O Retorno de Izabel
Capítulo Três
Sarai
Dahlia e Eric só voltam para o quarto algumas horas mais tarde, depois de escurecer. Eu já tinha tomado banho, vestido short e camiseta e deixado a luz apagada para parecer que estava dormindo. Assim que ouvi o cartão passando pela porta, pulei na cama e me espalhei pelo colchão, como sempre faço quando durmo de verdade. Eric entrou na ponta dos pés, tentando não “me acordar”, mas me virei, soltei um resmungo e abri os olhos para mostrar que acordei. Ele pediu desculpas e perguntou se eu queria ir com ele e Dahlia a uma boate ali perto, insistindo que, se eu não fosse, ele também não iria. Mas logo rejeitei essa ideia. Percebi que ele queria muito ir e não posso culpá-lo: se eu estivesse no lugar dele, não iria querer ficar em um quarto escuro de hotel às oito da noite de uma sexta-feira, em uma das cidades mais animadas dos Estados Unidos.
Eric e Dahlia saírem era exatamente do que eu precisava. Passei aquelas duas horas inteiras tentando inventar uma desculpa para explicar a eles por que eu ia sair, aonde iria e por que eles não poderiam ir junto.
Eles resolveram isso para mim.
Minutos após Eric sair do quarto, espero Dahlia — em seu próprio quarto, ao lado do nosso — tirar o biquíni e se vestir. Pelo olho mágico da minha porta, eu os vejo indo embora pelo corredor. Conto até cem enquanto ando de um lado para outro sem parar. Então pego minha bolsa e vou até a porta. Ando depressa pelo corredor na direção oposta e chego ao quarto secreto, do outro lado do prédio.
Com certa paranoia de ser flagrada, vasculho minha bolsa e encontro tudo, menos a chave do quarto. Enfim consigo senti-la entre os dedos e me apresso para entrar, travando a porta com a corrente. Abro a mala ao pé da cama e tiro minha peruca curta platinada, passando os dedos para ajeitar as mechas desalinhadas, e então a deixo sobre o abajur ao lado para que não perca a forma.
Visto um Dolce & Gabbana curtinho e me maquio com cores escuras e pesadas, o que, depois de passar um tempão praticando em casa, faço bem. Então calço as sandálias de salto alto. Andar de salto é outra coisa que passei muito tempo tentando aprender. Meu alter ego, Izabel Seyfried, saberia andar de salto e o faria bem. Por isso, eu precisava acompanhar.
Em seguida, molho o cabelo e o divido em duas partes atrás. Enrolo cada metade e cruzo uma sobre a outra na nuca. Vários grampos depois, meu longo cabelo castanho está bem preso no couro cabeludo. Visto a touca da peruca e depois a própria peruca, ajustando-a por muito tempo até deixar tudo perfeito.
Por fim, prendo uma bainha de punhal em torno da coxa e a cubro com o tecido do vestido.
Fico de pé diante do espelho de corpo inteiro e me avalio de todos os ângulos possíveis. Estar loura é estranho. Satisfeita, pego a bolsinha preta e a enfio debaixo do braço, com a pequena pistola formando certo volume nela. Estico o braço para girar a maçaneta, mas deixo minha mão cair junto ao corpo.
“Que droga eu estou fazendo?”
O que precisa ser feito.
“E por que eu estou fazendo isso?”
Porque preciso.
Não consigo tirar da cabeça as coisas que aquele homem confessou, as pessoas que matou por causa de um fetiche sexual doentio. Todas as noites desde que Victor me deixou, quando fecho os olhos, vejo o rosto de Hamburg e aquele sorriso de gelar o sangue que ele abriu quando me curvei sobre a mesa, exposta na frente dele. Vejo o rosto de sua esposa, esquelético e combalido, seus olhos fundos turvados pela resignação. Ainda sinto até o fedor da urina que secou em suas roupas e no catre infestado onde ela dormia, naquele quarto escondido.
Meu peito se enche de ar e eu o prendo por vários segundos, antes de soltar um longo suspiro.
Não posso esquecer. A necessidade de matá-lo é como uma coceira no meio das costas. Não posso alcançar naturalmente, mas vou me curvar e torcer os braços até doerem para coçar.
Não posso esquecer...
E talvez... só talvez também acabe chamando a atenção de um certo assassino que não consigo me obrigar a esquecer.
Assim que passo pela porta, deixo Sarai para trás e me torno Izabel por uma noite.
Por não ter pensado de antemão na importância de ao menos alugar um carro chique, salto do táxi a duas quadras do restaurante e ando o resto do caminho. Izabel jamais seria vista andando de táxi.
— Mesa para um? — pergunta o recepcionista assim que entro no restaurante.
Inclino a cabeça e olho para ele com um ar irritado.
— Algum problema? Não posso fazer uma refeição sozinha? Ou você está dando em cima de mim? — Abro um sorrisinho e inclino a cabeça para o outro lado. Ele está ficando nervoso. — Você gostaria de jantar comigo... — olho para o nome bordado no paletó — ... Jeffrey? — Chego mais perto. Ele dá um passo constrangido para trás.
— Hã... — Ele hesita. — Peço desculpas, senhora...
Recuo, trincando os dentes.
— Nunca me chame de senhora — digo com rispidez. — Me leve até uma mesa. Para um.
Ele assente e pede que eu o siga. Quando chego à minha mesinha redonda com duas cadeiras, no meio do restaurante, me sento e deixo a bolsa ao lado. Um garçom se aproxima quando o recepcionista se afasta e me apresenta a carta de vinhos. Eu a rejeito com um movimento dos dedos.
— Quero apenas água com uma rodela de limão.
— Pois não, senhora — diz ele, mas deixo passar.
Enquanto o garçom se afasta, começo a examinar o lugar. Há uma placa indicando a saída à minha esquerda, bem longe, perto do corredor. Há outra à minha direita, próxima à escada que leva para o segundo piso. O restaurante está praticamente igual à primeira vez que vim: escuro, não muito cheio e bastante silencioso, embora desta vez eu ouça jazz baixinho vindo de algum lugar. Ao observar o recinto, paro de repente ao ver a mesa à qual me sentei com Victor quando vim com ele, meses atrás.
Eu me perco na memória, vendo tudo exatamente como aconteceu. Quando olho para as duas pessoas sentadas no outro lado do salão, só consigo me ver com Victor:
— Venha cá — diz ele, em um tom de voz mais delicado.
Deslizo os poucos centímetros que nos separam e me sento encostada a ele.
Seus dedos dançam pela minha nuca quando ele puxa minha cabeça para perto de si. Meu coração bate descompassado quando ele roça os lábios na lateral do meu rosto. De repente, sinto sua outra mão entrando pelo meio das minhas coxas e subindo por baixo do vestido. Minha respiração para. Devo abrir as pernas? Devo ficar imóvel e travá-las? Sei o que quero fazer, mas não sei o que devo fazer, e minha mente está a ponto de desistir.
— Tenho uma surpresa para você esta noite — murmura ele no meu ouvido.
Sua mão se aproxima mais do calor no meio das minhas pernas.
Gemo baixinho, tentando não deixar que ele perceba, embora tenha certeza absoluta de que percebeu.
— Que tipo de surpresa? — pergunto, com a cabeça inclinada para trás, apoiada em sua mão.
— Vai querer algo mais? — Ouço uma voz, e sou arrancada do meu devaneio.
O garçom está segurando o cardápio. Minha água com uma rodela de limão na borda do copo já está diante de mim.
Um pouco confusa de início, apenas assinto, mas faço que não em seguida.
— Ainda não sei — respondo, enfim. — Deixe o cardápio. Talvez eu peça mais tarde.
— Pois não — diz o garçom.
Ele deixa o cardápio na mesa e vai embora.
Olho para a varanda e para as mesas encostadas no balaústre requintado. Onde Hamburg pode estar? Sei que ele está no andar de cima porque Victor disse que ele ficava por lá. Mas onde? Eu me pergunto se ele já me viu, e no mesmo instante meu estômago se embrulha de nervoso.
Não, não posso parecer nervosa.
Endireito as costas na cadeira e tomo um gole da água. Deixo o dedo mindinho levantado, o que me faz parecer muito mais rica, ou apenas mais esnobe. Fico observando os clientes indo e vindo, escuto sua conversa supérflua e me pego imaginando qual dos casais que estão ali poderia acabar na mansão de Hamburg no fim de semana, ganhando muito dinheiro para deixar que ele os veja foder.
Então olho para o arranjo de flores vermelhas em um pequeno vaso de vidro no centro da minha mesa. Pego o celular na bolsa, finjo digitar um número e o coloco perto do ouvido, para que ninguém ache que estou falando sozinha.
— Este recado é para Arthur Hamburg — digo em voz baixa, inclinando-me um pouco para a frente a fim de que o microfone escondido no vaso de flores capte minha voz. — Com certeza você se lembra de mim, não é? Izabel Seyfried. Há quanto tempo, não?
Com cuidado, olho para os lados, esperando ver um ou dois homens parrudos de terno se aproximando de mim com armas em punho.
— Não estou sozinha — continuo —, por isso nem pense em fazer alguma idiotice. A gente precisa conversar.
Olhando para a varanda acima de mim, tento descobrir onde ele pode estar, torcendo para que esteja ali. Alguns minutos tensos se passam, e, quando começo a pensar que a noite foi em vão e que eu estava mesmo falando sozinha, noto um movimento no piso superior, logo acima da saída à minha direita. Meu coração bate forte quando vejo a figura alta e escura sair das sombras e descer a escada.
Eu me lembro desse homem de ombros largos, cabelo grisalho e uma covinha no meio do queixo. É o gerente do restaurante, Willem Stephens, que já encontrei aqui uma vez.
Ele se aproxima da minha mesa sem expressar nenhuma emoção, com as mãos enormes cruzadas à frente, as costas retas, o queixo anguloso imóvel.
— Boa noite, srta. Seyfried. — A voz dele é profunda e sinistra. — Posso perguntar onde está seu dono?
Levanto os olhos para encará-lo, dou um sorrisinho, tomo um gole da minha água e devolvo o copo à mesa, sem pressa. Cada fibra do meu ser está gritando, dizendo como fui idiota em vir até aqui. Por mais que eu saiba que é verdade, não importa. Não é o medo que me faz tremer por dentro, é a adrenalina.
— Victor Faust não é meu dono — explico, com calma. — Mas ele está aqui. Em algum lugar. — Um sorriso tênue e dissimulado toca meus lábios.
Os olhos de Stephens percorrem o salão sutilmente e voltam a me encarar.
— Por que está aqui? — pergunta ele, perdendo um pouco o ar de gerente sofisticado.
— Tenho negócios a discutir com Arthur Hamburg — respondo, confiante. — É do maior interesse dele marcar um encontro privado comigo. Aqui. Hoje. De preferência agora.
Tomo outro gole.
Noto que o pomo de adão de Stephens se move quando ele engole em seco, bem como os contornos de seu queixo quando ele cerra os dentes. Ele olha para o lugar de onde veio, no andar de cima, e percebo um aparelhinho preto escondido em seu ouvido esquerdo. Parece que ele está ouvindo alguém falar. Eu chutaria que é Hamburg.
Ele me encara de novo, com os olhos escuros e cheios de ódio, mas mantém o semblante inexpressivo com a mesma perfeição de Victor.
Ele descruza os braços, estende a mão direita para mim e diz:
— Por aqui.
Ele só deixa os braços penderem, relaxados, quando me levanto. Sigo Stephens pelo restaurante e escada acima, para o piso da varanda.
Apenas duas coisas podem acontecer: ou esta será minha primeira noite como assassina ou a última da minha vida.