O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 68 de 69

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O Circo da Noite

Diagramas

LONDRES, DEZEMBRO DE 1902

 

Poppet Murray está nos degraus da frente da maison Lefèvre, uma valise

de couro em uma das mãos e uma grande bolsa a seus pés. Toca a campainha uma dezena de vezes, alternando com uma série de batidas na porta, embora consiga ouvir a campainha ecoando dentro da casa.

Quando a porta finalmente é aberta, vê o próprio Chandresh em pé na soleira, a camisa lilás para fora da calça e um pedaço de papel amassado na mão.

— Você era menor da última vez em que a vi — diz, examinando Poppet desde as botas até os cabelos vermelhos presos no alto da cabeça. — E vocês eram dois.

— Meu irmão está na França — comenta Poppet. Pega a bolsa e acompanha Chandresh para dentro da casa.

A escultura dourada da cabeça de elefante no saguão está precisando de um polimento. A casa está em tal estado de desordem, tanto quanto poderia estar uma casa lotada do chão ao teto com antiguidades e livros e objetos de arte, em sua inerente maneira aconchegante e atulhada. Não se mostra mais lustrosa e brilhante como quando ela vagava pelos corredores com Widget, há o que parece mais de alguns anos, perseguindo gatinhos laranja em meio a um arco-íris de convidados.

— O que aconteceu com os seus empregados? — pergunta enquanto sobem a escada.

— Eu demiti todos — responde Chandresh. — Eram uns inúteis, não conseguiam manter nada em ordem. Fiquei só com os cozinheiros. Não organizo um jantar há bastante tempo, mas ao menos eles sabem o que estão fazendo.

Poppet o segue até o corredor ladeado de colunas que leva ao seu estúdio. Nunca esteve naquele recinto específico, mas duvida de que tenha sido sempre tão abarrotado de plantas, esboços e garrafas de conhaque vazias.

Chandresh perambula pelo aposento, acrescentando o pedaço de papel amassado que tem na mão a uma pilha sobre uma cadeira, enquanto observa sem pressa um conjunto de plantas pendendo das janelas.

Poppet abre espaço na mesa para depositar sua valise, afastando livros, chifres de alce e tartarugas esculpidas em jade. Deixa a bolsa no chão a seu lado.

— Por que você veio até aqui? — pergunta Chandresh, virando-se para olhar para Poppet como se só agora tivesse notado sua presença.

Ela abre a valise sobre a mesa, retirando uma pesada pilha de papéis.

— Preciso que me faça um favor, Chandresh — anuncia.

— E o que seria esse favor?

— Gostaria que transferisse a propriedade do circo. — Poppet encontra uma caneta-tinteiro entre a bagunça da mesa e testa em um pedaço de papel para ver se está com tinta.

— Para começar, o circo nunca foi meu — resmunga Chandresh.

— Claro que foi — retruca Poppet, grafando uma rebuscada letra P. — A ideia foi sua. Mas eu sei que não tem tempo para isso, por isso achei que seria melhor renunciar a sua posição de proprietário.

Chandresh considera aquilo por um momento, mas depois balança a cabeça afirmativamente e vai até a mesa para ler o contrato.

— Estou vendo que Ethan e Lainie estão relacionados aqui, mas não Tante Padva — diz enquanto examina o documento com mais atenção.

— Eu já conversei com todos — observa Poppet. — Madame Padva não quer mais estar envolvida, mas confia em que Srta. Burgess possa assumir suas responsabilidades.

— E quem é Sr. Clarke? — pergunta Chandresh.

— É um amigo meu, muito querido — responde Poppet com um leve rubor nas bochechas. — Ele vai cuidar muito bem do circo.

Quando Chandresh chega ao fim do documento, ela estende a caneta.

Ele assina seu nome com um vacilante floreio, abandonando a caneta sobre a mesa.

— Agradeço mais do que poderia expressar. — Poppet assopra a tinta para secar antes de guardar o contrato na valise. Chandresh dispensa as palavras dela com um aceno de mão preguiçoso, andando outra vez até a janela e observando seus papéis azuis pendurados.

— Para que as plantas? — pergunta Poppet depois de fechar a valise.

— Estou com todas essas... plantas para Ethan e não sei o que fazer com elas — explica Chandresh, fazendo um gesto abrangente para a infinidade de papéis.

Poppet tira o casaco, deixando-o pendurado nas costas da cadeira da escrivaninha, e faz um exame mais minucioso dos esboços e plantas pendurados nas prateleiras e pregados a espelhos e pinturas e janelas. Alguns são aposentos completos, outros são partes da arquitetura exterior ou arcadas e corredores elaborados.

Poppet para ao chegar a um alvo com uma faca de prata cravada na cortiça, a lâmina marcada por manchas escuras. A faca desaparece quando Poppet continua andando, embora Chandresh não perceba.

— Foram pensadas como reformas da casa — explica Chandresh enquanto ela caminha pelo aposento —, mas não se encaixam de forma adequada.

— É um museu — observa Poppet, sobrepondo as partes em sua mente e vendo como se posicionam na construção que já viu nas estrelas. Estão completamente fora de ordem, mas o fato é inequívoco. Puxa uma série de plantas e troca por outra, organizando-as de acordo com suas histórias. — Não é esta casa — explica enquanto Chandresh a observa com curiosidade. — É uma casa nova. — Separa uma série de portas, versões alternativas da mesma entrada possível, e as coloca lado a lado no chão, cada uma delas levando a um aposento diferente.

Chandresh observa enquanto ela rearranja as plantas, com um sorriso se abrindo no rosto ao perceber o que está fazendo.

Ele mesmo faz ajustes na enxurrada de papéis azuis, reagindo às reorganizações dela, cercando réplicas de antigos templos egípcios com colunas das prateleiras curvas. Os dois sentam-se no chão, combinando aposentos, corredores e escadarias.

Chandresh começa a chamar por Marco, mas logo cai em si.

— Eu esqueço que ele foi embora — diz para Poppet. — Saiu um dia e nunca mais voltou. Não deixou nem um bilhete. Era de se esperar que alguém que sempre fazia anotações deixaria um bilhete.

— Acredito que a partida dele não tenha sido planejada — diz Poppet. — E sei que ele lamenta não poder mais cuidar de suas responsabilidades aqui.

— Você sabe por que ele foi embora? — indaga Chandresh, olhando para ela.

— Marco foi embora para ficar com Celia Bowen — explica Poppet, incapaz de deixar de sorrir.

— Hah! — exclama Chandresh. — Não achei que existisse esse tipo de sentimento nele. Bom para eles. Vamos fazer um brinde.

— Brinde?

— Você está certa, não temos champanhe — diz Chandresh, afastando uma pilha de garrafas de conhaque vazias para colocar outra fileira de esboços no chão. — Vamos dedicar uma sala aos dois. De qual delas você acha que eles gostariam?

Poppet olha para as plantas baixas e os esboços. Há vários que ela acredita que um deles — ou até mesmo os dois — poderia gostar. Para ao observar o desenho de um aposento circular, sem janelas, iluminado somente pela luz filtrada que passa por um lago de carpas com um vidro em cima. Sereno e encantador.

— Esta aqui — aponta.

Chandresh pega um lápis e escreve na margem do papel: “Dedicado a M. Alisdair e C. Bowen.”

— Eu poderia ajudar você a encontrar outro assistente — oferece Poppet. — Posso ficar algum tempo em Londres.

— Eu agradeceria muito, querida.

A grande bolsa que Poppet deixou no chão de repente tomba de lado com um ruído surdo.

— O que há nessa sacola? — indaga Chandresh, observando-a com certa agitação.

— Eu comprei um presente para você — diz Poppet, animada.

Endireita a sacola, abre-a com cuidado e tira de dentro uma gatinha preta com manchas brancas nas pernas e no rabo. Parece que foi mergulhada num creme.

— O nome dela é Ara — anuncia Poppet. — Ela atende quando é chamada e conhece alguns truques, mas o que gosta mesmo é de atenção e de ficar sentada nas janelas. Achei que você poderia gostar da companhia.

Deposita a gatinha delicadamente no chão e mantém a mão em cima dela. A gatinha se espreguiça sobre as patas traseiras com um miado suave e lambe os dedos de Poppet antes de voltar sua atenção a Chandresh.

— Olá, Ara — cumprimenta ele.

— Não vou devolver a sua memória — diz Poppet, observando Chandresh enquanto a gatinha tenta subir no seu colo. — Não sei se poderia, mesmo se tentasse, ainda que Widget talvez conseguisse. A esta altura, acho que você não precisa de mais um fardo. Acredito que olhar para a frente será melhor do que olhar para trás.

— Do que você está falando? — pergunta Chandresh, pegando a gatinha e coçando atrás das suas orelhas enquanto ela ronrona.

— Nada — responde Poppet. — Obrigada, Chandresh.

Inclina-se e dá um beijo na bochecha dele.

Assim que os lábios dela encostam em seu rosto, Chandresh se sente bem como não se sentia há anos, como se o resto de uma névoa tivesse se dissipado. Sua mente está lúcida, as plantas do museu tornam-se coerentes, ideias de futuros projetos alinham-se de formas que parecem perfeitamente administráveis.

Chandresh e Poppet passam horas organizando e aperfeiçoando os diagramas, criando um novo espaço a ser preenchido com antiguidades e arte e visões do futuro.

A gatinha preta e branca brinca com os papéis enrolados enquanto eles trabalham.

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