O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 51 de 69

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O Circo da Noite

Retrospecto

LONDRES, 1º DE NOVEMBRO DE 1901

 

O homem de terno cinza se esgueira facilmente pela multidão dos

frequentadores do circo. Todos saem do seu caminho sem perceber, abrindo passagem quando ele toma a direção dos portões.

A figura que bloqueia seu caminho perto do perímetro do pátio é transparente, parece uma miragem sob a luz da fogueira e das lanternas de papel que balançam com suavidade. O homem de terno cinza para, embora pudesse facilmente continuar através da aparição de seu colega sem se deter.

— Que noite interessante, não? — pergunta Hector, atraindo olhares de curiosidade dos visitantes ao redor.

O homem de terno cinza mexe sutilmente os dedos de uma das mãos enluvadas, como se virasse a página de um livro, e os olhares cessam, expressões de curiosidade perdem o foco, a atenção volta-se para outras imagens.

A multidão continua, entrando e saindo pelos portões, alheia aos dois cavalheiros.

— Não vale a pena o esforço — escarnece Hector. — Metade dessa gente espera ver fantasmas em cada esquina.

— Isso fugiu do controle — diz o homem de terno cinza. — Este local sempre foi exposto demais.

— Mas é aí que está a graça — retruca Hector, balançando um braço indicando a multidão. Sua mão passa através do ombro de uma mulher e ela se vira, surpresa, mas continua andando quando não vê nada. — Você não usou suas técnicas de ocultação depois de tentar agradar Chandresh para controlar o local?

— Eu não estou controlando nada — diz o homem de terno cinza. — Só estabeleci um protocolo de sigilo envolto num ar de mistério. Meu conselho é a razão de este local se transferir a toda hora, sem anúncio. Isso beneficia os dois jogadores.

— Serve para separar os dois. Se os tivesse colocado juntos de forma adequada desde o início, ela já teria vencido anos atrás.

— O seu estado atual o deixou cego? Você se comportou como um imbecil se aprisionando desse jeito, e é um tolo se não consegue ver que os dois estão envolvidos. Se não fossem mantidos separados, isso já teria acontecido antes.

— Você poderia ter sido um puta casamenteiro — diz Hector, os olhos semicerrados desaparecendo e reaparecendo na luz ondulante. — Treinei a minha jogadora melhor que isso.

— E mesmo assim ela me procurou. E me convidou pessoalmente a vir aqui, como você... — Interrompe a frase no meio, ao avistar uma figura na multidão.

— Acho que eu recomendei que escolhesse um jogador cuja derrota você conseguisse aceitar — observa Hector, percebendo a maneira como seu interlocutor segue com os olhos o preocupado jovem de chapéu-coco que passa sem notar nenhum dos dois e segue Chandresh em meio ao fluxo de visitantes. — Você sempre se apega aos seus alunos. Infelizmente, poucos deles chegam a perceber isso.

— E quantos dos seus alunos escolheram terminar o jogo por conta própria? — pergunta o homem de terno cinza, virando-se. — Sete? Sua filha será a oitava?

— Isso não vai acontecer mais uma vez — replica Hector, as palavras afiadas e pesadas, apesar de sua forma sem substância.

— Se ela vencer, vai odiar você por isso, se é que já não o odeia.

— Ela vai vencer. Não tente ignorar o fato de que ela é mais forte que o seu jogador. Sempre foi.

O homem de terno cinza ergue uma das mãos na direção da fogueira e amplifica o som que ecoa no pátio de forma que Hector possa ouvir a filha repetindo o nome de Friedrick num pânico crescente.

— Isso soa como alguém forte? — pergunta, baixando a mão e deixando a voz de Celia se misturar com o estrondo da multidão.

Hector faz uma careta, as chamas da fogueira distorcendo ainda mais sua expressão.

— Um homem inocente morreu aqui esta noite — continua o homem de terno cinza. — Um homem de quem a sua jogadora gostava muito. Se ela já não tivesse começado a desmoronar, começaria agora. Era isso que você queria aqui? Não aprendeu nada depois de tantas competições? Não existe uma maneira de prever o que vai acontecer. Não há garantias de nenhum dos lados.

— Isso ainda não acabou — diz Hector, desaparecendo numa mancha de luz e sombra.

O homem de terno cinza continua a andar como se nunca tivesse parado, passando pelas cortinas de veludo que separam o pátio do mundo exterior.

Observa o relógio perto dos portões por algum tempo antes de sair do circo.

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