O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 20 de 69

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O Circo da Noite

Noite de estreia II: Faíscas

LONDRES, 13 E 14 DE OUTUBRO DE 1886

 

Marco passa as primeiras horas da noite de estreia lançando olhares

furtivos para o relógio, esperando impaciente que os ponteiros cheguem à meia-noite.

O inesperado nascimento dos gêmeos Murray complicou seu cronograma, mas, se o acendimento da fogueira acontecer como planejado, já será o suficiente.

É a melhor solução que ele consegue encontrar, sabendo que em poucas semanas o circo estará a centenas de quilômetros de distância, deixando-o sozinho em Londres.

E, embora Isobel possa se comprovar uma boa ajuda, ele precisa de uma ligação mais forte.

Desde que descobriu o local para o desafio, ele tem aos poucos assumido mais responsabilidades no circo. Fazendo tudo o que Chandresh pede e até mais, a ponto de ter bastante autonomia em tudo, desde a aprovação do projeto dos portões até os pedidos de lonas para as tendas.

O alcance dessa ligação o preocupa. Ele nunca tentou nada nessa escala, mas parece não haver uma boa razão para não começar o jogo da forma mais forte possível.

A fogueira lhe fornecerá uma ligação com o circo, mesmo que ele não saiba exatamente quão bem vá funcionar. E, com tanta gente envolvida, parece razoável acrescentar um elemento de segurança ao local.

Foram meses de preparação.

Chandresh estava mais que disposto a deixá-lo organizar o acendimento, considerando-o inestimável para o planejamento do circo com apenas uma suave imposição. Com um simples aceno, os detalhes passaram todos para ele.

Mais importante, Chandresh concordou que aquilo ficasse em segredo. O próprio acendimento assumiu o aspecto de um Jantar da Meia-Noite, em que não se permitiram perguntas quanto aos ingredientes ou ao menu.

Não havia respostas sobre o que havia na ponta das flechas para criar um efeito tão impressionante. Como as labaredas mudavam de uma tonalidade vibrante para outra.

Os que fizeram perguntas durante as preparações e os ensaios ouviram que a revelação dos métodos arruinaria o efeito.

Embora, é claro, Marco não tenha conseguido ensaiar a parte mais importante.

É fácil para ele fugir de Chandresh no pátio lotado pouco antes da meia-noite.

Percorre o caminho em direção ao ferro retorcido, aproximando-se o máximo possível do caldeirão vazio. Tira um grande caderno com capa de couro do casaco, uma cópia perfeita do que está guardado em segurança no seu escritório. Ninguém na agitada multidão percebe quando ele o joga no fundo do caldeirão. O objeto aterrissa com um baque abafado pelo ruído ambiente.

A capa se abre, expondo a elaborada árvore feita em tinta para o céu noturno pontilhado de estrelas.

Marco fica perto da beira do metal retorcido enquanto os arqueiros ocupam os seus lugares.

Sua atenção permanece concentrada nas labaredas, a despeito das pressões dos visitantes ao seu redor e do alastramento do fogo num arco-íris de várias tonalidades.

Quando a última flecha acerta o alvo, Marco fecha os olhos. O brilho das labaredas brancas se avermelha ao atravessar suas pálpebras.

 

*

 

CELIA ESPERAVA SE SENTIR como uma imitação barata do pai em suas primeiras apresentações, mas para seu alívio a experiência é muito diferente daquela a que assistiu tantas vezes em diversos teatros.

O espaço é pequeno e intimista. A plateia é modesta o bastante para que se distingam as pessoas individualmente, em vez de vê-las misturadas à multidão anônima.

Descobre que é capaz de tornar cada apresentação única, deixando a reação do público guiar sua escolha do que fazer em seguida.

Apesar de gostar do que faz mais do que imaginava, sente-se grata pelos intervalos entre as performances. Com a aproximação da meia-noite, ela resolve ver se consegue encontrar um lugar para assistir discretamente ao acendimento da fogueira.

Mas, ao caminhar pela área, que já é chamada de bastidor apesar da falta de um palco, Celia logo se envolve no caos semiorganizado do súbito nascimento dos gêmeos Murray.

Diversos artistas e integrantes da produção estão reunidos, esperando ansiosos. O médico que trouxeram parece considerar toda a situação estranha. A contorcionista vem e vai. Aidan Murray anda de um lado para outro como um de seus felinos.

Celia se esforça para ser o mais prestativa possível, o que consiste basicamente em ir buscar xícaras de chá e encontrar maneiras novas e criativas de assegurar às pessoas que tudo vai dar certo.

Aquilo faz com que se lembre tanto de quando consolava seus antigos clientes espiritualistas que fica surpresa quando a agradecem chamando-a pelo nome.

O choro suave minutos antes da meia-noite surge como um alívio, comemorado com suspiros e vivas.

E logo depois algo acontece.

Celia sente antes de ouvir os aplausos ecoando do pátio, uma mudança que de repente se alastra pelo circo como uma onda.

Passa pelo seu corpo, provocando um incontrolável arrepio na espinha, quase a tirando do chão.

— Você está bem? — pergunta uma voz atrás dela, e Celia se vira para ver a mão tépida de Tsukiko segurando seu braço para acalmá-la. Um brilho muito conhecido, que Celia está começando a considerar familiar, lampeja nos olhos sorridentes da contorcionista.

— Estou bem, obrigada — responde, lutando para recuperar o fôlego.

— Você é uma pessoa sensível — diz Tsukiko. — É normal que pessoas sensitivas sejam afetadas por esses acontecimentos.

Outro choro ecoa da câmara adjacente, juntando-se ao primeiro num coro delicado.

— Eles planejaram admiravelmente a chegada — comenta Tsukiko, voltando a atenção para os gêmeos recém-nascidos.

Celia só consegue balançar a cabeça num gesto afirmativo.

— Foi uma pena você ter perdido o acendimento da fogueira — continua Tsukiko. — Também foi admirável.

Enquanto o choro dos gêmeos Murray arrefece, Celia tenta afastar a sensação de formigamento que persiste em sua pele.

Ainda não sabe ao certo quem é o seu oponente, mas, seja qual for o movimento que acabou de ser realizado, a deixou abalada.

Sente o circo inteiro irradiando ao seu redor, como se uma rede tivesse sido lançada sobre ele, prendendo tudo dentro da grade de ferro, todo o circo adejando como uma borboleta.

Celia se pergunta como deve ser sua retaliação.

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