O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 32 de 37

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O Retorno de Izabel

Sarai

 

O fedor da minha urina no chão, no canto desta sala escura onde estou trancada há dois dias, está se tornando insuportável. Eu me deito no concreto frio e sujo, com a bochecha apoiada no chão áspero e granulado. Minhas costas ardem, queimam como se as feridas infligidas pelo chicote que Stephens usou para me bater estivessem infeccionando. Aconteceu na noite passada, quando Niklas me deixou sozinha nesta sala. Quando ele voltou, Stephens já tinha me espancado tanto que desmaiei por um tempo com a dor e acordei deitada em uma poça de vômito. Ouvi Niklas e Stephens discutindo fora da sala, do outro lado da porta alta de metal. Niklas não aprovava o modo como Stephens estava me tratando e deixou isso claro.

— EU PRECISO DELA VIVA, PORRA! — gritou Niklas com Stephens. — VOCÊ VAI MATAR SARAI, BATENDO TANTO ASSIM!

Odeio Niklas pelo que ele fez. Comigo. Com Victor. Pelo que está fazendo agora, mantendo-me neste lugar. Mas uma pequena parte de mim está grata por ele não tolerar a brutalidade de Stephens. Não importa, para mim, que ele só esteja sendo intolerante porque me quer viva para revelar informações. Aceito qualquer ajuda que vier.

Ouço o trinco deslizar na porta de metal da minha cela. A porta se abre, raspando um pouco no chão.

Niklas entra. Está trazendo um prato de comida e uma garrafa de água. Outro homem fecha a porta e a tranca.

— Nem se incomode — digo do meu lugar no chão, quando ele se aproxima. — Já que você não me mata nem deixa Stephens me matar, talvez eu morra mais rápido de desidratação.

Niklas põe a comida no chão ao meu lado. Levanto o corpo do chão e a jogo longe com um tapa. Apoiando as mãos na parede, eu me sento, tentando não apoiar as costas por causa dos ferimentos. Minhas costelas também doem. E meu pulso esquerdo. Meu lábio inferior parece inchado. Sinto gosto de sangue na boca. Metálico. Nojento.

— Por que não fala de uma vez? — sugere Niklas, com ar de resignação. Ele está cansado de tudo isso, do tempo que está perdendo. — Você pode encerrar esta noite agora mesmo, é só me contar o que eu quero saber.

Não digo nada.

Niklas se senta no chão diante de mim. Ele sabe que estou fraca demais para resistir. Já tentei, e isso só tornou a dor nas costelas e nas costas mais insuportável.

— É melhor eu olhar as suas costas — sugere ele.

— Por que você se importa, caralho? Ah, esqueci, porque precisa descobrir o que eu sei. — Inclino a cabeça para perto dele, com os olhos cheios de um ódio inabalável. — A verdade é que eu sei tudo. Sei com quem Victor está envolvido, quem está ajudando, onde ficam seis abrigos dele. Sei tudo, Niklas, e não vou contar nada!

Faço uma careta e cubro as costelas com os braços quando uma pontada de dor atravessa meu corpo.

— Muito bem. — Ele fica de pé.

Ele vai até a comida, coloca tudo de volta no prato (um sanduíche destruído, alguns picles e um punhado de batatas fritas) e pega a garrafa d’água do chão. Ele volta e coloca tudo perto dos meus pés.

Então se agacha na minha frente.

— Ele não vem salvar você, Sarai — afirma Niklas, com tranquilidade.

Estendo o braço com o pouco de força que me resta para agarrá-lo, mas paro de repente, querendo ouvir o que ele tem a dizer. Não importa que eu não vá acreditar. Quero ouvir mesmo assim.

Seus olhos azuis parecem se suavizar.

— Mandei dois vídeos de você para o meu irmão. Dei a ele a localização de onde estamos, disse onde você estava. Era uma chance de se entregar. De revelar as informações. Mas ele não respondeu. — Então Niklas abre a mão, com a palma para cima, e mostra a sala com um gesto enquanto apoia os braços nas pernas. — E você pode ver que ele não está aqui. Dois dias e nada. — Ele baixa a mão. — Victor não vem salvar você. Quer saber por quê? Vou contar. Porque o trabalho sempre vai ser a prioridade na vida dele. Ele nunca vai cometer os mesmos erros que Fredrik Gustavsson cometeu por causa de uma mulher.

Levanto o queixo.

— Ah, mas isso não é verdade — digo, com desdém. — Ele traiu você por minha causa, lembra? Você mesmo disse isso. Saiu da Ordem por minha causa. Ele quase matou o próprio irmão por minha causa. Lembra, Niklas? — Cutuco a ferida, fitando seus olhos furiosos enquanto tento resistir à dor física.

Niklas abre um sorriso malicioso.

— Sim, ele fez tudo isso. Mas eu via no meu irmão o desejo de se libertar de Vonnegut bem antes de você entrar na vida dele. E ele não está mais na Ordem agora. Está livre de tudo, e, sim, você foi uma parte importante disso, do motivo para ele sair. Você deu o empurrão de que ele precisava, acho. — Ele volta a me olhar com uma expressão severa. — Mas você não vê o que não mudou? Pense, Sarai. Em vez de se libertar de uma vida de assassinatos, como qualquer um em seu juízo perfeito faria, como qualquer um que tivesse uma consciência faria, ele cria sua própria Ordem. Ainda pensa apenas no trabalho. Apenas em matar para ganhar a vida. Porque é só o que ele sabe fazer, e nunca vai aprender outra coisa. — Niklas balança a cabeça para mim, como se sentisse pena da minha ignorância por não ter visto as coisas que ele viu.

Desvio o olhar.

Uma parte de mim, uma parte envergonhada e culpada, não consegue deixar de acreditar nele, no fim das contas.

Niklas se levanta novamente.

— Acredite no que quiser, Sarai — continua ele, baixinho. — Mas você sabe tão bem quanto eu que, se ele viesse salvar você, já teria chegado.

Niklas vai até a porta de metal, bate duas vezes e o homem do outro lado abre. Ele sai e eu fico no escuro de novo, rodeada por paredes escuras, um teto escuro e pensamentos escuros, que estão partindo meu coração em mil pedaços minúsculos.

Não importa.

Se as coisas que Niklas me disse são verdade e Victor não vier me buscar, mesmo assim vou morrer sem contar nada.

Vou morrer aqui.