O Retorno de Izabel
Capítulo Vinte e Oito
Sarai
Não falo com Victor há horas. Três, pelo menos. Deixei que ele me despisse, me desse banho e cuidasse dos meus ferimentos. Eu o ouvi “se explicar”, mas de uma maneira que só alguém tão travado para relacionamentos quanto Victor Faust poderia fazer. Não implorou para que eu falasse com ele, para que acabasse com o gelo. Ele só falou. Tão calmo quanto em qualquer outra conversa que já teve comigo, embora dessa vez o papo tenha sido bem unilateral. Mas detectei a preocupação em sua voz, ainda que ele a tenha disfarçado bem. Senti, quando me tocou enquanto escovava meu cabelo e limpava a sujeira das feridas nas minhas costas, que ele queria me tocar com mais carinho. Queria me puxar para perto e me abraçar. Mas eu sabia que ele não queria passar dos limites.
E foi esperto em não passar, porque levaria um soco na cara.
Ao anoitecer, embora exausta e ainda dolorida da cabeça aos pés, estou bem o suficiente para andar pela casa sozinha, mas com cuidado, porque minhas costas estão bem detonadas. Victor me deixou sozinha no quarto da casa em Albuquerque. Eu precisava de um tempo para pensar em tudo o que aconteceu, pelo que ele e Niklas me fizeram passar. Precisava de tempo para refletir sobre os motivos de Victor. Eu estava cagando e andando para os motivos de Niklas ou para o papel que ele teve naquilo. Niklas não merece meu tempo, muito menos meus pensamentos. Victor, por outro lado... Parte de mim quer se sentir traída, como se essa fosse a reação normal. Sinto que deveria me encolher no chão e chorar, esmurrar as paredes, chafurdar na autopiedade, também apenas porque essa tende a ser a reação esperada. Mas não sou assim. E não sou normal. E nada na minha vida ou na vida de Victor chega perto de ser normal.
Sei que Victor está se perguntando o que estou pensando. Ele se preocupa com o tamanho da raiva que sinto dele, se ela é tão profunda que eu nunca mais vou conseguir perdoá-lo. Sei que ele deve estar convencido de que meu silêncio é a única resposta que vou lhe dar.
Mas ele está enganado.
Ele entra no quarto para pegar algo em sua maleta, e eu o intercepto.
— Foi ideia de Niklas? — pergunto, da cama.
Torço muito para que tenha sido.
Victor para diante da porta, de costas para mim. Em vez de abrir por completo, ele a fecha. Deixando a pasta preta que tirou da maleta na cômoda alta perto da porta, ele se aproxima de mim. Sua camisa preta está para fora da calça. As mangas compridas estão arregaçadas até os cotovelos, expondo a virilidade de seus antebraços e a força de suas mãos.
Desencosto os ombros da cabeceira e me sento na beirada da cama, pondo os pés no chão. Estou usando uma blusinha vermelha folgada e fina que não adere muito às minhas costas e um short de ginástica.
— Sim, tecnicamente, foi.
— Tecnicamente? — pergunto, franzindo o cenho.
Ele se senta ao meu lado, com os braços sobre as pernas e as mãos nos joelhos.
— Ninguém está isento dos testes. Niklas apenas teve que me lembrar disso, no seu caso. É uma questão de confiança...
— Você já não confiava em mim?
— Sim, confiava — assume ele, olhando para a frente. — Mas o que fizemos você passar era necessário, Sarai. Você queria fazer parte. Eu queria que você fizesse parte. Para isso acontecer, teria que ser feito de acordo com as regras, ou sempre haveria um conflito com os outros membros. Meu juízo seria sempre questionado. Você estaria sempre sob suspeita. Ninguém está isento. Fredrik não estava. Aquele homem nos fundos do restaurante de Hamburg, que ajudou você a fugir. O homem que leva a sra. Gregory para os nossos abrigos.
— E Amelia? Ela não sabia nada sobre o que você e Fredrik fazem, pelo que você me contou. Ou isso também era mentira? Ela foi espancada como eu fui?
— Não — responde ele, olhando para mim. — Não era mentira. E, não, ela não passou por nada do que você passou. Testamos de outras maneiras a confiabilidade de Amelia e de outros como ela, aqueles que não sabem nada sobre o que fazemos. Mas, para aqueles que estão por dentro, que sabem tanto quanto você sabe sobre nós, os testes são mais... extensivos.
Desvio o olhar.
— Você mandou Stephens para a casa de Amelia? — pergunto, baixinho.
— Não — responde Victor, e me viro para encará-lo à minha esquerda, desconfiada.
— Então como eles sabiam sobre ela? Como sabiam que Dina esteve lá? — A raiva aumenta na minha voz. — Você pôs Dina em risco? Por favor, diga a verdade!
Victor balança a cabeça antes mesmo que eu termine de perguntar.
— É verdade. Talvez a gente nunca saiba ao certo como Stephens descobriu sobre Amelia, ou que a sra. Gregory estava escondida lá. Quem poderia responder a essa pergunta agora está morto. Mas posso garantir que nem eu nem Niklas nem mesmo Fredrik tivemos qualquer coisa a ver com isso. Podem ter acontecido várias coisas, Sarai. A sra. Gregory pode ter entrado em contato com algum parente em algum momento. — Ele gesticula ao falar. — Pode ter acessado sua conta bancária, revelando sua localização.
— Stephens poderia ter me matado — digo, com amargura, pulando de um assunto para outro. — Ele queria tanto me matar que teria atirado em mim, se Niklas não tivesse atirado nele primeiro. E se ele tivesse me matado dias antes? E se Stephens tivesse me espancado até a morte? — Meu peito sobe e desce enquanto tento conter minha raiva.
Victor suspira e olha para as mãos, passando os dedos da direita nas costas da esquerda, constrangido.
— Sinto muito por isso — diz ele, arrependido, e então ergue os olhos devagar. — Sim, era possível que Stephens matasse você, não nego, mas eu sabia que Niklas faria de tudo para que isso não acontecesse.
Rio com descrença e desdém.
— Niklas? — pergunto, incrédula. — O mesmo que atirou em mim? Você está me dizendo que botou fé em alguém que me quer morta desde a primeira vez que me viu? — Começo a levantar a voz, e Victor passa a demonstrar sinais de constrangimento.
— Talvez eu nunca consiga fazer você entender — reflete ele, ainda controlado. — Mas sei que Niklas nunca vai machucá-la. Nós dois passamos por muita coisa desde que saí da Ordem. Chegamos a um entendimento. Ele aceita você...
— Eu não preciso que ele me aceite! — Fico de pé em um salto e o encaro de cima, com os punhos cerrados. — Niklas é a última pessoa da Terra de quem necessito qualquer tipo de aprovação! Ele tentou me matar!
Ergo os punhos cerrados diante de mim e prendo a respiração, rangendo os dentes. Meu corpo enrijece, crispado de ressentimento.
Victor fica de pé e segura meus ombros. Hesitante, expiro e me acalmo, mas não consigo olhá-lo nos olhos. A sensação é a mesma de antes, quando queria me sentir traída porque seria a reação normal. Agora, quero odiá-lo pelo mesmo motivo. Mas não odeio. Posso não entender por que ele foi confiar minha vida logo a Niklas, mas acho que o único motivo de não entender é porque não quero. Quero sentir raiva. Quero ser inflexível. Porque é mais fácil do que aceitar a verdade impensável: a de que Niklas merece uma chance. Porque, se eu fosse ele e estivesse tentando proteger meu irmão da Ordem, provavelmente teria atirado em mim também.
Victor afasta o cabelo do meu rosto, prendendo-o atrás das orelhas. Ele me olha por um momento como se estivesse evocando uma lembrança que tenho certeza de que me envolve de alguma forma. Como poderia não envolver? Essa expressão pensativa e encantada de seus olhos verde-azulados, o modo como ele fez questão de tocar meu rosto ao afastar meu cabelo. Quero gritar a plenos pulmões com ele, mas só consigo ficar ali e observar aqueles lindos olhos sombrios me examinando.
Ele olha para o quarto ao redor.
— Na noite em que encontrei você no meu carro — diz ele, sem olhar para mim —, na mesma hora a vi como uma ameaça. Eu queria me livrar de você. Rápido. Levar você de volta para a fortaleza, abandoná-la na estrada. Eu queria muito matar você.
Como já sabia de tudo isso, não fico surpresa, mas continuo curiosa para saber por que ele está tocando nesse assunto agora. Fico em silêncio, cruzo os braços e faço uma cara de dor quando o movimento repuxa a pele das costas.
— Eu poderia, e muitas vezes pensei que deveria ter matado você — continua Victor. — Tive todas as oportunidades. Mas não consegui.
— Você precisava de mim. Como moeda de troca. Talvez, se eu não tivesse dado essa ideia, avisado sobre o modo como Javier negociava, você tivesse me matado.
— Não — responde ele, em voz baixa, balançando a cabeça de leve. Então sinto seu olhar em mim e me viro. — Eu não precisava usar você como moeda de troca, Sarai. Sabia, quando saí daquele encontro com Javier Ruiz, que, quando eu contasse da recompensa que Ruiz me oferecera para matar Guzmán, no fim só seria contratado para matar Ruiz. Porque a oferta de Guzmán era mais alta do que a dele. Receber ou não a outra metade do dinheiro de Ruiz era irrelevante. Eu não precisava usar você como moeda de troca, afinal.
— Não entendo aonde você está querendo chegar — digo, e é verdade.
Victor inspira e desvia os olhos novamente.
— Naquela manhã, quando Izel estava vindo buscar você naquele hotel, antes de você acordar, minha intenção era lhe entregar para ela. Cheguei até a contar a eles onde a gente estava. Mas quando você acordou... — Ele para no meio da frase e ergue os olhos para o teto, soltando o ar dos pulmões mais uma vez, concentrado. Então Victor baixa o queixo e me olha nos olhos. — Se você não tivesse acordado, ainda estaria com Javier Ruiz, neste momento.
Com os braços cruzados, dou alguns passos na direção dele e inclino a cabeça para o lado, pensativa.
— O que você está dizendo? Eu estou aqui com você agora porque acordei antes de Izel chegar? Não entendi.
— Eu não consegui. Foi como atirar em um inocente, qualquer um que tem consciência não consegue fazer isso olhando nos olhos da pessoa. Quando você acordou, eu não consegui entregá-la.
Ainda não tenho certeza do que Victor está tentando dizer, mas sei que não foi por causa de algo ridículo como amor à primeira vista. Contudo, ao estudar seu olhar perturbado, entendo aos poucos que ele está aprendendo algo extraordinário a respeito de si próprio. Deixo que ele fale, pois parece que Victor precisa pôr aquilo para fora, exteriorizar para talvez se entender por completo.
— Batalhei a cada passo do caminho enquanto você estava comigo, dizendo a mim mesmo que precisava me livrar de você. Você era uma ameaça para mim, para o meu emprego, para a minha vida, e mais tarde ameaçou minha relação com meu irmão. Eu soube disso assim que a vi pelo retrovisor, quando você estava apontando a arma para a minha nuca, com aquela cara desesperada e assustada. Você ameaçava tudo. Mas, pela primeira vez na vida, fui contra tudo o que eu era: um assassino treinado com uma consciência reprimida... — Seu rosto endurece e ele se aproxima de mim. — Eu poderia ter abandonado você há muito tempo, mas não abandonei. Não queria abandonar então, e não quero abandonar agora.
Um calafrio percorre meus braços quando Victor esfrega as mãos neles, para baixo e para cima.
— Sinto muito por tudo o que você passou — diz ele, baixinho. — Quero que você fique, mais do que tudo, mas, se não quiser ter mais nada a ver comigo, eu vou entender. — Ele pressiona os lábios no alto da minha cabeça e vai até a porta, pegando a pasta preta do gaveteiro.
— Victor? — chamo, baixinho, antes que ele toque a maçaneta.
Ele olha para trás.
Começo a dizer “Fico feliz que você não tenha me abandonado”, mas paro e engulo as palavras. Por mais que eu queira revelar que aquela história me tocou, que não consigo imaginar a vida sem ele, ainda estou furiosa pelo que ele fez comigo, e não posso desculpá-lo. Ainda não. Não com tanta facilidade assim.
— Era só isso? — pergunto, no lugar do que ia dizer. — O teste que eu fiz? Foi o último? Foi a única vez que vou ter que passar por algo assim? Preciso ser sincera, não quero acordar todo dia achando que vou ser sequestrada, espancada ou afogada. Não quero não confiar em você...
Ele põe a mão na maçaneta e a vira. A porta se abre.
Olhando para trás, ele diz:
— Não, tem só mais uma coisa.
Meu coração endurece como uma pedra quente. Por essa eu não esperava.
— O maior teste é saber se você consegue ou não trabalhar com meu irmão — diz Victor. — Mas pode confiar em mim. E pode confiar em Niklas. Você nunca mais vai passar por nada assim.
Ele faz uma pausa e completa:
— Espero que você fique.
Então sai do quarto, fechando a porta.
Algum tempo passa, e fico sozinha para pensar em tudo. Sei que neste momento, não ontem nem no dia em que fugi da fortaleza no carro de Victor, mas neste momento é que o resto da minha vida está começando.
E sei que só há uma escolha certa.
Saio do quarto e vou encontrar Victor, Fredrik e Niklas na sala. Eles estão falando que Fredrik não sabia de nada e que passou em todos os testes de Victor e Niklas. Fico escutando sobretudo os comentários de Fredrik e Niklas, pois Victor parece mais calado do que de costume.
Os três me olham quando entro na sala, interrompendo a conversa no meio de uma frase.
— Ah, aí está ela — comenta Fredrik, com um sorriso largo e lindo. Ele me chama com um gesto. — Vem sentar com a gente. Estávamos discutindo qual o próximo passo para nós quatro. — Percebo que Fredrik não tem tanta certeza da minha decisão quanto finge que tem.
Niklas apenas acena com a cabeça para mim.
Victor fica de pé e estende a mão, oferecendo o lugar ao lado dele para eu me sentar.
— Antes, preciso dizer uma coisa.
Ele põe as mãos atrás das costas e dá um passo para o lado, esperando pacientemente.
Olho para os três, um por um, e paro em Victor.
— Se eu vou ficar aqui, há algumas coisas que preciso deixar bem claras.
Um lampejo de esperança passa pelos olhos verde-azulados de Victor.
Olho para Fredrik e Niklas de novo e continuo, falando com todos:
— Eu faço o que eu bem entender. Vou seguir as ordens de Victor como vocês dois seguem, vou treinar até sangrar e não conseguir andar direito. Conheço o meu lugar. Mas não porque sou mulher ou mais jovem do que vocês. Nem porque vocês acham que vou me “machucar” — continuo, fazendo aspas com os dedos. — É claro que vou me machucar, mas não preciso de nenhum de vocês... — meus olhos pousam em Victor de novo — correndo para pegar uma porra de um curativo cada vez que eu cair.
Fredrik ri baixinho.
— Ei, nada contra isso — afirma ele, erguendo as mãos e deixando-as cair nos joelhos.
Olho para Niklas. No entanto, não demonstro nenhuma emoção enquanto o encaro. Acho que ainda não tenho certeza de quais deveriam ser essas emoções.
Ele abre um sorrisinho, embora eu saiba que é completamente inocente.
— Acho que você sabe que eu não vou correr para ajudar cada vez que você cair.
Só reviro os olhos e encaro Victor.
— Sarai... — começa Victor, mas levanto o dedo indicador para ele.
— Isso é outra coisa. Sarai Cohen morreu há muito tempo. Ela morreu quando eu tinha 14 anos e passei a primeira noite naquela fortaleza no México. — Baixo a mão e olho para cada um deles. — Quero ser chamada de agora em diante de Izabel Seyfried.
Todos se entreolham e depois balançam a cabeça, me observando.
— Izabel? — pergunta Victor, continuando de onde o interrompi.
Eu o olho nos olhos.
— Vou entender se você jamais me perdoar, mas...
— Você me perdoaria se fosse o contrário? — pergunto, tentando usar um argumento que ele entende na hora. — Victor, você fez o que precisava fazer, como na noite em que manipulei você para... — Paro de falar antes de revelar demais sobre nossa relação para Niklas e Fredrik. Mas percebo, pela expressão de compreensão nos olhos de Victor, que ele sabe a que me refiro.
— Mas isso está longe de ser a mesma coisa.
— Não importa. Quero dizer, só para constar, bem na frente do Bonitão e do Advogado do Diabo, que o inferno que eu enfrentei não só é perdoável, mas também foi totalmente necessário. Eu sei no que estou envolvida. Nós matamos gente, alguns de nós para ganhar a vida, outros por vingança. Não estou trabalhando em um banco. Muito mais do que uma pesquisa de antecedentes e uma análise de crédito precisa ser levado em conta, se vou fazer parte desse esquema. E, para ser sincera, eu me sinto muito mais segura perto de todos vocês, sabendo que são capazes de chegar a extremos assim para ter certeza de que todo mundo nesta sala é confiável. Que qualquer um que se juntar a nós mais tarde vai passar pelo mesmo inferno.
Meus olhos pousam em Victor mais uma vez.
— Não tem nada para perdoar — repito, e a expressão dele se abranda.
Niklas se levanta da poltrona de couro.
— Sar... Izabel — corrige-se ele, aproximando-se de mim. — Olha, preciso dizer uma coisa. Sinto muito por atirar em você em Los Angeles. De verdade. Nunca mais vou tentar machucar você.
— Acredito em você — digo, e, pelas expressões no rosto de cada um, ninguém esperava isso. — Acho que posso afirmar com segurança que vai ser difícil para mim até ficar na mesma sala que você, Niklas. Neste momento, por exemplo, não estou gostando. Sinceramente, eu preferia nem ter que ver muito a sua cara. Acho você um babaca, um doido psicopata que deveria estar em um manicômio judiciário. Nunca vou gostar de você e duvido que um dia eu tenha algum respeito pela sua pessoa. Mas você é irmão do Victor, e quando implorei para ele não matar você foi por um motivo, e não me arrependo. Mas nunca vou gostar de você e estou avisando para não cruzar a porra do meu caminho.
Ele levanta as mãos em um gesto de rendição e dá um passo para trás.
— Ok, ok, entendi. Não cruzar o seu caminho. — Ele ri baixo.
É mais teatro do que qualquer outra coisa. Sei que ele ainda tem problemas comigo (é tão teimoso quanto eu), mas por amor a Victor vai me tolerar tanto quanto eu a ele. Desprezo aquela expressão sempre pretensiosa no rosto dele. Desprezo a sua autoconfiança e arrogância e prevejo que Niklas e eu vamos bater de frente muitas vezes. Mas, por Victor, vou aguentar.
Niklas vira de costas para mim e se dirige à poltrona.
— Niklas — chamo.
Ele para e me olha. Eu me aproximo.
— Só tem mais uma coisa que quero dizer.
— Pois não?
Ele se vira e me olha com curiosidade, esperando. Quando ele está ao alcance do meu braço, levanto o punho e o golpeio na lateral do rosto, bem na altura do maxilar. A força do soco causa um tremor doloroso na minha mão. Tento aliviar a dor abrindo e fechando os dedos, mas ela só piora.
— Aaaaiii, caralho! Qual é o seu problema, porra? — Niklas põe a mão no canto da boca. — Tudo bem. Entendi. Eu atirei em você e agora estamos quites. Eu mereci. — Com a mão ainda sobre a boca, como se estivesse tentando colocar o queixo no lugar, ele termina o caminho até a poltrona e se joga sobre ela.
— Isso não foi porque você atirou em mim — retruco, ríspida. — Foi por matar Stephens. Ele era meu. — Aponto para ele. — E o único jeito de estarmos quites por você ter atirado em mim é se eu atirar em você. Por isso, como já falei, não cruze o meu caminho.
Niklas olha para Victor, de pé atrás de mim, como quem diz: Essa garota existe? Victor não diz nada, mas quando olho para ele por um instante noto que está sorrindo.
Fredrik está jogado no sofá, com os braços no encosto e um enorme sorriso.
No fim, seguro a mão de Victor e aceito me sentar. Estou dolorida demais para ficar de pé sozinha por muito tempo. Ele me leva até o sofá e me ajuda a sentar nas almofadas macias, segurando minha mão até eu me ajeitar. E então se senta ao meu lado.
Fredrik se curva e olha para mim do outro lado de Victor, com seu sorriso sombrio e encantador intacto.
— Fico feliz que tenha se juntado a nós. Claro que ainda vai ter que treinar muito, de acordo com Faust. — Ele aponta para Victor. — Mas algo me diz que você tem um talento natural. — Ele dá uma piscadinha. — Teimosa. Imprudente. Desbocada. Nada delicada. Mas acho que eu não ia gostar muito de você se não fosse todas essas coisas.
— Obrigada, Fredrik — digo com sinceridade e um sorrisinho irônico.
Niklas relaxa na poltrona, apoiando seu coturno preto no joelho. Não sei por quê, mas reparo nesse detalhe. Coturnos? Eu o olho de alto a baixo. Jeans escuro. Camiseta cinza que contorna seus bíceps. Cabelo desgrenhado.
Meus olhos vão e vêm entre ele e Victor, sempre sofisticado, e não consigo deixar de me perguntar se não estou deixando passar algo importante. Olho para Fredrik do lado direito de Victor, e, como Victor, Fredrik está usando as roupas de sempre, sapatos e um terno refinado.
— Por que ele está vestido assim? — pergunto para Victor, indicando Niklas com um aceno da cabeça.
Victor olha por um instante, mas é Niklas quem responde.
— Porque prefiro isto a usar esses ternos ridículos. E, como não estou mais na Ordem, acho que posso me vestir do jeito que eu quiser.
Surpresa, volto a olhar para Victor sem mexer a cabeça.
Victor assente algumas vezes, confirmando o que Niklas disse.
— Ele saiu há alguns dias. Fredrik é o único que continua lá dentro.
— Mas... por quê? Isto é, não seria melhor que Niklas continuasse de olho em Vonnegut, sobretudo no que se refere a você?
— Saí porque precisei — conta Niklas. — Eu estava demorando demais para matar Victor.
— E, como era de esperar — acrescenta Victor —, Vonnegut estava começando a questionar a lealdade de Niklas. Vonnegut pode não saber que Niklas e eu somos irmãos, mas nós tivemos uma relação muito próxima de trabalho por muitos anos. Estava demorando muito e ficando arriscado demais.
Solto um suspiro preocupado e tento me reclinar no sofá, até me lembrar das minhas costas.
Olho para Fredrik.
— E você? A Ordem sabe da sua relação com Victor? Ou com Niklas, aliás?
Fredrik sorri para Victor.
— Viu? Ela já entrou de cabeça no trabalho — observa ele, com uma risadinha, e então volta a olhar para mim. — A Ordem sabe que trabalhei com Victor algumas vezes no passado, mas não mais do que qualquer outra pessoa com quem ele já trabalhou. Quanto ao irmão dele, quando Victor saiu da organização, eu fui abordado por Niklas para ajudar a encontrá-lo, agora todos sabemos disso. Eu achava que Niklas seria meu superior depois desse episódio.
— Mas Vonnegut nunca soube do meu envolvimento com Fredrik — intervém Niklas.
— Então, por enquanto — acrescenta Victor —, Fredrik está seguro na Ordem.
— E represento os únicos olhos e ouvidos deles lá dentro — intervém Fredrik.
— Uau — comento, balançando a cabeça, tentando absorver tudo isso e o que significa para nós.
— Está ficando com medo? — pergunta Niklas, abrindo um sorriso.
— Nem um pouco — respondo, sorrindo também. — Só estou tentando decidir qual serviço é mais urgente, a fortaleza no México ou eliminar a Ordem para eles pararem de caçar a gente.
Niklas sorri e parece que, ao perceber o que fez, desvia o olhar de mim.
— Acho que estou apaixonado pela sua mulher — diz Fredrik para Victor, brincando.
— Por algum motivo, duvido que você seja capaz disso — rebate Victor, despreocupado.
Ele olha para mim.
— Eu sei qual serviço é mais urgente. — Ele dá um sorrisinho e segura a minha mão.