O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 22 de 69

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O Circo da Noite

Onirologia

CONCORD, MASSACHUSETTS, OUTUBRO DE 1902

 

Bailey passa o dia inteiro querendo que o sol se ponha, mas o astro o

desafia e continua seu ritmo normal pelo céu, um ritmo no qual Bailey nunca havia pensado, mas que hoje considera terrivelmente lento. Quase deseja que fosse um dia de aula, assim teria algo que ajudasse o tempo a passar. Fica pensando se deveria tirar uma soneca, mas está muito agitado com o súbito aparecimento do circo para conseguir dormir.

O jantar transcorre da mesma maneira que tem sido há alguns meses, períodos de silêncio rompidos pelas tentativas de sua mãe de começar uma conversa educada e pelos ocasionais suspiros de Caroline.

A mãe menciona o circo, ou mais especificamente a afluência de pessoas que vai provocar.

Bailey espera que se faça silêncio outra vez, mas Caroline se vira para ele.

— Nós não o desafiamos a entrar escondido no circo da última vez em que ele esteve aqui, Bailey? — O tom de voz é leve e curioso, como se ela realmente não lembrasse se aquilo tinha acontecido.

— Como, durante o dia? — pergunta a mãe.

Caroline assente distraidamente com um meneio de cabeça.

— Sim — responde Bailey em voz baixa, desejando o retorno do desconfortável silêncio.

— Bailey! — exclama a mãe, conseguindo transformar o nome dele numa mistura de repreensão e desapontamento. Bailey não sabe ao certo como aquilo pode ser culpa dele, pois foi provocado, mas Caroline reage antes que ele possa protestar.

— Não, ele não fez isso — afirma, como se agora se lembrasse claramente do incidente.

Bailey apenas dá de ombros.

— Bem, espero que não — diz a mãe.

Faz-se silêncio de novo e ele olha pela janela, pensando no que significa o cair da noite. Acha que talvez fosse melhor chegar aos portões ao menor sinal do crepúsculo e esperar, se necessário. Seus pés coçam embaixo da mesa e ele se pergunta quando conseguirá escapar.

Demora séculos para tirar a mesa, uma eternidade para ajudar a mãe com a louça. Caroline desaparece em seu quarto e o pai pega o jornal.

— Aonde você vai? — pergunta a mãe quando ele põe o cachecol.

— Vou ao circo — responde Bailey.

— Não chegue muito tarde — recomenda a mãe. — Você tem trabalho a fazer.

— Tudo bem — concorda Bailey, aliviado por ela não especificar um horário, deixando o “muito tarde” aberto a interpretações.

— Leve a sua irmã.

Como não seria possível sair da casa sem que a mãe percebesse que ele não parou no quarto de Caroline, Bailey bate na porta entreaberta.

— Sai daqui — diz a irmã.

— Eu vou ao circo, caso queira vir comigo — diz Bailey, sem emoção na voz. Ele já sabe qual vai ser a resposta.

— Não — responde ela, tão previsível como o silêncio na hora do jantar. — Que criancice — acrescenta, lançando um olhar de desdém.

Bailey sai sem dizer mais nada, deixando o vento bater a porta atrás de si.

O sol está começando a se pôr, e há mais pessoas na rua do que o normal para essa hora do dia, todas andando na mesma direção.

Enquanto caminha, seu entusiasmo começa a murchar. Talvez seja uma criancice. Talvez não seja mais a mesma coisa.

Quando chega ao local, já há uma multidão reunida, e Bailey fica aliviado ao constatar que muitos têm a sua idade ou são até mais velhos, e só alguns levaram crianças. Algumas garotas da sua idade dão risadinhas quando ele passa por elas, tentando atrair sua atenção. Bailey não sabe se deveria ficar envaidecido ou não.

Encontra um bom local no meio da multidão. Ele espera, observando os portões de ferro fechados e se perguntando se o circo vai estar diferente do que se lembra.

E, no fundo, fica imaginando se a garota ruiva vestida de branco estará em algum lugar lá dentro.

A luz fraca e alaranjada do sol faz com que tudo, inclusive o circo, pareça em chamas antes de desaparecer por completo. É mais rápido do que Bailey esperava, o momento que muda do fogo para o lusco-fusco, e então as luzes do circo começam a piscar por todas as tendas. A multidão emite os já esperados “ohs” e “ahs”, porém alguns mais à frente quase engasgam de surpresa quando o grande cartaz acima dos portões começa a pipocar e faiscar. Bailey não consegue deixar de sorrir ao ver o cartaz se acender por inteiro, brilhando como um farol: Le Cirque des Rêves.

Se o dia de espera foi tediosamente lento, a fila para entrar no circo se move muito depressa, e logo Bailey está em frente à bilheteria comprando o ingresso.

O sinuoso caminho pontilhado de estrelas parece não ter fim enquanto faz as curvas escuras, antecipando com ansiedade a luminosidade no final.

A primeira coisa em que pensa quando chega ao pátio iluminado é que o aroma é o mesmo, de fumaça e caramelo e algo mais que não consegue definir.

Não sabe bem por onde começar. São tantas tendas, tantas escolhas. Pensa que talvez devesse andar um pouco antes de decidir em qual entrar.

Pensa também que o simples ato de andar pelo circo pode aumentar a chance de se encontrar por acaso com a garota ruiva. Embora se recuse a admitir que está procurando por ela. Tolice, procurar uma garota que encontrou só uma vez em circunstâncias muito estranhas, tantos anos atrás. Não há razão para acreditar que ela ainda se lembraria dele, ou que o reconheceria. Aliás, nem Bailey tem certeza de que a reconheceria.

Decide andar pelo circo, e percorre o pátio com a fogueira e o outro lado, depois tenta fazer o caminho de volta. É um plano tão bom quanto qualquer outro, e talvez a multidão não esteja tão compacta na parte mais afastada.

Mas, antes, vai querer uma sidra quente com especiarias. Não demora muito até encontrar o vendedor certo no pátio. Compra uma caneca, vê os redemoinhos da poção fumegante no recipiente marmóreo e se pergunta, instantes antes do primeiro gole, se terá o mesmo gosto de que se lembra. Já repassou aquele gosto infinitas vezes na imaginação, e, apesar da variedade de maçãs na região, nunca uma sidra, com ou sem especiarias, teve um sabor tão bom. Hesita antes de tomar um primeiro golinho. É ainda melhor do que se lembrava.

Escolhe um caminho e, entre as tendas, há um pequeno grupo reunido em torno de uma plataforma elevada. Sobre a plataforma está uma mulher com um traje muito justo, coberto de espirais pretas e prateadas. Ela se dobra e se contorce de uma forma que é ao mesmo tempo terrível e elegante. Bailey para junto aos espectadores, ainda que seja um pouco doloroso assistir.

A contorcionista ergue uma pequena argola de metal prateado do chão, brandindo-a com movimentos simples porém impressionantes. Entrega a argola para um homem da plateia, para que ele ateste sua solidez. Quando ele a devolve, ela passa o corpo inteiro por dentro da argola, alongando os membros em movimentos fluidos, como numa dança.

Depois de descartar a argola, coloca uma pequena caixa no centro da plataforma.

A caixa parece não ter mais de 30 centímetros de largura e altura, embora na verdade seja um pouco maior do que isso. O fato de uma mulher adulta (ainda que de estatura abaixo da média) conseguir se condensar num espaço tão pequeno já é impressionante, não importam os detalhes da caixa. Mas é ainda mais impressionante pelo fato de a caixa ser feita de vidro, completamente transparente.

As bordas são de metal oxidado até um tom bem escuro, mas as laterais e a tampa são de vidro, por isso ela está sempre visível enquanto se dobra e se retorce dentro daquele espaço minúsculo. Faz isso lentamente, transformando cada movimento em parte do espetáculo, até o corpo e a cabeça estarem dentro da caixa e apenas uma das mãos do lado de fora, aparecendo no alto. O que Bailey vê de onde está parece impossível, um pedaço de perna aqui, a curva de um ombro ali, parte do outro braço embaixo do pé.

Apenas uma das mãos continua de fora, acenando antes de fechar a tampa da caixa, que se tranca automaticamente. A caixa está inegavelmente fechada, com a contorcionista visível lá dentro.

Agora a caixa em que a mulher está presa é aos poucos invadida por uma fumaça branca. Penetrando as minúsculas fendas e áreas não ocupadas por membros ou torso e preenchendo o espaço entre os dedos que pressionam o vidro.

A fumaça se adensa, obscurecendo de todo a imagem da contorcionista. Agora só a fumaça branca é visível dentro da caixa, ondulando e se encrespando contra o vidro.

De repente, com um estalido, a caixa se quebra. As laterais caem e a tampa desaba. Espirais de fumaça ascendem no ar da noite. A caixa, ou melhor, a pequena pilha de vidro que já foi uma caixa, está vazia sobre a plataforma. A contorcionista desapareceu.

O público espera alguns instantes, mas nada acontece. As últimas nuvens de fumaça dissipam-se, a multidão começa a se dispersar.

Bailey aproxima-se para examinar a cena, imaginando se a contorcionista está escondida em algum lugar, mas a plataforma é de madeira maciça e aberta na parte de baixo. Ela desapareceu, apesar de evidentemente não haver lugar nenhum para onde possa ter ido.

Bailey continua pelo caminho sinuoso. Termina a sidra e encontra uma lata de lixo para descartar a caneca, e assim que a joga lá dentro ela parece sumir no fundo escuro.

Continua andando, lendo os cartazes, tentando decidir em que tenda entrar. Alguns são grandes, decorados com floreios e longas descrições de seus conteúdos.

Entretanto, o que chama sua atenção é um menor, assim como a tenda em que está pendurado. Sinuosas letras brancas num fundo preto.

 

Feitos de ilustres ilusões

 

A entrada está aberta, os visitantes formam uma fila para chegar à tenda da ilusionista. Bailey junta-se a eles.

O interior é iluminado por arandelas de ferro negro presas ao longo das paredes e contém apenas cadeiras de madeira em círculo. Há somente vinte assentos, em dois círculos alternados de forma que a visão seja a mesma de todos eles. Bailey escolhe um no círculo interno, no lado oposto à entrada.

As demais cadeiras são ocupadas muito rapidamente, exceto duas: o assento logo a sua esquerda e o do outro lado do círculo.

Bailey percebe duas coisas ao mesmo tempo.

Primeiro, que não consegue mais ver onde é a entrada. O espaço por onde os espectadores passaram parece agora uma parede sólida e sem emendas, indistinguível do restante da tenda.

Segundo, uma mulher de cabelos escuros, usando um casaco preto, está sentada a sua esquerda. Ele tem certeza de que ela não estava ali antes de a porta desaparecer.

Nesse instante sua atenção é desviada desses dois fatos, pois a cadeira vazia do outro lado do círculo irrompe em chamas.

O pânico é instantâneo. Os ocupantes dos assentos mais próximos das chamas abandonam seus lugares e correm para a porta, só para constatar que ela não existe mais, é apenas uma parede sólida.

As chamas são cada vez mais altas, próximas da cadeira, lambendo ao redor da madeira, mas não parecem queimar.

Bailey olha outra vez para a mulher a sua esquerda, que pisca para ele antes de levantar e ir até o centro do círculo. Em meio ao pânico, ela desabotoa e tira o casaco com tranquilidade, lançando-o num gesto gracioso sobre a cadeira em chamas.

O que era um pesado casaco de lã se transforma numa longa peça de seda negra ondulando como água sobre a cadeira. As chamas desaparecem. Apenas umas poucas linguetas de fumaça permanecem, assim como um aroma pungente de madeira chamuscada que muda lentamente para a tranquilizante fragrância de uma lareira, com um toque de algo como cravo-da-índia ou canela.

Em pé no centro do círculo de assentos, a mulher retira a seda negra com um floreio, mostrando uma cadeira ainda intacta cheia de pombos brancos como a neve empoleirados.

Outro floreio e a seda negra se dobra sobre si mesma, transformando-se numa cartola preta. A mulher a põe na cabeça e finaliza seu traje, que parece um vestido de festa confeccionado com a luz da noite: seda negra pontilhada de cristais brancos cintilantes. Ela saúda a plateia com uma reverência discreta.

A ilusionista fez a sua entrada.

Algumas pessoas, Bailey inclusive, conseguem aplaudir, enquanto aquelas que haviam abandonado as cadeiras retornam a elas, ao mesmo tempo perturbadas e curiosas.

A apresentação continua. Exibições que Bailey tem dificuldade de entender como podem ser truques se mesclam umas com as outras. Os pombos estão sempre desaparecendo, só para reaparecer em chapéus ou embaixo de cadeiras. Há também um corvo negro, grande demais para ser escondido com tanta facilidade.

Só algum tempo depois que o espetáculo acaba, Bailey se dá conta de que, por conta do círculo de cadeiras, da forma e da proximidade do espaço, não há lugar para espelhos ou truques de luz. Tudo é palpável e imediato. A ilusionista chega a transformar o relógio de metal no bolso de um dos espectadores em areia e de novo em metal.

A certa altura as cadeiras flutuam, fazendo com que a ponta dos pés de Bailey mal roce o chão. Apesar de o movimento ser firme e estável, ele se agarra à cadeira, nervoso.

No final da apresentação, a ilusionista faz uma reverência girando nos calcanhares, e agradece ao círculo inteiro enquanto a plateia aplaude. Ao completar o giro, ela não está mais lá. Resta apenas um faiscar reluzente, ecos dos cristais de seu vestido.

A porta reaparece e a pequena plateia começa a sair. Bailey anda bem devagar, olhando para o lugar em que antes estava a ilusionista.

Do lado de fora, onde antes não havia nada, agora há outra plataforma elevada, muito parecida com a da contorcionista. Mas a figura sobre a plataforma não se move. Bailey chega a pensar que é uma estátua, com um vestido branco ornado de peles que cascateiam pela plataforma até alcançar o chão. Seu cabelo e sua pele, até mesmo os cílios, são brancos como gelo.

Mas ela se move. Muito, muito lentamente. Tão devagar que Bailey não consegue identificar os movimentos exatos, apenas minúsculas mudanças. Flocos finos de neve iridescentes flutuam até pousar no chão, soltando-se dela como folhas de uma árvore.

Bailey anda ao redor, observando-a de todos os ângulos. Os olhos dela o seguem, mas as pálpebras com os cílios tingidos de neve não piscam.

Há uma pequena placa prateada sobre a plataforma, parcialmente oculta pela cauda do vestido.

A placa diz IN MEMORIAN, mas sem especificar de quem.

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