O Retorno de Izabel
Capítulo Vinte e Cinco
Sarai
Acordo devagar com um zumbido baixo e profundo, bem acima de mim, acompanhado por um som rápido e constante de vento. Minha visão está embaçada e enxergo apenas uma luz fraca e acinzentada, que de início se curva e se distorce ao atingir meus olhos. O ar parece muito úmido, as costas da minha camiseta e o espaço entre os meus seios e minhas axilas estão empapados a ponto de me fazerem sentir um calafrio terrível quando a brisa estranha me atinge. Minhas mãos estão amarradas atrás das costas, como amarrei as mãos de Izel quando ela veio atrás de mim depois que fugi no carro de Victor. Penso nela por um momento, no modo como ela olhou para mim naquele dia, como seu cabelo escuro e suado grudava no rosto. Imagino que eu deva estar parecida com ela agora, só que meu cabelo ainda está preso em um rabo de cavalo.
Logo percebo que meus tornozelos também estão amarrados.
Forço meus olhos a se abrirem completamente e luto para pôr minha visão em foco. Estou sentada em uma cadeira no meio de uma sala enorme, escura e empoeirada, em uma espécie de galpão velho.
Rio por dentro, pois vejo o rosto de André Costa na cabeça, como ele estava naquele galpão em Nova Orleans.
Tudo o que vai volta, suponho. E a vingança por todas as mortes que causei ou das quais participei está chegando mais cedo do que eu esperava.
A brisa estranha e o som de vento acima de mim, percebo agora, estão vindo de um grande ventilador industrial construído na parede, perto do teto alto. As paredes são feitas de concreto, e o teto de trilhos de metal que vão de uma ponta à outra é sustentado por pilastras compridas também de concreto. O lugar tem um cheiro forte de solvente, cola e outros produtos químicos que fazem mal aos pulmões.
Minha garganta está tão seca que dói. Meu primeiro impulso é pedir água, mas, assim como soltar a corda que prende meus pulsos e tornozelos, sei que nada que eu pedir será concedido.
Olho para baixo, sinto o peito dos pés ardendo e vejo que a pele dos dedos dos pés está dilacerada, indicando que em algum momento devo ter sido arrastada.
Passos ruidosos, como de solas duras, ecoam pelo espaço amplo quando Stephens se aproxima de mim.
Prendo um riso do ridículo daquela situação.
— Posso perguntar o que é tão engraçado? — indaga Stephens, com sua voz grave e também parecendo achar graça.
Sorrio em desafio quando ele para diante de mim, com as mãos nas costas.
— Pensei que você e aquele maluco de merda para quem você trabalha queriam me matar. — Eu rio. — Isto aqui é um pouco exagerado, não acha? — Abro um sorrisinho para ele.
Stephens dá um sorriso frio que imediatamente me lembra a expressão no rosto de Fredrik quando ele prendeu André Costa naquela cadeira de dentista. Em vez de responder, Stephens vira para a direita e vê outro homem se aproximar, trazendo uma cadeira. As pernas de madeira raspam um pouco no concreto quando ela é colocada no chão, ecoando pelo pequeno espaço que nos separa. Stephens se senta, ajeitando de maneira despreocupada seu belo terno preto, puxando a lapela e espanando uma poeira invisível da perna.
— É sério isso? — pergunto, balançando a cabeça. — Deixe eu adivinhar... Hamburg ainda quer seu showzinho. Não conseguiu comigo e com Victor no quarto dele na mansão. Não conseguiu com o guarda-costas dele no escritório do restaurante. A propósito, fiquei feliz em saber que aquele merda morreu. Era seu amigo? — Meu sorriso fica mais evidente.
Os olhos de Stephens sorriem. Ele cruza a perna e põe as mãos com delicadeza no colo. É muito enervante como ele parece calmo e imune às minhas palavras. Mesmo assim, não deixo que ele perceba que isso me incomoda.
— Acredite, Izabel, Sarai ou qualquer que seja o seu nome, se dependesse de mim, eu teria matado você naquela casa, em vez de trazê-la para cá.
— É claro, você é só o criadinho dele, ajoelhado aos pés de Hamburg, esperando que ele peça o próximo boquete.
O teto surge no meu campo de visão por um instante quando alguém puxa meu cabelo, meu pescoço tão forçado para trás que não consigo respirar. Outro homem está de pé atrás de mim, olhando nos meus olhos arregalados. Tento engolir, mas não consigo. Começo a engasgar e tossir, em vez disso.
— Pode soltar — ouço Stephens dizer.
O homem me solta e minha cabeça cai para a frente. O peso do meu corpo faz a cadeira tremer e balançar um pouco até se estabilizar. Fico aliviada por conseguir respirar de novo. Levanto a cabeça e fuzilo Stephens com o olhar enquanto ele continua sentado diante de mim, a apenas meio metro. Começo a correr os olhos pela sala procurando uma saída, tentando formular um plano que sei que jamais vai se materializar. Mesmo se eu tivesse alguma chance de sair desta sala, não sei como poderia me soltar das amarras. Meus pulsos estão tão presos que a circulação parece ter sido cortada. As fivelas nos meus tornozelos estão muito apertadas também, mas sinto que posso movê-los um pouquinho, esmagando-os nas pernas da cadeira. Mas não vou a lugar nenhum. A não ser para o inferno, talvez, e logo.
Não tenho medo de Stephens, não tenho medo do que ele vai fazer comigo. Não tenho medo de ser torturada. Só tenho medo do quanto vai durar.
— Por que você não acaba logo com isso? — sugiro, com rispidez, ódio e vingança evidentes na voz. — Não ligo para o que você vai fazer comigo, ou para o que Hamburg vai fazer, então ande logo.
— Ah, mas você não está aqui por causa de Hamburg. — Stephens abre um sorriso de gelar o sangue. — E, não, eu não quero que isto acabe. — Ele se inclina para a frente, aproximando seu queixo quadrado de mim. Sinto o cheiro de sua loção pós-barba. — Espero que você não fale ao menos por alguns dias, porque estou muito ansioso para passar esse tempo com você.
Engulo meu medo de saber o que essas palavras significam: que ele vai me torturar e por muito tempo. Tento amenizar a preocupação, torcendo para que ele não detecte o menor sinal de pavor no meu rosto.
— O que eu poderia saber que você precisasse me fazer revelar, afinal? — Rio, desafiando-o. — E que loção é essa? Fede como se você tivesse mergulhado de cabeça no meio das coxas de uma viciada em crack.
Os olhos de Stephens se movem para a pessoa atrás de mim, estreitando-se, e percebo que ele acaba de impedir o homem de puxar meu pescoço para trás de novo, ou talvez de me dar um tapa. Ele ignora meu insulto.
Stephens se reclina na cadeira de novo. E não diz nada. Odeio isso. Preferiria que ele andasse ao meu redor fazendo um monólogo canastrão a não dizer absolutamente nada. E acho que ele sabe quanto isso me incomoda. A expressão satisfeita dos seus olhos me confirma isso.
— Ok, então, se eu não estou aqui por causa de Hamburg, qual é o motivo?
Outros passos atrás de mim atravessam a sala. Tento olhar para trás, mas não consigo esticar muito o pescoço.
Enfim a figura dá a volta e consigo vê-la.
— Você está aqui por minha causa — afirma Niklas, jogando uma bituca de cigarro no chão e apagando-a com sua bota de couro preta.
Suspiro sem fazer ruído. Meu corpo todo fica rígido na cadeira. Procuro me concentrar na minha respiração, tentando recuperar o controle do meu corpo, mas por um longo tempo não sou nada mais do que uma casca imóvel.
— Niklas... — digo enfim, mas não consigo falar mais nada.
A raiva assoma dentro de mim, e minha necessidade de matar Stephens de repente é ofuscada pela necessidade de dizer a Niklas tudo o que está entalado na garganta.
Diferente de Stephens, Niklas não sorri nem sente a necessidade de me atormentar com ameaças. Sinto algo diferente nele, algo muito mais sombrio do que em Stephens, algo mais ameaçador do que as palavras podem descrever. Olhando aquele homem alto de cabelo castanho-claro arrepiado, os olhos azuis ferozes emoldurados por um rosto perfeitamente redondo, porém bonito, vejo alguém mais afeito à vingança do que eu jamais conseguiria ser.
E, por fim, fico apavorada.
Niklas chega mais perto até ficar bem na minha frente, sem se importar com a proximidade. Stephens ficou pelo menos meio metro longe de mim, como se temesse que eu pudesse cuspir nele, ou me soltar e agarrá-lo. Mas Niklas, não. Sinto que ele está me desafiando a me mexer. Ele quer que eu tente algum movimento.
Engulo em seco, empino o nariz de forma arrogante e tento continuar forte para encarar meu destino.
— Você sabe o que eu quero — diz Niklas, com uma voz tranquila e o mesmo sotaque alemão, ainda evidente na voz. — Ou precisamos discutir a questão em detalhes? — Ele inclina a cabeça para o lado.
Ele se parece tanto com Victor que me pergunto como podem ser tão diferentes por dentro.
— Você vai ter que explicar. É sobre o Victor? — Olho rapidamente para Stephens. — Esse merda estava na casa dele agora há pouco. Você já sabe onde encontrar o Victor. E não que isto me surpreenda muito, mas o que você está fazendo com eles?
Flagro Stephens olhando para Niklas, que, no entanto, não tira os olhos de mim. Ele se agacha na minha frente, no meio das minhas pernas abertas, e me olha com um rosto tão calmo e ameaçador que sinto um calafrio percorrendo a nuca. Dá para sentir o cheiro do couro de sua jaqueta preta e o fraco odor de fumaça de cigarro que persiste na camisa cinza-escura que ele usa por baixo.
— Estou procurando Victor há meses — começa Niklas, e ouço com atenção, mantendo os olhos grudados nele. — Ele sem dúvida contou a você que saiu da Ordem, que traiu a mim, a Vonnegut...
Arregalo os olhos e meu queixo cai em um ofegar.
— Traiu você? — interrompo, incrédula. — Não pode estar falando sério. Você traiu Victor! Foi você que...
Ele estende as mãos fortes e aperta com firmeza minha garganta, me fazendo engasgar e tossir. Eu me agito na cadeira, incapaz de erguer as mãos para tentar tirar as dele. Meus olhos viram para cima quando ele aperta mais forte.
Ele me solta.
Ofego e tento recuperar o fôlego, com os cantos dos olhos molhados por lágrimas de exaustão e dor. Estou apavorada, mas não o suficiente para chorar ou implorar pela minha vida. Prefiro morrer a implorar por qualquer coisa.
— Meu irmão me traiu muito antes de sair da Ordem — diz Niklas, com um pouco mais de emoção na voz do que antes: ressentimento. — Ele me traiu quando se voltou contra tudo o que acreditávamos e ajudou você. Ele me traiu quando mentiu para mim sobre ajudar você. Ele mentiu, Sarai, porque sabia que isso era errado. — Niklas fica na ponta dos pés, pondo-se a poucos centímetros do meu rosto. — Ele quase me matou por sua causa. E ia me matar, se você não tivesse impedido. Foi ele quem me traiu!
Minhas mãos começam a tremer nos braços da cadeira. Meu coração está no meu estômago, revirando-se, perdido e apavorado. Não posso negar, o que Niklas disse é verdade.
Não posso negar...
Ele se afasta alguns centímetros até eu não conseguir mais sentir seu hálito de pasta de dente, mas ainda está muito perto. Um quilômetro seria perto demais.
— Niklas — digo, em uma voz um pouco desesperada, só o suficiente para convencê-lo a me ouvir. — Victor só ia matar você porque era errado me matar. Você não entende? Ele teria feito isso por qualquer um. Não só por mim.
Um sorrisinho aparece em um canto de sua boca, e fico ao mesmo tempo intrigada e preocupada com o significado disso. Niklas fica de pé, vira de costas para mim e se aproxima de Stephens. E então se vira de novo.
— Você não conhece meu irmão tão bem quanto imagina. Não, ele não teria feito isso por qualquer um. Parece que meu irmão é humano, no fim das contas, com isso de ter se apaixonado por você e tudo o mais.
Balanço a cabeça e desvio o olhar.
— Por que eu estou aqui, Niklas? Diga logo o motivo de ter me trazido para cá. Não vou mais lhe dar o prazer da minha conversa.
Stephens se levanta da cadeira, parecendo um gigante perto de Niklas. Ele é bem alto, com ombros largos e cabeça grande e quadrada.
— Detesto admitir — diz Stephens —, mas concordo com essa puta. Vamos logo com isso. — Ele me olha com frieza. — Você está viva porque Niklas precisa de você primeiro, mas quando ele terminar eu vou meter uma bala nessa sua cabecinha linda, cumprindo meu contrato com Arthur Hamburg.
Olho para Niklas.
— Você precisa de mim para quê? — Há veneno na minha voz.
— Você vai me contar tudo o que sabe sobre o meu irmão e sua nova... organização. Quero saber os nomes dos associados, a localização de todos os abrigos e quem toma conta deles. — Noto dentes rangendo atrás das bochechas. — E quero saber até que ponto Fredrik Gustavsson está envolvido nos negócios de Victor.
Balanço a cabeça.
— Bom, antes de mais nada, quem é esse Fredrik Gustavsson? Segundo: eu não sei nada sobre a organização de Victor, seja lá o que isso significa. Ele me disse que saiu da Ordem, sim. E me disse que você o traiu ao continuar na Ordem e aceitar a missão de Vonnegut para matá-lo. Mas não me contou mais nada. Ele disse que era melhor eu não saber.
Os olhos de Niklas se abrandam com um sorriso tênue. Sem mover a cabeça, ele olha para o homem atrás de mim. De repente, a cadeira é puxada, meus pés saem do chão e sinto como se estivesse caindo para trás. Por instinto, lanço meu corpo para a frente quanto posso para evitar que minha cabeça bata no chão de concreto atrás de mim. Sou arrastada pela sala; para onde, acho que não quero saber.
Tudo para. Os pés dianteiros da cadeira voltam a atingir o chão, e então mais três homens, além daquele que me arrastou, seguram meus braços e pernas. Eles começam a me desamarrar, mas, assim que as amarras se soltam, eles me seguram com firmeza pelas mãos e pés. Por mais que lute para me desvencilhar, não consigo me mexer.
— ME SOLTEM! — Esperneio e contorço o corpo, tentando atingi-los com pontapés, arrancar meus braços de suas mãos. — NIKLAS! ME SOLTA!
Ele não responde. Fica ali, no azul-acinzentado do prédio empoeirado, ao lado de Stephens, enquanto meus braços são forçados acima da cabeça e amarrados de novo pelos pulsos com correias de couro penduradas do teto. O mesmo acontece com meus tornozelos. Ouço um rangido e o som da estrutura à qual estou amarrada se encaixando, antes que minhas mãos sejam esticadas bem acima de mim e meus pés descalços sejam erguidos do chão.
— PUTA QUE PARIU! EU VOU MATAR TODOS VOCÊS! ME SOLTEM! — Cerro os dentes com tanta força que sinto uma pontada de dor no maxilar inferior.
Niklas está de pé na minha frente de novo. Não o vi se mover, estava ocupada demais tentando atingir o homem mais próximo à minha esquerda.
— Por que você está trabalhando com eles? — grito na cara de Niklas. — Explica isso! Achei que você trabalhasse para Vonnegut!
Niklas junta as mãos atrás das costas.
— Se quer mesmo saber, tudo bem. Eu conto.
Ele anda de um lado para outro diante de mim e para no mesmo lugar. Mas não consigo deixar de notar Stephens no fundo, o brilho de uma lâmina prateada em sua mão. Ele continua pronto, segurando um punhal na altura do quadril com a expressão de quem está louco para me atacar.
— Quando eu descobri o que aconteceu em Los Angeles, sabia que, se você ainda estivesse viva, Hamburg ia querer garantir que isso não durasse muito tempo — começa Niklas. — Você escapou. Não havia sinal de você no restaurante, nem entre os corpos que foram encontrados no hotel. — Uma imagem do rosto de Eric e Dahlia atravessa minha mente como um soco no estômago. — Você escapou e eu sabia que devia ser porque Victor a ajudou. De repente, Hamburg, Stephens e eu tínhamos algo em comum. Eu queria encontrar o meu irmão. Eles queriam encontrar você. Eu sabia que vocês estariam juntos, então eis o denominador comum.
Meus pulsos erguidos pelas correias já estão doendo, o peso do meu corpo põe muita pressão sobre eles. Sinto meu rosto repuxando enquanto ele fala.
— Por que você não podia achar o Victor sozinho? — pergunto, tentando disfarçar meu desconforto. — Ou por que eles não podiam me achar sem a sua ajuda?
— Eles tinham informações sobre você que eu não tinha — explica Niklas. — Estavam vigiando você havia meses, desde a noite em que você e Victor saíram da mansão.
Rio alto, jogando a cabeça para trás.
— Isso é uma mentira de merda. Se for verdade, por que eles não me mataram antes?
Stephens se aproxima por trás de Niklas.
— Porque Victor Faust ameaçou Arthur Hamburg naquela noite — conta Stephens. — Ele não quis fazer nada que provocasse um novo ataque de Victor Faust. Eu vigiava você só por segurança. Sabia onde você morava, pois é fácil encontrar e seguir uma pessoa que sai de um hospital de Los Angeles depois de levar um tiro. E sabia onde você trabalhava. Com quem andava. Os lugares que frequentava. Pesquisei o passado de Dina Gregory e descobri tudo o que havia para saber sobre a família dela. Também não foi difícil localizá-la, mais tarde.
Meu nariz e minha boca se retorcem em um rosnado.
— Isso ainda não explica por que vocês se juntaram para nos encontrar — observo, com frieza, pensando mais no que ele estava dizendo sobre Dina. E a verdade é que não me importa muito por que eles estão trabalhando juntos. Só estou tentando enrolá-los, prolongando a conversa pelo maior tempo possível.
Stephens e Niklas trocam de lugar, e então Stephens se aproxima de mim. Ele segura a lâmina entre os dedos diante dos meus olhos, para que eu a veja e me sinta intimidada por ela.
Ele me encara de lado, estreitando os olhos.
— Você deve se lembrar do que Victor Faust fez com a mulher de Arthur Hamburg. Com certeza não acha que ele ia simplesmente esquecer isso. — Stephens se curva mais para perto do meu rosto, e seu hálito de vinho barato e charuto me deixa zonza de nojo. — Meu empregador quer ver Faust morto desde a noite em que ele matou a sra. Hamburg. Nós sabíamos onde você estava o tempo todo, mas não fazíamos ideia de onde Faust estava e não tínhamos motivos para crer que você soubesse. E com certeza não sabíamos que ele dava a mínima para você. Acho que ele não se importava, na verdade, caso contrário jamais teria deixado você sozinha daquele jeito. — Um sorriso provocador surge em seu rosto.
Quando ele se afasta, lanço a cabeça para a frente, esperando acertá-lo com os dentes, mas ele foge do meu alcance rápido demais. Fecho os dedos ao redor das correias acima de mim e ergo o corpo por um momento para aliviar a pressão nos meus pulsos. Caio de novo com violência, agitando a estrutura.
Niklas sorri.
Cuspo nele, mas não chego nem perto de atingi-lo.
— Eles não conseguem encontrar Victor sem mim — diz Niklas. — E eu não consigo encontrá-lo sem você. — Ele chega perto de mim de novo, e, embora saiba que conseguiria cuspir nele sem errar, não o faço. A expressão daqueles olhos azul-escuros me deixa submissa de medo. — Por isso entramos em um acordo. Eles me ajudam a encontrar você e eu mato meu irmão para eles.
— VAI SE FODER! — Jogo a cabeça para trás e lhe dou uma cabeçada na testa. A dor penetra minhas têmporas e meu maxilar, e minha visão fica embaçada por um momento.
Niklas se afasta de mim, claramente atordoado pelo golpe, mas não revida. Ele se vira para Stephens, e é este quem faz as honras. Começo a espernear quando ele se aproxima de mim com o punhal.
— Willem — chama Niklas, atrás dele, em um tom estranhamente despreocupado.
Stephens não se vira para olhá-lo, mas para.
— Eu preciso dela viva — afirma Niklas. — Lembre-se disso. Lembre-se do nosso acordo. Eu descubro o que preciso saber, e depois você pode fazer o que quiser com ela.
Balanço a cabeça e rio deles sem emitir som.
— Eu não vou contar nada para você — digo, com rispidez. — Você não vai conseguir me dobrar, seu merda. Você acha que consegue, mas está muito enganado. Você nem faz ideia. — Minha voz está calma, o que me surpreende.
— Bom, isso nós vamos ver — rebate Niklas.
Ele gira sobre os calcanhares e se afasta, o som de seus sapatos pisando no concreto ecoa pelo galpão e some quando ele desaparece do outro lado de uma porta de metal.
O sorriso de Stephens está maior, agora que Niklas foi embora.
E acabo de ficar com mais medo dele.