O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 26 de 69

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O Circo da Noite

Vontades e desejos

PARIS, MAIO DE 1891

 

Quando a cortina decorada com pingentes se abre com um som de

chuva, é Marco quem entra na câmara da cartomante, e Isobel imediatamente retira o véu do rosto, a seda negra impossivelmente fina flutuando sobre a cabeça como uma névoa.

— O que você está fazendo aqui? — pergunta ela.

— Por que você não me falou sobre isso? — Ignorando a pergunta, ele mostra um livro aberto, e na luz tremeluzente Isobel consegue distinguir uma árvore negra sem folhas. Diferente das árvores rabiscadas em tantos outros livros de Marco, essa é coberta de velas brancas gotejantes. Ao redor do desenho principal há esboços detalhados de galhos retorcidos, de vários ângulos diferentes.

— Essa é a Árvore dos Desejos — diz Isobel. — É nova.

— Eu sei que é nova — retruca Marco. — Por que você não falou nada?

— Não tive tempo de escrever para você — explica ela. — E nem sabia se era ou não algo que você tivesse feito. Parecia algo que você poderia ter feito. É linda, a maneira como os desejos são acrescentados a ela ao se acenderem velas com outras já acesas e adicionando-as aos galhos. Desejos novos sendo acesos por antigos.

— Foi ela — diz Marco com naturalidade, pegando o caderno de volta.

— Como pode ter certeza? — pergunta Isobel.

Marco faz uma pausa, observando o desenho, frustrado por não poder captar de forma adequada a beleza daqueles rabiscos apressados.

— Eu consigo sentir — diz. — É como saber que uma tempestade está se formando, a mudança no ar ao redor. Assim que entrei na tenda eu senti, e é mais forte ainda perto da árvore. Não sei se seria perceptível para alguém não familiarizado com essa sensação.

— Você acha que ela também pode sentir quando você faz esse tipo de coisa? — pergunta Isobel.

Marco não tinha pensado nisso, embora faça sentido. E considera a ideia estranhamente agradável.

— Não sei. — Isso é tudo o que consegue dizer.

Isobel afasta mais uma vez o véu que escorregou sobre o rosto.

— Bom — começa a dizer —, agora que já sabe, você vai poder fazer o que quiser com isso.

— Não funciona assim — contesta ele. — Eu não posso usar nada que ela tenha feito para os meus propósitos. Os lados precisam permanecer separados. Se estivéssemos jogando uma partida de xadrez, eu não poderia simplesmente remover as peças dela do tabuleiro. Minha única opção é retaliar com as minhas peças quando ela mover as dela.

— Então esse jogo pode não ter um fim — diz Isobel. — Como você vai pôr um circo inteiro em xeque-mate? Não faz sentido.

— Não é como xadrez — diz Marco, esforçando-se para explicar algo que finalmente começava a entender, ainda que não conseguisse articular de forma apropriada. Olha para a mesa, na qual algumas cartas continuam viradas para cima, e uma em particular chama sua atenção. — É assim — diz, apontando a mulher com a balança e a espada, as palavras La Justice escritas abaixo dos pés. — É uma balança: um lado é meu, o outro é dela.

Uma balança prateada aparece sobre a mesa entre as cartas, precariamente equilibrada, cada prato com pilhas de diamantes que brilham à luz das velas.

— Então o objetivo é fazer o prato da balança pender a seu favor? — pergunta Isobel.

Marco assente com um gesto de cabeça, folheando as páginas do seu caderno. Ele acaba sempre voltando à página com a árvore.

— Mas, se vocês dois continuarem acrescentando coisas aos pratos, aumentando o peso — diz Isobel, observando os suaves movimentos da balança —, ela não vai quebrar?

— Eu não acho que seja uma comparação precisa — diz Marco, e a balança desaparece.

Isobel franze a testa para o espaço vazio.

— Por quanto tempo isso vai continuar? — pergunta.

— Não tenho ideia. Você quer ir embora daqui? — acrescenta Marco, olhando para ela, incerto quanto à resposta que deseja ouvir.

— Não — responde Isobel. — Eu... não quero ir embora. Eu gosto daqui. Mas também gostaria de entender. Talvez, se entendesse melhor, eu pudesse ser mais útil.

— Você é útil — contesta Marco. — Talvez minha única vantagem seja o fato de que ela não sabe quem eu sou. Ela só tem o circo para esboçar sua reação, e eu tenho você para vigiá-la.

— Mas eu não vi nenhuma reação — protesta Isobel. — Ela é muito reservada. Lê mais que qualquer um que já conheci. Os gêmeos Murray a adoram. Ela sempre foi boa comigo. Nunca a vi fazer nada de extraordinário fora das suas apresentações. Você diz que ela está executando todas essas manobras, mas eu nunca vi. Como sabe que essa árvore não é trabalho de Ethan Barris?

— Sr. Barris cria coisas incríveis, mas isso não é dele. Embora tenha sido ela que enfeitou o carrossel dele, disso eu tenho certeza. Duvido que até mesmo um engenheiro com o talento do Sr. Barris possa fazer um grifo pintado na madeira respirar. A árvore está enraizada no solo, é uma árvore viva, mesmo que não tenha folhas.

— Você fez algum desejo? — pergunta Isobel em voz baixa.

Marco fecha o caderno sem responder.

— Ela ainda começa o espetáculo quinze minutos antes da hora cheia? — pergunta Marco, tirando o relógio do bolso.

— Sim, mas... você vai sentar lá e assistir? — questiona. — Não devem caber nem vinte pessoas na tenda. Ela vai notar você. Será que não vai achar estranho que esteja lá?

— Ela não vai nem me reconhecer — responde Marco. O relógio desaparece da sua mão. — Sempre que aparecer uma nova tenda, eu agradeceria que você me informasse.

Vira-se e sai, tão depressa que as chamas das velas tremulam com o deslocamento de ar.

— Eu sinto sua falta — diz Isobel quando ele sai, mas seu sentimento é esmagado pelo barulho da cortina de contas se fechando atrás dele.

Ela volta a cobrir o rosto com o véu negro.

 

*

 

ASSIM QUE O ÚLTIMO cliente sai, nas primeiras horas da manhã, Isobel pega seu baralho de Marselha do bolso. Ela sempre o carrega, embora use outro baralho para as leituras do circo, uma versão em preto e branco e tons de cinza feita sob encomenda.

Do baralho de Marselha ela tira uma única carta. Sabe qual será antes de virá-la na mesa. O anjo ilustrado na frente só confirma o que já suspeitava.

Isobel não põe a carta de volta no baralho.

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