O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 47 de 69

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O Circo da Noite

Interseções I: Numa fração de segundo

LONDRES, 31 DE OUTUBRO — 1º DE NOVEMBRO DE 1901

 

O circo sempre fica especialmente festivo na véspera do Dia de Todos os

Santos. Lanternas de papel redondas penduradas no pátio, as sombras dançando sobre as superfícies brancas como rostos uivando em silêncio. Máscaras de couro com elástico, em preto e branco e prata, são deixadas em cestas perto dos portões e ao redor do circo para os visitantes usarem se quiserem. Às vezes é difícil distinguir artistas de visitantes.

Vagar pelo circo anonimamente é uma experiência bem diferente. Misturar-se à paisagem, tornar-se parte do ambiente. Muitos visitantes gostam bastante da experiência, enquanto outros a consideram desconcertante e preferem usar seus próprios rostos.

Algumas horas após a meia-noite, a multidão diminuiu consideravelmente, e o relógio vai adentrando o Dia de Todos os Santos.

Os visitantes mascarados que restaram vagam como fantasmas.

A fila para a vidente foi ficando menor até não ter ninguém a essa hora. A maior parte das pessoas quer saber sobre o destino logo no início da noite. As horas avançadas são mais adequadas para empreendimentos menos cerebrais. Mais cedo os consulentes não paravam de chegar, mas quando outubro dá lugar a novembro não há ninguém esperando no vestíbulo, ninguém aguardando atrás da cortina de contas para ouvir os segredos que as cartas têm a contar.

De repente as cortinas se abrem, sem que ela tenha ouvido alguém se aproximar.

O que Marco veio dizer não deveria ser uma surpresa. As cartas vêm dizendo isso há anos, mas ela se recusou a ouvir, preferindo ver apenas as outras possibilidades, os caminhos alternativos a serem seguidos.

Escutar dos lábios dele é uma coisa bem diferente. Assim que ele profere as palavras, uma lembrança esquecida vem a sua consciência. Duas figuras vestidas de verde no centro de um animado salão de festas, tão inequivocamente apaixonadas que o salão todo se inflama com o calor.

Ela pede que Marco tire uma só carta. Fica surpresa quando é atendida.

Mas que a carta virada seja La Papesse não a surpreende.

Quando ele sai, Isobel retira o cartaz da tenda para aquela noite.

Às vezes ela retira o cartaz mais cedo, ou durante períodos em que se cansa de fazer leituras ou precisa de um descanso. Em geral passa esses intervalos com Tsukiko, mas nesta noite em particular ela não sai à procura da contorcionista, e prefere ficar sozinha à sua mesa, embaralhando compulsivamente suas cartas de tarô.

Abre uma carta, depois outra e mais outra.

Só espadas. Fileiras de espadas pontiagudas. Quatro. Nove. Dez. O único ás de espadas.

Devolve as cartas para o baralho.

Abandona-as para tentar outra coisa.

A caixa de chapéu está embaixo da mesa. É o lugar mais seguro em que conseguiu pensar, de acesso mais fácil. Às vezes, chega mesmo a se esquecer de que está ali, escondida embaixo do veludo cascateante. Sempre suspensa entre ela e seus consulentes. Uma presença invisível.

Agora se abaixa e traz a caixa das sombras do veludo para a bruxuleante luz das velas.

É simples e redonda, coberta de seda negra. Não tem fecho nem dobradiças, e a tampa é mantida no lugar por duas fitas, uma preta e outra branca, amarradas em nós cuidadosos.

Isobel deposita a caixa sobre a mesa e remove uma grossa camada de poeira da tampa, embora boa parte permaneça nos nós das fitas. Hesita por um instante, pensando por um momento se não seria melhor parar e devolvê-la ao seu lugar de descanso. Mas isso parece não fazer mais diferença.

Desata os nós lentamente, usando as pontas dos dedos. Quando as fitas se soltam o suficiente para que seja possível abrir a tampa, ela a coloca de lado com cuidado, como se tivesse medo do que pode encontrar dentro.

Dentro da caixa há um chapéu.

Está exatamente como ela o deixou. Um velho chapéu-coco preto, já meio desgastado ao longo da aba. Está amarrado com mais fitas pretas e brancas, embrulhado como um presente em laços claros e escuros. Sob os nós da fita há uma única carta de tarô. Entre o chapéu e a carta há um lenço de renda dobrado, as barras bordadas representando vinhas pretas retorcidas.

Eram coisas tão simples... Alguns nós e a intenção.

Ela tinha achado graça naquelas aulas, preferindo suas cartas. Pareciam mais claras comparativamente, apesar da miríade de significados.

Era apenas uma precaução. É bom se precaver diante de circunstâncias tão imprevisíveis. Como levar um guarda-chuva ao sair para caminhar numa tarde em que parece que vai chover, mesmo se o sol ainda estiver brilhando.

Não sabe ao certo se aquilo está fazendo algo mais do que acumular pó, não mesmo. Não tem como saber com certeza, não existe um barômetro que possa medir coisas tão insubstanciais. Nenhum termômetro para o caos. Naquele momento, a impressão é de que ela está sendo sugada pelo vácuo.

Isobel tira o chapéu da caixa com cuidado, as pontas mais longas das fitas derramando-se como uma cachoeira ao redor. É bem bonito para um chapéu velho com um lenço e uma carta presos por uma fita esfiapada. Quase festivo.

— Os menores encantamentos podem ser os mais eficientes — diz Isobel, chocada ao ouvir a própria voz, quase à beira das lágrimas.

O chapéu não responde.

— Acho que você não está fazendo nenhum efeito — diz.

Mais uma vez, nenhuma resposta.

Ela só queria manter o circo em equilíbrio. Evitar que dois lados em conflito causassem prejuízo um ao outro ou ao que estivesse por perto.

Evitar que a balança se quebrasse.

A todo momento, ela revê na memória os dois no salão de festas.

Lembra-se de trechos de uma discussão entreouvida. Marco dizendo que havia feito tudo para ela, uma afirmação que não entendeu na época e de que logo depois se esqueceu.

Mas agora está claro.

Toda a emoção quando tentava ler as cartas sobre ele, tudo aquilo era para Celia.

O circo propriamente dito, tudo era para ela. Para cada linda tenda que ele cria, ela constrói outra em retribuição.

E a própria Isobel tem contribuído para manter o equilíbrio. Ajudando Marco. Ajudando os dois.

Olha para o chapéu em suas mãos.

A renda branca acariciando a lã preta, as fitas entrelaçadas. Inseparáveis.

Isobel rasga as fitas, avançando sobre o chapéu com uma fúria súbita.

O lenço cai flutuando como um fantasma, as iniciais C. N. B. legíveis entre as vinhas bordadas.

A carta do tarô cai no chão, virada para cima. A imagem de um anjo na superfície, a palavra Tempérance escrita embaixo.

Isobel para e prende a respiração. À espera de alguma repercussão, algum resultado da ação. Mas tudo está tranquilo. As velas bruxuleiam à sua volta. A cortina de contas está calma e imóvel. De repente ela se sente tola e ingênua, sozinha em sua tenda com uma pilha de fitas emaranhadas e um chapéu velho. Considera-se uma louca por acreditar que teria alguma influência naquelas coisas. Que qualquer coisa que fizesse teria importância.

Abaixa-se para recolher a carta caída, mas sua mão se imobiliza antes de tocá-la ao ouvir algo. Por uma fração de segundo ouve um som estridente como o freio de um trem.

Leva alguns instantes para Isobel perceber que o ruído vindo de fora da tenda é na verdade o som de Poppet Murray gritando.

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