O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 22 de 37

Páginas do PDF

O Retorno de Izabel

Capítulo Vinte

 

Sarai

 

Dois dias já se passaram sem novidades, e estou cada vez mais inquieta sozinha neste casarão, com as altas paredes amarelas e o chão de terracota como minhas únicas companhias. Não consigo passar muito tempo vendo TV, embora após gastar a maior parte da juventude presa no México, apenas com novelas mexicanas como diversão, fosse de esperar que a TV americana me parecesse um luxo bem-vindo. Mas me cansei dela em pouco tempo, depois que comecei minha vida temporária com Dina no Arizona, oito meses atrás. Tampouco tenho costume de ouvir rádio, o que faço muito de vez em quando. Mas eu tinha começado a tocar mais piano. Sempre vou amar piano. Eu até gostaria que Victor tivesse um aqui na casa, para que eu pudesse tocar.

Ando descalça pelo casarão, verificando mais uma vez se todas as portas e janelas estão trancadas. Mas é a última vez que verifico, pois me recuso a ficar paranoica, mesmo em nome de Victor e de sua às vezes peculiar, mas sempre incessante, preocupação comigo. Só que não posso negar que gosto disso nele.

Penso muito no que Victor me disse antes de viajar. Quero mais do que tudo, neste momento, entender o significado daquelas palavras enigmáticas. Sinto que ele está me testando de novo. Por isso meus instintos estão gritando comigo. Mas o que mais me preocupa é que, lá no fundo, sei que este teste tem muito a ver com Fredrik. Estou começando a me perguntar até onde Victor é capaz de chegar para me treinar.

E estou começando a me perguntar quanto ele realmente confia em mim...

Horas depois, no fim da tarde, quando decido que vou ceder e suportar uma horinha de TV, ouço um carro estacionando lá fora, na frente da casa, pequenos pedaços de brita estalando sob os pneus. Corro para a janela para ver quem é.

Meu coração pula quando vejo a maçaneta em forma de alavanca da porta da frente girar ao ser destrancada por fora. Só consigo pensar em por que Victor deu uma chave para Fredrik.

— Aí está você, gata — diz Fredrik ao entrar na sala, o cabelo escuro e volumoso sempre arrumado como se ele tivesse acabado de sair do cabeleireiro.

— O que você está fazendo aqui? — pergunto, fingindo não saber e fracassando ao tentar esconder o nervosismo na voz.

Lanço um olhar rápido para o sofá, onde escondi uma 9mm debaixo de uma almofada, e para perto do corredor, onde um pequeno aparador esconde um .38 na gaveta. São algumas das várias armas que espalhei pela casa. Todas carregadas. Nesta vida, não existe isso de trava de segurança.

— Victor não explicou? — pergunta Fredrik, abrindo os botões dos punhos de sua camisa social e arregaçando as mangas até os cotovelos. — Vou ficar com você até ele voltar. Você deixa a calefação muito forte, está muito calor aqui. — Ele passa o dedo indicador por dentro do colarinho, afastando o tecido do pescoço com uma expressão de desconforto.

— Sinto muito. Eu fico resfriada com facilidade.

Fredrik sorri, passa por mim e vai para a sala de estar. Eu o sigo, de olho em cada movimento. Sinto que não devo confiar nele, mas a verdade é que confio, sim. Minha insegurança me deixa confusa.

— Você podia pelo menos abrir umas janelas — sugere ele.

Fredrik dá a volta no sofá de couro marrom-amarelado e abre os trincos da janela alta atrás dele. Uma brisa leve entra, fazendo flutuar a cortina bege e diáfana que a cobre. Depois faz o mesmo com a janela ao lado.

Ele está usando uma calça informal marrom-escura e uma camisa branca cujo tecido fino deixa transparecer o contorno dos músculos do peito e dos braços. Um par de mocassins de couro marrom calça seus pés sem meias. O cabo de uma arma sai da parte de trás da calça, presa com firmeza pelo cinto.

Talvez o teste seja esse, se de fato for um teste; tenho cada vez menos certeza das coisas. Mas não parece ser do feitio de Victor se dar a todo este trabalho para saber se vou dormir com outro homem. Por outro lado, se este for o caso, quem pode ser melhor do que Fredrik, um lindo exemplar masculino e intrigantemente sombrio, para me tentar? Mas não sou uma garota doente e desequilibrada. Considero meio nojenta e bárbara a habilidade de Fredrik para torturar e assassinar pessoas não-tão-inocentes... Tudo bem, talvez o que ele fez com André Costa não tenha me causado tanta repulsa quanto deveria. Talvez eu ainda devesse estar traumatizada pelo que vi, considerando que foi só a alguns dias. Talvez eu devesse ficar mais desconfortável perto dele, neste momento, me sentir enjoada ou nervosa e minhas mãos tremessem. Mas estou perfeitamente à vontade e... Ok, talvez eu seja doente e desequilibrada. Victor deve perceber isso. Por qual outro motivo decidiria usar Fredrik, logo Fredrik, para me tentar?

— Eu sei o que Victor está fazendo — aviso, cruzando os braços e mordendo a parte interna da bochecha. Eu me sento no sofá e acomodo as pernas nuas na almofada que esconde a arma. Dobro os joelhos e arranjo uma posição confortável, tomando cuidado para que meu shortinho de algodão não suba demais, expondo mais do que o necessário. — Nem perca seu tempo.

Fredrik inclina a cabeça, com ar curioso, termina de dar a volta no sofá e vai até a poltrona de couro ao lado.

— Perder meu tempo fazendo o quê? — Ele parece mesmo não fazer ideia do que estou falando.

Ele se senta, apoiando o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo, com os longos braços estendidos nos apoios da poltrona, as pontas dos dedos tocando nos rebites dourados que afundam no couro.

— Não importa quanto você é bonito, não vai conseguir me seduzir.

Fredrik ri baixinho, balançando a cabeça. Seus ombros relaxam e um suspiro profundo sai de seus pulmões.

— Não vim para cá com esse objetivo, gata. — Seu sorriso é acentuado pelos olhos azuis brilhantes, emoldurados pelo cabelo espetado e quase preto. — Victor só pediu que eu ficasse de olho em você.

— Mas eu não preciso que ninguém fique de olho em mim — digo em tom tranquilo, porém obstinado. — Sou perfeitamente capaz de me cuidar sozinha.

Fredrik não para de sorrir, embora agora isso apareça mais em seus olhos do que na boca.

— Disso eu não tenho dúvida. Mas, mesmo assim, Victor pediu que eu ficasse aqui. E, sinto muito, mas os pedidos dele vêm antes dos seus.

Estreito os olhos para ele, mas não estou nem um pouco ofendida. Sei que ele tem razão, mas não vou dar o braço a torcer tão facilmente.

— Qual é o seu lance com Victor, afinal? — pergunta ele.

— Como assim?

— Ora, por favor. — Ele balança a cabeça, sorrindo para mim. — Você enfeitiçou o cara. E com muita facilidade, para dizer a verdade. Você é mais perigosa do que eu jamais poderia ser. Para o Victor, pelo menos. — Ele abre um sorriso.

Sinto a testa se franzir.

Fredrik ri baixinho e dá um tapinha nas pernas, para depois alisar o tecido da calça. Ele volta a apoiar os braços na poltrona.

— Se você está insinuando que eu quero seduzi-lo com algum tipo de falsa intenção, está enganado. — Estou ofendida desta vez, e isso transparece na minha voz.

— Não insinuei nada disso. — Ele inspira com tranquilidade de novo e reclina as costas na poltrona, relaxando o corpo. — Conheço Victor há muitos anos, Sarai, e posso dizer, embora talvez não devesse, que nunca vi o cara do jeito que está desde que conheceu você.

Sinto um frio na barriga por um momento. Afasto essa sensação. Não sou muito do tipo que sente frio na barriga. Ou pelo menos tento não ser, como se isso, de alguma forma, me tornasse fraca. Mas tampouco posso negar que, quando penso em Victor, me vejo “afastando a sensação” com frequência. Engulo em seco e levanto o queixo.

E então mudo de assunto.

— Peço desculpas se isso parecer indelicado...

— Gosto de gente indelicada — interrompe Fredrik, abrindo outro sorriso. — É um bom jeito de evitar o papo-furado.

Aceno que sim.

— Bom, você sente prazer torturando gente? — pergunto, como se fosse exatamente o que penso. — Ou matando pessoas?

Fredrik ajeita o enorme relógio prateado no pulso direito. Então estende mais uma vez as mãos sobre os braços da poltrona.

— Isso vindo de alguém que não vê a hora de cortar a garganta de um homem — diz ele, com o sorriso ainda intacto —, é uma acusação forte. Quase hipócrita.

— Pensei que você gostasse de gente indelicada — observo, deixando claro que ele se esquivou da minha pergunta.

Ele entende bem depressa.

— Se você quer dizer “sentir prazer” de maneira sexual, então não, não sinto. Mas, sim, como uma espécie de castigo, eu sinto muito prazer.

— Castigo?

— Com certeza. Gente como André Costa e o irmão dele, David, merece o que recebe. E eu fico feliz em fazer as honras. — Ele ri baixinho e acrescenta: — Claro que não sou santo. E, quando chegar a hora de inverterem os papéis e eu estiver sentado naquela cadeira, vou saber lidar com isso. Mas ninguém jamais vai me dobrar... Não de novo.

Eu me pergunto o que significa essa última parte. E tenho a sensação de que não foi um comentário dirigido a mim.

Imagens das agulhas e da crueldade com que foram enfiadas debaixo das unhas de André surgem na minha mente por um momento. Estremeço e fico arrepiada. Minha nuca fica úmida e minhas mãos, pegajosas.

Enojada, eu o encaro por cima da mesinha de centro.

— Mas as... coisas que você faz. — Tento tirar a imagem da cabeça. Mais um calafrio percorre minhas costas. — Por que agulhas?

Um sorriso fraco aparece nos cantos da boca de Fredrik, que reconheço imediatamente como uma tentativa de abrandar a imagem que tenho dele e não se vangloriar por dentro sobre o desconforto que me causa.

— O método é bem eficaz, como você viu.

— É, mas... — As palavras me fogem. — Como você aguenta?

O sorriso dele desaparece, substituído por uma expressão neutra quando ele olha para além de mim.

— Na verdade, nem eu sei — responde ele, e tenho a sensação de que essa resposta o incomoda de alguma forma.

Com a mesma rapidez, seu sorriso volta e ele cruza as mãos sobre a barriga, entrelaçando os dedos longos e bem-cuidados.

— Quanto tempo você acha que Victor vai demorar para voltar? — pergunto.

Fredrik balança a cabeça.

— Até terminar o serviço.

Eu sabia que ele me daria a mesma resposta que Victor, mas valeu a tentativa. O que quero, na verdade, é saber mais sobre Seraphina, mas tenho medo de perguntar. Acho que Victor me contou tudo aquilo sobre Fredrik e Seraphina em segredo. E não quero que Fredrik saiba da nossa conversa.

Mas a curiosidade está me matando.

Tiro as pernas do sofá e apoio os pés no chão. Fico de pé e cruzo os braços, olhando para Fredrik, que me observa com uma certa curiosidade. Ando de uma ponta à outra da mesinha de centro e então paro.

— Como você... Bom, o que fez você ficar assim? — pergunto, evitando com cuidado as coisas que já sei e que espero que ele mesmo me conte.

Ele me olha de lado, inclinando a cabeça, pensativo.

— O que você quer saber mesmo é como Seraphina me deixou do jeito que eu sou. Ou Victor ainda não contou sobre ela? — Ele sorri, conivente.

Por um momento, não consigo olhá-lo nos olhos. Passo a mão pelos braços algumas vezes e então me sento na borda da mesinha de centro, bem na frente dele. Enfio as mãos no tecido folgado da barra da minha camiseta cinza.

— Ele contou para você que eu sei?

Fredrik assente.

— Victor perguntou se eu me importava que ele contasse. Ele me respeita o suficiente para perguntar primeiro. É uma conversa muito delicada.

— Ela deve ter magoado muito você — digo, cuidadosa.

— Apesar do que Victor acha — diz ele, erguendo as costas da cadeira e enfiando as mãos entre os joelhos —, Seraphina foi só parte do motivo para eu ter ficado assim. Uma pequena parte. Ela foi, como meu analista indicado pela Ordem dizia, o estopim. A faísca em uma sala cheia de gás. Mas havia algo errado comigo já bem antes de conhecê-la. — Ele ri um pouco, mas não vejo humor nisso. Algo me diz que ele também não, na verdade.

De repente, Fredrik se levanta e vai até a janela aberta atrás do sofá. Eu me levanto também, deixando que meus olhos o sigam para não perdê-lo de vista, mas continuo perto da mesa. Como Fredrik está agora de costas para mim, e não consigo mais ver seu rosto, não posso ter certeza, mas sinto que o clima do ambiente ficou mais sombrio. Ele mantém os braços inertes, a brisa leve da janela balançando seu cabelo escuro.

Mas Fredrik não revela nada, e fico só imaginando que cenas terríveis o torturam, que lembrança insuportável o assombra neste momento. E só o que posso fazer é ficar ali e esperar que passe.