O Retorno de Izabel
Capítulo Sete
Sarai
— Você chegou cedo — comenta Fredrik com um sorriso mortal, porém inimaginavelmente sexy.
As roupas dele são bem parecidas com as de Victor, mas, em vez de camisa de botão, Fredrik está vestindo uma camiseta branca apertada que adere à sua forma esbelta e máscula. Ele está descalço.
A primeira vez que vi Fredrik, pensei que era impossível haver alguém mais bonito. Com cabelo macio, quase preto, e olhos escuros e misteriosos, suas feições parecem ter sido esculpidas por algum artista famoso. Mas sempre achei que havia algo de sombrio e assustador naquele homem. Um lado dele que eu, particularmente, não faço questão de conhecer. Para mim, basta o jeito como ele era quando nos encontramos: cordial, encantador e misterioso, uma linda máscara que ele usa para esconder a fera que há por trás.
Victor olha para seu relógio caro.
— Só dez minutos mais cedo — comenta ele.
Fredrik sorri ao se aproximar, os dentes brancos reluzindo contra a pele bronzeada.
— Sim, mas você sabe como eu sou.
Victor assente, mas não alonga o assunto. A mim, só resta imaginar o que aquilo significa.
— É bom ver você — diz Fredrik, observando-me do topo de sua altura considerável e presença avassaladora. Ele se inclina, pega minha mão e a beija, logo acima dos nós dos dedos. — Ouvi dizer que você matou um homem hoje.
Ele apruma as costas e solta minha mão. Um sorriso perturbador e orgulhoso surge em seu rosto, os cantos dos olhos se aquecendo com alguma lembrança ou... prazer, como se a ideia de matar alguém o deliciasse de alguma forma.
Olho para Victor à minha direita. Ele assente, respondendo à pergunta estampada no meu rosto. O guarda-costas que apunhalei no pescoço morreu?
Olho para Fredrik e respondo sem rodeios.
— Acho que matei.
Um leve sorriso se abre nos cantos dos lábios de Fredrik, e ele olha de relance para Victor, sem mover a cabeça.
— E você se sente bem com isso? — pergunta Fredrik.
— Para dizer a verdade, sim — respondo sem demora. — O desgraçado mereceu.
Fredrik e Victor parecem envolvidos em algum tipo de conversa secreta. Odeio isso.
Enfim, Fredrik diz para Victor em voz alta:
— Você arrumou sarna para se coçar, Faust.
Ele então se vira de costas para nós e anda na direção das portas de vidro. Nós o seguimos para o lado de fora, passando pela parte coberta do quintal e descendo uma escada de pedra que leva a um enorme pátio, também de pedra, que se abre em todas as direções. O pátio é decorado com mesas e cadeiras de ferro batido e uma cama com dossel ao ar livre.
Eu me sento ao lado de Victor em um sofá.
— Como é que você sabe? — pergunto a Fredrik, mas então me viro para Victor e digo: — E você ainda não me contou como sabia que eu estava aqui.
Na verdade, isso não importa muito, só quero encará-lo nos olhos de novo. Quero ficar sozinha com Victor, mas por enquanto vou precisar me contentar com os 7 centímetros entre nossos corpos, sentados lado a lado.
— Melinda Rochester me contou — explica Fredrik com um sorriso conivente. Começo a perguntar “E quem é Melinda Rochester”, mas ele diz: — Bem, ela contou para todo mundo, na verdade. Noticiário do Canal 7. Um homem morto a punhaladas atrás de um restaurante de Los Angeles.
Começo a me retorcer por dentro. Espero que as câmeras não tenham me mostrado com nitidez.
Eu me viro para Victor, com a preocupação transparecendo no rosto.
— Eu estava de peruca loura — digo, tentando encontrar alguma coisa, qualquer coisa que eu tenha feito certo. — Fiquei com a cabeça baixa... a maior parte do tempo.
Desisto. Sei que o que fiz vai continuar me perseguindo. Suspiro e olho para as mãos ensanguentadas no meu colo.
— E encontrar você foi fácil — continua Victor. — A sra. Gregory me ligou depois que você saiu do Arizona. Ela estava preocupada com a sua vinda para Los Angeles e achou que eu precisava saber.
Viro a cabeça para encará-lo.
— O quê? Dina sabia onde você estava? — Sinto a pele ao redor das sobrancelhas se enrijecendo.
— Não — responde ele, com delicadeza. — Ela não sabia onde eu estava, mas sabia como entrar em contato comigo.
Essas palavras me magoam. Engulo em seco a sensação de ser traída por eles.
— Falei para ela entrar em contato comigo só em caso de emergência — acrescenta Victor. — Caso algo acontecesse com você.
— Você deixou para Dina uma forma de entrar em contato — digo, ríspida —, mas para mim, nada. Não acredito que você fez isso.
— Eu queria que você tocasse a sua vida. Mas, caso os irmãos de Javier descobrissem onde você estava, ou você decidisse fazer uma proeza como a de hoje, eu queria ficar sabendo.
Não consigo olhar para Victor. Tento chegar mais alguns centímetros para o lado a fim de aumentar a distância entre nós. Ainda assim, mesmo que esteja magoada e enfurecida com ele, sinto vontade de me aproximar de novo. Mas me mantenho firme e me recuso a deixá-lo perceber que o poder que ele exerce sobre mim faz a raiva que sinto parecer um chilique.
— Não acredito que Dina escondeu isso de mim — digo em voz alta, ainda que esteja falando mais comigo mesma.
— Ela escondeu de você porque eu disse a ela quanto isso era importante.
— Bom, de qualquer maneira — interrompe Fredrik, sentando-se na poltrona ao lado do sofá —, parece que você se meteu em uma situação da qual não vai conseguir sair tão facilmente, se é que vai conseguir.
— Por que a gente está aqui? — pergunto, aborrecida.
Fredrik ri baixinho.
— Aonde mais você iria?
— Eu precisava tirar você do hotel — explica Victor.
— Espere um pouco. Eu não matei aquele homem atrás do restaurante. Tudo aconteceu na sala particular de Hamburg, no andar de cima.
Recordo o homem que vi do lado de fora, atrás do restaurante, aquele que me deixou fugir, e meu coração afunda.
— Hamburg não deixaria que a polícia acreditasse que o assassinato aconteceu lá dentro, porque eles confiscariam a memória da câmera de vigilância e veriam o que realmente aconteceu.
Não estou entendendo nada. Nadinha.
— Eles não iam querer que a polícia soubesse o que realmente aconteceu?
Fredrik se reclina na poltrona e ergue um pé descalço, apoiando o tornozelo sobre o outro joelho, e estende os braços sobre os da poltrona.
Victor balança a cabeça.
— Preciso mesmo explicar isso para você, Sarai?
Sua vaga irritação me pega de surpresa. Olho para ele e levo alguns segundos para entender tudo sem que ele precise explicar.
— Ah, entendi — digo, olhando um de cada vez. — Hamburg não quer que a polícia se envolva porque corre o risco de se expor. O que ele fez, então? Só levou o corpo para fora? Preparou a situação para parecer um assalto comum? Não muito diferente do que ele fez naquela noite em que a gente estava na mansão dele, imagino.
Paro por aí porque Fredrik está presente. Não sei qual o grau de intimidade entre ele e Victor, nem mesmo se Fredrik sabe o que aconteceu na noite em que Victor matou a esposa de Hamburg.
Os olhos de Victor sorriem de leve para mim: sua maneira de me mostrar quanto lhe agrada eu ter entendido tudo. Ainda fingindo estar aborrecida, não retribuo o olhar da forma que ele deve esperar.
A empregada aparece com um balde chique de gelo, de madeira, com três garrafas de cerveja dentro. Fredrik pega uma, então ela nos oferece. Victor pega uma garrafa, mas recuso, mal conseguindo olhar a mulher nos olhos. Estou absorta demais nos acontecimentos da noite, que não me saem da cabeça.
A empregada vai embora logo depois, sem dizer uma palavra.
— O que você quis dizer com os irmãos de Javier?
Victor abre sua garrafa e a põe na mesa.
— Dois deles, Luis e Diego, assumiram os negócios de Javier dias depois que você o matou.
Por um instante, o rosto de Javier surge em minha mente: sua expressão chocada e ainda orgulhosa, os olhos arregalados, o corpo caindo no chão segundos depois de eu meter uma bala em seu peito.
Afasto a imagem.
Eu me lembro de Luis e Diego. Diego é aquele que tentou me estuprar quando eu estava na fortaleza no México, aquele que Javier castrou como punição.
— Eles estão me procurando?
Victor toma um gole de cerveja e devolve a garrafa à mesa com calma.
— Que eu saiba, não. Estou monitorando a fortaleza há meses. Os irmãos de Javier são amadores. Não têm ideia do que fazer com tanto poder. Duvido até que vejam você como ameaça.
Fredrik toma um gole de cerveja e prende a garrafa entre as pernas.
— Não fique tão aliviada assim — diz ele. — É melhor ser perseguida por amadores do que por Hamburg e aquele braço direito dele.
Um nó nervoso se forma no fundo do meu estômago. Olho de relance para Victor, buscando respostas.
— Willem Stephens — esclarece Victor — faz todo o serviço sujo de Hamburg. Hamburg em si é covarde, tão perigoso quanto o pedófilo gente boa da vizinhança. Mal consegue atirar em um alvo imóvel, e trairia alguém em dois minutos para se salvar. — Ele arqueia uma sobrancelha. — Stephens, por outro lado, tem uma extensa formação militar, é ex-mercenário e trabalhou para uma Ordem do mercado negro em 1986.
— Uma o quê?
— Uma Ordem como a nossa — explica Victor —, mas que aceita contratos particulares. Eles fazem coisas que outros agentes se recusam a fazer, vendem seus serviços basicamente para qualquer um.
— Ah... Então, resumindo, ele mata gente inocente por dinheiro.
Lembro o que Victor me contou, meses atrás, sobre a natureza dos contratos particulares, como pessoas eram assassinadas por motivos fúteis como traição conjugal ou vingança. A Ordem de Victor só trabalha com crime, ameaças sérias a um grande número de pessoas ou ideias que poderiam ter um impacto negativo na sociedade ou na vida como um todo.
Engulo em seco.
— Bom, ele me viu, com certeza. — Levanto as mãos e tiro o cabelo do rosto, passando as mãos no alto da cabeça. — Foi ele quem me levou para o segundo andar, para a sala de Hamburg. — Olho para Victor. — Desculpa, Victor. Eu... eu não sabia de nada disso.
Fredrik ri baixinho e diz:
— Algo me diz que, mesmo se você soubesse, teria ido lá de qualquer maneira.
Desvio o olhar de Victor e olho para baixo de novo, nervosa, esfregando os dedos ensanguentados uns nos outros. Fredrik tem razão. Odeio admitir, mas ele tem razão. Eu teria ido para o restaurante mesmo assim. Teria tentado matar Hamburg mesmo assim. Mas, se eu soubesse de tudo isso, acho que teria pensado em um plano melhor.
De repente, sinto que alguma coisa toma meu corpo e me tira o fôlego.
— Victor... Meu celular... — Eu me levanto do sofá, com o cabelo castanho-avermelhado caindo pelos ombros, batendo em meus braços nas partes em que o sangue secou e formou uma crosta áspera. — O número de Dina está no meu celular. Merda. Merda! Victor, Stephens vai atrás dela! Preciso voltar para o Arizona!
Começo a seguir para a porta dos fundos, mas Victor me alcança antes que eu atravesse o caminho decorado com pedras lisas.
— Espere aí.
Olho para baixo e vejo os dedos dele em volta do meu pulso. Seus hipnóticos olhos verde-azulados me fitam com desejo e devoção. Devoção. Algo que nunca vi no olhar de Victor antes.
Fredrik fala atrás de nós, me tirando do transe em que Victor me colocou.
— Eu vou cuidar disso — diz ele.
Desvio o olhar de Victor para Fredrik, que então ganha importância, considerando que a vida de Dina está em jogo.
— Como? — pergunto.
Victor me leva de volta para o sofá.
Fredrik pega o celular da mesa à frente, procura um número e toca na tela para ligar. Então encosta o celular no ouvido.
Victor me faz sentar perto dele de novo. Estou concentrada demais em Fredrik no momento para notar que Victor fez questão de se sentar tão perto que sua coxa está encostada na minha. Quero aproveitar o momento de proximidade, mas não posso. Estou preocupada com Dina.
Fredrik se reclina na poltrona de novo, balançando o pé descalço apoiado no joelho. Seu rosto fica alerta quando alguém atende à ligação.
— Em quanto tempo você consegue chegar a Lake Havasu City? — pergunta Fredrik ao telefone. Ele ouve por um segundo e assente. — Mando o endereço por mensagem de texto assim que eu desligar. Vá para lá o mais rápido que puder. Uma mulher mora lá. Dina Gregory. — Ele me olha de relance, para se certificar de que disse o nome certo. Como não o corrijo, volta a falar ao telefone. — Tire-a da casa e a leve para Amelia, em Phoenix. Sim. Sim. Não, não pergunte nada a ela. Só tome cuidado para ninguém machucar Dina. Sim. Me ligue neste número assim que estiver com ela.
Fredrik assente mais algumas vezes. Meu coração está batendo tão forte que parece pronto para pular do peito. Espero que a pessoa com quem ele está falando consiga encontrar Dina a tempo.
Fredrik desliga e parece abrir uma tela de texto no celular. Ele olha para mim, mas é Victor quem dá o endereço da sra. Gregory. Fredrik o digita e deixa o celular na mesa.
— Meu contato está a apenas trinta minutos de lá — explica Fredrik, olhando primeiro para mim. Então se vira para Victor. — O que você quer que eu faça?
Ele levanta as costas da poltrona e apoia os cotovelos nos joelhos, deixando as mãos entre eles. Mesmo em uma posição relaxada, ele consegue parecer elegante, importante e perigoso.
— Ainda preciso que você verifique o que discutimos ontem — diz Victor, e fica ainda mais claro, para mim, que Fredrik recebe ordens dele, embora não pareça ser do tipo que recebe ordens de ninguém. Mas está claro que os dois têm uma relação forte. — E, se você não se importa, preciso da sua casa emprestada por esta noite.
Os olhos escuros de Fredrik me encaram, e o traço de um sorriso aparece em seu rosto. Ele se levanta e pega o celular da mesa, escondendo-o na mão.
— Não precisa dizer mais nada. Vou sair daqui em vinte minutos. Eu ia mesmo me encontrar com alguém hoje, então está combinado.
A atitude de Victor muda um pouco, o que percebo no mesmo instante. Ele está encarando Fredrik, do outro lado da mesa do pátio, com um olhar cansado e cauteloso.
— Você não vai fazer o que estou pensando...
Ouço com atenção sem nem ao menos tentar disfarçar. Eu quero que eles saibam que estou bisbilhotando, porque é frustrante nenhum dos dois me oferecer qualquer explicação sobre esses comentários internos.
Fredrik ergue um lado da boca em um meio sorriso. Ele balança a cabeça de leve.
— Não, esta noite, não, infelizmente. Mas já faz algum tempo. Vou precisar que você me ajude com isso em breve.
Os olhos dele passam por mim e sinto um calafrio percorrer minhas costas. Não consigo decidir se é um arrepio bom ou assustador.
— Você terá sua oportunidade logo, logo — assegura Victor.
Fredrik dá a volta na mesa.
— Lamento por ter que encurtar nossa reunião.
— Tudo bem — digo. — Obrigada por ajudar com Dina. Você avisa quando receber aquela ligação?
Fredrik assente.
— Com certeza. Farei isso.
— Obrigada.
Victor acompanha Fredrik até a porta de vidro e os dois a atravessam. Fico sentada, observando-os do outro lado do pátio de pedra e tentando ouvir o máximo que posso, mas eles fazem questão de falar em voz baixa. Isso também me deixa frustrada. E pretendo informar Victor disso.