O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 17 de 37

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O Retorno de Izabel

Sarai

 

 

Os magnéticos olhos azuis de Fredrik provocam um arrepio desconcertante no meu corpo. Seu dedo se afasta do meu cabelo e ele inclina devagar a cabeça, enquanto seus olhos percorrem cada centímetro do meu rosto, como se ele estivesse ponderando qual parte quer saborear primeiro. Engulo em seco e dou um passo para trás. Não por medo dele, mas por medo de não temê-lo como meu instinto diz que eu deveria.

Encaro Victor, movendo só os olhos. Sua expressão é calma e neutra. Se Victor não parece nervoso, claro que não preciso me preocupar com nada. Mas e se ele estiver me testando? E se estiver procurando aquela confiança equivocada que sempre tive nele, aquela confiança que há muito tempo Victor me disse para não ter, porque no fim só devo confiar em mim mesma?

Não... não é isso. É outra coisa que ele está procurando, e não sei bem o que é.

Inclino a cabeça para o lado e mordo a parte interna da bochecha, estreitando os olhos para Fredrik.

— Por que você não me conta de uma vez e deixa de drama?

Um sorriso incrivelmente sexy emerge, e Fredrik se afasta, despreocupado. A luz forte perto da cadeira de dentista forma uma aura estranha, mas adequada, ao redor do seu corpo, fazendo-o parecer um louco fantasiado de Diabo, de pé diante de um fundo apavorante.

— Somos todos homicidas aqui — afirma Fredrik, com leveza, com aquele onipresente sotaque sueco. Ele faz um gesto na direção de Victor. — O assassino — aponta ele. — E você, claro. Acho que você entrou no clube com sucesso, mesmo matando por vingança, diferente de Faust, que mata por dinheiro.

Com um nó pesando no fundo do estômago, olho para Victor outra vez, mas sua expressão firme não muda.

— E você? — pergunto, virando-me para Fredrik. — Por que você mata?

Fredrik ri, baixinho, e sinto a atmosfera sombria da sala se iluminar de repente. Ele não é mais tão intimidador. Olho de Fredrik para Victor de novo, procurando no rosto deles algum tipo de comunicação silenciosa, e acabo encontrando. Fredrik só estava tentando me confundir.

E estou completamente confusa.

— Eu mato, mas só quando preciso — explica Fredrik, e fico surpresa com isso. — Sou o que Faust chama de Especialista. Interrogatório e tortura são minhas especialidades. — Ele gesticula para o equipamento atrás dele. — Isso já ficou óbvio, suponho. Vez ou outra, também tive a oportunidade de bancar o dr. Kevorkian e realizar algumas eutanásias.

Rio e digo:

— Achei que você fosse me dizer que era um assassino em série ou algo assim.

Victor e Fredrik se entreolham de novo, embora só por um instante. Detecto a natureza clandestina dessa troca secreta deles no mesmo momento.

— Não, meu bem — retruca Fredrik, virando de costas para mim, fingindo estar organizando mais uma vez suas horripilantes ferramentas de interrogatório. — Não sinto prazer em matar...

O silêncio cobre o ambiente.

Fredrik parece pouco à vontade agora. Está usando as ferramentas na mesa como uma distração, seus longos dedos acariciando o metal polido com um cuidado gracioso. Quero manter um pé atrás com Fredrik, achar irritante sua personalidade enigmática e achar repulsivo seu currículo, mas, por alguma razão que não consigo entender, de repente sinto... pena dele.

— Precisamos nos preparar — diz Victor, quebrando o silêncio constrangedor da sala.

Fredrik, como se suas emoções fossem controladas por um interruptor, bate palmas e abre um sorriso luminoso, de um sadismo macabro.

— Com certeza! Para ser honesto, cansei de esperar por esse merda. Não que isso seja culpa sua, Faust.

— Talvez eu tenha um pouco de culpa — admite Victor, e tenho a sensação de que isso tem algo a ver comigo. — Mas certas coisas são mais importantes.

Olho para o chão de concreto sujo, escondendo um leve rubor no rosto.

— Tem certeza de que você está pronto para isso? — pergunta Victor.

— Pronto é pouco — rebate Fredrik, e então começa a nos explicar a situação. — André Costa vai ficar na cidade por mais dois meses — afirma ele. — Ele está com uma mulher, uma tia, se não me engano, do outro lado do rio, em algum lugar de Algiers. Meu contato ouviu Costa conversar no Lafitte’s ontem à noite. A menos que estivesse mentindo só para se mostrar para as mulheres, parece que ele conhece a cidade como a palma da mão, é como uma segunda casa para ele. Se não pegarmos o cara esta noite, tenho certeza de que vamos ter outra chance em breve.

Os olhos de Fredrik me evitam.

— Eu vou pegá-lo — digo, só um pouco ofendida pela falta de confiança em mim. Ao mesmo tempo, sei que eu também estaria preocupada com o resultado se estivesse no lugar dele.

Ele continua:

— Costa esteve nesse bar, Lafitte’s, toda noite desde que chegou aqui, por isso acho que também estará lá hoje.

Victor enfia a mão no bolso de trás, tira um pequeno envelope e o coloca na minha mão. Tiro uma foto de dentro dele e olho para o rosto sorridente de André Costa, um sujeito bem jovem, de pele lisa cor de caramelo e nenhum sinal de que já precisa se barbear. Ele tem uma pequena pinta logo acima do lado direito da boca. Seu cabelo é curto e preto, com cachos soltos ao redor da testa e em volta do contorno das orelhas, o que quase lhe faz parecer um jovem César sem a coroa de louros. Está usando uma camiseta preta com alguma coisa escrita em letras brancas, e parece estar sentado em um bar, de costas para o balcão, com um drinque na mão esquerda. Ele é o estereótipo do arroz de festa, com um sorrisão de dentes brancos como pérolas iluminado pelo barato do uísque, e os olhos um pouco embaçados, apenas em parte devido ao flash da câmera.

— Ele é... magrinho — comento.

— Setenta quilos — Victor diz. — Um e setenta e cinco. Vinte e quatro anos. Mas não o subestime. Se ele cruzar com você sozinha e souber que está atrás dele...

— Eu dou conta — afirmo. — Por que ele é o alvo?

Victor começa a balançar a cabeça, e sei que vai se recusar a me dar essa informação, mas o interrompo novamente.

— Você não faz mais parte da Ordem. Não precisa seguir as regras deles. Diga logo o que ele fez.

Victor suspira e vejo seus ombros relaxarem. Ele cede e diz:

— Antes de mais nada, ele não é o alvo, e não tenho nenhuma intenção de matá-lo. Precisamos de Costa para encontrar o alvo, Edgar Velazco, um chefe de quadrilha venezuelano responsável pela morte de 16 cidadãos americanos, britânicos e canadenses no ano passado. Eles foram capturados no Rio de Janeiro e em vários outros destinos turísticos importantes da América do Sul. Há uma recompensa de 3 milhões de dólares pela captura de Velazco, mas é quase impossível encontrá-lo.

— Seria fácil — intervém Fredrik — se ele saísse das favelas da Venezuela. Ele me lembra Bin Laden quando estava entocado nas montanhas, com um grande grupo de terroristas e uma família de cabras como companhia. Lá é fácil demais notar pessoas como nós, claramente estrangeiros.

— Velazco, de certa forma, é como Javier Ruiz — acrescenta Victor.

Ergo o olhar da foto de André Costa ao ouvir o nome de Javier. Nem tinha percebido que estava olhando para a foto o tempo todo.

— Parece que Velazco está um degrau acima da posição que Javier jamais alcançou na escala criminal — comento.

— Sim, ele está — confirma Victor. — As operações de Javier eram pequenas comparadas com as de Velazco. As de Velazco estão espalhadas por seis países, e ele é responsável pelo homicídio de 169 turistas até hoje, inclusive mulheres e crianças.

— E esse é só o número oficial — acrescenta Fredrik. — Não há como saber quantos realmente foram.

— E quem é o cliente? — pergunto, embora não espere que me forneçam esse tipo de informação tão facilmente.

— Anderson Winehardt, um sujeito rico de Boston — conta Victor. — O filho dele é um dos turistas assassinados.

Ainda chocada por ele ter revelado o nome do cliente tão depressa, demoro um momento para organizar minhas perguntas.

Eu me sento em um caixote próximo e deixo as pernas balançando na lateral.

— Por que você me disse o nome dele?

— Se você está neste serviço com a gente, precisa entrar de cabeça — explica Victor.

— Obrigada — digo, ainda incerta. Eu me pergunto se em algum momento Victor vai virar e dizer que só estava mexendo com a minha cabeça, como Fredrik fez antes.

Mas então penso na Ordem, em como ela é antiga e complexa, e me vejo com mais perguntas do que respostas.

— Não entendo. Como você ainda consegue fazer serviços, especialmente um como esse, com a Ordem na sua cola? Será que Vonnegut ou até Niklas não ficariam sabendo de um contrato para matar um cara ainda mais importante do que Javier?

— É possível que eles saibam — diz Victor. — Mas isso não revela que eu seja o contratado para o serviço. Existem 22 organizações particulares como a Ordem só nos Estados Unidos, além de um número desconhecido de agentes independentes como eu. Nem Vonnegut nem Niklas desconfiariam de que eu continuo a trabalhar assim, depois de sair da Ordem e sabendo que há uma recompensa pela minha captura.

— Você se esconde debaixo do nariz deles.

— De certa forma, sim — responde Victor.

— Mas como você arranja clientes? Tipo... Não era Vonnegut quem cuidava de tudo isso quando você trabalhava para a Ordem?

— Era — concorda Victor. — Mas fiz isso minha vida toda. Conheço pessoas. Já me encontrei com clientes que nem Vonnegut viu pessoalmente. É a vantagem de trabalhar em campo. Tenho tantos ou até mais contatos do que o próprio Vonnegut.

Solto um suspiro preocupado e balanço a cabeça.

— Bom, eu acho que ter tantos contatos, todos feitos de alguma forma por intermédio da Ordem, pode ser bastante perigoso. Você não tem medo de que alguém possa dar a pista para Vonnegut ou Niklas?

— Penso nisso todos os dias — responde Victor. — É por isso que preciso escolher meus clientes com cautela, ser muito cuidadoso, testando todos que cruzam o meu caminho. Sarai, você nunca sabe quem vai trair você até ser tarde demais.

Não alongo o assunto e deixo que os dois continuem a me instruir sobre a missão.

 

Passa das dez da noite e estou vestida como uma socialite rica e vulgar, usando um vestidinho curto marfim e cor-de-rosa com camadas rendadas que terminam 10 centímetros acima dos joelhos. O salto 15 da minha sandália plataforma cor-de-rosa me deixa com a altura de Victor. Meu cabelo comprido está solto sobre os ombros, afastado dos meus seios turbinados por um lindo sutiã de renda cor-de-rosa que aparece através do tecido do vestido. Depois de meia hora me maquiando, completo o look com alguns anéis e braceletes caros e duas borrifadas de perfume, uma na base do pescoço, outra espalhada nos pulsos. Minutos antes de Victor e eu sairmos do galpão, Fredrik me diz que estou fedendo. Não posso discordar. Nunca gostei muito de perfumes, mas acho que é apropriado para esta noite.

Victor para o carro em um pequeno estacionamento de um prédio escolar de tijolos vermelhos em frente ao CC’s Community Coffee House.

— Esquina da Bourbon com a St. Philip — diz ele, apontando para a rua, a fim de que eu possa observar os arredores. — Vou esperar aqui. Lembre, o bar é pequeno, escuro e costuma estar lotado. Pode ser difícil localizá-lo, mas não deixe parecer que você está procurando alguém, para não se arriscar...

— Vou conseguir — interrompo, antes que Victor comece mais um discurso sobre o que devo e o que não devo fazer e o tanto de cuidado que devo tomar. Eu me inclino sobre o banco e lhe dou um beijo suave na boca. — Tenha só um pouco de fé em mim.

Ele abre um sorriso fraco. Por um momento, enquanto Victor me encara, quero subir no colo dele, no banco do motorista, e beijá-lo apaixonadamente. Mas afasto a ideia, sabendo que tenho um trabalho a fazer.

Abro a porta do carro e saio para o breu, fechando-a atrás de mim e me debruçando na janela.

— Eu vou ficar bem — digo enquanto ajeito o pequeno microfone que estou usando, posicionado de maneira estratégica no meu sutiã, bem no meio dos seios. — Só prometa que não vai interferir, a não ser que eu peça diretamente a sua ajuda.

Victor assente, mas isso não me satisfaz.

— Victor? — digo, com tom imperioso.

Ele levanta as mãos.

— Tudo bem, prometo. Não vou interferir.

— Não estou fazendo isso para provar nada para você. Estou fazendo porque eu quero e porque sei que sou capaz. Se eu acabar provando alguma coisa no fim, acho que vai ser só um extra. Mas esse não é o meu objetivo principal.

Preciso que Victor entenda que não estou fazendo isso só para ficar com ele, mas porque é o que quero de verdade para a minha vida.

Ele assente de novo.

— Eu sei.

Eu o deixo no carro e vou para a calçada, permitindo que as luzes fracas dos prédios em volta guiem meus passos pela rua escura. Embora seja tarde, não estou sozinha, pois há dezenas de pessoas andando dos dois lados da rua. Eu me misturo a um grupo na calçada na frente da escola, que está se abanando com caveiras de papelão e ouvindo um guia falando sobre o prédio. Enfim, atravesso a rua e entro no bar minúsculo e lotado da esquina. Como em um passe de mágica, me desfaço da fachada da garota que eu era.