O Circo da Noite
Tête-à-Tête
LONDRES, AGOSTO DE 1896
O Jantar da Meia-Noite está bem tranquilo esta noite, apesar do número
de convidados. O circo está se preparando para outra temporada perto de Londres, tendo saído recentemente de Dublin, por isso há diversos artistas entre os convidados. Sr. Barris veio de Viena fazer uma visita.
Celia Bowen passa a maior parte da refeição conversando com Mme. Padva, que está à sua esquerda, envolta numa seda lápis-lazúli.
O vestido que Celia usa é um modelo de Mme. Padva criado para suas apresentações, mas depois considerado inapropriado, pois o tecido prateado capta luz em cada prega e curva de tal forma que se provou muito distrativo. O efeito era tão deslumbrante que Celia não conseguiu descartá-lo, guardando-o para ocasiões normais.
— Alguém não consegue tirar os olhos de você, querida — observa Mme. Padva, apontando discretamente o cálice na direção da porta, onde Marco está em pé em silêncio, as mãos cruzadas atrás das costas.
— Talvez ele esteja admirando sua obra-prima — replica Celia sem virar a cabeça.
— Posso apostar que está mais interessado no conteúdo do que no vestido.
Celia apenas sorri, mas sabe que Mme. Padva está certa, pois também sentiu o olhar de Marco queimando em sua nuca a noite toda, e acha cada vez mais difícil ignorá-lo.
A atenção dele só desvia de Celia uma vez, quando Chandresh derruba uma pesada taça de cristal que quase quebra um dos candelabros, derramando vinho tinto nos brocados dourados da toalha de mesa.
Mas, antes que Marco possa reagir, Celia levanta-se do outro lado da mesa e endireita a taça sem tocar nela, um detalhe que só Chandresh tem a devida perspectiva para perceber. Quando recolhe a mão, a taça está cheia outra vez, a toalha de mesa imaculada.
— Que desastrado — murmura Chandresh, olhando para Celia com atenção antes de retomar a conversa com Sr. Barris.
— Você poderia ser uma bailarina — comenta Mme. Padva com Celia. — Tem boa postura. Fica bem de pé.
— Também sou boa sem usar os pés — replica Celia, e Sr. Barris quase derruba a taça de vinho enquanto Mme. Padva solta uma gargalhada.
Até o fim do jantar, Celia mantém um olhar atento em Chandresh. Ele passa a maior parte do tempo discutindo uma espécie de reforma da casa com Sr. Barris, às vezes se repetindo, embora Sr. Barris finja não notar. Chandresh não toca mais em sua taça de vinho, que ainda está cheia quando os pratos são retirados.
Após o jantar, Celia é a última a ir embora. Ao sair, ela percebe que esqueceu o xale e diz a todos que não esperem por ela enquanto volta à casa para procurá-lo, despedindo-se com um aceno.
A tentativa de localizar uma longa renda marfim no caos singular da maison Lefèvre se mostra difícil. Mesmo refazendo seus passos pela biblioteca e pelo salão de jantar, ela não consegue encontrar nada.
Afinal abandona sua busca e volta ao saguão, onde Marco está perto da porta com o xale dobrado casualmente no braço.
— Está procurando por isto, Srta. Bowen? — pergunta.
Faz um movimento para colocá-lo nos ombros dela, mas a renda se desmancha em seus dedos e vira pó.
Quando ele olha outra vez, ela já está com o xale, assentado com perfeição, como se nunca tivesse sido removido.
— Obrigada — diz Celia. — Boa noite. — E passa por Marco antes que ele consiga responder.
— Srta. Bowen? — chama Marco enquanto a segue pela escada.
— Sim? — responde Celia, virando-se quando ele chega à calçada.
— Eu tinha esperança de importuná-la com aquele convite para um drinque que não tomamos em Praga — diz Marco, mantendo os olhos firmes nos dela enquanto ela pensa a respeito.
A intensidade do olhar dele mostra-se ainda maior do que quando estava em sua nuca, e, enquanto Celia sente a coerção daquilo, uma técnica que seu pai sempre gostou, existe também algo de autêntico, quase como um apelo.
É isso, além de curiosidade, que faz com que concorde com um aceno de cabeça.
Marco sorri e volta a entrar na casa, deixando a porta aberta.
Ela o segue depois de alguns instantes. A porta se fecha atrás dela.
A sala de jantar foi arrumada, mas as velas gotejantes continuam queimando nos candelabros.
Duas taças de vinho estão sobre a mesa.
— Onde está Chandresh? — pergunta Celia ao pegar uma das taças e ir para o lado oposto da mesa ao que está Marco.
— Retirou-se para o quinto andar — responde Marco, pegando a outra taça. — Chandresh reformou os antigos aposentos dos empregados e transformou-os em ambientes privados, porque gosta da vista do rio. Não descerá até o amanhecer. Os demais empregados já foram embora, portanto temos quase a casa inteira para nós.
— Você costuma entreter os seus convidados particulares depois que os dele foram embora? — pergunta Celia.
— Nunca.
Celia observa-o enquanto beberica o vinho. Algo em sua aparência a perturba, mas ela não consegue identificar exatamente o que é.
— É verdade que Chandresh insistiu em que todo o fogo do circo seja branco para combinar com o esquema de cores? — pergunta depois de um instante.
— É verdade — responde Marco. — Ele me pediu para entrar em contato com um químico ou algo assim. Eu optei por cuidar disso sozinho. — Passa os dedos sobre as velas na mesa e as chamas mudam do dourado morno para o branco gelado, tingidas com um azul prateado no centro. Passa os dedos na outra direção e elas voltam ao normal. — Como você chama isso? — indaga.
Celia não precisa perguntar o que ele quer dizer com aquilo.
— Manipulação. Chamava de mágica quando era mais nova. Demorou algum tempo para eu perder esse hábito, embora meu pai nunca tenha ligado para o termo. Ele chamava de encantamento, ou manipulação à força do Universo, quando não estava muito lacônico.
— Encantamento? — repete Marco. — Nunca pensei nisso dessa maneira.
— Tolice — comenta Celia. — É exatamente o que você faz. Você encanta. E é muito bom nisso. Há várias pessoas apaixonadas por você. Isobel. Chandresh. E deve haver outras.
— Como você sabe sobre Isobel? — pergunta Marco.
— A companhia do circo é bem grande, mas todos falam uns sobre os outros — responde Celia. — Ela parece bastante dedicada a alguém que nenhum de nós conhece. Percebi logo que ela presta muita atenção em mim, cheguei até a pensar que pudesse ser a minha oponente. Depois que você apareceu em Praga quando ela esperava por alguém, foi simples deduzir o restante. Acredito que ninguém mais saiba. Os gêmeos Murray têm uma teoria de que ela está apaixonada pelo sonho de alguém, e não por uma pessoa real.
— Os gêmeos Murray parecem bem inteligentes — observa Marco. — Mas, se eu sou tão encantador assim, nem sempre é intencional. Foi útil para garantir minha posição junto a Chandresh, pois eu só tinha uma referência e pouca experiência. Mas não parece funcionar tão bem com você.
Celia põe a taça na mesa, ainda sem saber ao certo o que fazer. A luz bruxuleante das velas ressalta a característica indistinta do rosto de Marco, e ela olha para outro lado ao responder, desviando a atenção para o que há em torno da lareira.
— Meu pai costumava fazer algo parecido — começa a dizer. — Essa sedução cativante, atraente. Passei os primeiros anos de vida observando minha mãe se consumir por ele, que permanecia imperturbável. Amando-o e desejando-o bem depois de ele já ter perdido o pouco interesse que teve por ela. Até o dia em que tirou a própria vida, quando eu tinha 5 anos. Quando tive idade para entender, prometi a mim mesma que nunca sofreria assim por ninguém. Vai ser preciso bem mais do que esse seu sorriso charmoso para me seduzir.
Mas, quando ela volta a olhar para ele, o sorriso charmoso desapareceu.
— Lamento muito por você ter perdido sua mãe dessa maneira — diz Marco.
— Foi há muito tempo — replica Celia, surpresa com a autenticidade da empatia. — Mas obrigada.
— Você se lembra bem dela? — pergunta.
— Lembro-me mais de impressões do que de fatos. Lembro que estava sempre chorando. Lembro que me olhava como se eu fosse alguém a ser temido.
— Eu não me lembro dos meus pais — diz Marco. — Não tenho lembranças anteriores ao orfanato de onde fui tirado por preencher algum critério não especificado. Tive que ler muito, viajei e estudei e fui preparado para fazer parte de uma espécie de jogo clandestino. É o que tenho feito a maior parte da minha vida, além de cuidar da contabilidade e dos registros e do que mais Chandresh precisar.
— Por que você está sendo tão honesto comigo? — pergunta Celia.
— Porque é revigorante ser honesto com alguém para variar — responde Marco. — E imagino que ficaria sabendo na mesma hora se eu mentisse para você. Espero que possa ser sincera comigo também.
Celia pensa a respeito por um instante antes de concordar.
— Você lembra um pouco o meu pai — diz.
— Como assim? — pergunta Marco.
— A maneira como manipula a percepção. Eu nunca fui muito boa nisso, sou melhor com coisas tangíveis. Você não precisa fazer isso comigo, a propósito — acrescenta, percebendo afinal o que a desconcerta na aparência dele.
— Fazer o quê? — pergunta Marco.
— Ficar desse jeito. É muito bem-feito, mas dá para ver que não é totalmente autêntico. Deve ser terrível manter essa postura o tempo todo.
Marco franze o cenho, mas depois, muito gradualmente, sua fisionomia começa a mudar. O cavanhaque esmaece até desaparecer. Os traços cinzelados suavizam-se e rejuvenescem. Seus intensos olhos verdes passam a um cinza-esverdeado.
O falso rosto era bonito, sim, mas de uma maneira forçada. Como se ele estivesse muito ciente de sua beleza, algo que Celia não achava atraente.
E havia algo mais, uma superficialidade que talvez fosse resultado da ilusão, uma impressão de que ele não estava inteiramente presente no ambiente.
Mas agora há outra pessoa ao seu lado, muito mais presente, como se uma barreira que os separava tivesse sido removida. Ela o sente mais próximo, ainda que a distância entre os dois não tenha mudado, e além disso seu rosto continua muito bonito.
A intensidade de seu olhar aumenta com os novos olhos. Agora, ao olhar para ele Celia consegue enxergar mais fundo sem ser distraída pela cor.
Ela sente um calor subindo por seu pescoço, mas se controla para que seu rubor não seja notado à luz das velas.
E então percebe por que aquela situação lhe parece familiar.
— Eu já vi você assim antes — diz, localizando suas verdadeiras feições na memória. — Você assistiu ao meu espetáculo desse jeito.
— Você se lembra de todas as suas plateias? — pergunta Marco.
— Nem todas — responde Celia. — Mas me lembro das pessoas que me olham desse jeito.
— E que jeito seria esse?
— Como se não conseguissem decidir se têm medo de mim ou se querem me beijar.
— Eu não tenho medo de você — diz Marco.
Eles se olham em silêncio por um tempo, as velas bruxuleando ao redor.
— Parece muito esforço por uma diferença sutil — comenta Celia.
— Tem suas vantagens.
— Acho que você fica melhor assim — sugere. Marco parece tão surpreso que ela acrescenta: — Eu disse que seria honesta, não disse?
— Você me lisonjeia, Srta. Bowen — observa Marco. — Quantas vezes já esteve nesta casa?
— Pelo menos uma dúzia — responde Celia.
— E mesmo assim nunca fez um tour.
— Nunca fui convidada.
— Chandresh não acredita nesses tours. Ele prefere manter a casa como um enigma. Se os convidados não sabem onde estão os limites, a impressão é de que a casa continua para sempre. Antes eram duas construções, por isso às vezes o lugar parece meio desorientador.
— Eu não sabia disso — admite Celia.
— Eram casas geminadas, uma o reflexo da outra. Chandresh comprou as duas e as reformou para serem uma só, fazendo várias melhorias. Acho que não temos tempo para um tour completo, mas eu poderia mostrar alguns dos aposentos mais obscuros, se quiser.
— Quero, sim — diz Celia, depositando a taça de vinho ao lado da dele na mesa. — Você costuma fazer tours proibidos na casa do seu patrão?
— Só fiz isso uma vez, e mesmo assim porque Sr. Barris foi muito insistente.
*
SAINDO DA SALA DE JANTAR, eles passam sob a sombra da estátua da cabeça de elefante no corredor, entram na biblioteca e param em frente ao pôr do sol pintado no vidro jateado que cobre uma parede inteira.
— Esta é a sala de jogos — diz Marco, empurrando o vidro e abrindo a passagem para o cômodo seguinte.
— Muito apropriado.
Jogo é mais o tema do que a função da sala. Há muitos tabuleiros de xadrez com peças faltando, e peças sem tabuleiro alinhadas em parapeitos de janelas e estantes. Alvos para dardos sem dardos estão pendurados ao lado de jogos de gamão com partidas pela metade.
A mesa de bilhar no centro é coberta por um feltro vermelho cor de sangue.
Uma seleção de armas alinha-se na parede, organizada em pares. Sabres, pistolas e floretes, todos emparelhados, preparados para dezenas de duelos em potencial.
— Chandresh aprecia armamentos antigos — explica Marco enquanto Celia os observa. — Existem peças em outras salas, mas a maior parte da coleção está aqui.
Marco a observa com atenção enquanto ela anda pela sala. Parece tentar não sorrir ao examinar aquelas peças de jogos arranjadas artisticamente ao redor.
— Você está sorrindo como se tivesse um segredo — comenta ele.
— Eu tenho muitos segredos — diz Celia, olhando para ele por cima do ombro antes de voltar a atenção para a parede. — Quando você soube que eu era a sua oponente?
— Não sabia até seu teste. Antes disso você foi um mistério por muitos anos. E tenho certeza de que você percebeu que me pegou de surpresa. — Faz uma pausa antes de acrescentar: — Não posso dizer que tenha sido uma vantagem. Há quanto tempo você sabe?
— Fiquei sabendo naquela chuva em Praga, e você sabe muito bem que foi ali que eu descobri — diz Celia. — Você poderia ter me deixado pensando no mistério do guarda-chuva, mas preferiu ir atrás de mim. Por quê?
— Eu o queria de volta — responde Marco. — Gosto muito daquele guarda-chuva. E já estava cansado de me esconder de você.
— Eu já desconfiei de cada um e de todo mundo — diz Celia. — Mas achei que o mais provável era que fosse alguém do circo, mesmo. Eu devia saber que era você.
— Por quê? — pergunta Marco.
— Porque você finge ser menos do que é — responde ela. — É claro como o dia. Mas admito que nunca pensei em transformar o meu guarda-chuva em algo mágico.
— Eu morei a maior parte da vida em Londres — explica Marco. — Assim que aprendi a encantar objetos, foi uma das primeiras coisas que fiz.
Marco tira o paletó e joga sobre uma das poltronas de couro no canto. Pega um baralho de uma prateleira, sem saber se ela vai aceitar, mas curioso demais para deixar de tentar.
— Você quer jogar? — pergunta Celia.
— Não exatamente — responde Marco enquanto embaralha. Quando termina, põe as cartas sobre a mesa de bilhar.
Vira uma delas. O rei de espadas. Bate na superfície delicadamente com o dedo e o rei de espadas transforma-se em rei de copas. Ergue e espalma a mão sobre a carta, convidando-a a fazer o próximo movimento.
Celia sorri. Retira o xale dos ombros e o coloca ao lado do paletó dele. Fica em pé com as mãos cruzadas às costas.
O rei de copas ergue-se, equilibrado na borda. Paira por alguns instantes antes de se rasgar em dois lentamente. As duas partes ficam em pé, separadas por um tempo antes de caírem, com o verso ilustrado para cima.
Imitando o gesto de Marco, Celia bate a carta e as duas partes voltam a se juntar. Recolhe a mão e ela vira-se sozinha. A rainha de ouros.
Logo depois o baralho inteiro flutua no ar por um instante antes de cair na mesa, cartas espalhadas sobre a superfície de feltro vermelho.
— Você é melhor do que eu em manipulação física — admite Marco.
— Eu tenho uma vantagem — diz Celia. — O que meu pai chama de talento natural. Chego a ter dificuldades para não influenciar o que está ao meu redor. Eu estava sempre quebrando coisas quando criança.
— Quanta influência você tem em coisas vivas? — pergunta Marco.
— Depende da coisa em questão — responde Celia. — Objetos são mais fáceis. Demorei anos para controlar algo com vida. E trabalho muito melhor com os meus pássaros do que com qualquer pombo velho recolhido na rua.
— O que você poderia fazer comigo?
— Poderia mudar o seu cabelo, talvez sua voz — diz Celia. — Não mais do que isso sem o seu pleno consentimento e consciência, e o verdadeiro consentimento é mais difícil de conceder do que se pode imaginar. Não posso curar ferimentos. Minhas intervenções em geral são superficiais e temporárias. Fica mais fácil com gente que conheço melhor, embora nunca seja particularmente fácil.
— E com você mesma?
Em resposta, Celia vai até a parede e retira uma pequena adaga otomana com cabo de jade do nicho onde está pendurada com seu par. Segurando-a com a mão direita, ela apoia a palma da mão esquerda na mesa de bilhar, sobre as cartas espalhadas. Sem hesitar, crava a lâmina nas costas da mão, atravessando pele, carne e cartas até chegar ao feltro abaixo.
Marco tem um sobressalto, mas não diz nada.
Celia força a adaga para cima, a mão e um dois de espadas ainda presos à lâmina, o sangue começando a escorrer pelo pulso. Exibe a mão, girando-a lentamente, como se fosse uma apresentação, para que Marco veja que não há ilusão envolvida.
Com a outra mão ela retira a adaga, e a carta ensanguentada cai no chão. Pouco depois as gotas de sangue começam a se retrair, voltando para o corte na palma da mão, que encolhe até desaparecer e deixar apenas uma fina linha vermelha na pele, e depois nada.
Ela toca a carta e o sangue desaparece. O corte deixado pela lâmina não é mais visível. Agora a carta é um dois de copas.
Marco pega a carta e passa os dedos sobre a superfície remendada. Depois, com um movimento sutil de sua mão, a carta desaparece. Está guardada em seu bolso, em segurança.
— Fico contente por não termos sido desafiados para um confronto físico — diz. — Acho que você teria vantagem.
— Meu pai costumava cortar as pontas dos meus dedos uma a uma até eu conseguir curar as dez de uma vez — conta Celia, recolocando a adaga em seu lugar na parede. — Muito da sensação vem de dentro, de como tudo supostamente se encaixa, por isso nunca fui capaz de fazer isso com mais ninguém.
— Acho que suas aulas foram muito menos acadêmicas do que as minhas.
— Eu teria preferido ler mais.
— Acho estranho nós termos sido preparados em termos tão radicalmente diferentes para o mesmo desafio — observa Marco.
Ele olha outra vez para a mão de Celia, mas agora não há nada de anormal, nenhum sinal de ter sido esfaqueada instantes atrás.
— Desconfio que faça parte da história — diz ela. — Duas escolas de pensamento colocadas uma contra a outra, funcionando no mesmo ambiente.
— Confesso — continua Marco — que ainda não entendi essa história, mesmo depois de todo esse tempo.
— Nem eu — admite Celia. — Desconfio de que chamar isso de desafio ou jogo não é muito preciso. Agora penso nisso mais como uma exibição dupla. A que mais eu tenho direito no meu tour?
— Gostaria de ver algo em desenvolvimento? — pergunta Marco.
Saber que ela pensa no circo como uma exibição é uma grata surpresa, pois ele já parou de pensar em termos antagônicos anos atrás.
— Gostaria — concorda Celia. — Em especial se for o projeto de que Sr. Barris estava falando durante o jantar.
— É esse mesmo.
Marco a conduz para fora da sala de jogos por outra porta, passando rapidamente pelo saguão e entrando num grande salão de festas nos fundos da casa, onde a luz da lua penetra as portas de vidro na parede.
*
DO LADO DE FORA, no espaço antes ocupado pelo jardim além do terraço, a área foi escavada a um nível abaixo da superfície. No momento é basicamente um amontoado de terra batida e pilhas de pedras formando muralhas altas e rudimentares.
Celia desce os degraus de pedra um a um, com cuidado, e Marco a segue. Assim que chegam lá embaixo, as muralhas criam um labirinto, deixando apenas pequenas porções do jardim visíveis de cada vez.
— Achei que seria bom Chandresh ter um projeto com que se ocupar — explica Marco. — Como hoje em dia ele quase não sai de casa, reformar o jardim me pareceu um bom lugar para começar. Gostaria de ver como vai ficar quando estiver concluído?
— Gostaria — concorda Celia. — Você tem as plantas baixas daqui?
Em resposta, Marco ergue uma das mãos e faz um gesto abrangente.
O que instantes atrás eram apenas pilhas de pedras irregulares se transforma em caminhos e arcos ornamentados, cobertos de videiras rastejantes e salpicados com pequenas lanternas brilhantes. Rosas pendem de treliças em abóbodas acima deles, o céu noturno visível através dos espaços entre os botões.
Celia leva a mão aos lábios para abafar um sobressalto. A cena toda, desde o aroma das rosas até o calor irradiado pelas lanternas, é surpreendente. Ela consegue ouvir uma fonte borbulhante ali perto e desce a trilha agora coberta de grama para ver mais de perto.
Marco a segue enquanto ela explora, fazendo as curvas entre as passagens sinuosas.
A fonte no centro cascateia por uma parede de pedra entalhada, fluindo para um laguinho cheio de carpas ornamentais. As escamas brilham à luz do luar, respingos brilhantes brancos e alaranjados na água escura.
Celia estende a mão, a água da fonte passando através de seus dedos enquanto ela pressiona a pedra fria abaixo.
— Você está fazendo isso na minha mente, não é? — pergunta, ao ouvir Marco atrás dela.
— Só porque você está permitindo — responde ele.
— Eu poderia parar, você sabe — observa Celia, virando-se para olhar para ele, recostado no vão de um arco de pedra, observando-a.
— Tenho certeza de que sim. Se você resistisse, isso não funcionaria tão bem, e pode ser bloqueado quase inteiramente. E, claro, a proximidade é essencial para a imersão.
— Você não pode fazer isso com o circo — diz Celia.
Marco dá de ombros.
— A distância é muito grande, infelizmente — diz. — É uma das minhas especialidades, mas tenho poucas chances de usá-la. Não gosto de criar esse tipo de ilusão para ser vista por mais de uma pessoa de cada vez.
— É incrível — comenta Celia, observando as carpas nadando aos seus pés. — Eu nunca consegui criar nada tão elaborado, ainda que me chamem de ilusionista. Esse título cai melhor em você do que em mim.
— Imagino que “A linda mulher que pode manipular o mundo com a mente” soe um tanto canhestro.
— Acho que não caberia no cartaz do lado de fora da minha tenda.
O riso dele é grave e cálido, e Celia vira-se para o outro lado para esconder o sorriso, ainda atenta às ondulações da água.
— Também não existe aplicação para uma das minhas especialidades — diz Celia. — Sou muito boa na manipulação de tecidos, mas parece tão desnecessário comparado ao que Madame Padva consegue fazer... — Ela roda o vestido e o prateado capta a luz, de forma que Celia está tão iluminada quanto as brilhantes lanternas.
— Eu acho que ela é uma bruxa — diz Marco. — E digo isso como um elogio.
— Acho que ela consideraria um elogio, mesmo — replica Celia. — Você também está vendo tudo isso, exatamente como eu?
— Mais ou menos — responde Marco. — Quanto mais perto eu estiver de quem vê, mais detalhadas são as nuances.
Celia dá a volta no lago e fica mais perto de onde ele está. Examina os entalhes na pedra e as vinhas emaranhadas ao redor, mas seu olhar continua voltando para Marco. Qualquer tentativa de sutileza é arruinada sempre que ele nota que o olhar dela está no seu. Desviar torna-se mais difícil a cada vez.
— Você foi inteligente em usar a fogueira como estímulo — comenta ela, tentando manter a atenção em uma diminuta lanterna brilhando.
— Não me surpreende que você tenha percebido — diz Marco. — Eu tive de arrumar um jeito de me manter conectado, já que não posso viajar com o circo. O acendimento da fogueira pareceu uma oportunidade perfeita para estabelecer um vínculo duradouro. Afinal, eu não queria que você tivesse muito controle.
— Houve repercussões — diz Celia.
— Como assim?
— Digamos que há mais coisas notáveis nos gêmeos Murray além dos cabelos.
— E você não vai me dizer o que é, vai? — pergunta Marco.
— Uma dama não pode revelar todos os seus segredos — diz Celia. Colhe uma rosa de um galho baixo, fechando os olhos ao inalar o perfume, as pétalas tocando sua pele como um veludo suave. Os detalhes sensoriais da ilusão são muito sedutores, quase inebriantes. — Quem pensou em fazer este jardim? — pergunta.
— Chandresh. Foi inspirado em outra sala da casa. Posso mostrar, se você quiser.
Celia balança a cabeça afirmativamente e os dois refazem os passos que os levaram ao jardim. Ela fica mais perto dele enquanto conversam, os dois tão próximos que podem se tocar, embora ele mantenha as mãos cruzadas às costas. Quando chegam ao terraço, Celia vira a cabeça e olha outra vez para o jardim, onde as rosas e as lanternas voltaram a ser terra e pedra.
*
DENTRO DA CASA, MARCO CONDUZ CELIA pelo salão de festas. Para na parede do outro lado do salão e desliza um painel de madeira escura que revela uma escada de caracol para o andar de baixo.
— É uma masmorra? — pergunta Celia enquanto eles descem.
— Não exatamente — responde Marco. Quando chegam à porta dourada no final da escada, Marco abre-a para ela. — Cuidado com o degrau.
A sala é pequena, mas o teto é alto, com um lustre adornado de cristais pendurado no centro. As paredes em curva e o teto são pintados de um azul profundo e vibrante e o teto é ornado de estrelas.
Há uma trilha ao redor da sala, como um parapeito, embora a maior parte do piso seja mais baixa e forrada por grandes almofadas cobertas de belas sedas das cores do arco-íris.
— Chandresh afirma que seguiu o modelo do quarto de uma cortesã em Bombaim — explica Marco. — Eu acho maravilhoso para leitura.
Celia ri, e um cacho de cabelo cai sobre seu rosto.
Marco ensaia um movimento para afastar o cabelo de seu rosto, mas antes que seus dedos a alcancem ela se joga do parapeito, o vestido prateado formando uma nuvem quando ela cai sobre uma pilha de almofadas de vários tons.
Marco a observa por um instante antes de imitá-la, afundando no meio da sala ao seu lado.
Os dois ficam deitados olhando para o lustre acima, a luz refletindo nos cristais e transformando-os num céu noturno sem necessidade de qualquer ilusão.
— Com que frequência você consegue visitar o circo? — pergunta Celia.
— Não tanto quanto gostaria. Sempre que ele está perto de Londres, claro. Tento chegar a outras partes da Europa quando consigo escapar de Chandresh por tempo suficiente. Às vezes sinto que tenho um pé em cada lado. Sinto-me tão familiar e íntimo, mas é sempre uma surpresa.
— Qual é a sua tenda favorita?
— Sinceramente? É a sua.
— Por quê? — pergunta, virando-se para ele.
— É uma questão de gosto, suponho. Você faz em público coisas que aprendi em segredo. Talvez eu as aprecie num nível diferente do da maioria. Também gosto muito do Labirinto das Câmaras. Não sabia bem se você iria querer ou não colaborar com ele.
— Ouvi um longo sermão sobre essa colaboração em particular — diz Celia. — Meu pai o chamou de justaposição promíscua. Ele deve ter pensado durante dias para arranjar um insulto que valesse a pena. Diz que é de mau gosto combinar aptidões, nunca entendi por quê. Eu adoro esse Labirinto, me diverti muito acrescentando partes a ele. Gosto especialmente do corredor em que neva que você fez. É possível ver as pegadas deixadas por outros que passaram por lá.
— Eu nunca tinha pensado nisso de uma maneira tão lasciva — diz Marco. — Vou ter isso em mente na minha próxima visita. Embora eu tenha a impressão de que seu pai não está em posição de fazer comentários a esse respeito.
— Ele não está morto — diz Celia, voltando a olhar para o teto. — É muito difícil explicar.
Marco não pede que ela tente, preferindo voltar ao assunto do circo.
— Qual é a sua tenda favorita? — pergunta.
— O Jardim de Gelo — responde Celia, sem hesitar.
— Por quê? — diz Marco.
— Por causa da sensação — explica ela. — É como entrar num sonho. Como se fosse um lugar diferente, não apenas outra tenda. Ou talvez eu simplesmente goste de neve. Como você teve essa ideia?
Marco reflete sobre o processo, como se nunca tivessem lhe pedido para explicar a origem de suas ideias.
— Achei que poderia ser interessante ter um jardim de inverno, mas é claro que não poderia ser colorido — começa. — Pensei em muitas opções antes de partir para algo feito só de gelo. Fico contente por você pensar nele como um sonho, pois foi daí que nasceu a essência da ideia.
— Foi por isso que fiz a Árvore dos Desejos — explica Celia. — Achei que uma árvore coberta de fogo seria um complemento adequado às feitas de gelo.
Marco repassa em sua cabeça seu primeiro encontro com a Árvore dos Desejos. Uma mistura de aborrecimento e surpresa e anseio que parece diferente vista em retrospecto. Não sabia ao certo se conseguiria acender uma vela, fazer um desejo, cogitando se aquilo não seria de alguma forma contra as regras.
— Todos aqueles desejos são realizados? — pergunta ele.
— Não sei ao certo — responde Celia. — Não tenho sido capaz de acompanhar cada pessoa que tenha feito um desejo. Você fez um?
— Talvez.
— Ele se realizou?
— Ainda não tenho certeza.
— Você precisa me avisar quando isso acontecer — diz Celia. — Espero que se realize. Tenho a impressão de que, de certa forma, fiz a Árvore dos Desejos para você.
— Você nem sabia quem eu era na época — diz Marco, olhando para ela. A atenção de Celia continua no lustre, mas aquele fascinante sorriso de quem esconde segredos voltou.
— Eu não conhecia a sua identidade, mas tinha uma ideia de quem era o meu oponente, uma vez que estava cercada por coisas que você fez. Achei que você iria gostar.
— E gosto mesmo — confirma Marco.
O silêncio que cai entre eles é confortável. Marco anseia por tocar nela, mas resiste, com medo de destruir o delicado companheirismo que estão construindo. Prefere lançar olhares, observando a maneira como a luz cai na pele dela. Diversas vezes ele a surpreende olhando para ele da mesma forma, e os momentos em que ela mantém os olhos nos dele são sublimes.
— Como você impede que todos envelheçam? — pergunta Celia depois de um tempo.
— Com muito cuidado — responde Marco. — E eles estão envelhecendo, só que muito lentamente. Como você está transportando o circo?
— Em um trem.
— Em um trem? — pergunta Marco, incrédulo. — Aquele circo inteiro transportado por um único trem?
— É um trem grande — explica Celia. — E é mágico — acrescenta, e Marco ri.
— Eu confesso, Srta. Bowen, que você não é quem eu esperava.
— Posso assegurar que o sentimento é mútuo.
Marco levanta-se, recuando até o trecho do parapeito junto à porta.
Celia estende a mão para que ele a ajude a se levantar. É a primeira vez que Marco toca na pele dela.
A reação no ar é imediata. De repente uma descarga ondula pela sala, nítida e brilhante. O lustre começa a balançar.
O sentimento que percorre a pele de Marco é intenso e íntimo, começando pela palma da mão que encontra a dela e espalhando-se bem além, mais distante e mais profundo.
Celia larga a mão dele assim que recupera o equilíbrio, recuando e recostando-se na parede. A sensação começa a diminuir assim que as mãos se separam.
— Desculpe-me — diz ela em voz baixa, evidentemente sem fôlego. — Você me pegou de surpresa.
— Desculpe-me — diz Marco, com o coração pulsando tão alto nos ouvidos que mal consegue ouvi-la. — Embora eu não possa dizer ao certo o que aconteceu.
— Eu tendo a ser muito sensível à energia — diz Celia. — Pessoas que fazem o tipo de coisa que você e eu fazemos são portadoras de um tipo muito palpável de energia, e eu... ainda não estou acostumada com a sua.
— Só espero que a sensação tenha sido tão agradável para você quanto foi para mim.
Celia não responde, e para evitar pegar na mão dela outra vez, Marco abre a porta e a conduz de volta à escada de caracol.
*
ELES CONVERSAM ENQUANTO CAMINHAM pelo salão de festas iluminado pela lua, os passos ecoando ao mesmo tempo.
— Como está Chandresh? — pergunta Celia, tentando encontrar um assunto para quebrar o silêncio, qualquer coisa que a distraia das mãos ainda trêmulas, e recordando-se da taça derrubada no jantar.
— Ele oscila — responde Marco com um suspiro. — Vem perdendo a concentração desde que o circo estreou. Eu... eu faço o que posso para mantê-lo estável, mas temo que isso tenha um efeito prejudicial na memória dele. Eu não queria, mas depois do que aconteceu com a falecida Srta. Burgess achei que era a melhor coisa a fazer.
— Ela se encontrava na peculiar situação de estar envolvida em tudo isso, mas não dentro do próprio circo — diz Celia. — Com certeza não é a melhor perspectiva para se administrar. Ao menos você pode cuidar de Chandresh.
— É verdade — concorda Marco. — Gostaria que houvesse uma maneira de proteger os que estão fora do circo da mesma forma que a fogueira protege os que estão dentro.
— A fogueira? — indaga Celia.
— A fogueira serve a diversos propósitos. O principal é ser minha conexão com o circo, mas também funciona como uma espécie de salvaguarda. Eu negligenciei o fato de que não resguarda os que estão fora da cerca.
— Eu nem cheguei a considerar as salvaguardas — diz Celia. — Acho que não percebi no começo quantas outras pessoas estariam envolvidas no nosso desafio. — Para de caminhar e fica no meio do salão de festas.
Marco também para, mas não diz nada, esperando que ela fale.
— Não foi culpa sua — diz Celia em voz baixa. — O que aconteceu com Tara. As circunstâncias poderiam ter se desenrolado da mesma forma independentemente de qualquer coisa que fizéssemos. Não é possível tirar o livre-arbítrio de ninguém, essa foi a minha primeira lição.
Marco concorda com um aceno de cabeça, e dá um passo na direção de Celia. Estende a mão para tocar na dela, roçando levemente os dedos nos dedos dela.
A sensação é tão forte quanto antes, mas de alguma forma diferente. A atmosfera muda, mas os lustres pendurados acima continuam firmes e imóveis.
— O que está fazendo? — pergunta Celia.
— Você mencionou algo sobre energia — diz Marco. — Estou concentrando a sua com a minha, para não quebrarmos os lustres.
— Se eu quebrar alguma coisa, é provável que consiga consertar — diz Celia, mas não se afasta.
Sem a preocupação com o efeito que pode exercer nos arredores, Celia consegue relaxar com aquela sensação, em vez de resistir a ela. É extraordinário. É o mesmo que sentia em tantas das tendas de Marco, a emoção de estar cercada por algo fantástico e maravilhoso, só que ampliado e concentrado diretamente nela. A sensação da pele dele na sua reverbera em todo o seu corpo, embora seus dedos continuem enlaçados nos dela. Celia olha para ele, atraída outra vez pelos impressionantes olhos verde-acinzentados, e não desvia o olhar.
Os dois encaram-se em silêncio por instantes que se prolongam como horas.
O relógio de parede badala e Celia tem um sobressalto, assustada. Assim que solta a mão de Marco ela quer pegá-la outra vez, mas a noite toda já foi surpreendente o bastante.
— Você esconde isso tão bem... — observa. — Posso sentir a mesma energia irradiando como calor em todas as suas tendas, mas pessoalmente ela fica oculta.
— Dissimulação é um dos meus poderes — diz Marco.
— Não vai ser tão fácil agora que chamou minha atenção.
— Eu gosto de chamar a sua atenção — replica Marco. — Obrigado por tudo. Por ter ficado.
— Eu o perdoo por ter roubado o meu xale.
Ela sorri e Marco ri.
Em seguida ela desaparece. Um truque simples, distrair a atenção por tempo suficiente para se esgueirar pelo vestíbulo, apesar da tentação de ficar mais um pouco.
* * *
MARCO ENCONTRA O XALE DELA esquecido na sala de jogos, ainda em cima de seu paletó.
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