O Retorno de Izabel
Capítulo Vinte e Sete
Sarai
Terceiro dia
Estou recusando comida e água há quase 63 horas. Só sei disso porque Niklas fica me lembrando. Estou fraca, meu corpo e minha mente estão exaustos. Stephens não me bate desde que Niklas o impediu da outra vez. É só por causa de Niklas que ainda estou viva. Afinal, ainda não revelei nenhuma informação. Apenas que ele é um babaca traidor que não merece o ar que respira. Já disse a ele muitas e muitas vezes que vou morrer antes de entregar Victor. Acho que ele sabe que é verdade, que eu não posso ser dobrada.
A não ser... Talvez por meus pensamentos.
Meus pensamentos são tudo o que tenho nesta prisão escura e úmida cujas paredes bloqueiam toda luz, à noite ou de dia, sem nenhuma janela e só uma porta de metal que não deixa passar nem uma nesga de luz por baixo. Aquela voz em minha cabeça, aquela à qual nunca damos ouvidos até que não sobre mais nada para silenciá-la, tem sido muito cruel comigo. Niklas tem razão e você sabe, a voz me diz. Já se passaram três dias, e se o que Niklas falou sobre Victor saber onde você está for verdade, por que ele não apareceu? Por que, Sarai, Victor não se entregou por você e não contou a Niklas o que ele quer saber para salvar a sua vida?
Grito a plenos pulmões no espaço vazio e confinado, levando as mãos à cabeça. Lágrimas de raiva escorrem dos cantos dos olhos. Meu cabelo está encharcado de suor. Meu short e meu top preto parecem colados à pele. Meus joelhos nus estão arranhados, minhas pernas, cobertas de sujeira. Minhas costas ardem sempre que me posiciono do jeito errado e as crostas que estão se formando sobre os ferimentos racham e começam a sangrar de novo. Fico deitada no chão, de lado ou de barriga para baixo.
Ouço o eco da porta de metal raspando no chão ao se abrir atrás de mim, mas nem me dou ao trabalho de me virar para ver quem é.
— Se você não vai beber — ouço Niklas dizer, de pé ao meu lado —, então vou forçar a água na sua garganta.
Sou levantada do chão imundo de concreto para os braços dele e carregada para fora da sala. Não resisto. Não olho para ele enquanto sou carregada pelo corredor, mas a luz fluorescente do teto acima de mim é tão brilhante que faço uma careta e fecho os olhos. Em silêncio, aproveito o conforto do ar renovado que roça a minha pele. Sinto minhas pernas sobre os braços de Niklas, seu braço esquerdo segurando a minha nuca. Viramos à esquerda, depois à direita e descemos uma escada de metal.
Momentos depois, minha cabeça está sendo imersa em água e mantida ali.
Meu instinto me trai e abro a boca para gritar, tragando ainda mais água para meus pulmões. Meu corpo se retorce com violência, meus braços se agitam sem controle, tentando se segurar na borda grossa de plástico do recipiente onde estou sendo enfiada. Mas estou fraca demais para tirar a cabeça da água, e Niklas me segura ali com facilidade. A água queima na minha garganta e nos meus pulmões mesmo depois que consigo fechar a boca e prender a respiração. E no instante em que penso que vou me afogar, que enfim vou morrer e ficar em paz, Niklas ergue minha cabeça e a segura.
Meus instintos me traem mais uma vez e me fazem arfar em desespero por ar e tossir a água dos pulmões. Eu realmente preferiria morrer de uma vez e acabar logo com aquilo, mas meu corpo tem vontade própria, outra coisa que me vejo incapaz de controlar. Meu coração bate com tanta força que sinto meu peito roçando na borda de plástico do que reconheço ser um contêiner de 200 litros. Pingos caem do meu cabelo, da ponta do nariz, do queixo e dos cílios para a superfície da água, a poucos centímetros do meu rosto. Plop. Plop. Plop-plop. É surreal como isso é a única coisa que ouço.
— Quem está trabalhando com o meu irmão? — A voz de Niklas é controlada.
Não digo nada.
Ele segura um pouco mais forte o cabelo da minha nuca.
— Você foi vista com Fredrik Gustavsson em Santa Fé. Qual é o relacionamento dele com meu irmão? Eles estão conspirando contra a minha Ordem?
Nenhuma resposta.
Um fluxo de água atinge meu rosto quando ele empurra minha cabeça para dentro do contêiner. Minhas narinas e meu esôfago queimam como fogo quando a água é forçada para dentro de mim. Esperneio de novo, tentando agarrar qualquer coisa. Até que encontro a borda circular, mas ainda não tenho força suficiente para me empurrar contra as mãos de Niklas para fora da água.
Ele me puxa para fora de novo, eu engasgo, tentando respirar.
— Fale alguma coisa, Sarai. Qualquer coisa.
Estou fraca e exausta demais até para provocá-lo. Ainda assim, não digo nada, embora queira muito mandá-lo se foder.
Niklas só consegue uma coisa de mim antes de me carregar para fora da sala, vários minutos depois; engoli mesmo aquela água de que ele falou.
Quarto dia
Raios finos de sol, cheios de poeira, entram pelas janelas perto do teto do galpão, criando manchas de luz cor de marfim no chão à minha frente. Estou de volta à cadeira na sala maior, cercada por pilastras de concreto e aquele irritante ventilador industrial ininterrupto acima de mim. Meus pulsos e tornozelos não estão amarrados, mas seria desnecessário, pois mal consigo ficar de pé sozinha. Não estou completamente sem força física. Conseguiria andar se tentasse. Poderia jogar a cadeira para o outro lado da sala, embora só alguns metros, se quisesse. Mas não me importo mais.
Apenas não me importo mais.
Stephens está sentado diante de mim na mesma cadeira na qual esteve quatro dias atrás. Uma perna está cruzada sobre a outra e suas grandes mãos descansam sobre o joelho. Há uma expressão ameaçadora em seus olhos escuros e profundos; ela revela que ele está cansado de esperar. Que hoje é o dia. Que não importa o que eu diga ou deixe de dizer, não importa qual seja o acordo que ele tem com Niklas, hoje ele vai me matar.
Niklas entra no galpão por uma porta lateral, inundando-o por um instante com o sol forte da manhã. Ele havia saído com os outros quatro homens que pelo visto trabalham para Stephens. Eu os ouvi conversando algo sobre ficar de olho em qualquer sinal de “visitas indesejadas”. De coração, espero que isso tenha a ver com Niklas ter motivos para crer que Victor está vindo. Mas aquela voz cruel na minha cabeça faz meu coração afundar de novo.
Estamos sozinhos naquele galpão imenso. Só nós três. Eu, o Diabo e um dos lacaios do Diabo, embora na verdade eu não saiba qual é qual.
Levanto a cabeça.
Abro um sorriso fraco para eles, fixando minha atenção sobretudo em Niklas.
— Esta é a sua última oportunidade — anuncia ele, de pé ao lado de Stephens, com uma arma na mão direita, junto ao corpo. — Não vou nem me dar ao trabalho de mandar outro vídeo de você sendo interrogada para o meu irmão. É evidente que ver você sentindo tanta dor não basta para fazer o desgraçado sair da toca.
— Me mata — peço, ainda sorrindo. — É isso que você vai ter que fazer.
O peito de Niklas infla e desinfla, mas seus olhos não abandonam os meus. Olho para eles, buscando qualquer resquício de que ele ainda possa ser como o irmão, o homem... pelo qual acho que estou me apaixonando.
O homem que achei, por um breve momento, que poderia sentir a mesma coisa.
O tempo parece parar. Não há som, movimento ou ar ao redor, só um infinito silêncio suspenso no último momento da minha vida.
E, quando sinto meus olhos se fechando, no mesmo ínterim, Niklas levanta a arma de lado e puxa o gatilho. O tiro ecoa e o sangue esguicha do outro lado da cabeça de Stephens. A cadeira debaixo dele cai de lado quando o peso de seu corpo enorme desaba sobre ela.
Stephens cai no chão. Morto.
Sinto meus cílios enfim roçarem no rosto quando os olhos se fecham, e o meu corpo, inundado pelo alívio e exausto de tudo, começa a cair também.
Niklas encaixa os braços por baixo dos meus, me segurando antes que eu bata no chão.
— Peguei você. — Eu o ouço dizer. — Peguei você. — Sua voz parece mais distante agora, embora eu sinta que estou encostada no peito dele, e que o vento roça meu rosto quando ele me carrega pelo galpão.
— Passe ela para mim — escuto Victor dizer lá de fora, e é a última coisa que escuto.