O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 25 de 69

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O Circo da Noite

Acompanhantes

CAIRO, NOVEMBRO DE 1890

 

Embora os gêmeos Murray possam correr à vontade pelos cantos ocultos

do que costuma ser chamado de bastidores — um espaço digno de uma mansão, tomado por recantos e corredores onde os ocupantes do circo vivem suas vidas quando não estão no palco —, caso queiram se movimentar pelo circo durante o horário de funcionamento eles precisam de um acompanhante. Os dois constantemente protestam contra essa regra em alto e bom som, mas o pai insiste que ela vai valer até que eles completem pelo menos 8 anos.

Widget sempre pergunta se vale somar as duas idades, dizendo que, nesse caso, eles já teriam atingido o mínimo estabelecido.

Os dois são sempre lembrados de que devem ter algum tipo de organização em suas programações noturnas, uma vez que são as únicas crianças em uma casa bem anticonvencional.

No momento, eles contam com uma equipe de acompanhantes, e hoje é a vez da ilusionista supervisioná-los. Não é comum ela receber essa tarefa, apesar de os gêmeos gostarem muito dela. Mas nessa noite ela está com tempo livre entre suas apresentações e pode ficar com eles por alguns momentos.

Nenhum dos visitantes reconhece Celia sem a cartola e o vestido preto e branco, nem mesmo os que assistiram ao seu número pouco antes, na mesma noite. Se os transeuntes param para alguma coisa, é apenas para admirar o cabelo ruivo das crianças em contraste com o dela, tão escuro. Fora isso, ela parece apenas uma jovem com um casaco azul, vagueando pelo circo como qualquer outro visitante.

Eles começam pelo Jardim de Gelo, embora os gêmeos fiquem cada vez mais impacientes com o ritmo lento com que Celia gosta de explorar as árvores congeladas. Antes de percorrer metade do espaço, os dois já estão implorando para andar no Carrossel.

Eles discutem sobre quem vai cavalgar o grifo, mas Widget cede quando Celia conta a história da raposa de nove caudas logo atrás do grifo, e de repente ela parece muito mais atraente. Assim que saem do brinquedo, exigem uma segunda volta. No passeio seguinte, pelos anéis de mecanismo prateado e túneis, acabam montados numa serpente e num coelho, sem se queixarem de nada.

Depois do passeio no Carrossel, Widget quer comer alguma coisa, por isso seguem para o pátio. Quando Celia consegue um pacote preto e branco de pipoca, o menino insiste que também quer caramelo, que não vai comer aquilo puro.

O vendedor que mergulha maçãs espetadas em palitos no caramelo escuro e pegajoso faz sua vontade e espalha a calda em cima da pipoca. Outros visitantes pedem a mesma coisa.

Poppet diz que não está com fome. Parece distraída. Então, quando eles entram numa viela mais tranquila, longe do pátio, Celia pergunta se algo a incomoda.

— Eu não quero que a moça simpática morra — diz Poppet, puxando de leve a saia de Celia.

Celia para, estendendo uma das mãos para impedir Widget, completamente absorto diante de suas pipocas, de continuar andando na frente dela.

— O que você quer dizer com isso, querida? — pergunta.

— Eles vão colocá-la no chão — explica Poppet. — Eu acho isso triste.

— Que moça simpática? — pergunta Celia.

Poppet faz uma careta enquanto pensa a respeito.

— Eu não sei — responde. — Elas são todas iguais.

— Poppet, querida — diz Celia ao puxar os gêmeos para uma reentrância e abaixar-se para falar mais de perto. — Onde essa moça está no chão? Onde você a viu?

— Nas estrelas — responde Poppet na ponta dos pés e apontando para cima.

Celia olha furtivamente para o céu estrelado e vê a lua desaparecer atrás de uma nuvem antes de voltar a atenção para Poppet.

— Você costuma ver coisas nas estrelas? — pergunta.

— De vez em quando — responde Poppet. — Widget vê nas pessoas.

Celia vira-se para Widget, que come suas pipocas salpicadas de caramelo com mãos lambuzadas.

— Você vê coisas nas pessoas?

— Às vexes — responde com a boca cheia.

— Que tipo de coisas? — pergunta Celia.

Widget dá de ombros.

— Lugares onde elas estiveram — responde. — Coisas que fizeram.

Põe outro punhado de pipoca caramelada na boca.

— Interessante — comenta Celia. Os gêmeos já haviam falado muitas coisas estranhas antes, mas dessa vez parece algo mais que uma fantasia infantil. — Você pode ver alguma coisa em mim? — pergunta.

Widget a encara com os olhos semicerrados, mastigando a pipoca.

— Quartos que cheiram a pó de arroz e roupas velhas — responde. — Uma dama que chora o tempo todo. Um homem-fantasma com uma camisa pregueada que segue você e... — Widget para de repente, intrigado. — Você o fez ir embora — observa. — Não tem mais nada ali. Como você fez isso?

— Algumas coisas não são para você ver — responde Celia.

Widget faz com o lábio inferior um bico impressionante, mas que só dura até abocanhar outro punhado de pipoca.

Celia desvia o olhar dos gêmeos e mira na direção do pátio, onde a luz da fogueira reflete ao longo das tendas, lançando sombras dos visitantes sobre o tecido listrado.

A fogueira nunca se apaga. As labaredas nunca vacilam.

Nem quando o circo é transferido a fogueira se apaga, sendo transportada intacta de um local para outro. Em brasa durante toda a viagem de trem, em segurança em seu caldeirão de ferro.

Queima de forma constante, desde que foi acesa na cerimônia da noite de estreia.

E, naquele exato instante em que a fogueira foi acesa, Celia ainda tem certeza de que algo foi posto em movimento, causando impacto no circo inteiro e em todos os presentes.

Inclusive nos gêmeos recém-nascidos.

Widget nascido pouco antes da meia-noite, no fim de um velho dia. Poppet seguindo-o momentos depois, num novo dia que acabava de começar.

— Poppet — diz Celia, virando-se para a garotinha que brinca com o punho do casaco —, se você vir coisas que acha que podem ser importantes nas estrelas, eu gostaria que me contasse sobre elas, tudo bem?

Poppet balança a cabeça afirmativamente, nuvens de cabelo vermelho ondulando. E se aproxima para fazer uma pergunta a Celia, o olhar muito sério.

— Posso comer uma maçã caramelada? — diz.

— Acabou a minha pipoca — reclama Widget, mostrando o saco vazio.

Celia pega o saco da mão dele e o dobra em pequenos quadrados, e os gêmeos observam o papel desaparecer por completo. Quando eles aplaudem, as mãos de Widget não estão mais cobertas de caramelo, embora ele nem tenha notado.

Celia pensa sobre os dois por um momento, enquanto Widget tenta entender onde foi parar o saco de pipoca e Poppet lança olhares meditativos para o céu.

Não é uma boa ideia. Ela sabe que não é uma boa ideia, mas seria melhor manter os dois por perto, observá-los com mais cuidado, dadas as circunstâncias e seus supostos talentos.

— Vocês gostariam de aprender a fazer essas coisas? — pergunta Celia.

Widget balança a cabeça de imediato, com tanto entusiasmo que seu chapéu cobre os olhos. Poppet hesita, mas depois concorda também.

— Então, quando vocês forem mais velhos, eu vou ensinar umas lições, mas isso vai ter de ser o nosso segredo — diz Celia. — Vocês conseguem guardar um segredo?

Os gêmeos balançam a cabeça, num gesto afirmativo. Widget precisa ajeitar o chapéu outra vez.

Contentes, os dois seguem Celia quando ela os leva de volta ao pátio.

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