O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 44 de 69

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O Circo da Noite

Mares tempestuosos

DUBLIN, JUNHO DE 1901

 

Quando a ilusionista faz sua reverência e desaparece diante dos olhos de

sua arrebatada plateia, todos batem palmas, aplaudindo o espaço vazio. Levantam-se de suas cadeiras e alguns tagarelam com os companheiros, maravilhados com esse ou aquele truque enquanto fazem fila diante da porta que reapareceu na lateral da tenda listrada.

Sentado no círculo mais externo de cadeiras, um homem permanece no lugar enquanto todos saem. Seus olhos, quase ocultos pela sombra projetada pelo chapéu-coco, estão fixos no espaço central do círculo ocupado pela ilusionista instantes antes.

O restante da plateia retira-se.

O homem continua sentado.

Depois de alguns minutos a porta desaparece da lateral da tenda, tornando-se mais uma vez invisível.

O olhar do homem não vacila. Ele só dá uma espiada na porta que some.

Instantes depois, Celia Bowen está sentada a sua frente, virada de lado e descansando os braços no encosto da cadeira. Está com a mesma roupa que usou durante a apresentação, um vestido branco com um estampado de peças de quebra-cabeça caindo na escuridão ao longo da barra.

— Você veio me visitar — diz, incapaz de disfarçar o prazer em sua voz.

— Eu tinha alguns dias — explica Marco. — E você não tem estado perto de Londres nos últimos tempos.

— Nós vamos a Londres no outono — diz Celia. — Isso já virou uma tradição.

— Eu não podia esperar tanto tempo para ver você.

— Também estou contente em vê-lo — diz Celia em voz baixa. Inclina-se e arruma a aba do chapéu dele.

— Você gosta do Labirinto das Nuvens? — pergunta ele, segurando a mão dela.

— Gosto — responde Celia, a respiração acelerada quando os dedos dele se fecham ao redor dos dela. — Você convenceu Sr. Barris a ajudar nisso?

— Convenci, sim — responde Marco, roçando o polegar no pulso dela. — Achei que poderia precisar de ajuda para conseguir o equilíbrio adequado. Além do mais, você tem o seu Carrossel e nós partilhamos o Labirinto das Câmaras, achei que era justo que eu tivesse um original de Barris.

A intensidade dos olhos e do toque dele atinge Celia como uma onda e ela tira a mão da dele antes de perder o controle.

— Você veio me mostrar seus feitos de ilustres ilusões? — pergunta.

— Não está nos meus planos para esta noite, mas se você quiser...

— Você já assistiu ao meu número, seria justo.

— Eu poderia olhar para você a noite toda — diz ele.

— Você fez isso — comenta Celia. — Esteve em todas as apresentações desta noite, eu percebi.

Levanta-se e anda até o centro do círculo, girando de forma que o vestido roda junto com ela.

— Eu consigo ver todas as cadeiras — diz ela. — Você não se esconde de mim quando se senta na fila de trás.

— Achei que ficaria muito tentado a tocar em você caso me sentasse na frente — replica Marco, levantando-se para ficar na beira do espaço da apresentação, um pouco à frente da fileira de cadeiras.

— Estou perto o suficiente para a sua ilusão? — pergunta ela.

— Se eu disser que não, você chega mais perto? — contra-ataca ele, sem se incomodar em esconder o sorriso.

Em resposta, Celia dá mais um passo em sua direção, a barra do vestido tocando os sapatos dele. Perto o bastante para ele erguer o braço e repousar a mão com delicadeza na cintura dela.

— Você não precisou me tocar da última vez — observa ela, mas não protesta.

— Gostaria de tentar algo especial — diz Marco.

— Devo fechar os olhos? — pergunta Celia em tom de brincadeira, mas, em vez de responder, ele a vira de forma que fique de costas, mantendo a mão em sua cintura.

— Observe — sussurra em seu ouvido.

As listras da parte interna da tenda se enrijecem, e a suave superfície endurece quando o tecido se transforma em papel. Palavras surgem nas paredes, letras tipográficas sobrepondo-se a um texto escrito à mão. Celia consegue identificar trechos de sonetos shakespearianos e fragmentos de hinos a musas gregas enquanto a poesia invade a tenda. Os escritos cobrem as paredes e o teto e se espalham pelo chão.

Depois a tenda começa a se abrir, o papel dobrando-se e rasgando. As listras pretas se estendem pelo espaço vazio, enquanto suas correspondentes brancas brilham, subindo e se ramificando em galhos.

— Gostou? — pergunta Marco quando o movimento cessa e eles estão em uma floresta ensombreada, com árvores levemente cintilantes cobertas de poemas.

Celia só consegue balançar a cabeça em um gesto afirmativo.

Marco a solta com relutância, seguindo-a em sua caminhada ao redor das árvores, lendo pedaços de versos em galhos e troncos.

— Onde você arranja essas imagens? — pergunta Celia, descansando a mão em um tronco coberto de papel de uma das árvores. O tronco é sólido e tépido sob seus dedos, iluminado por dentro como uma lanterna.

— Eu imagino coisas — explica Marco. — Vejo-as em meus sonhos e tento adivinhar do que você poderia gostar.

— Acho que você não deveria imaginar em como agradar a sua oponente — comenta Celia.

— Nunca entendi muito bem as regras desse jogo, por isso prefiro seguir meus instintos — diz Marco.

— Meu pai continua sendo vago a respeito das regras — diz Celia enquanto os dois caminham entre as árvores. — Principalmente se pergunto quando e como será dado o veredito.

— Alexander também se recusa a me fornecer essa informação.

— Espero que ele não o atormente tanto quanto o meu pai me atormenta — diz Celia. — Mas, é claro, meu pai não tem nada melhor para fazer.

— Nós quase não nos encontramos nos últimos anos — diz Marco. — Ele sempre foi... distante e nada acessível, mas é o mais próximo de uma família que tenho. Mesmo assim, ele não me conta nada.

— Estou até com ciúme — comenta Celia. — Meu pai sempre me diz que sou uma decepção para ele.

— Eu me recuso a acreditar que você pode ser uma decepção para alguém — diz Marco.

— É porque nunca teve o prazer de conhecer o meu pai.

— Você me contaria o que aconteceu com ele? — pergunta Marco. — Estou bem curioso.

Celia suspira antes de começar, parando perto de uma árvore rabiscada de palavras de amor e desejos. Ela nunca contou essa história a ninguém, nunca teve oportunidade de relatá-la a alguém que pudesse entender.

— Meu pai sempre foi ambicioso demais — começa. — Ele não conseguiu fazer o que queria, não da maneira correta. Queria sair do mundo físico.

— Como isso seria possível? — pergunta Marco.

Celia fica contente por ele não descartar a ideia de imediato. Pode ver que está tentando entender, e esforça-se para encontrar a melhor maneira de explicar.

— Vamos supor que eu tenha uma taça de vinho. — Uma taça de vinho tinto surge na sua mão. — Obrigada. Se eu pegasse este vinho e o despejasse numa bacia de água, num lago ou até no mar, o vinho desapareceria?

— Não, seria apenas diluído — responde Marco.

— Exatamente — concorda Celia. — Meu pai arranjou um jeito de eliminar a taça. — Quando ela fala, a taça desaparece da sua mão, mas o vinho permanece, flutuando no ar. — Só que ele foi direto para o mar, não para uma bacia ou uma taça maior. E está com problemas para se refazer. Ele consegue, claro, mas com dificuldade. Se tivesse se contentado em assombrar um único local, talvez estivesse mais confortável. Mas o processo o deixou à deriva. Agora ele precisa se ligar em coisas. Ele assombra a casa de Nova York, os teatros onde costumava se apresentar com mais frequência. Prende-se a mim quando consegue, mas aprendi a evitar isso quando quero. Ele odeia, principalmente porque estou aperfeiçoando uma das técnicas de proteção dele.

— É mesmo possível fazer o que ele queria? — pergunta Marco. — O que ele estava tentando exatamente?

Celia olha para o vinho flutuando sem a taça. Ergue a mão para tocá-lo e o líquido estremece, dividindo-se em gotas e voltando a se juntar.

— Acho que sim — responde —, desde que sob circunstâncias adequadas. E seria necessário algo como uma pedra de toque. Um lugar, uma árvore, um elemento físico no qual se ancorar. Algo que evitasse que ele ficasse à deriva. Desconfio que meu pai quisesse simplesmente que o mundo todo funcionasse como se fosse dele, mas acredito que deveria ter restringido sua ação. Funcionando como uma taça, mas deixando mais flexibilidade para o movimento interior.

Toca no vinho outra vez, empurrando-o para a árvore mais próxima. O líquido é absorvido pelo papel, saturando-o lentamente até a árvore inteira brilhar num carmesim vivo na floresta branca.

— Você está manipulando a minha ilusão — diz Marco, olhando com curiosidade para a árvore embebida em vinho.

— Porque você está permitindo — diz Celia. — Eu não tinha certeza se ia conseguir.

— Você conseguiria? — pergunta Marco. — Fazer o que seu pai estava tentando?

Celia observa a árvore, refletindo algum tempo antes de responder.

— Acho que sim, se tivesse um motivo — responde. — Mas eu gosto muito do mundo físico. Acho que meu pai estava sentindo o peso da idade, que era bem mais avançada do que parecia, e não gostava da ideia de apodrecer no solo. Talvez também quisesse controlar o próprio destino, mas não sei ao certo, pois ele não conversou sobre isso comigo antes de tentar. Só me deixou com um monte de perguntas sem respostas e um falso funeral. O que é mais fácil do que se poderia supor.

— Mas ele fala com você? — indaga Marco.

— Fala, mas não com a mesma frequência de antes. Ele parece igual; acho que é um eco, a consciência dele que mantém a semelhança com a forma física. Mas falta solidez, e isso o deixa muito envergonhado. Ele poderia estar mais tangível se tivesse feito as coisas de outra maneira. Mas eu não sei bem se gostaria de ficar presa numa árvore para o resto da eternidade, e você?

— Acho que dependeria da árvore — responde Marco.

Vira-se para a árvore carmesim e seu brilho se intensifica, o vermelho-brasa se transformando no brilho quente do fogo.

As árvores ao redor fazem o mesmo.

O brilho aumenta tanto que Celia cobre os olhos.

O chão sob os pés dela oscila, repentinamente instável, mas Marco a segura pela cintura para mantê-la equilibrada.

Quando ela abre os olhos, os dois estão no convés de um navio no meio do oceano.

Só que o navio é feito de livros, as velas são milhares de páginas sobrepostas, e o mar em que navega é de tinta preta e densa.

Diminutos pontos de luz estão pendurados no céu, como pacotinhos de estrelas brilhantes como o sol.

— Pensei que algo vasto seria agradável, depois de toda essa conversa sobre espaços confinados — anuncia Marco.

Celia vai até a beira do convés, correndo as mãos pelas lombadas dos livros que formam o parapeito. Uma brisa suave brinca em seus cabelos, trazendo consigo uma combinação de aromas: tomos empoeirados e tinta úmida e rica.

Marco fica ao seu lado enquanto ela observa o mar noturno que se estende por um horizonte sem qualquer sinal de terra.

— É lindo — comenta ela.

Ela olha a mão direita dele repousada no parapeito, franzindo o cenho ao observar seus dedos nus, sem marcas.

— Está procurando por isto? — pergunta ele, fazendo um floreio com os dedos. A pele muda, revelando a cicatriz ao redor do seu anular. — Foi feita por um anel quando eu tinha 14 anos. Dizia alguma coisa em latim, mas não sei o que era.

— Esse quam videri — diz Celia. — Ser, em vez de parecer. É o lema da família Bowen. Meu pai gostava muito de gravá-lo em objetos. Não sei bem se ele entendia a ironia. Que o anel provavelmente era como este.

Põe a mão ao lado da dele sobre os livros justapostos. O círculo prateado em seu dedo está gravado com o que Marco havia pensado ser intrincadas filigranas, mas é a mesma frase numa escrita que circula seu dedo.

Celia puxa o anel, retirando-o do dedo para que ele possa ver a cicatriz similar.

— É o único ferimento que nunca consegui curar totalmente — diz ela.

— O meu era igual — diz Marco, examinando o anel dela, embora seus olhos continuem voltando para a cicatriz. — Só que era de ouro. O seu foi feito com algo do Alexander?

Celia balança a cabeça, confirmando.

— Que idade você tinha?

— Eu tinha 6 anos. O anel era de prata. Foi a primeira vez que conheci alguém que podia fazer o que meu pai fazia, ainda que fosse bem diferente dele. Ele me disse que eu era um anjo. Foi a coisa mais adorável que alguém já me falou.

— E ainda assim não fez jus à realidade — contesta Marco, colocando a mão sobre a dela.

Uma súbita brisa enfuna as várias velas de papel. As páginas tremulam com a ondulação da tinta abaixo deles.

— Foi você que fez isso — diz Marco.

— Foi sem querer — replica Celia, mas não afasta a mão.

— Eu não me importo — observa Marco, enlaçando seus dedos nos dela. — Eu também posso fazer isso.

O vento fica mais forte, fazendo com que ondas de tinta preta batam contra o navio. Páginas caem das velas, rodopiando ao redor como folhas de árvores. O navio começa a adernar e Celia quase perde o equilíbrio, mas Marco a enlaça pela cintura para firmá-la enquanto ela ri.

— Muito impressionante, Sr. Ilusionista — comenta ela.

— Chame-me pelo meu nome — pede. Marco nunca a ouviu dizer o nome dele, e ao segurá-la nos braços ele de repente anseia por aquele som. — Por favor — acrescenta quando ela hesita.

— Marco — diz ela, a voz baixa e suave.

O som do seu nome nos lábios dela é ainda mais intoxicante do que imaginava, e ele se inclina para saboreá-lo.

Pouco antes de seus lábios chegarem aos dela, Celia vira-se.

— Celia — suspira Marco ao seu ouvido, preenchendo o nome dela com todo o desejo e a frustração que sente, o hálito quente em sua nuca.

— Desculpe — diz Celia. — Eu... não quero tornar isso mais complicado do que já é.

Marco não diz nada, e mantém os braços ao redor dela, mas a brisa começa a se acalmar, e a intensidade das ondas diminui.

— Passei boa parte da vida lutando para me manter sob controle — observa Celia, deitando a cabeça no ombro dele. — Conhecendo-me até o avesso, mantendo tudo na mais perfeita ordem. Eu perco isso quando estou com você. Isso me assusta...

— Eu não quero que se assuste — interrompe Marco.

— Eu fico assustada com quanto gosto disso — conclui Celia, virando-se para olhar para ele. — Como é tentador me perder em você. Relaxar. Deixar você me impedir de quebrar lustres em vez de eu mesma estar sempre preocupada com isso.

— Eu poderia fazer isso.

— Eu sei.

Os dois ficam juntos em silêncio enquanto o navio desliza em direção ao horizonte infinito.

— Venha comigo — chama Marco. — Para qualquer lugar. Longe do circo, longe de Alexander e do seu pai.

— Não podemos — pondera Celia.

— É claro que podemos — insiste Marco. — Você e eu juntos poderíamos fazer qualquer coisa.

— Não — diz Celia. — Nós só podemos fazer qualquer coisa aqui.

— Não compreendo.

— Você já pensou mesmo sobre isso, sobre ir embora? Pensou em fazer isso de fato e não apenas como um sonho ou uma fantasia passageira? — Como ele não responde, Celia continua. — Faça isso, agora mesmo. Imagine nós dois abandonando este lugar e este jogo e começando de novo juntos em outro lugar, de verdade.

Marco fecha os olhos e começa a delinear um plano, não como se fosse um sonho, mas concentrando-se em todos os aspectos práticos. Planejando os menores detalhes: desde organizar as contas de Chandresh e transmiti-las a um novo funcionário até fazer as malas em seu apartamento, passando pelos anéis de noivado nos dedos dos dois.

Nesse momento sua mão direita começa a queimar, uma dor aguda e lancinante, partindo da cicatriz ao redor de seu dedo e subindo pelo braço, escurecendo tudo em sua mente. É a mesma dor de quando a cicatriz foi feita, só que mil vezes maior.

O balanço do navio para de imediato. O papel esfarela e a tinta do oceano desbota, dando lugar a um círculo de cadeiras dentro de uma tenda listrada, e Marco desaba no chão.

A dor melhora um pouco quando Celia se ajoelha ao seu lado e pega sua mão.

— A noite da festa de aniversário — diz ela. — A noite em que você me beijou. Naquela noite eu desejei isso. Eu não queria mais jogar, só queria estar com você. Pensei em perguntar se queria fugir comigo e não tinha a menor dúvida. No exato momento em que me convenci de que conseguiria, senti tanta dor que mal consegui continuar de pé. Friedrick não sabia o que fazer comigo, me levou até um lugar sossegado e ficou segurando a minha mão e não insistiu quando não consegui me explicar, porque ele é gentil.

Ela olha para a cicatriz na mão de Marco enquanto ele luta para recuperar o fôlego.

— Achei que talvez só acontecesse se eu pensasse em desistir por sua causa — continua ela. — Então, uma vez tentei não entrar no trem na hora da partida e senti a mesma dor. Nós estamos todos realmente ligados.

— Você quis fugir comigo — diz Marco, sorrindo apesar da dor. — Não sabia que aquele beijo seria tão eficaz.

— Você poderia ter apagado a minha memória, eliminado as minhas lembranças com a mesma facilidade com que fez com todos na festa.

— Aquilo não foi exatamente fácil — comenta Marco. — E eu não queria que você esquecesse.

— Eu nem poderia — diz Celia. — Como está se sentindo?

— Péssimo. Mas a dor está diminuindo. Naquela noite eu disse a Alexander que queria desistir. Acho que não estava falando a sério. Só queria ver a reação dele.

— É provável que ele queira nos fazer pensar que não estamos engaiolados — diz Celia. — Nós não sentimos as grades, a não ser quando as pressionamos. Meu pai diz que seria mais fácil se não nos preocupássemos tanto um com o outro. Talvez ele esteja certo.

— Eu tentei — diz Marco, tomando o rosto dela entre as mãos. — Tentei deixar isso de lado, mas não consigo. Não consigo parar de pensar em você. Não consigo parar de sonhar com você. Você sente o mesmo por mim?

— Sinto — responde Celia. — Estou sempre com você aqui, ao meu lado. Fico no Jardim de Gelo para sentir isso, esse jeito que você faz com que eu me sinta. Era assim antes mesmo de eu saber quem era você, e sempre que acho que chegou ao limite, fica ainda mais forte.

— Então o que nos impede de ficarmos juntos agora? — pergunta ele. Acaricia o rosto dela, descendo até a gola do vestido.

— É o que eu desejo — diz Celia, arfando quando as mãos dele descem um pouco mais. — Acredite em mim, é o que eu quero. Mas isso não tem a ver só comigo e com você. Há muitas outras pessoas emaranhadas neste jogo. Está ficando cada vez mais difícil manter tudo em ordem. E isso — ela descansa a mão sobre a dele — é uma grande distração. Eu me preocupo com o que pode acontecer se perder a minha concentração.

— Você não tem uma fonte de poder — diz Marco.

Celia olha para ele, confusa.

— Uma fonte de poder? — repete.

— Da forma como eu uso a fogueira, como um condutor. Pegando energia emprestada do fogo. Você não tem algo assim? Trabalha só consigo mesma?

— Não conheço outra maneira — diz Celia.

— Você está sempre controlando o circo? — pergunta Marco.

Celia balança a cabeça, confirmando.

— Já estou acostumada com isso. A maior parte do tempo é administrável.

— Não consigo imaginar como deve ser cansativo.

Marco a beija suavemente na testa antes de soltá-la, ficando o mais perto possível sem tocá-la.

E então conta histórias para ela. Mitos que aprendeu com seu instrutor. Fantasias que ele mesmo criou, inspiradas por trechos de outros autores, lidas em livros arcaicos com lombadas esgarçadas. Conceitos circenses que não cabem em tendas.

Celia responde com histórias de sua infância em quartos de fundos de teatros. Aventuras em cidades distantes que o circo visitou. Narra eventos de seus dias espiritualistas, deliciada quando ele considera o esforço tão absurdo quanto ela achava na época.

Os dois conversam até antes do amanhecer, e ele só a deixa quando o circo está para fechar.

Marco aperta Celia contra o peito por um momento antes de se levantar, levando-a consigo.

Pega no bolso um cartão contendo apenas a letra M e um endereço.

— Tenho passado menos tempo na residência de Chandresh — diz, entregando o cartão a ela. — Quando eu não estiver lá, você pode me encontrar aqui. Vai ser bem-vinda a qualquer momento, do dia ou da noite. Sempre que quiser se distrair.

— Obrigada — diz Celia. Gira o cartão nos dedos e ele desaparece.

— Quando tudo isto estiver terminado, não importa quem vença, eu não vou deixar você ir tão fácil. De acordo?

— De acordo.

Marco pega a mão dela e a leva aos lábios, beijando o anel de prata que esconde sua cicatriz.

Celia traça a linha do queixo dele com a ponta dos dedos. Depois se vira e desaparece antes que ele consiga impedi-la.

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