O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 1 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo um

 

Sarai

 

Já faz oito meses que fugi da fortaleza no México onde fui mantida contra minha vontade por nove anos. Estou livre. Levo uma vida “normal”, fazendo coisas normais com gente normal. Não fui mais atacada, ameaçada nem seguida por ninguém que ainda queira me matar. Tenho uma “melhor amiga”, Dahlia. Tenho a coisa mais parecida com uma mãe que já conheci, Dina Gregory. O que mais eu poderia querer? Parece egoísmo desejar qualquer outra coisa. Mas, apesar de tudo o que tenho, algo não mudou: continuo vivendo uma mentira.

Deixei amigos na Califórnia: Charlie, Lea, Alex e... Bri... Não, espera, quero dizer Brandi. Meu ex-namorado, Matt, era abusivo, por isso voltei para o Arizona. Ele me perseguiu por muito tempo depois que terminamos. Consegui uma ordem judicial para mantê-lo afastado, mas não funcionou. Ele atirou em mim há oito meses, mas não posso provar porque não cheguei a vê-lo. E tenho muito medo de denunciá-lo à polícia.

Claro que tudo isso é mentira.

São os pedaços da minha vida que acobertam o que realmente aconteceu comigo. Os pretextos para eu ter desaparecido aos 14 anos e ter ido parar em um hospital da Califórnia com um ferimento a bala. Jamais vou poder contar a Dina, Dahlia ou ao meu namorado, Eric, o que aconteceu de verdade: que fui levada para o México pela péssima versão de mãe que eu tinha, para morar com um chefão do tráfico. Jamais vou poder contar que fugi daquele lugar depois de nove anos e matei o homem que me manteve prisioneira por toda a minha adolescência. Quer dizer, claro que eu poderia contar a alguém, mas, se fizesse isso, só estaria pondo Victor em perigo.

Victor.

Não, nunca vou poder contar que um assassino me ajudou a fugir, ou que testemunhei Victor matando várias pessoas, inclusive a esposa de um empresário famoso e importante de Los Angeles. Nunca vou poder contar que, depois de tudo pelo que passei, depois de tudo o que vi, o que mais quero é fazer as malas e voltar para aquela vida perigosa. A vida com Victor.

Até hoje, falar o nome dele me acalma. Às vezes, quando estou acordada na cama à noite, murmuro seu nome só para ouvi-lo, porque preciso. Preciso dele. Não consigo tirá-lo da cabeça. Já tentei. Porra, e como tentei. Mas, não importa o que eu faça, continuo vivendo cada dia da minha vida pensando nele. Se está me vigiando. Se pensa em mim tanto quanto penso nele. Se ainda está vivo.

Pressiono o travesseiro contra a cabeça e fecho os olhos, imaginando Victor. Às vezes, é só assim que consigo gozar.

Eric aperta minhas coxas com as mãos e me imobiliza na cama, com o rosto enfiado no meio das minhas pernas.

Arqueio o quadril contra ele, roçando de leve contra sua língua frenética, até que ele faça meu corpo todo enrijecer e minhas coxas tremerem ao redor da sua cabeça.

— Meu Deus... — Estremeço enquanto gozo, então deixo os braços caírem entre as pernas, afundando os dedos no cabelo preto de Eric. — Caramba...

Sinto os lábios de Eric tocando minha barriga um pouco acima da pélvis.

Olho para o teto como sempre faço depois de um orgasmo, pois a culpa que sinto me deixa com vergonha de olhar para Eric. Ele é um cara superlegal. Meu namorado sexy de 27 anos, cabelo preto e olhos azuis, gentil, encantador, engraçado e perfeito. Perfeito para mim se eu nunca tivesse conhecido Victor Faust.

Estou arruinada pelo resto da vida.

Enxugo as gotas de suor da testa e Eric sobe pela cama, deitando-se ao meu lado.

— Você sempre faz isso — diz ele, brincando, enquanto cutuca minhas costelas com os nós dos dedos.

Como sinto muitas cócegas, eu me encolho e me viro para encará-lo. Sorrio com ternura e passo um dedo por seu cabelo.

— O que eu sempre faço?

— Esse negócio de ficar em silêncio. — Eric segura meu queixo entre o polegar e o indicador. — Eu faço você gozar e você fica bem quieta durante um tempão.

Eu sei e sinto muito, mas preciso apagar o rosto de Victor da minha cabeça antes de conseguir olhar você nos olhos. Sou uma pessoa horrível.

Eric me dá um beijo na testa.

— Isso se chama recuperação — brinco, beijando os dedos dele. — É totalmente inofensivo. Mas você deveria interpretar como um bom sinal. Você sabe o que está fazendo — digo, retribuindo o cutucão nas costelas.

E ele sabe mesmo o que está fazendo. Eric é ótimo na cama. Mas ainda sou emocionalmente muito ligada... viciada... em Victor, e tenho a sensação de que sempre serei.

Só consegui seguir a vida e me abrir a outros relacionamentos cinco meses depois que Victor foi embora. Conheci Eric no trabalho, na loja de conveniência. Ele comprou um saco de biscoitos e um energético. Depois disso, ele aparecia na loja duas, às vezes três vezes por semana. Eu não queria nada com ele. Queria Victor. Mas comecei a perder a esperança de que Victor um dia fosse voltar para mim.

Eric tenta passar um braço ao redor do meu corpo, mas me levanto casualmente e visto a calcinha. Ele não desconfia de nada, o que é bom. Não sinto vontade de ficar abraçadinha, mas a última coisa que quero é magoá-lo. Ele ergue os braços e entrelaça os dedos atrás da cabeça. Olha para mim, do outro lado do quarto, com um sorriso sedutor. Sempre faz isso quando não estou completamente vestida.

— Sarai.

— Oi. — Visto a camiseta e ajeito o rabo de cavalo.

— Eu sei que está em cima da hora — diz Eric —, mas queria ir com você e Dahlia para a Califórnia amanhã.

Merda.

— Mas você não disse que não ia conseguir folga no trabalho? — pergunto, vestindo o short e calçando os chinelos.

— Quando você perguntou se eu queria ir, não ia dar mesmo. Mas contrataram um funcionário novo, e meu chefe decidiu me dar folga.

Isso é uma péssima notícia. Não porque eu não o queira por perto — gosto de Eric, apesar da minha incapacidade de esquecer Victor Faust —, mas minha viagem de “férias” à Califórnia amanhã não é para fazer turismo, curtir a noite nem fazer compras na Rodeo Drive.

Estou indo até lá para matar um homem. Ou melhor, tentar matar um homem.

Já é ruim que Dahlia vá também, e já vai ser difícil guardar segredo de uma pessoa. Imagine duas.

— Você... não parece animada — comenta Eric, seu sorriso morrendo aos poucos.

Abro um sorriso largo e balanço a cabeça, voltando para perto dele e me sentando na beira da cama.

— Não, não, eu estou animada. É que você me pegou de surpresa. A gente vai sair às seis da manhã. É daqui a menos de oito horas. Você já fez as malas?

Eric dá uma risada e se estica na minha cama, me puxando para si. Eu me sento perto de sua cintura, apoiando um braço no colchão do outro lado dele, com os pés para fora da cama.

— Bom, eu só fiquei sabendo hoje à tarde, antes de sair do trabalho — explica ele. — Eu sei, está em cima da hora, mas só preciso enfiar umas coisas na mala e estou pronto.

Ele estende a mão e afasta do meu rosto os fios de cabelo que escaparam do rabo de cavalo.

— Ótimo! — minto, com um sorriso igualmente falso. — Então acho que está combinado.

 

Dina acorda antes de mim, às quatro da manhã. O cheiro de bacon é o que me desperta. Levanto da cama e entro debaixo do chuveiro antes de me sentar à mesa da cozinha. Um prato vazio já está à minha espera.

— Gostaria que você tivesse escolhido algum outro lugar para passar sua folga, Sarai — afirma Dina.

Ela se senta do outro lado da mesa e começa a encher seu prato. Pego alguns pedaços de bacon do monte e ponho no meu.

— Eu sei — digo —, mas, como falei para você, não vou deixar que meu ex me impeça de ver meus amigos.

Ela balança a cabeça cada vez mais grisalha e suspira.

Passei do limite em algum momento com meu amontoado de mentiras. Quando Victor levou Dina para o hospital em Los Angeles, depois que o irmão dele, Niklas, atirou em mim, ela não fazia ideia do que tinha acontecido. Só sabia que eu tinha levado um tiro. Demorei alguns meses até me sentir segura o suficiente para falar com ela sobre isso. Quer dizer, depois de bolar a história que eu ia contar. Foi aí que inventei o lance do ex-namorado violento. Eu deveria ter dito que fui assaltada. Por um desconhecido. A mentira seria muito mais fácil de manter. Agora que ela sabe que vou voltar para Los Angeles, está morrendo de preocupação, e já faz uns dois meses. Eu nem deveria ter contado que ia voltar lá.

Termino de comer o bacon e um pouco de ovos mexidos, junto com um copo de leite.

Dahlia e Eric chegam juntos assim que termino de escovar os dentes.

— Vamos logo, a gente precisa pegar a estrada — chama Dahlia, me apressando da porta. Seu cabelo castanho-claro está preso no alto da cabeça em um coque desalinhado de quem acabou de acordar.

Eu me despeço de Dina com um abraço.

— Eu vou ficar bem — digo a ela. — Prometo. Não vou nem chegar perto de onde ele mora.

Desta vez, chego até a imaginar um rosto masculino ao falar de alguém que não existe. Acho que já interpreto esse papel há tanto tempo que “Matt” e todos esses meus “amigos” de Los Angeles, de quem falo para todo mundo como se fossem reais, se tornaram reais no meu subconsciente.

Dina força um sorriso em seu rosto preocupado, e suas mãos soltam meus cotovelos.

— Você liga assim que chegar?

— Assim que eu entrar no quarto do hotel, ligo — respondo, assentindo.

Ela sorri e eu a abraço mais uma vez, antes de segui-los até o carro de Dahlia, que está esperando. Eric guarda minha mala no bagageiro, junto com as deles, e se senta no banco de trás.

— Hollywood, aí vamos nós! — exclama Dahlia.

Finjo metade da empolgação dela. Ainda bem que está muito cedo, senão Dahlia poderia intuir o verdadeiro motivo da minha falta de entusiasmo. Estico os braços para trás e bocejo, apoiando a cabeça no banco do carro. Sinto a mão de Eric no meu pescoço quando ele começa a massagear meus músculos.

— Não sei por que você quer ir a Los Angeles de carro — diz Dahlia. — Se a gente fosse de avião, não ia precisar acordar tão cedo. E você não estaria tão cansada e rabugenta.

Minha cabeça cai para a esquerda.

— Não estou rabugenta. Ainda mal falei com você.

Ela dá um sorrisinho.

— Exatamente. Sarai sem falar significa Sarai rabugenta.

— E se recuperando — acrescenta Eric.

Meu rosto fica vermelho e eu estico a mão atrás da cabeça, dando um tapinha de brincadeira na dele, que está fazendo maravilhas no meu pescoço. Fecho os olhos e vejo Victor.

Não de propósito.

Chegamos a Los Angeles depois de quatro horas na estrada. Eu não podia ir de avião porque não conseguiria levar minhas armas. É claro que Dahlia não pode saber disso. Ela acha apenas que quero apreciar a paisagem.

Tenho sete dias para fazer o que vim fazer. Isto é, se eu conseguir. Pensei no meu plano durante meses, em como vou fazer isso. Sei que é impossível entrar na mansão Hamburg. Para isso, eu precisaria ter um convite e socializar em público com o próprio Arthur Hamburg e seus convidados. Ele viu meu rosto. Bem, tecnicamente, viu mais do que meu rosto. Mas sinto que os acontecimentos daquela noite, quando Victor e eu enganamos Hamburg para que ele nos convidasse para ir ao seu quarto e conseguíssemos matar sua esposa, são algo que ele jamais vai esquecer, nem os mínimos detalhes.

Se tudo der certo, uma peruca loura platinada de cabelo curto e maquiagem escura e pesada vão esconder aquela identidade de cabelo longo e castanho que Hamburg reconheceria assim que eu aparecesse.