O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 36 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo Vinte e Nove

 

Izabel

 

Poucos convidados circulam no corredor, e seus passos são fracos. Saltos altos. Sapatos elegantes. Vozes ricas fingindo estar intrigadas, dramatizando demais as coisas insignificantes da vida. Risadas artificiais. Música clássica — Bach, acho — vem do andar de baixo, tão nítida, elegante e sofisticada que me sinto em uma festa para a rainha da Inglaterra, e não sentada em um quarto escuro, com meu punhal favorito na mão. Eu o chamo de Pérola.

O cheiro deste quarto é o mesmo da última vez em que estive aqui: colônia demais, suor, pot-pourri velho e lencinhos umedecidos. Uma pesada mesa quadrada de mármore está do outro lado do quarto. Eu me lembro dessa mesa. Nunca vou esquecer o modo como Victor me curvou sobre ela, ou o porco nojento que ficou olhando quando minha calcinha desceu até os tornozelos.

Está escuro lá fora, passou das nove da noite, e o luar que entra pela varanda atrás de mim inunda a maior parte do quarto. Fiz questão de deixar as portas abertas para sentir o ar noturno na pele. Está muito quente com estas roupas apertadas. Preto do pescoço para baixo. Botas, parecidas com as de Niklas, só que as minhas têm facas escondidas no couro. Uma arma está acomodada em um coldre na minha cintura, mas só está ali para o caso de eu precisar. Gosto do meu punhal.

Eu me sento em uma cadeira no centro do quarto espaçoso, fora da suave luz acinzentada que vem da varanda. Minha perna direita está cruzada sobre a esquerda. Minhas mãos repousam no colo, o cabo de pérola do meu punhal encaixado com firmeza na mão. Bato a fina lâmina de prata na minha coxa.

Já se passaram 26 minutos desde que me sentei. Mas sou paciente. Disciplinada. Tanto quanto consigo ser, acho. Prometi a Victor que esperaria. Que ficaria sentada aqui, praticamente imóvel, até a hora certa. Eu disse que conseguiria, que aguentaria sem correr para o andar de baixo e resolver o assunto ali. E pretendo provar. Embora admita que é difícil.

Olho para Niklas, de pé em uma sombra perto das portas da varanda, com as mãos entrelaçadas. Ele sorri para mim, achando graça da minha crescente frustração. Sorrio de volta e olho para a porta do outro lado do quarto.

Trinta e dois minutos.

Ouço as vozes dos dois seguranças sempre postados do lado de fora do quarto. Eles estão falando com Arthur Hamburg.

Segundos depois, a porta se abre e um clarão vindo do corredor inunda o quarto, mas não me alcança. E, com a mesma rapidez, a luz some quando o segurança fecha a porta depois que Hamburg entra. Ele não me nota ao passar pela grande cama e pela mesa de mármore.

— O que você achou do cabelo? — pergunto.

Hamburg fica imóvel na hora.

Eu me inclino para a frente na cadeira, entrando no alcance da luz.

— Preto retinto — digo, despreocupada. — Ainda me acha deslumbrante com qualquer peruca? — Uso a mão livre para tocar o penteado e exibi-lo.

As luzes do quarto se acendem quando Hamburg diz: Acender luzes.

— Como você entrou aqui? — pergunta ele, desesperado, seu olhar correndo pelo quarto em busca da resposta e de qualquer sinal de mais alguém.

Quando Hamburg nota Niklas e Victor de pé perto da entrada da varanda, atrás de mim, com as armas nas mãos ao lado do corpo, ele chama os guarda-costas. Mas então uma forte pancada é ouvida do lado de fora. E depois outra. Hamburg para a centímetros da entrada, sem saber mais se é seguro abri-la.

Ele me olha de novo.

Sorrio e bato com a lâmina na minha perna mais uma vez.

A porta atrás dele se abre, e Fredrik está de pé ali, segurando dois colarinhos brancos. Ele arrasta os corpos dos seguranças pelo chão de mármore e os larga. As cabeças batem ruidosamente no mármore.

Hamburg olha para Fredrik, de olhos arregalados como um peixe, seu corpo balofo imóvel, seus dedos roliços mal se mexendo sobre a calça, nervosos, como se ele estivesse procurando por uma arma que costuma carregar e não quisesse acreditar que não está com ela quando mais é necessária.

Fredrik fecha e tranca a porta. Ele vai até os corpos, pegando-os pelos colarinhos de novo e arrastando-os pelo quarto. Não há sinal de sangue neles. Ele deve ter usado sua arma favorita, uma seringa cheia de algo letal e que não deixa vestígios.

Olho para Hamburg.

— S-sim... você fica bem de cabelo preto — afirma ele, agitado. — P-por que estão aqui? Willem está desaparecido. Eu-eu não sei onde ele está. Juro. Não o vi nem tenho notícias dele há mais de uma semana.

Sorrio e inclino a cabeça para o lado.

— É porque ele está morto — digo, sem rodeios.

Hamburg olha para Victor atrás de mim. E para Niklas. Depois para Victor de novo.

— Olhem, eu-eu disse a ele para esquecer o assunto — diz Hamburg, ainda gaguejando. — Não fui eu que mandei. Fa-falei para não procurar nenhum de vocês.

O suor brota em seu rosto rechonchudo, brilhando no queixo duplo. As axilas de sua camisa branca estão empapadas, a umidade se espalhando depressa pelo tecido. O colarinho da camisa muda de cor ao absorver o líquido como uma toalha de papel barata.

Fico de pé.

— Você é um mentiroso. — Ando devagar na direção dele. — Mas não importa. Não estou aqui por causa de Willem Stephens. Estou aqui por sua causa.

Hamburg anda para trás conforme me aproximo, seu rosto inchado e enrugado contorcido de pavor, suas mãos grossas tateando atrás de si, procurando a porta ou uma parede.

Fredrik fica na frente da porta, bloqueando o caminho de Hamburg, que para. Vejo sua garganta se mover quando ele engole em seco. O medo em seus olhos é cada vez maior.

Ele continua olhando para Victor e Niklas atrás de mim, sempre concentrando sua atenção em Victor por último.

Victor se afasta da varanda e vem para o meu lado.

— Olhem aqui, eu cumpri minha promessa, cacete! — grita Hamburg, aprofundando as rugas ao redor dos olhos. Ele aponta um dedo gordo para nós, adornado por um grosso anel de ouro. — Nunca fui atrás de nenhum de vocês depois que mataram minha esposa! Cumpri minha promessa! — Ele aponta para mim. — Foi você que veio atrás de mim! V-você começou tudo isso!

Balanço a cabeça e sorrio para ele, rindo do desespero e do medo. Só isso já me dá alguma satisfação, vê-lo se retorcer, ver o modo como está implorando por sua vida sem fazê-lo de forma explícita.

Eu me aproximo mais um pouco.

Hamburg não se mexe porque não consegue. Fredrik está atrás dele.

— Ah, isso não tem nada a ver comigo — diz Victor para Hamburg. — Eu cumpri minha promessa. Nunca fui atrás de você. Izabel, por outro lado... — Victor está provocando, do jeito relaxado que é sua marca registrada. — Bom, você não fez nenhum acordo com ela, para a sua infelicidade. E eu não sou o dono dela. Nunca fui. Ela está aqui por vontade própria, e não há nada que eu possa fazer a respeito.

Hamburg olha diretamente para mim, a raiva em seu rosto se transformando em algo mais patético.

— P-por favor... eu faço o que você quiser. Dou o que você quiser. Meu dinheiro. Minha casa. É só pedir, é tudo seu. Eu tenho milhões.

Chego perto dele e sinto o cheiro fétido de seu suor. Ele me olha nos olhos, com uma expressão cheia de ódio e horror. Seu corpanzil treme a centímetros do meu, e sei que, se ele achasse que poderia sair impune, me agarraria agora e me estrangularia até a morte.

De repente sua expressão muda, combinando melhor com as palavras ríspidas:

— Você não vai fazer isso — provoca ele, desdenhando de mim com frieza e me encarando. — Não é capaz de matar a sangue-frio. Você matou meu segurança em legítima defesa. Não vai me matar. Não assim. — Há humor em seus olhos.

Fico alerta diante dele, com o indicador apoiado na lâmina do meu punhal, encostado na minha perna. Não digo nada. Só o observo, com um sorriso tênue, mas óbvio, achando graça de suas tentativas inúteis de salvar a própria vida.

Ele dá um passo para a esquerda e começa a se afastar. Eu deixo.

— Vou servir uma bebida para vocês — diz ele, levantando um dedo. Ele tira o paletó gigante e o coloca nas costas da poltrona de couro perto da mesa de mármore. Então começa a desabotoar a camisa.

Chego por trás dele como um fantasma, passando a lâmina em sua garganta antes que ele consiga tirar os dedos do último botão. Um som arrepiante de gargarejo se espalha pelo quarto, seguido por Hamburg se engasgando com o próprio sangue. Ele ergue as mãos como se estivesse tentando escapar de um saco plástico. O vermelho espirra da lateral do seu pescoço, e ele cai de joelhos pressionando o corte com as mãos. O sangue escorre por entre todos os dedos e empapa sua camisa.

Eu o observo. Não com horror, arrependimento ou tristeza, mas com um sentimento de vingança. Meus olhos parecem se abrir ainda mais, atingidos pela brisa que vem da varanda. Não consigo parar de olhar. Não consigo virar a cabeça. Mas posso sentir os olhos de Victor, Fredrik e Niklas em mim, observando como me regozijo no momento do meu primeiro assassinato oficial a sangue-frio.

Hamburg engasga e chora, lágrimas caindo, enquanto vou para diante dele e me agacho. Eu o examino, o modo como seu rosto se contorce, o modo como o vermelho do sangue faz contraste com o branco da camisa. Vejo o terror em seus olhos, o medo do desconhecido tomando conta dele bem depressa.

Um sorrisinho aparece no canto da minha boca.

Hamburg cai para a frente no chão, seu corpo pesado tremendo e estremecendo só por alguns momentos antes de ficar imóvel. Ele jaz com a bochecha encostada no piso de mármore, a boca aberta, assim como os olhos. Eles olham para o nada, estão cheios de nada. O sangue empoça ao redor da cabeça e do peito, encharcando as roupas.

Ainda agachada diante dele, me apoio nas pontas dos pés e me aproximo do corpo, com os antebraços apoiados nas pernas.

— É isso que aquelas pessoas que você matou estranguladas sentiram — sussurro para o cadáver de Hamburg.

Fico de pé e dou um passo para trás, antes que o sangue empoçando no chão chegue à minha bota. Um por um, olho para Fredrik, Niklas e depois Victor, e todos manifestam a mesma aprovação silenciosa. Mas é nos olhos de Victor que vejo muito mais. Um elo eterno entre nós, criado não por este momento, mas por aquela noite em que nossos caminhos se cruzaram no México. Jogados um na vida do outro por um capricho do destino e mantidos unidos pelas nossas raras semelhanças e nossa necessidade de ficarmos juntos.

Somos um só.