O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 2 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo Dois

 

Sarai

 

Passo o dia todo com Eric e Dahlia, fingindo me divertir para passar o tempo. Saímos para almoçar e para fazer um tour por Hollywood com um guia e visitar um museu antes de voltarmos para o hotel, exaustos. Quer dizer, finjo estar exausta o suficiente para querer dar o dia por encerrado. Na verdade, o que preciso é me preparar para ir ao restaurante de Hamburg ainda hoje.

Dahlia já acha que tem algo errado comigo.

— Você está ficando doente? — pergunta ela, estendendo a mão entre nossas espreguiçadeiras à beira da piscina e sentindo a temperatura da minha testa.

— Estou ótima — respondo. — Só cansada porque levantei muito cedo. E quando foi a última vez que andei tanto assim em um dia só?

Dahlia volta a se recostar em sua espreguiçadeira e ajeita os óculos de sol grandes e redondos no rosto.

— Bom, espero que não esteja cansada amanhã — diz Eric, do outro lado. — Tem tantas coisas que eu quero fazer. Não venho para Los Angeles desde que meus pais se divorciaram.

— Pois é. É a minha primeira vez aqui em dois anos — afirma Dahlia.

Um adolescente pula na piscina e a água respinga em nós. Ergo as costas da espreguiçadeira e agito a revista que estava lendo para tirar as gotas. Ponho os óculos escuros no alto da cabeça. Jogo as pernas para o lado e fico de pé.

— Acho que vou voltar para o quarto e tirar uma soneca — anuncio, pegando minha bolsa do chão.

Eric se ergue também e tira os óculos escuros.

— Se quiser, vou com você — oferece ele.

Agito a mão para ele, pedindo que não se levante.

— Não, fica aí e faz companhia para a Dahlia — sugiro, ajeitando a bolsa no ombro. Abaixo os óculos escuros de novo para que ele não perceba minha mentira.

— Tem certeza de que você está bem? — pergunta Dahlia. — Sarai, você está de férias, lembra? Veio para cá se divertir, não para cochilar.

— Acho que vou estar cem por cento amanhã. Só preciso de um banho quente e demorado e de uma boa noite de sono.

— Ok, vou acreditar — diz Dahlia. — Mas nem vem com doença para o meu lado. — Ela aponta o dedo para mim, com ar severo.

Eric fecha os dedos em torno do meu pulso e me puxa para perto.

— Tem certeza de que não quer que eu vá? — Ele me beija e eu correspondo antes de me levantar de vez.

— Tenho — respondo, baixinho, e saio na direção do elevador.

Assim que entro no quarto, tranco a porta com a corrente para que Eric e Dahlia não entrem de surpresa, jogo a bolsa no chão e abro meu laptop, digitando a senha. Enquanto o laptop inicia, olho pela janela e vejo meus amigos, figuras pequenas daquela distância, ainda à beira da piscina. Eu me sento diante da tela e, provavelmente pela centésima vez, olho cada página do site do restaurante de Hamburg, verificando de novo o horário de funcionamento e passando os olhos pelas fotos profissionais do lugar, dentro e fora. Na verdade, nada disso me ajuda muito com o que pretendo fazer, mas olho tudo de novo todo dia, de qualquer maneira.

Derrotada, bato a palma da mão com força no tampo da mesa.

— Droga! — exclamo, desabando na poltrona enquanto passo as mãos pelo cabelo.

Ainda não sei como vou conseguir ficar a sós com Hamburg sem ser vista. Sei que estou dando um passo maior do que a perna. Sei disso desde que tive essa ideia maluca, mas também sei que, se ficar apenas pensando a respeito, nunca vou passar dessa fase.

Vim para cá com um plano: entrar disfarçada no restaurante e agir como qualquer outro cliente. Sondar o lugar por uma noite. Saber onde ficam as saídas. As entradas para outras partes do prédio. Os banheiros. Minha prioridade número um, contudo, é encontrar a sala de onde Hamburg observa do alto seus clientes e ouve a conversa deles pelo minúsculo microfone escondido no arranjo de cada mesa. Então pretendo me enfiar na sala e cortar a garganta daquele porco.

Contudo, agora que estou aqui, a menos de seis quadras do restaurante, e agora que o tempo está passando tão depressa, estou menos confiante. Isso não é um filme. Sou uma idiota por achar que posso adentrar um lugar desses sem ser vista, tirar a vida de um homem sem chamar atenção e fugir sem ser capturada.

Apenas Victor conseguiria fazer algo assim.

Bato no tampo da mesa de novo, mais de leve desta vez, fecho o laptop e me levanto. Ando de um lado para outro no carpete vermelho e verde. E bem quando resolvo seguir pelo corredor para o quarto separado que reservei sem Dahlia e Eric saberem, a porta se abre um pouco, mas é travada pela corrente.

— Sarai? — chama Dahlia do outro lado. — Vai deixar a gente entrar?

Suspiro fundo e destranco a porta.

— Por que a corrente? — pergunta Eric, entrando atrás de Dahlia.

— Força do hábito.

Eu me jogo na ponta da cama king-size.

Os dois deixam suas coisas no chão. Dahlia se senta à mesa, ao lado da janela, e Eric se deita atravessado na cama ao meu lado, cruzando as pernas na altura dos calcanhares.

— Pensei que você ia tirar uma soneca — diz Dahlia.

Ela passa os dedos com cuidado pelo cabelo úmido, fazendo caretas quando se depara com alguma mecha mais embaraçada.

— Dahlia — digo, olhando para os dois. — Eu subi agora há pouco. Pensei que vocês iam ficar na piscina mais um tempo.

Espero ter conseguido disfarçar o aborrecimento na minha voz por eles terem vindo me encontrar tão cedo. Não consigo evitar: estou estressada demais, além de preocupada com a simples presença dos dois aqui comigo. Não quero que eles se machuquem nem que se envolvam de forma alguma com meu motivo para estar aqui.

— A gente pode sair e deixar você sozinha, se quiser — sugere Eric, baixinho, atrás de mim.

Eu me arrependo na mesma hora do que disse, porque é óbvio que não disfarcei o aborrecimento tão bem quanto esperava.

Inclino a cabeça para trás e suspiro, esticando o braço para tocar o tornozelo dele.

— Desculpa — digo, sorrindo para Dahlia. — Sabe, eu... — Então, de repente, uma desculpa perfeitamente plausível para o modo como tenho agido surge na minha cabeça, e a torneira das mentiras se abre. — Eu só fico meio nervosa por estar de volta a Los Angeles.

Dahlia faz cara de “ah, entendi”, empurra os pés de Eric para o lado e se senta perto de mim. Ela passa o braço por cima dos meus ombros e segura meu antebraço.

— Imaginei que o problema fosse esse.

Percebo que ela olha de relance para Eric e tenho a impressão de que foi sobre isso que os dois falaram enquanto ficaram na piscina, depois que fui embora.

Aposto que também foi por isso que decidiram subir tão cedo para me ver.

— A gente queria ver como você estava — acrescenta Eric atrás de mim, confirmando minha suspeita.

Sinto a cama se mexer quando ele se senta.

Eu me levanto antes que ele consiga me abraçar. É nesse exato momento que me dou conta de como tenho feito isso com frequência no último mês. Não sei por quanto tempo mais vou conseguir enganá-lo. Sei que deveria simplesmente contar o que sinto, que não gosto tanto de Eric quanto ele gosta de mim. Mas não consigo dizer a verdade. Eu precisaria inventar mais uma mentira, e estou tão atolada em mentiras que me sinto afogada nelas.

Ao mesmo tempo, deixei nossa relação durar tanto porque eu queria de verdade sentir por ele algo tão profundo quanto o que ele parece sentir por mim. Queria seguir em frente, esquecer Victor e ser feliz com a vida que ele me deixou.

Mas não consigo. Não consigo mesmo...

— Ele nem vai saber que você está aqui — diz Eric sobre “Matt”. — Além disso, mesmo que ele descobrisse, eu ia encher o cara de porrada assim que o visse.

Esboço um sorriso para Eric.

— Eu sei que você faria isso — digo, mas me sinto ainda pior, porque os únicos dois amigos que tenho no mundo não fazem nem ideia de quem sou.

Cruzo os braços, vou até a janela e olho para fora.

— Sarai — chama Dahlia. — Não queria dizer isso, mas, se você está tão preocupada com a possibilidade de Matt descobrir que você está em Los Angeles, acho que não é boa ideia visitar seus amigos aqui.

— Eu sei, você tem razão. Sei que eles não contariam para Matt, mas acho que é melhor eu ficar só com vocês dois enquanto estivermos aqui.

Eu me viro para encará-los.

— É um bom plano — diz Eric, com um sorriso radiante.

É um bom plano, com certeza, porque agora não preciso mais inventar outra desculpa para não apresentar os dois aos meus amigos que não existem.

Dahlia se aproxima de mim.

— A gente devia ter ido para a Flórida ou algum lugar assim, hein?

Olho pela janela de novo.

— Não — respondo. — Adoro esta cidade. E sei que vocês queriam muito vir para cá. — Dou um sorriso rápido. — Sugiro que a gente curta ao máximo esta semana.

Ela me empurra com o ombro de brincadeira.

— Essa é a Sarai que eu conheço — diz Dahlia, sorrindo.

É, só que não sou essa pessoa...

Ela vai até Eric e o puxa pelo braço, levantando-o da cama.

— Vamos sair daqui e deixar a mocinha descansar.

Eric se levanta e se aproxima de mim. Então pega meus braços e me vira para encará-lo. Com aqueles olhos azul-bebê, ele faz a melhor expressão amuada que consegue.

— Se precisar de mim para qualquer coisa, pode me chamar que eu venho.

Concordo com a cabeça e lhe ofereço um sorriso sincero. Ele merece, por ser tão legal comigo.

— Pode deixar.

Então eu os empurro porta afora com as duas mãos.

— Eu diria para vocês não se divertirem muito sem mim, mas isso seria pedir demais.

Dahlia ri baixinho ao sair para o corredor.

— Não, não é pedir muito. — Ela levanta dois dedos. — Palavra de escoteiro.

— Acho que não é assim que se faz, Dahl — diz Eric.

Ela faz um gesto para dispensar as palavras dele.

— Trate de dormir — sugere Dahlia. — Porque amanhã você vai precisar estar novinha em folha.

— De acordo — digo, assentindo.

— Tchau, amor — diz Eric antes de eu fechar a porta.

Fico com as costas apoiadas na porta e solto um suspiro longo e profundo.

Fingir é difícil demais. Bem mais difícil do que simplesmente ser eu mesma, por mais anormal e imprudente que eu seja.

— Eu sei o que preciso fazer — digo em voz alta.

Falar sozinha é minha nova mania, porque me ajuda a visualizar e entender melhor as coisas.

Volto para a janela e olho a cidade de Los Angeles, com os braços cruzados.

— Preciso de um disfarce, mas não para me esconder de Hamburg. Só das câmeras e de qualquer outra pessoa. Eu quero que Hamburg me veja. Só assim vou conseguir entrar.