O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 52 de 69

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O Circo da Noite

Uma bela dor

LONDRES, 1º DE NOVEMBRO DE 1901

 

O apartamento de Marco já foi simples e espaçoso, mas agora está

atulhado de móveis que não combinam. Peças das quais Chandresh enjoou em algum momento foram dispostas nesse purgatório em vez de serem descartadas.

Os livros são muitos e não há estantes suficientes para guardá-los, por isso amontoam-se em antigas cadeiras chinesas e almofadas em tecidos indianos.

O relógio acima da lareira é uma criação de Herr Thiessen, adornado por minúsculos livros que são folheados enquanto o ponteiro dos segundos avança para as 3 horas da manhã.

Os livros maiores em cima da mesa movem-se num ritmo menos estável enquanto Marco se reveza entre volumes escritos à mão, rabiscando anotações em pedaços avulsos de papel. Eliminando números e símbolos, descarta alguns livros em favor de outros e depois volta aos livros deixados de lado.

A porta do apartamento se move por conta própria, a fechadura e as dobradiças se abrindo bruscamente. Marco salta da mesa, derramando um vidro de tinta sobre os papéis.

Celia está no umbral, os cabelos em desalinho. O casaco cor de creme pende desabotoado, leve demais para o clima.

Só quando ela entra no quarto, a porta fechando-se e trancando-se sozinha com uma série de cliques, Marco percebe que o vestido sob o casaco está coberto de sangue.

— O que aconteceu? — pergunta ele, a mão que estava para ajeitar o vidro de tinta parada no ar.

— Você sabe muito bem o que aconteceu — diz Celia. Sua voz é calma, mas começam a se formar ondas na superfície escura da poça de tinta sobre a mesa.

— Tudo bem com você? — pergunta Marco, tentando se aproximar.

— Não está nada bem comigo — responde Celia.

O vidro de tinta se quebra, tinta espirra nos papéis e mancha as mangas da camisa branca de Marco, que ficam da mesma cor que seu colete preto. As mãos dele estão cobertas de tinta, mas ele continua distraído com o sangue no vestido dela, o escarlate gritando no cetim cor de marfim e desaparecendo nas gregas de veludo negro que o recobrem como uma gaiola.

— Celia, o que você fez? — pergunta.

— Eu tentei — diz. As palavras saem entrecortadas e ela precisa repetir. — Eu tentei. Achei que conseguiria consertar. Eu o conheço há tanto tempo... Achei que talvez fosse o mesmo que acertar um relógio. Sabia exatamente o que estava errado, mas não consegui consertar. Ele era tão conhecido, mas... não funcionou.

O choro soluçado que vinha se formando em seu peito é liberado. Lágrimas contidas há horas jorram de seus olhos.

Marco corre para chegar até ela, abraçando-a e apoiando-a enquanto ela chora.

— Sinto muito — diz repetidas vezes, como uma litania, acima de seus soluços, até ela se acalmar, a tensão dos ombros diminuir e ela relaxar em seus braços.

— Ele era meu amigo — diz Celia em voz baixa.

— Eu sei — diz Marco, enxugando as lágrimas dela e deixando manchas de tinta em seu rosto. — Sinto muito. Não sei o que aconteceu. Alguma coisa perturbou o equilíbrio e eu não consigo descobrir o que foi.

— Foi Isobel — diz Celia.

— O quê?

— O encantamento que Isobel lançou sobre o circo, em você e em mim. Eu sabia, podia sentir. Não achei que estivesse fazendo nada de mais, mas parece que estava. Não sei por que ela resolveu interromper logo esta noite.

Marco suspira.

— Ela escolheu esta noite porque eu finalmente disse a ela que amo você — explica. — Eu deveria ter feito isso anos atrás, mas só contei a ela esta noite. Pensei que ela aceitaria, mas sem dúvida estava enganado. Não tenho a menor ideia do que Alexander estava fazendo lá.

— Ele estava lá porque eu o convidei — diz Celia.

— E por que você fez isso? — pergunta Marco.

— Eu queria um veredito — responde ela, com lágrimas nos olhos outra vez. — Queria que isso acabasse logo para poder ficar com você. Achei que se viesse ver o circo ele determinaria um vencedor. Não sei o que mais eles estavam esperando. Como Chandresh sabia que ele estaria lá?

— Não sei. Nem sei o que deu nele para ir lá, e ele insistiu que eu não o acompanhasse, por isso preferi segui-lo de longe, para ficar de olho nele. Só o perdi de vista durante alguns minutos, quando fui falar com Isobel, e quando eu o alcancei outra vez...

— Você também sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés? — pergunta Celia.

Marco confirma com um gesto de cabeça.

— Eu estava tentando proteger Chandresh de si mesmo — explica. — Nem considerei que ele pudesse ser um perigo para outra pessoa.

— O que é tudo isso? — pergunta Celia, voltando a atenção para os livros em cima da mesa.

Os livros contêm infindáveis páginas de glifos e símbolos, rodeados por textos rasgados de outras fontes, afixados uns aos outros e inscritos uns sobre os outros. No centro da mesa há um grande volume de couro. Colado no verso da capa, cercado por uma sofisticada árvore desenhada, Celia mal consegue distinguir algo que pode ter sido um recorte de jornal. A única palavra que consegue ler é transcendente.

— É assim que eu trabalho — explica Marco. — Esse volume é o que liga tudo ao circo. É a salvaguarda, por falta de um termo melhor. Pus um exemplar dele na fogueira antes de ser acesa, mas fiz alguns ajustes neste aqui.

Celia vira as páginas cheias de nomes. Para numa com um recorte de papel com a elaborada assinatura de Lainie Burgess, ao lado de um espaço de onde um recorte do mesmo tamanho fora removido, deixando uma lacuna.

— Eu deveria ter inserido Herr Thiessen no livro — diz Marco. — Mas nunca pensei nisso.

— Se não fosse ele, teria sido outro visitante. Não há como proteger todo mundo. É impossível.

— Sinto muito — repete Marco. — Eu não conhecia Herr Thiessen tão bem quanto você, mas o admirava muito, assim como o trabalho dele.

— Ele me mostrou o circo de um jeito que eu nunca tinha visto — diz Celia. — Como era visto por quem estava de fora. Nós nos correspondemos durante anos.

— Eu também teria escrito a você, se conseguisse pôr em palavras tudo o que queria dizer. Um mar de tinta não teria sido suficiente.

— Você construiu sonhos para mim — diz Celia, olhando para ele. — E eu construí para você tendas que mal podia visitar. Sempre tive tanto de você a minha volta e nunca fui capaz de dar nada em troca que você pudesse guardar.

— Eu ainda tenho o seu xale — diz Marco.

Ela sorri com suavidade enquanto fecha o livro. Ao lado, a tinta derramada volta ao seu frasco, os cacos do vidro voltam a se unir.

— Acho que é o que meu pai chamaria de trabalhar de fora para dentro em vez de dentro para fora — diz Celia. — Ele sempre me alertou sobre isso.

— Então ele desprezaria o outro cômodo — observa Marco.

— Que cômodo? — pergunta Celia. O vidro de tinta descansa como se nunca tivesse sido quebrado.

Marco pede que ela o siga até o aposento adjacente. Abre a porta para ela, mas não entra, e, quando Celia o acompanha, entende por quê.

Pode ter sido um dia um estúdio ou um escritório, não um grande cômodo, mas poderia ser definido como aconchegante não fossem as camadas de papel e os fios pendurados em todas as superfícies disponíveis.

Fios pendem dos lustres e dão voltas no topo de prateleiras. Formam emaranhados como uma teia cascateando do teto.

Sobre todas as superfícies — mesas, escrivaninhas e poltronas — há modelos de tendas meticulosamente construídos. Alguns feitos de jornal, outros de tecido. Pedaços de plantas baixas, romances e papéis de carta, dobrados e cortados formando uma coleção de tendas listradas, todas amarradas por mais fios em preto e branco e vermelho. Estão presas a peças de um relógio, cacos de espelho, tocos de velas pingando.

No centro do aposento, uma mesa redonda de madeira pintada de preto decorada com finas listras de madrepérola no tampo sustenta um pequeno caldeirão de ferro. Dentro queima um fogo alegremente, as chamas claras e brilhantes projetando pelo espaço sombras alongadas.

Celia dá um passo para dentro do recinto, abaixando a cabeça para não bater nos fios que pendem do teto. A sensação é a mesma de entrar no circo, até o aroma de caramelo que paira no ar, mas há algo mais profundo, pesado e antigo subjacente ao papel e aos fios.

Marco permanece no umbral enquanto Celia caminha com cuidado pelo cômodo, preocupada que seu vestido arraste no chão enquanto examina as minúsculas tendas. Ela passa com delicadeza os dedos pelos fios e pelas peças de relógio.

— Isso é uma magia muito antiga, não é? — pergunta.

— É a única magia que eu conheço — responde Marco. Puxa uma corda perto da porta e o movimento reverbera por todo o aposento, a maquete do circo faiscando quando pedaços de metal chegam à fogueira. — Embora duvide que tenha sido concebida para esse propósito.

Celia para numa tenda que contém um galho de árvore coberto de cera de velas. Orientando-se a partir dali, localiza outra, abrindo delicadamente a porta de papel para encontrar um círculo de pequenas cadeiras representando seu espaço de apresentação.

As páginas usadas têm sonetos de Shakespeare impressos.

Celia fecha a porta de papel.

Dá por encerrado seu passeio pelo quarto e se junta a Marco no umbral, fechando delicadamente a porta atrás de si.

A sensação de estar no circo desaparece no momento em que cruza a soleira, e de repente está subitamente ciente de tudo no aposento adjacente. O calor do fogo lutando contra a brisa que vem das janelas. O cheiro da pele de Marco sob o da tinta e o da colônia que usa.

— Obrigada por me mostrar isso — diz.

— Imagino que seu pai não aprovaria — observa Marco.

— Eu não me importo mais com o que meu pai aprova.

Celia passa pela mesa e para diante da lareira, observando as páginas em miniatura sendo viradas com o tempo que avança no relógio.

Ao lado do relógio encontra-se uma solitária carta de baralho. O dois de copas. Não apresenta nenhum sinal de ter sido perfurada por uma adaga otomana. Nenhuma evidência de que o sangue de Celia tivesse manchado sua superfície, mas ela sabe que é a mesma carta.

— Eu poderia falar com Alexander — sugere Marco. — Talvez ele tenha visto o suficiente para dar um veredito, ou talvez isso resulte numa espécie de desclassificação. Tenho certeza de que a essa altura ele me considera uma decepção, e poderia declarar você como vence...

— Chega — interrompe Celia sem se virar. — Por favor, cale-se. Não quero mais falar sobre esse maldito jogo.

Marco tenta protestar, mas sua voz fica presa na garganta. Tenta lutar contra aquilo, mas percebe que é incapaz de falar.

Seus ombros caem com um suspiro silencioso.

— Estou cansada de tentar manter as coisas juntas — diz Celia quando ele se aproxima. — Tentar controlar o que não pode ser controlado. Estou cansada de me privar do que desejo por medo de quebrar coisas e não conseguir consertá-las. Elas vão quebrar de qualquer jeito, não importa o que fizermos.

Apoia-se no peito dele e Marco a abraça, acariciando com delicadeza sua nuca com um dedo manchado de tinta. Ficam assim por algum tempo, o crepitar da lareira e o tique-taque do relógio ao fundo.

Quando ela ergue a cabeça, Marco mantém os olhos fixos nos dela enquanto retira o casaco de seus ombros, repousando as mãos na pele nua dos braços.

A paixão conhecida que sempre acompanha o toque da pele dele na dela atinge Celia e ela não consegue mais resistir, não quer mais resistir.

— Marco — diz, os dedos procurando os botões do seu colete. — Marco, eu...

Os lábios dele estão sobre os dela, quentes e exigentes, antes que a frase termine.

Enquanto ela desabotoa botão após botão, Marco tateia cegamente os laços e colchetes, recusando-se a afastar os lábios dos dela.

O traje meticulosamente elaborado cai num amontoado em volta dos pés dela.

Amarrando os laços soltos do espartilho de Celia ao redor do próprio punho, Marco a puxa para o chão junto com ele.

Os dois continuam a remover camada após camada até nada mais separar seus corpos.

Aprisionado no silêncio, Marco desenha desculpas e adorações no corpo de Celia com a língua, expressando sem palavras todas as coisas que não pode falar em voz alta.

Encontra também outras formas de dizer isso a ela, os dedos deixando rastros desmaiados de tinta pelo trajeto. Saboreia todos os sons que provoca nela.

O aposento inteiro estremece quando eles chegam juntos ao clímax.

E a despeito do grande número de objetos frágeis contidos no recinto, nada se quebra.

Acima deles, o relógio continua a virar suas páginas, desenrolando histórias pequenas demais para serem lida.

 

*

 

MARCO NÃO SE LEMBRA DE TER ADORMECIDO. Num instante Celia está aninhada em seus braços, a cabeça descansando em seu peito enquanto ouve seu coração batendo, e no instante seguinte ele está só.

O fogo se extinguiu até se transformar numa brasa sem chamas. A alvorada cinzenta penetra pelas janelas, projetando sombras suaves.

Sobre o dois de copas há um anel prateado com uma inscrição em latim. Marco sorri, colocando o anel de Celia em seu dedo mínimo, ao lado da cicatriz de seu anular.

Só mais tarde percebe que a salvaguarda de capa de couro que estava em sua mesa desapareceu.

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