O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 11 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo Dez

 

Victor

 

A empregada de Fredrik volta para a casa bem cedo na manhã seguinte. Acordo assim que amanhece, e ela entra em casa quando estou tomando meu café no pátio dos fundos. Ela me vê através da porta de vidro ao passar pela sala, e então vem falar comigo no pátio.

— Gostaria de café da manhã, señor? — pergunta ela em espanhol.

Deixo a pasta com meu próximo serviço virada para baixo na mesinha de ferro batido.

— Obrigado, mas não vou comer — respondo, e depois aceno para Sarai, que está andando pela sala, procurando por mim. — Mas ela vai.

— Eu vou o quê? — pergunta Sarai ao passar pela porta de vidro aberta. Ela anda descalça pelo pátio de pedra, usando outra camiseta de Fredrik. Fico muito incomodado por ela ter que usar roupas dele em vez das minhas, mas a única roupa que tenho é a que estou usando, além de um short largo de corrida. O cabelo longo e castanho de Sarai está despenteado, pois ela acaba de acordar e sair da cama.

Ela se senta no meu colo e eu encaixo a mão direita entre suas coxas.

— Café da manhã.

Sarai boceja e estica os braços para o alto antes de apoiar a cabeça no meu ombro. Ponho a mão esquerda em sua cintura para mantê-la equilibrada no meu colo. O cheiro da pele e do cabelo recém-lavados de Sarai acelera meu corpo todo.

Ela faz uma careta sutil, meio que rejeitando a ideia.

— É melhor você comer.

Levantando a cabeça do meu ombro, Sarai olha para mim por um momento, pensativa, e depois dirige sua atenção para a empregada.

— Claro, eu gostaria de tomar café da manhã, se não for incômodo — diz, em espanhol.

Por um momento, a empregada parece surpresa por ouvir Sarai falando seu idioma nativo, mas ela logo se recompõe, assente e volta para dentro da casa.

— Acho que a gente já adiou essa questão o suficiente — diz Sarai. — Para onde é que vamos, Victor? O que eu vou fazer?

Estou pensando exatamente nisso desde que descobri que ela veio para Los Angeles e fez o que fez. Olho para a piscina, perdido em pensamentos, minha última tentativa desesperada de organizar as respostas na cabeça. Mas elas continuam tão fragmentadas e bagunçadas quanto sempre estiveram. Todas, menos uma.

— Sarai — digo, olhando novamente para ela —, você não pode voltar para casa. Eu sabia disso na primeira vez em que mandei você para o Arizona. A situação não estava nem de longe tão terrível quanto ficou depois, mas, agora que as coisas mudaram, você não pode mais voltar.

— Então vou ficar com você — rebate ela. Pela primeira vez na vida, não tenho coragem de protestar. Nem contra ela nem contra mim mesmo. A maior parte de mim, a parte humana e imperfeita, quer que Sarai fique comigo, e nada vai me impedir de fazer isso dar certo.

Mas sei que não vai ser fácil.

— Sim — digo, passando a mão em sua coxa macia —, você vai ficar comigo, mas há muitas coisas que precisa entender.

Ela se levanta do meu colo e fica de pé na minha frente, com um braço na frente do corpo e o outro cotovelo apoiado nele. Distraída, ela passa as pontas dos dedos no rosto macio, fitando o que parece ser o nada. Então ela me olha e balança a cabeça com uma expressão perplexa.

— Eu esperava que você fosse resistir mais. Qual é a pegadinha? A despeito do que aconteceu entre a gente ontem à noite, ou do que está acontecendo desde que nos separamos, nunca pensei que você fosse concordar em me levar junto.

— Você gostaria que eu resistisse? — Abro um sorriso capcioso.

Ela sorri também e deixa os braços relaxarem.

— Não. Com certeza não. E-eu só...

Levanto uma perna e apoio o pé no outro joelho.

— Nunca me imaginei em uma situação dessas. Não posso mentir e dizer que acho que vai dar certo. Muito provavelmente não vai, Sarai, e você precisa entender isso. — Ela parece ficar um pouco desanimada, o bastante para eu saber que minhas palavras sinceras a entristeceram mais do que ela se permite revelar. — Não posso mudar o meu jeito. Não só porque é tudo o que sei fazer, ou porque é o que faço melhor, mas também porque não quero. — Olho para Sarai. — Eu nunca vou parar de fazer o que faço.

— Eu nunca ia querer que você parasse — retruca ela, com certa intensidade. Sarai puxa uma cadeira próxima e a coloca diante de mim antes de se sentar. — Tudo o que eu quero, Victor, é ficar com você. Vou fazer qualquer coisa que você espere que eu faça, mas quero que me ensine...

Levanto a mão e a interrompo imediatamente.

— Não, Sarai, também não vou fazer isso. Não é assim que vai ser. — Sua expressão se anuvia e ela desvia o olhar, magoada com minha recusa. — Já falei, eu praticamente nasci nesta vida. Você ia levar quase o resto da sua para aprender a fazer o que eu faço, e mesmo assim não ia ficar boa o suficiente.

— Então, o que eu devo fazer? — pergunta ela, com um tom de ressentimento na voz. — Quero estar com você aonde quer que vá, mas não quero ficar à toa, tomando martínis na praia enquanto você sai para matar pessoas. Eu não sou inútil, Victor, posso fazer alguma coisa.

— Você pode fazer muitas coisas, sim — digo, interrompendo-a. — Mas fazer o que eu faço está totalmente fora de cogitação. Por que você quer tanto isso? — Levanto a voz quando sinto, de repente, uma necessidade desesperada de entender a resposta.

Sarai bate as palmas das mãos nas coxas nuas.

— Porque é o que eu quero.

— Mas por quê?

Ela ergue as mãos para os lados e grita:

— Porque eu gosto! Entendeu?! Eu gosto!

Pisco algumas vezes, completamente atordoado por essa confissão. Na verdade, essa era a última coisa que eu esperava ouvir de Sarai. Parte de mim sabia que ela era mais do que capaz de tirar a vida de alguém e dormir em paz toda noite depois disso, mas nunca previ que ela fosse gostar de matar.

Não sei ao certo como me sinto a respeito disso. Preciso de mais informações.

Eu me inclino para a frente e fico cara a cara com Sarai.

— Você gosta de matar? — pergunto, embora isso saia mais como uma afirmação. — Então, se alguém pedisse a você que tirasse a vida de outra pessoa, você faria isso sem questionar?

— Não — responde ela, franzindo o cenho. — Eu não mataria qualquer um, Victor, só homens que merecessem.

Homens? Esse lado de Sarai está ficando mais intrigante. Eu me pergunto se ela sabe o que acaba de dizer. Homens. Não pessoas em geral, mas homens.

Eu me afasto dela e me reclino na cadeira de novo, virando a cabeça para o lado, pensativo.

— Explique.

Ela também se recosta, encolhendo as pernas e apoiando os pés no assento, virando os joelhos para o lado.

— Homens como Hamburg. Homens como Javier Ruiz, Luis e Diego. Homens como o segurança que matei ontem. Willem Stephens, pelo simples fato de trabalhar para Hamburg sabendo o que o chefe faz. Homens como John Lansen e todos os outros que conheci naquelas festas de gente rica quando estava com Javier. — Seu olhar penetra o meu. — Homens que merecem ter a garganta cortada.

A gravidade das palavras de Sarai e a determinação em seu rosto me silenciam por um momento. Será possível que eu agora tenha não um, mas dois assassinos por perto que compartilham o gosto pelo derramamento de sangue? E, no exato momento em que o rosto surge na minha mente junto com o de Sarai, ouço o carro de Fredrik na entrada da garagem. Isso interrompe o momento intenso, e ambos olhamos para cima.

Instantes depois, Fredrik, vestido de maneira informal com um jeans escuro e uma camisa de grife, vem nos encontrar no pátio. Ele deixa o jornal do dia na mesa de centro e diz:

— É melhor você dar uma olhada nisso. — Então olha para Sarai por um momento. — A propósito, minhas roupas ficam bem em você.

Fuzilo Fredrik com o olhar, mas escondo meu ciúme antes que qualquer um dos dois perceba.

Sarai e eu olhamos para o jornal, mas sou eu quem o pega. Desdobrando-o, corro os olhos pelo texto até encontrar aquilo a que Fredrik se refere.

 

Quatro pessoas foram encontradas mortas a tiros em um

hotel de luxo de Los Angeles, na madrugada passada.

Somente dois corpos foram identificados, os de Dahlia

Mathers, 23 anos, e Eric Johnson, 27 anos, ambos de

Lake Havasu City, Arizona.

 

Algumas frases abaixo:

 

Sarai Cohen, também de Lake Havasu City, é procurada

pela polícia para prestar esclarecimentos.

 

Acho que não importa que identidade Sarai usou para fazer o check-in no hotel, o rosto dela é o mesmo nas duas.

Ela arranca o jornal das minhas mãos antes que eu possa terminar.

— Não... — Ela cerra os dentes e seu rosto fica sério enquanto lê a notícia trágica sobre seus amigos. Ela procura meus olhos, mas logo se volta para o jornal, como se sua mente torcesse para ter lido tudo errado na primeira vez. — Falei para eles irem embora de Los Angeles! Dahlia disse que eles iam embora... — Seus olhos verdes encaram os meus, cheios de desespero e despedaçados pela culpa.

Fico de pé.

Sarai pega o jornal com as duas mãos e o rasga bem no meio, amassando as duas metades em seus punhos.

— Eles mataram Dahlia e Eric, porra! — ruge ela. — Eles estão mortos!

O jornal cai de suas mãos e voa pelo pátio de pedra.

Fredrik apenas me olha, esperando para ver o que vou fazer ou dizer. Ele não fala, mas percebo que quer.

— Sarai. — Por trás dela, ponho as mãos em seus ombros. — Eu vou cuidar disso.

Ela se vira para mim. Seu cabelo balança ao redor da cabeça antes de cair de novo nos ombros e seu rosto está ardendo de fúria.

— ELES MORRERAM POR MINHA CAUSA! COMO LYDIA!

Tentando acalmá-la, aperto seus ombros com força, de frente, e a seguro.

— Eu disse que vou cuidar disso — repito com ainda mais intensidade e sinceridade do que antes. Eu me inclino para a frente para manter seu olhar fixo no meu. — Vou fazer isso por você, Sarai. Hamburg e Stephens estarão mortos antes do fim desta semana.

Ela não ouve. Está me encarando, mas parece estar olhando através de mim. Seu peito sobe e desce com a respiração ofegante e irregular. Suas pupilas parecem pequenas, como buracos de grampos em uma folha de papel. O verde de seus olhos parece ter escurecido.

— Não — rebate ela, com a voz calma. — Não quero que você faça nada.

Absorta em pensamentos, ela dá um passo para trás, e minhas mãos caem de seus ombros.

— Vou fazer isso por você. Eu quero...

— Eu disse que não! — Ela dá mais dois passos e se vira, me dando as costas e olhando para a piscina. — Eu vou fazer isso — afirma ela, em voz baixa e decidida. — Vou matar os dois e não quero que você se meta.

— Acho que não...

Ela vira a cabeça, seus olhos escuros cruzando com os meus.

— Se você matar qualquer um deles, nunca vou perdoar você. Isso é assunto meu, Victor! Me deixe fazer pelo menos isso!

— Sarai, você não pode matá-los. — Eu me aproximo dela. — A única pessoa que vai morrer é você. Não vai conseguir...

— Estou cagando para isso! — Percebo que o objetivo de Sarai é inabalável. Ela volta para perto de mim. — Ou você me ajuda a fazer isso ou eu mesma vou descobrir como fazer. Eles vão morrer nas minhas mãos, não nas suas, nas de Fredrik nem nas de qualquer outra pessoa. Só nas minhas. Me ensine. Me mostre o que fazer. Qual é a melhor forma de agir para alguém como eu. Me ajude, ou vou morrer tentando por minha conta. Para mim, tanto faz.

— Eu não vou... você não pode — retruco, balançando a cabeça.

Sarai desiste e tenta me empurrar para fora de seu caminho. Mas não deixo que ela passe. Não posso, pois sei que cada palavra que ela disse foi a sério.

Eu a seguro pelo pulso, detendo sua marcha furiosa até a porta de vidro. Fredrik sai do caminho, assistindo ao desenrolar da cena com um brilho estranho nos olhos, que só posso interpretar como fascinação.

— Me solte!

— Você não vai embora. — Eu a prendo pelo pulso com força, e agarro o outro quando ela começa a me bater.

Ela quer descontar toda a raiva em mim, gritar na minha cara, me xingar com as palavras que tanto quer dizer a Hamburg e Stephens antes de matá-los, mas não consegue. A raiva, como sempre, a domina, e Sarai cai no choro.

Ela me disse uma vez que sempre chora quando está furiosa.

As lágrimas escorrem como rios por seu rosto. Sarai tenta mais uma vez se desvencilhar de mim, mas a seguro firme e faço uma pressão dolorosa sobre seus pulsos, tentando acalmá-la.

— Victor, por favor! Porra, basta me ensinar, cacete! Mesmo que seja matar os dois e mais ninguém! É tudo que eu peço! Nunca mais vou pedir a sua ajuda! POR FAVOR!

Sarai enfim para de se contorcer e desaba sobre meu peito. Eu a envolvo em meus braços, aninhando sua nuca nas mãos e pressionando o lado do meu rosto no alto de sua cabeça. Sarai chora com violência, seu corpo treme no meu abraço. Não são gritos de tristeza e dor, são gritos de culpa, raiva e da necessidade desesperada de vingar a morte de pessoas — até de Lydia — que poderiam ainda estar vivas, se não fosse por ela.

Fredrik olha para mim. Sei o que a expressão calma dele quer dizer. Ele acha que eu deveria dar a Sarai o que ela quer.

Mas não é a opinião de Fredrik que me faz decidir, no fim das contas. É minha necessidade de proteger Sarai, ainda que ela possa acabar morta no final.

Escolho o mais seguro dos dois caminhos malfadados.

— Eu vou ajudar você.