O Retorno de Izabel
Capítulo Seis
Sarai
Um tum! pesado me acorda, mais tarde naquela noite. Eu me levanto como uma catapulta.
Vejo dois homens no meu quarto: um desconhecido morto no chão e Victor Faust de pé sobre o corpo dele.
— Levante-se.
— Victor?
Não acredito que ele está aqui. Devo estar sonhando.
— Levante-se, Sarai. AGORA! — Victor me pega pelo cotovelo, me arranca da cama e me põe de pé.
Não consigo nem pegar minhas coisas, ele já está abrindo a porta e me puxando para o corredor com ele, segurando forte a minha mão.
Disparamos juntos pelo corredor e outro homem aparece virando a esquina, de arma em punho. Victor aponta sua 9mm com silenciador e o derruba antes que o cara consiga atirar. Ele passa pelo corpo me puxando, seus dedos fortes afundando na minha mão enquanto corremos para a escada. Ele abre a porta, me empurra para a frente e nós subimos depressa os degraus de concreto. Um andar. Três. Cinco. Minhas pernas estão me matando. Acho que não consigo andar por muito mais tempo. Enfim, no quinto andar, Victor me puxa para outro corredor e rumo a um elevador nos fundos.
Quando as portas do elevador se fecham e estamos só nós dois lá dentro, finalmente tenho a oportunidade de falar.
— Como você sabia que eu estava aqui? — Mal consigo recuperar o fôlego, esgotada pela correria infinita e pela adrenalina, mas acho que sobretudo porque Victor está de pé ao meu lado, segurando minha mão.
Meus olhos começam a arder com as lágrimas.
Engulo o choro.
— O que você estava pensando, Sarai?
— Eu...
Victor segura meu rosto com as duas mãos e me empurra contra a parede do elevador, pressionando ferozmente seus lábios nos meus. Sua língua se entrelaça na minha e sua boca tira meu fôlego em um beijo apaixonado que, enfim, faz meus joelhos cederem. Toda a força que eu estava usando para manter o corpo ereto desaparece quando os lábios dele me tocam. Ele me beija com fome, com raiva, e eu derreto em seus braços.
Então ele se afasta, as mãos fortes nos meus braços, me segurando contra a parede do elevador. Nós nos encaramos pelo que parece ser uma eternidade, nossos olhos paralisados em uma espécie de contemplação profunda, nossos lábios a centímetros de distância. Só quero prová-los de novo.
Mas ele não deixa.
— Responda — exige Victor, estreitando seus olhos perigosos em reprovação.
Já esqueci a pergunta.
Ele me sacode.
— Por que você veio aqui? Tem ideia do que você fez?
Balanço a cabeça em um movimento curto e rápido, parte de mim mais preocupada com seu olhar ameaçador do que com o que ele está dizendo.
A porta do elevador se abre no subsolo e eu não tenho tempo para responder, pois Victor mais uma vez pega minha mão e me puxa para que o siga. Serpenteamos por um grande depósito com caixas em pilhas altas encostadas nas paredes e depois por um longo corredor escuro que leva a um estacionamento. Victor enfim solta minha mão e eu o sigo até um carro parado entre dois furgões pretos com o logotipo do hotel nas laterais. Dois bipes ecoam pelo ambiente e os faróis do carro piscam quando nos aproximamos, iluminando a parede de concreto em frente. Sem perder tempo, me sento no banco do passageiro e fecho a porta.
Segundos depois, Victor está dirigindo casualmente pelo estacionamento até a rua.
— Eu queria que ele morresse — respondo, enfim.
Victor não me olha.
— Bom, você fez um excelente trabalho — rebate ele, sarcástico.
Ele vira para a direita no semáforo, e o carro ganha velocidade quando chegamos à rodovia.
Fico magoada por suas palavras, mas sei que ele tem razão, por isso não discuto. Fiz merda. Uma merda muito grande.
Mas não me dou conta do tamanho dela até Victor dizer:
— Os seus amigos podiam ter morrido. Você podia ter morrido.
Sinto meus olhos se arregalarem além dos limites e me viro mais um pouco para encará-lo.
— Ah, não... Victor, o quê... Eles estão bem?
Sinto que vou vomitar de novo.
Victor me olha por um instante.
— Estão ótimos. O primeiro quarto que os capangas de Hamburg revistaram estava vazio — diz ele, voltando a olhar para a estrada. — Eu cheguei quando eles estavam saindo. Segui um deles até o quarto onde você estava escondida, deixei que ele destrancasse a porta e então ataquei.
As chaves do quarto. Minhas duas chaves extras estavam na bolsa que perdi no restaurante de Hamburg. E os números dos quartos estavam escritos nas capinhas de papel que as protegiam. Eu estava tão preocupada em esconder minha arma e meu punhal que nem pensei em esconder as chaves.
— Merda! — Também olho para a estrada. — E-eu perdi a bolsa no restaurante. As chaves do meu quarto estavam dentro dela. Deixei um rastro para eles seguirem!
Felizmente, eu não tinha uma chave extra do quarto de Dahlia, senão ela e Eric já poderiam estar mortos.
Onde é que eu estava com a cabeça?!
— Não, você deixou literalmente as chaves do seu quarto com o nome do hotel gravado. Sarai, eu devia ter matado você há muito tempo e poupado toda essa confusão para cima de você e de mim.
Eu me viro para encará-lo; a raiva e a mágoa pesando no meu peito.
— Você não está falando sério.
Ele faz uma pausa e me olha. Suspira.
— Não, não estou falando sério.
— Nunca mais me diga isso. Nunca mais me diga uma coisa dessas, ou eu mato você e poupo a mim de toda essa confusão — rebato, desviando o olhar.
— Você não está falando sério — diz Victor.
Olho mais uma vez para aqueles olhos ameaçadores verde-azulados que me fizeram tanta falta.
— Não. Mas acho que isso seria o mais sensato.
— Bom, você não foi a campeã da sensatez hoje, então acho que estou seguro ao menos pelas próximas 24 horas.
Escondo o sorriso.
— Senti sua falta — digo de maneira distante, olhando para a estrada.
Victor não responde, mas admito que seria estranho se respondesse. A despeito de sua falta de emoção, porém, sei que ele também sentiu saudade de mim. Aquele beijo no elevador disse coisas que palavras jamais conseguiriam.
Ele pega uma saída e para o carro debaixo de um viaduto. Puxa o freio de mão e a área ao redor desaparece na escuridão quando ele desliga os faróis.
— O que a gente está fazendo aqui?
— Você precisa ligar para os seus amigos.
— Por quê?
Ele tira um celular do porta-luvas entre nós.
— Mande eles voltarem para o Arizona. Faça ou diga o que for preciso para que eles saiam de Los Angeles. Quanto antes, melhor.
Ele coloca o telefone na minha mão. De início, só olho para o aparelho, mas ele me pressiona com aquele olhar, aquele que grita “vamos lá, faça isso de uma vez”, mas que só alguém como eu, alguém que conhece Victor, seria capaz de notar.
Giro o celular nas mãos, depois o seguro firmemente e digito o número de Eric. Mas então mudo de ideia, desligo no primeiro toque e ligo para Dahlia.
Ela atende no quinto toque.
Respiro fundo e faço o que sei fazer melhor: minto.
— A verdade é que vocês me magoaram. Duvido que um dia eu consiga perdoar você ou Eric pelo que fizeram.
— Sarai... Meu Deus, me desculpe, estou me sentindo muito mal. A gente não queria que isso chegasse a esse ponto. Juro para você. Não sei o que aconteceu...
— Escute, Dahlia, por favor, só me escute.
Ela fica quieta.
Começo a choradeira. Nunca imaginei que eu seria capaz de chorar sob demanda e de forma tão falsa.
— Eu quero acreditar em você. Quero conseguir confiar em você de novo, mas você era minha melhor amiga e me traiu. Preciso de um tempo sozinha e quero que você e Eric voltem para o Arizona. Hoje. Acho que não vou aguentar ver vocês de novo... Espere, onde você está, agora?
Acabo de me dar conta de que, se ela e Eric estiverem no hotel, a essa altura ela já sabe que dois homens foram mortos a tiros no andar do quarto deles.
— A gente está em uma festa em um terraço — conta ela. — T-tudo bem por você? Achei que não tinha nada a ver a gente sair, mas o Eric falou que você insistiu...
— Não, tudo bem — digo, cortando-a. — Insisti mesmo. Onde ele está, agora?
— Deixei Eric lá no terraço para a gente poder conversar. Está muito barulhento lá em cima. Que número é esse de onde você está ligando?
— É o celular de um amigo. Perdi o meu. O Eric por acaso avisou que se alguém procurar por mim...
— Avisou, sim — interrompe Dahlia. — Que confusão é essa, afinal? Meu Deus, Sarai, esquece por um momento esse lance com Eric e me conta o que está acontecendo, por favor. O sangue. As roupas esquisitas que você estava usando e aquele troço na sua cabeça. Era uma touca de peruca? Você está metida em alguma encrenca, eu sei. Sei que você me odeia, e tem todo o direito de odiar, mas, por favor, conte o que aconteceu.
— Não posso contar, porra! — grito, deixando o choro distorcer minha voz. — Caramba, Dahlia, faça o que eu pedi. Pelo menos isso! Você deu para o meu namorado! Por favor, voltem para o Arizona, me deixem esfriar a cabeça e depois eu volto para casa. Talvez aí a gente possa conversar. Mas agora façam o que eu estou pedindo. Tudo bem?
Ela não responde por um momento, e um longo silêncio se forma entre nós.
— Tudo bem — concorda ela. — Vou dizer ao Eric que a gente precisa ir embora.
— Obrigada.
Estou apenas um pouco aliviada. Não vou me sentir bem com isso até saber que eles chegaram em casa sãos e salvos.
Desligo sem dizer mais uma palavra.
— Bom, isso foi bastante convincente — observa Victor, levemente impressionado.
— Acho que foi.
— Eu sei que a sua amiga acreditou — acrescenta ele. — Mas eu não acreditei em uma só palavra.
Eu me viro para ele. Victor me conhece tão bem quanto eu o conheço, parece.
— É porque nem uma palavra era verdade.
Ele deixa por isso mesmo e nós saímos de baixo do viaduto.
Chegamos a uma casa perdida no final de uma estrada isolada nos arredores da cidade, empoleirada no alto de uma colina com uma vista quase perfeita para a cidade lá embaixo. Uma piscina de formato irregular começa no lado esquerdo da casa e serpenteia por trás, a água azul-clara iluminada por lâmpadas submersas parece luminescente. O lugar está silencioso. Só ouço o vento passando pela mata cerrada que contorna o lado direito e os fundos da casa, impedindo uma visão em 360 graus da paisagem iluminada de Los Angeles. Quando nos aproximamos da porta, uma mulher robusta usando uniforme azul de empregada nos recebe. Ela tem cabelo preto encaracolado e pele morena. Suas bochechas são volumosas, envolvendo seus olhos castanho-escuros pequenos e brilhantes, que fitam atentamente Victor e a mim.
— Por favor, entrem — diz ela, com um sotaque hispânico familiar.
A mulher fecha a porta. A casa cheira a limpa-vidro e a uma mistura pouco natural de cheiros adocicados que só pode vir de algum tipo de aromatizador de ambientes artificial. Parece que todas as janelas foram abertas, permitindo que a brisa noturna de verão se espalhasse pela casa. Não se parece em nada com as mansões ricas onde já estive, mas é impecável e aconchegante, e penso que eu deveria pelo menos ter tomado um banho antes de vir. Minha pele e minhas roupas ainda estão manchadas de sangue...
Victor está usando uma calça preta e uma camisa apertada de mangas compridas que adere a cada músculo de seus braços e seu peito, com os punhos desabotoados e arregaçados até os cotovelos. A camisa está por fora da calça e os dois botões de cima estão abertos. Sapatos pretos chiques e informais calçam seus pés. Um relógio brilhante de prata adorna seu pulso direito, e não consigo deixar de notar a solitária veia grossa que percorre as costas de sua mão até o osso de seu pulso. Quando ele segue a empregada pela grande entrada e se vira momentaneamente de costas para mim, vejo o cabo da arma saindo da cintura de sua calça, com a barra da camisa branca enfiada atrás.
Ele me olha, para e estende o braço, em um gesto para que eu ande à sua frente. Tremo de leve quando sua mão toca minhas costas perto da cintura.
Antes que eu tenha tempo de me sentir deslocada ao lado dele, Fredrik, o amigo e cúmplice sueco de Victor que conheci no restaurante de Hamburg há tanto tempo, entra na sala pelas grandes portas de vidro que dão para o quintal dos fundos.