O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 19 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo Dezessete

 

Victor

 

Fredrik está nos esperando à porta da garagem quando voltamos para o galpão. Entro no prédio, desligo o motor e Fredrik fecha o portão de aço.

Puxo o corpo inconsciente de André do banco de trás e o arrasto pelo chão de concreto, segurando as costas da camisa dele com firmeza.

Sarai me segue.

— Presumo que tenha havido um problema — sugere Fredrik, provavelmente percebendo a animosidade entre mim e Sarai, enquanto eu o ajudo a acomodar o rapaz na cadeira de dentista. Ele começa a amarrar André, primeiro pelo tórax.

— Não, problema nenhum — intervém Sarai, com um pouco de raiva na voz, parando atrás de mim. — Só não aconteceu do jeito que foi planejado.

Eu a encaro.

— Entrar e sair. Era para ser simples assim, Sarai. Você podia ter feito o cara mudar de ideia e seguir você até a escola.

Sarai está ficando mais irritada. A raiva está nítida em seu rosto quando ela me olha de lado. Mas não importa. Ela precisa aprender a seguir minhas instruções.

Eu a seguro pelo pulso, pegando-a de surpresa, e a puxo com violência para perto de mim.

— Você tem ideia do que esse merda poderia ter feito com você?

Puxo Sarai mais para perto, apertando seu pulso. Ela arregala os olhos de início, mas então os estreita com severidade, e minúsculas rugas de ódio sulcam o alto do seu nariz.

— Você não confia em mim para nada, Victor — diz ela, em um tom gélido, forçando as palavras por entre os dentes cerrados. Ela tenta desvencilhar a mão, mas eu a aperto mais.

— Isso não tem nada a ver com confiança e sim com você seguir as minhas ordens, aprender a seguir instruções. Tem tudo a ver com disciplina, Sarai. — Solto o pulso dela como se o jogasse no chão. Respiro fundo, tentando me recompor. Nem me lembro de quando foi a última vez que senti tanta raiva. — Eu sei que você quer fazer as coisas sozinha. Sei que é capaz, mas quanto mais você bate de frente comigo em relação a isso...

— Mais parecida com o seu irmão eu fico — interrompe ela, em um tom acusador. — Certo?

Fredrik aperta a última tira em volta dos tornozelos de André.

— Talvez fosse melhor vocês dois discutirem na outra sala — sugere ele, acenando para uma porta de madeira na parede oposta, abaixo de uma placa de metal desbotado onde se lê ESCRITÓRIO. — Eu cuido do resto.

Sarai e eu só nos entreolhamos, sem ter mais nada a dizer, então ela baixa os braços e vai para o escritório. Eu a sigo e fecho a porta da sala, que tem um tamanho razoável. Uma lanterna de LED brilha em uma mesa de madeira encostada na parede. Há uma única cadeira dobrável de metal ao lado dela, afastada da mesa como se Fredrik já tivesse se sentado nela antes de chegarmos. A sala está empoeirada e cheira a mofo e algo químico que não sei identificar. Há uma única janela na parede do outro lado, coberta de poeira, contra a qual foi empurrado um arquivo alto de metal.

— Por que você fica me comparando com Niklas? — pergunta Sarai, desta vez sem aquele tom irritado. Ela parece mais magoada do que furiosa. Cruza os braços, segurando os bíceps com seus dedos delicados.

— Sarai, eu... — Suspiro e me sento na cadeira ao lado da escrivaninha, com as pernas encolhidas. Jogo a cabeça um pouco para trás e volto a olhar para ela, de pé no meio da sala.

Começo a concluir o que eu ia dizer, mas ela se aproxima e fala antes que eu consiga.

— Desculpe — diz ela, quase em um suspiro. — Não estou tentando ir contra você, Victor. Não tenho nenhum plano secreto de fazer as coisas do meu jeito só para provar que consigo. Desculpe. Eu estava improvisando, fazendo o que achava que seria o certo naquele momento. Só isso.

Ela para a um braço de distância de mim. Olho para ela, reparo no jeito como seu cabelo castanho-avermelhado envolve os ombros nus e macios. Como ela fica alta com aqueles saltos. A curvatura esguia do seu corpo, que não consigo tirar da cabeça. Ela inclina a cabeça para um lado. Incapaz de resistir, eu a puxo para o meu colo, apoiando-a em uma perna. Posiciono minha mão esquerda atrás de sua cintura, apoiando a outra em sua coxa nua. Ela me olha de lado, depois roça os dedos na lateral do meu rosto.

— Victor — chama Sarai, com voz suave —, eu não sou Niklas. Nunca vou ser. Olha o que ele fez. Eu jamais trairia você.

— A questão não é essa — respondo, passando a mão na parte inferior de suas costas. — Não quero comparar você com meu irmão, mas as semelhanças, sua impetuosidade, seu temperamento, sua incapacidade de seguir as minhas ordens...

— Suas ordens? — pergunta ela, franzindo o cenho. Sarai balança a cabeça devagar, depois se vira para me encarar melhor. Seus traços são suaves, seu olhar não parece nada ofendido, mas ao mesmo tempo sinto que estou prestes a ser repreendido. — A gente precisa deixar uma coisa bem clara, antes de continuar.

Inclino a cabeça para um lado, olhando em seus olhos escuros. Nunca estive tão cativado por uma mulher. Jamais. Não desse jeito. Estou acostumado a conseguir as coisas sempre do meu jeito, a ser quem está no comando. Nunca consegui olhar para uma mulher e ceder aos desejos dela. Não consegui fazer isso com Samantha, que sei que já me amou muito. Eu a deixei. Não pude dar o que ela queria. Mas quando olho para Sarai, quando percebo o modo como ela me encara com aquela expressão suave, porém implacável, em seus lindos olhos verdes, sei que não importa o que ela me diga nem quanto ela me desafie: não vou conseguir me afastar dela.

— Eu não sou um dos seus soldados, Victor. Nem um dos seus informantes, contatos ou associados. Sim, eu quero que você me ensine coisas. Quero fazer o que for preciso para ficar com você e fazer parte da sua vida. Mas você não pode mudar o que sou. E não pode me tratar como se eu fosse um dos seus caras. — Ela inclina a cabeça para o outro lado. — Quer dizer, claro que você pode, se quiser, mas eu não vou mudar. Entendeu?

O que é que está acontecendo comigo? Em vez de me desanimar e me fazer tirar Sarai do colo, essa atitude desafiadora só me faz desejá-la mais.

Suspiro.

— Não quero que mude, mas vai precisar aprender a me ouvir nesse tipo de situação.

— Era só um cara — argumenta ela. — Você sabe tão bem quanto eu que eu conseguiria derrubá-lo. E consegui. Ele é só um pouco mais pesado do que eu.

Balanço a cabeça.

— Não, Sarai, você não entende. Você não imagina quantas pessoas, principalmente turistas, mulheres e adolescentes, esse André Costa ajudou a sequestrar na América do Sul.

— Mas a gente não está na América do Sul.

— Nem é preciso. Pessoas são sequestradas todo santo dia nos Estados Unidos e levadas para outros países, escravizadas, assassinadas. A lista é interminável. Você, mais do que ninguém, deveria saber como é fácil ser forçada a levar uma vida de escravidão e como é difícil ser libertada. A maioria nunca é.

— Mas eu sabia que você estava me ouvindo pelo microfone — insiste Sarai, e sinto que ela está começando a perder a autoconfiança. — Fui esperta e falei em voz alta o nome de cada rua pela qual a gente passou.

— Eu sei — digo baixinho, esfregando a mão na coxa dela. — Mas e se eu não tivesse ouvido as pistas que você deu? E se André levasse você até um carro ou a um prédio como este e os homens que estavam com ele no bar estivessem lá, esperando para prender você?

— A gente não pode viver pensando no “e se”, Victor.

— A gente já vive pensando o tempo todo no “e se”. Não vivemos com medo, mas, sim, preciso levar todas as possibilidades sempre em conta.

Sarai abre a boca e desvia o olhar.

— Seu pedido foi para que eu ajudasse e treinasse você — continuo, erguendo o queixo dela com o dedo. — Você disse que faria qualquer coisa. Estou pedindo que confie na minha experiência de uma vida inteira e não me desafie mais.

Ela assente.

— Tudo bem, mas não quero que você fique bravo comigo se eu não conseguir me controlar.

Um sorriso aquece meus olhos.

Eu sei que nunca vou conseguir fazer Sarai mudar, mas é disso que gosto nela. Não quero que ela mude. Só quero que ela entenda que sou eu quem sabe o que está fazendo. Não vou lhe dizer isso, mas eu jamais a mandaria para uma missão que eu soubesse que ela não seria capaz de realizar. Atrair André até o carro era uma tarefa simples. Eu sabia que ela conseguiria. Sabia que ela daria conta do cara se os dois estivessem sozinhos, senão nunca a teria mandado para lá. Deixá-la fazer essa parte não era minha maneira de confirmar se ela era capaz ou de permitir a ela “praticar com alvos fáceis”. Era minha maneira de verificar quanto ela era capaz de obedecer a ordens.

Mas Sarai tem uma mente independente. Por mais que me irrite o fato de ela não me ouvir tanto quanto eu gostaria, ao mesmo tempo é isso que me deixa louco por ela.

Sinto seus lábios tocando os meus. O cheiro de sua pele me inebria por um instante. Inspiro seu hálito para o fundo dos pulmões e seguro seu rosto com firmeza enquanto ela se vira, montando no meu colo.

— Você ainda vai me matar — sussurro em seus lábios, antes de deslizar a língua para dentro de sua boca.

O grito apavorante de André ecoa pelo galpão.

Sarai afasta os lábios dos meus e endireita as costas.

— Que droga Fredrik está fazendo com ele?

Seguro sua cintura.

— Você não vai querer saber.

Ela balança a cabeça com determinação e desce do meu colo.

— Na verdade quero, sim.