O Retorno de Izabel
Capítulo Trinta
Izabel
Um ano depois...
Victor entra no banheiro da nossa casa em Nova York e me encontra relaxando em um banho de espuma. Despreocupada, eu o vejo tirar a arma da parte de trás da calça e deixá-la na bancada. Meu cabelo está preso no alto da cabeça em um coque desalinhado. Estou deitada na banheira com os braços estendidos nas laterais, um joelho fora da água, parcialmente coberto pela espuma. Foi um dia cheio. Matei John Lansen, presidente da Balfour Enterprises e estuprador de primeira linha, e ainda tenho o sangue dele debaixo das unhas.
Fecho os olhos e relaxo.
— Onde você estava? — pergunto para Victor, sem levantar a nuca da banheira.
— Limpando a sua sujeira — responde ele, calmo.
Compelida a olhá-lo depois dessa acusação, abro os olhos novamente e o vejo de pé ao meu lado.
— Como assim? Foi um serviço limpo.
Ele ergue uma sobrancelha e olha para as minhas mãos.
— É mesmo? — pergunta ele, em tom acusatório. — Limpo significa sem sangue. Sem digitais. Sem deixar nada para trás, nem o seu cheiro.
Suspiro e fecho os olhos.
— Victor — digo, fazendo gestos dramáticos por cima da borda da banheira. — Eu não deixei nada para trás. Limpei tudo depois. Não ficou nada. Pergunta para o Fredrik. Ele estava lá. Verificou tudo depois.
Sinto o corpo de Victor mais perto quando ele se senta na borda da banheira.
— Mas quais são as ordens que eu dei, Izabel? — questiona ele, com tanta calma quanto antes. — Antes de começar essa missão com Fredrik, o que eu pedi?
— Nada de sangue — respondo, ainda de olhos fechados. — Envenene o cara, para parecer um ataque cardíaco.
Abro os olhos de novo e encontro seu olhar dominador, o verde de seus olhos mais escuro do que de costume.
— Veneno é o lance do Fredrik, não o meu.
— Você desafiou minhas ordens. E vai ser a última vez.
Sorrio para Victor e afundo as mãos na água para sentir a espuma na pele. Sei que Victor não está bravo de verdade comigo. Isso se tornou um jogo que fazemos: às vezes faço o contrário do que ele manda, e ele me castiga. É o tipo de jogo em que ambos ganhamos. Eu jamais teria desafiado as ordens dele em uma missão importante. John Lansen era só uma ponta solta, e mais uma das minhas missões de treinamento.
— O que você vai fazer comigo, Victor? — pergunto, com um brilho sedutor nos olhos. Tiro a perna esquerda da água e a apoio na borda da banheira, atrás de onde ele está sentado. — Vai me castigar?
Com a manga já arregaçada acima do cotovelo, sua mão direita percorre lentamente o comprimento da minha perna e mergulha na água. Gemo quando seus dedos me encontram.
— Vou tirar você do trabalho de campo até aprender a se controlar — diz ele, pondo dois dedos entre meus lábios inferiores.
Minha nuca pressiona com mais força a borda da banheira e minhas pernas se abrem mais.
— E se eu nunca conseguir me controlar? — pergunto, ofegante, mal capaz de me concentrar na conversa, com seus dedos se movendo entre minhas pernas daquela maneira.
Ele é um canalha. E eu o amo pra caralho por isso.
Dois dedos entram em mim e minhas pernas começam a enrijecer e formigar quando seu polegar esfrega com força meu clitóris em um movimento circular.
— Abra os olhos — manda ele em voz baixa, mas imperiosa.
Abro, só um pouco, pois está cada vez mais difícil controlar minhas pálpebras. Soluço, gemo e mordo meu lábio inferior com tanta força que dói.
— Se você não conseguir se controlar, então não terei escolha.
— Não terá escolha... do quê? — Meu peito nu sobe e desce. Mexo na água procurando sua mão, fechando os dedos em volta do seu pulso forte e descendo até os dele, que continuam se movendo em círculos.
Então ele para.
Ele tira a mão da água, fica de pé e enxuga o braço com minha toalha, pendurada na porta do boxe.
Olho para ele sem entender.
Ele sai do banheiro e me deixa sentada lá, sozinha, insatisfeita e sexualmente frustrada.
— Ei! — grito para ele. — Aonde você vai, cacete?!
Nenhuma resposta.
— Victor!
Nada.
Rosno baixo, fico de pé e saio da banheira. Pego a arma de Victor com minha mão molhada e ensaboada e vou para o nosso quarto. Ele está de costas para mim, perto da nossa cama king-size, tirando a camisa com uma graça casual e desinteressada, o que só me deixa mais frustrada.
Chego por trás dele, ensopada, pingando água e espuma no chão, e começo a apontar a arma para suas costas. Mas Victor é rápido demais e se vira, tirando a arma da minha mão e enfiando-a sob o meu queixo, tudo em dois segundos, que passam por mim como um borrão.
O cano frio toca minha pele. A intensidade nos olhos dele provoca uma onda de calor no meu corpo e entre minhas coxas. Meus seios estão pressionados no seu tórax duro e quente, sua mão livre posicionada no meio das minhas costas, com seus longos dedos abertos.
— Nenhuma disciplina, Izabel. — Ele estuda o meu rosto com um movimento faminto e calculado dos olhos. Ele lambe o canto da minha boca e enfia mais a arma na minha garganta. — Você nunca vai aprender.
Tento beijá-lo, procurando sua boca com a minha, mas ele me rejeita, me provocando com a distância de seus lábios, a 2 centímetros dos meus.
Ele me lambe de novo. E então me joga na cama e se encaixa no meio das minhas pernas nuas, ainda vestido da cintura para baixo com a calça preta. Estremeço quando sinto sua ereção me pressionando sob a calça. Meu corpo se desfaz em calafrios quando ele passa a ponta da língua de baixo para cima entre os meus seios.
Ele beija um lado do meu queixo, depois outro.
— Talvez você devesse se livrar de mim — sussurro nos lábios dele.
— Nunca — diz Victor, me beijando de leve uma vez. — Você é minha enquanto respirar. — A boca dele cobre a minha, faminta.
Foi assim que me tornei o que sou, uma escrava sexual transformada em assassina. E foi o início não só de um caso de amor entre mim e Victor, mas também de um novo círculo clandestino de assassinos, tão secreto que nem tem nome.
Quatro viraram cinco seis semanas atrás, quando recebemos o diabo louro de olhos castanhos, Dorian Flynn, no nosso grupo. E, embora haja muitos que trabalham para nós, espalhados por vários países, nós cinco somos o centro de toda a operação, com ninguém menos do que Victor Faust no comando de tudo.
Niklas continua um canalha insuportável, que adora dinheiro, mulheres e me deixar puta. De maneira indireta, é claro, mas ele sabe o que está fazendo. Mesmo depois de um ano, ele e eu praticamente nos desprezamos. Talvez eu o despreze um pouco mais do que ele a mim, mas nós nos suportamos, por Victor. A maior parte do tempo, evitamos cruzar o caminho um do outro. Ainda preciso ficar quite com Niklas e atirar nele. Mas essa hora vai chegar. Um dia.
Quanto a Fredrik, as mulheres ainda o adoram, mas desisti de tentar entendê-lo há muito tempo. Entender por que as mulheres praticamente tiram a calcinha quando o veem. Concluí que a única maneira de saber seria dormir com ele. Mas, como isso nunca vai acontecer, decidi manter o mistério. Mas Fredrik é como um irmão para mim, e, como Victor, não consigo imaginar ficar sem ele na minha vida. Sem perceber, ele tenta correr atrás de mim com aqueles malditos curativos de vez em quando, seja depois de uma sessão brutal de treinamento com Victor, seja na noite em que levei uma facada no ombro durante uma missão. Preciso lembrar a Fredrik, usando minha voz mais inclemente de Izabel Seyfried, de não me tratar como uma garotinha frágil. Lá no fundo, contudo, gosto de ver como ele é protetor comigo. Só que nunca vou contar isso a ele.
Dina, a mãe que eu deveria ter tido há 24 anos, agora mora em Fort Wayne, Indiana. Nós a instalamos em um abrigo tão pequeno e modesto quanto sua casa em Lake Havasu City. Victor tentou convencê-la a morar em um lugar grande e imaculado porque queria que ela tivesse o melhor, mas ela recusou. “Gosto das coisas simples”, disse ela naquele dia.
Dina ainda não sabe tudo sobre o que fazemos, mas é mais seguro assim, e ela aceita isso. E quanto ao abrigo dela, só é aberto para mim e para Victor. Eu a visito uma vez por mês. Mas a saúde dela está piorando. Eu me preocupo mais com ela do que comigo mesma ou com Victor. Mas ela é uma velha forte, e acho que ainda vai viver por muitos anos.
Quanto a Amelia McKinney, Fredrik não a matou. Matar mulheres inocentes não é o estilo dele. Ele a instalou em outro abrigo do outro lado do país, em algum lugar de Delaware. Nova identidade. Novo tudo. Mas ele nunca a visita. A última coisa que ele quer é uma mulher achando que ele está interessado em algo mais do que sexo.
Essa é a história da vida de Fredrik.
Conforme o prometido, depois que terminamos com Hamburg e Stephens, começamos a bolar uma estratégia para matar os irmãos de Javier Ruiz e libertar as garotas aprisionadas na fortaleza mexicana. Passei por seis meses de treinamento massacrante — treinamento de verdade, não apenas ser largada em algum lugar para estranhos me ensinarem — antes de partirmos para a missão. Infelizmente, a maioria das garotas da fortaleza que eu conhecia já tinha sido vendida ou estava morta quando chegamos lá. Matei Luis e Diego Ruiz, cortei a gargantas deles como fiz com Hamburg, depois que Victor, Niklas e Dorian derrubaram os guardas ao redor e dentro da fortaleza com uma chuva de balas. Não sou tão boa com armas de fogo e ainda preciso treinar muito. Por anos. Mas consigo fazer o serviço com minha coleção cada vez maior de punhais. E estou aprendendo mais a cada dia.
Quando a missão no México acabou e salvamos quem era possível — seis garotas, no total, tão traumatizadas que, mesmo livres, imagino que não consigam muita coisa na vida —, fomos atrás dos homens que as compravam. E ainda hoje, como amanhã e daqui a um ano, nós os procuramos e os eliminamos. Vai ser um longo caminho até localizarmos todos eles e lhes dar o que merecem, mas não vou parar enquanto não terminar.
Mais importante do que tudo, sobretudo para mim, é eliminar a Ordem. Vai demorar muito tempo até que eu possa de fato dormir tranquila à noite, sabendo que há homens procurando Victor a cada hora do dia. É uma empreitada muito mais perigosa e complexa do que provavelmente qualquer missão que realizaremos.
A Ordem é imensa, com milhares de membros, e é uma das mais antigas organizações de assassinos ainda existente. Vai levar algum tempo. Mas vai ser feito, mesmo que seja a última coisa de que eu participe.
Victor é a minha vida e eu vou morrer ajudando a protegê-lo.
Mas essa missão vai continuar a ser uma empreitada difícil, agora que Fredrik precisou sair por causa das suspeitas e não temos mais olhos e ouvidos confiáveis lá dentro. Temos novos informantes infiltrados na Ordem, mas eles ainda não provaram ser confiáveis como Fredrik.
E Victor... Victor continua pensando só no trabalho. Ainda é o assassino de aluguel e a sangue-frio, com nenhuma ou quase nenhuma consciência, quando o assunto é cumprir uma missão. Ele ainda parece desprovido de emoções, impiedoso e mortal em todos os sentidos. A portas fechadas, no entanto, quando estamos a sós, ele é outro homem. Ele me ama sem precisar dizer. Ele me adora sem ter que provar. Quando ele me toca, sei o que está pensando, o que realmente sente por trás daquela máscara que usa diante dos outros. Sou a única alma que ele já deixou entrar em sua vida completamente. E a única que ele nunca irá abandonar.
Ele se tornou o meu “herói”, no fim das contas. Minha alma gêmea que jamais vai deixar que nada de ruim aconteça comigo. Confio minha vida a ele, por mais que ele me diga para sempre confiar primeiro nos meus instintos. A verdade é que tudo o que fazemos é arriscado. Dar um passo para fora da porta. Dar um telefonema. Comer um pãozinho em uma lanchonete. Todos com quem cruzamos são ameaças até que provem o contrário. Qualquer um de nós pode morrer a qualquer momento. Mas pelo menos sei que Victor vai me pôr sempre em primeiro lugar e fazer tudo o que pode para me manter a salvo, como sempre vou fazer por ele.
Ficar um passo à frente da morte é o nosso estilo de vida. É o meu estilo de vida, e acredito que era para ter sido assim desde sempre. Contudo, por mais estranho que pareça, me sinto perfeitamente segura na companhia de assassinos.
Fredrik Gustavsson não conhecia
o sentido da palavra amor até encontrar
Seraphina. Conheça a história deles em
O CISNE
E O
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J. A. Redmerski