O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 49 de 69

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O Circo da Noite

Interseções II: Fúrias escarlate e destinos vermelhos o

Interseções II: Fúrias escarlate e destinos vermelhos

LONDRES, 31 DE OUTUBRO — 1º DE NOVEMBRO DE 1901

 

“Embora qualquer noite no circo possa ser considerada mágica”,

escreveu certa vez Herr Friedrick Thiessen, “a véspera do Dia de Todos os Santos é algo especial. O próprio ar crepita de mistérios.” Esta noite de Halloween é especialmente límpida e fria. A tumultuada multidão está vestindo casacos pesados e cachecóis. Muitos usam máscaras, o rosto oculto por pedaços de tecidos em preto, branco e prata.

A luz no circo está mais difusa do que o habitual. As sombras parecem pairar em todos os cantos.

Chandresh Christophe Lefèvre entra no circo sem ser notado. Pega uma máscara prateada de um cesto perto dos portões e a coloca sobre o rosto. A mulher na bilheteria não o reconhece quando ele paga integralmente o ingresso.

Chandresh perambula pelo circo como um homem em meio a um sonho.

O homem de terno cinza não usa máscara. Anda ao acaso com um passo calmo, quase preguiçoso. Não tem nenhum destino específico em mente, apenas vaga de tenda em tenda. Em algumas ele entra, em outras apenas passa em frente à porta. Compra uma xícara de chá e fica pelo pátio, observando a fogueira por um tempo antes de voltar a andar pelos caminhos entre as tendas.

Ele nunca tinha ido ao circo, e parece estar se divertindo.

Chandresh o segue, cada movimento, cada parada. Persegue-o entre as tendas, observa-o pagar pelo chá no pátio. Olha para o chão aos pés do homem de terno cinza, procurando sua sombra, embora seja confundido pela luz sempre em movimento.

Com exceção de Chandresh, ninguém o nota. Os transeuntes não olham para ele, nem uma espiadela, apesar de sua altura, o terno cinza impecável e a cartola. Até a vendedora de chá mal registra sua presença, virando-se logo para o cliente seguinte. Ele desliza pelo circo como uma sombra. Leva uma bengala de castão de prata que não usa.

Chandresh se perde dele na multidão mais de uma vez, o tom cinza sumindo na mancha de preto e branco pontilhado de cores dos visitantes. Nunca demora muito até avistar a cartola cinza outra vez, mas nesses intervalos Chandresh fica nervoso a ponto de estremecer, remexendo no casaco e no conteúdo dos bolsos.

Ele murmura consigo mesmo. Aqueles que passam perto o olham com estranheza e esforçam-se para evitá-lo.

Atrás de Chandresh está um jovem que ele não reconheceria nem se o olhasse nos olhos, mas ainda assim o rapaz mantém distância. A atenção de Chandresh se concentra no homem de terno cinza, e ele nem nota aquele outro sujeito, que guarda certa semelhança com seu assistente.

Marco mantém os olhos verde-acinzentados em Chandresh, sem máscara cobrindo um rosto que só Celia poderia reconhecer, e a ilusionista está ocupada com outras coisas.

Isso dura um bom tempo. Sr. A. H... anda pelo circo sem pressa. Visita a vidente, que não o reconhece, mas deita seu futuro em educadas fileiras de cartas, embora ela considere algumas partes confusas e sobrepostas. Assiste à apresentação da ilusionista, que distingue sua presença com um discreto aceno de cabeça. Vai até a Sala de Espelhos, onde vê incontáveis figuras de terno cinza e cartola combinando. Dá uma volta no Carrossel. Parece gostar especialmente do Jardim de Gelo.

Chandresh o segue de tenda em tenda, esperando do lado de fora daquelas em que ele não entra, cada vez mais ansioso.

Marco perde os dois de vista por um curto período de tempo, quando tira alguns momentos para cuidar de outra questão.

O relógio perto dos portões continua marcando o tempo, seus enfeites mudando e girando.

Outubro se transforma em novembro, uma alteração que passa despercebida por todos os que não estão perto do relógio.

A multidão diminui. Máscaras são devolvidas aos seus cestos no pátio e junto dos portões, pilhas bagunçadas de fitas e olhos vazios. Crianças são enganadas por promessas de que poderão voltar na noite seguinte, mas o circo não estará mais lá, e essas crianças se sentirão desrespeitadas e traídas.

Em uma passagem na parte de trás do circo, que de alguma forma é maior e onde só há uns poucos frequentadores, Sr. A. H... interrompe sua caminhada. Chandresh o observa a pequena distância, incapaz de perceber com clareza por que ele parou, ainda que possa estar conversando com alguém. Através da máscara, Chandresh só distingue o terno cinza, a cartola imponente. Vê um alvo aberto sem nada entre os dois.

Chandresh ouve o eco de uma voz garantindo que aquele homem não é real. É fruto de sua imaginação. Nada mais do que um sonho.

Depois há uma pausa. Por um instante o tempo desacelera, como algo caindo enquanto luta contra a gravidade. A brisa fria que circula pelos caminhos abertos do circo se imobiliza. Naquele momento nada se mexe, nem o tecido das tendas ou as fitas atadas às dezenas de máscaras.

Na tenda mais alta, uma das acrobatas perde o equilíbrio perfeito, caindo uma certa distância antes que um de seus colegas de apresentação a segure, evitando por pouco que chegue ao chão.

No pátio, a fogueira estala e solta faíscas numa súbita nuvem de fumaça negra, fazendo com que alguns visitantes mais próximos pulem para trás, tossindo.

O gatinho que salta pelo ar das mãos de Poppet para as do irmão de repente se contorce, aterrissando de costas e não sobre as patas, rolando na direção de Widget com um miado indignado.

A ilusionista para, sua impecável apresentação interrompida em sua imobilidade, o rosto subitamente pálido. Cambaleia como se fosse desmaiar. Vários integrantes da plateia acorrem para ajudá-la, mas ela não cai.

Marco se contrai como se tivesse sido esmurrado no estômago por um agressor invisível. Um transeunte segura o braço dele para impedir que se desequilibre.

E Chandresh Christophe Lefèvre tira uma faca de prata do bolso do casaco e a arremessa sem hesitar.

A faca voa da mão de Chandresh, lâmina se revezando com cabo, girando em revoluções perfeitas pelo ar.

Sua pontaria é firme e precisa. Até o ponto em que isso é possível.

Mas o alvo se mexe.

O terno cinza feito sob medida que molda as costas do Sr. A. H... sai do lugar. Afasta-se um pouco para o lado. É um movimento gracioso. Um gesto inconsciente. Um deslocamento de peso no espaço.

E a faca resvala em sua manga, atingindo o peito do homem com quem ele está conversando. A lâmina atravessa com facilidade o paletó preto desabotoado, chegando ao coração do homem como se aquele sempre tivesse sido o alvo, o cabo de prata cravado logo abaixo do cachecol vermelho.

Sr. A. H... segura Herr Friedrick Thiessen quando ele começa a tombar para a frente.

Chandresh olha para sua mão vazia como se não conseguisse lembrar o que estava segurando instantes atrás. Sai aos tropeços e volta para o pátio da fogueira. Esquece de remover a máscara quando vai embora, e, quando a encontra em sua casa no dia seguinte, não consegue se lembrar de onde veio.

Sr. A. H... deita Herr Thiessen no chão, falando uma série de palavras num tom muito baixo para que possam ser ouvidas por alguém. Os visitantes ao redor não percebem nada num primeiro momento, embora alguns estejam distraídos com o fato de dois jovens artistas a alguns metros terem de repente interrompido suas apresentações, com o garoto de terno preto recolhendo os agitados gatinhos.

Depois de um longo momento, Sr. A. H... para de falar e passa uma das mãos enluvadas sobre o rosto de Herr Friedrick Thiessen, fechando com toda a delicadeza seus olhos surpresos.

O silêncio que se segue é rompido pelo grito de Poppet Murray ao ver a poça de sangue no chão se espalhando sob suas botas brancas.

Antes que o choque se transforme em caos, Sr. A. H... delicadamente retira a faca com cabo de prata do peito de Herr Thiessen, levanta-se e sai.

Quando passa por um confuso e ainda instável Marco, entrega a faca coberta de sangue para ele sem uma palavra ou um olhar antes de desaparecer na multidão.

Os poucos frequentadores que testemunham o acontecimento são logo afastados. Depois eles achariam que foi um truque engenhoso. Um toque de teatralidade numa noite já muito festiva.

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Ao lado do cartaz na entrada desta tenda há uma pequena caixa cheia de pedras negras e lisas. O texto o instrui a pegar uma das pedras antes de entrar.

Dentro da tenda está escuro, o teto é forrado de guarda-chuvas pretos abertos, os cabos recurvados pendurados como pingentes de gelo.

No centro do recinto há um pequeno lago. Um poço cercado por uma mureta de pedras negras rodeado de cascalho branco.

O ar carrega o aroma salino do oceano.

Você anda até a borda para olhar mais de perto. O cascalho faz barulho sob os seus pés.

O poço é raso, mas está brilhando. Uma luz tremeluzente cascateia na superfície da água. Uma emanação suave, suficiente para iluminar o poço e as pedras do fundo. Centenas de pedras, todas idênticas à que você tem na mão. A luz lá embaixo é filtrada pelos espaços entre as pedras.

Reflexos ondulam pelo recinto, e parece que toda a tenda está debaixo d’água.

Você se senta na mureta, girando a pedra negra entre os dedos.

A quietude da tenda transforma-se numa melancolia pacífica.

Lembranças começam a emergir de cantos ocultos de sua memória. Decepções passadas. Oportunidades e causas perdidas. Mágoas, dor e desolação, uma solidão horrível.

Tristezas que você pensou estarem há muito esquecidas se misturam com feridas recentes.

A pedra parece mais pesada em sua mão.

Quando a joga no poço para que se junte às outras pedras, você se sente mais leve. Como se tivesse se livrado de mais do que uma pedra lisa e polida.

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