O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 21 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo Dezenove

 

Sarai

 

A caminho de um hotel onde vou me hospedar enquanto Victor e Fredrik procuram David, Victor me conta sobre Fredrik.

— Meu Deus... Victor, por que ele torturaria a própria mulher? — pergunto do banco do passageiro. — Eu... eu não consigo imaginar por quê...

— Ele não teve escolha — interrompe Victor. — Anos atrás, Fredrik era só um contato. Nunca interrogava nem matava ninguém. Cuidava de um abrigo em Estocolmo. E foi assim que ele conheceu Seraphina.

— Ela era uma agente?

Victor assente.

— Trabalhava para Vonnegut, como eu — continua ele, virando na rua Canal. — Depois de alguns anos de visitas de Seraphina, eles se apaixonaram. Mas, por estarem na Ordem, como você sabe, não podiam deixar que ninguém soubesse dos sentimentos que tinham um pelo outro. Casaram-se em segredo, não no cartório, é claro. Então, depois de dois anos juntos, Fredrik começou a desconfiar que Seraphina estava enganando Vonnegut.

— Mas, se Fredrik a amava, por que contaria para Vonnegut? — pergunto, presumindo que é isso que Victor ia dizer em seguida.

— Ele não contou. Fredrik confrontou Seraphina. Ele queria primeiro fazê-la parar, salvá-la de ser eliminada pela Ordem. Ela admitiu que tinha sido empregada por outra organização e estava trabalhando contra Vonnegut. Como Fredrik não conseguiu fazê-la mudar de ideia, em vez de denunciá-la, porque amava muito a esposa, acreditou nas mentiras dela e começou a trabalhar com ela.

Meu coração afunda até o estômago, sabendo no que essa história vai dar. Os pedaços do quebra-cabeça chamado Fredrik Gustavsson enfim começam a se encaixar.

— Ela traiu Fredrik — digo, desta vez sabendo que estou certa.

— Sim. Seraphina começou a usar Fredrik para transmitir informações falsas sobre suas missões a Vonnegut. Então, pelo que entendi, ela começou a visitar Fredrik cada vez menos. Resumo da história: ele levou seis meses para descobrir aonde ela estava indo. Ele a encontrou em outro abrigo. Com outro homem. O resto você deve imaginar. Victor não voltou para o hotel até o fim da manhã do dia seguinte. Fiz exatamente o que ele mandou e não saí do quarto, nem para comprar uma bebida na máquina que vimos no corredor ao subir. Chamei o serviço de quarto e pedi que deixassem a comida no chão, em frente à porta. Assisti à TV, tomei banho e olhei da janela do 15º andar para a fervilhante cidade de Nova Orleans lá embaixo, sem parar de me perguntar o que Victor estaria fazendo. Se ele e Fredrik encontraram David e se David estava sofrendo o mesmo destino do irmão.

Balanço a cabeça, pensativa, tentando entender esse buraco no coração que sinto por Fredrik.

Seguimos até o fim da rua Poydras e estacionamos perto de um hotel à beira do rio. Victor desliga o motor e nós ficamos sentados na penumbra por um momento.

— Como estava cego de fúria e dor pela traição de Seraphina, Fredrik... — Victor olha pelo para-brisa, perdido nas lembranças daquele dia. — Foi como se alguém tivesse acionado um interruptor no cérebro dele. — Victor olha para mim, tentando não se apegar aos detalhes da lembrança para conseguir continuar a história. — Ele interrogou e torturou os dois. Matou o homem na frente dela, esperando que isso bastasse para fazê-la ceder, porque não queria matá-la. Mas Seraphina não cedeu. Era mais leal a seu empregador do que a Fredrik, o homem que ela dizia amar. Ela o destruiu. Ele nunca mais foi o mesmo. Isso foi há muito tempo.

Olho para baixo, ainda com o rosto de Fredrik na mente, e balanço a cabeça de novo, sem querer acreditar em nada daquilo.

— Por isso ele é daquele jeito? — Olho para Victor enquanto ele tira a chave da ignição.

— Acho que isso teve um papel importante na transformação dele. Seraphina foi a primeira pessoa que ele interrogou, além da primeira e única que ele não foi capaz de dobrar. Depois daquele dia, quando Fredrik contou a Vonnegut sobre a traição de Seraphina e garantiu seu lugar na Ordem, ele pediu para realizar missões de campo, em vez de ser só o contato em um dos abrigos. Vonnegut concordou, e, alguns anos depois, Fredrik era oficialmente um interrogador.

— Eu não sabia que os interrogadores dominavam habilidades tão mórbidas — digo, rindo de maneira desconfiada. — Ele mencionou que às vezes ajuda em suicídios também. Kevorkian? Isso é mórbido.

Victor dá uma risadinha.

— Fredrik é cheio de surpresas mórbidas — diz ele, e então abre a porta do carro. Ele sai com a maleta na mão e dá a volta até o meu lado. — Preciso que você fique no quarto até eu voltar. Mas acho que isso só deve acontecer amanhã.

Saio do carro e ele fecha a porta.

— Você não vai me deixar atrair David?

— Não. Ele já conhece seu rosto e sabe que você e André saíram juntos. A esta altura, você deve ser a única pessoa desta cidade que ele quer encontrar.

Antes de entrarmos no saguão do hotel, paro Victor em frente às portas altas de vidro.

— O que aconteceu com Seraphina?

Victor olha para além de mim, pensando.

— Não sei. Fredrik se recusa a falar sobre o assunto, o que me leva a crer que no fim ele a matou.

Quando Victor voltou, continuava tão limpo quanto estava no dia anterior: nem uma gota de sangue no terno. Claro que eu sabia que isso não significava nada.

Ele e Fredrik conseguiram a informação de que precisavam de David, e ela batia com a que André Costa forneceu. David foi mais fácil de dobrar. Victor me contou que Fredrik não precisou nem usar as agulhas. Uma parte de mim ficou feliz por isso. Eu só não queria pensar a respeito.

Fredrik ficou com David e Victor me levou de volta para Albuquerque.

— Achei que a gente já tinha resolvido isso, Victor. Por que você está me deixando aqui?

— Porque você não está pronta para me acompanhar em missões. — Ele está guardando com cuidado algumas peças de roupa em uma mala marrom ao pé da cama. — Com certeza não para ir até a Venezuela. Fica muito mais difícil se esconder quando se atravessa fronteiras.

Eu me sento na cama e então me deito, deixando as pernas pendendo para fora do colchão. Olho para o pé-direito alto e arqueado.

— Por quanto tempo você vai ficar lá?

— Até terminar o serviço — responde ele, e ouço os fechos da mala estalando.

— E o que eu devo fazer enquanto você está lá?

— O que você quiser. Só não se meta em encrencas. — Seu sorriso torto lhe garante perdão instantâneo.

— Bom, eu não posso ficar com Dina em Oklahoma? Ou será que ela não pode vir para cá ficar comigo? Vou ficar doida aqui sozinha.

— Você vai ficar bem — afirma Victor. — De qualquer maneira, ainda é cedo demais para arriscar uma visita à sra. Gregory. Quando Fredrik estiver livre, ele vem para cá ficar com você.

Levanto as costas da cama e me apoio com os cotovelos no colchão. Estreito os olhos para Victor.

— Fredrik. Você vai me deixar com Fredrik? — Sei que Victor confia nele, mas não completamente.

Não entendo esse raciocínio. Victor dá um leve sorriso.

— Está com medo de que ele enfie agulhas debaixo das suas unhas?

Pisco algumas vezes. É tão óbvio assim?

— Como eu disse, você vai ficar bem. — Victor sai do pé da cama e se agacha na minha frente. Ergo o corpo e o olho de cima.

A expressão dele está diferente: o sorriso sumiu, deixando somente uma expressão suave de dúvida e preocupação no rosto. Essa mudança de humor me deixa ansiosa e pouco à vontade.

— Sarai — diz ele, pondo as mãos sobre os meus joelhos —, lembre-se de tudo o que eu falei sobre confiança. Lembre-se de tudo o que eu já falei para você.

— Por que está dizendo isso? — Inclino a cabeça para um lado, e rugas de confusão e preocupação surgem em volta dos meus olhos. — Não gosto dessa conversa.

Ele fica de pé.

— Sempre confie nos seus instintos. — Ele pega a mala ao meu lado e vai para a porta.

— Espere — chamo, indo atrás dele.

Ele para e se vira para me olhar.

— Por que os meus instintos estão me dizendo agora que você está escondendo alguma coisa importante de mim?

Ele apoia a mala de novo no chão e se aproxima de mim, me envolvendo em seus braços. Sua boca toca a minha, sua língua quente abrindo os meus lábios com delicadeza. Ele me beija com fome, enfiando as mãos no meu cabelo, e, por mais que eu queira me deliciar com a paixão do momento, não consigo deixar de me perguntar se esse é um beijo de despedida.

Ele se afasta de mim com relutância e toca a ponta do meu queixo com o dedo indicador.

— Porque eles estão certos — responde Victor, enfim. Pisco, atordoada por sua confissão. — Vamos torcer para que você não perca esses instintos.

Sem mais uma palavra, Victor sai da casa rumo a algum aeroporto para pegar um voo para a Venezuela.