divisar a cerca em todas as direções, onde se localiza cada tenda, até o pátio escurecido em que está Tsukiko, tudo sem nenhum esforço. Pode sentir a totalidade do circo tão facilmente quanto sente a camisa na própria pele.

E a única coisa que queima de forma brilhante naquilo tudo é Celia.

Mas é um brilho bruxuleante. Frágil como a chama de uma vela.

— É você que está mantendo o circo inteiro — observa.

Celia confirma com um gesto de cabeça. Ainda não a sobrecarrega, mas é cada vez mais difícil administrar tudo aquilo sem a fogueira. Não consegue se concentrar o suficiente para manter os detalhes intactos. Alguns elementos começam a se dissipar, tombando como as flores ao redor.

E ela sabe que, caso aquilo se rompa, não conseguirá mais reunir tudo de novo.

Celia está trêmula e, apesar de o tremor parar um pouco quando Marco a abraça mais apertado, seus braços continuam a tremer.

— Relaxe, Celia.

— Não posso — responde. — Se eu relaxar, tudo vai desmoronar.

— E o que vai acontecer conosco se desmoronar? — pergunta Marco.

— Não sei — diz Celia. — Está em suspenso. O circo não pode ser autossuficiente sem nós. Precisa de um guardião.

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