O Retorno de Izabel
Capítulo Vinte e um
Sarai
Saio de manhã cedo, usando o carro que Victor deixou na garagem para o caso de eu precisar em uma emergência. Ir até a academia de krav maga de Spencer e Jacquelyn em Santa Fé não é exatamente uma emergência, mas mesmo assim é importante para mim. E não posso mais ficar parada em casa desse jeito, quando poderia estar praticando.
Estou treinando com Spencer há meia hora. Odeio o fato de ele pegar leve comigo, mas acho que ao mesmo tempo me arrependeria de pensar assim caso ele decidisse me bater com aquele punho que parece um tronco de árvore.
— Acompanhe os movimentos dos ombros — orienta Spencer, movendo-se em círculos ao meu redor, nós dois meio curvados, com os braços em guarda alta à frente. — Soque. Um. Dois. Esquerda. Direita. — Ele demonstra enquanto fala, lançando seus punhos imensos no ar diante dele.
Faço exatamente o que ele manda, de novo e de novo, para aperfeiçoar a técnica. E então o golpeio com força, mas ele intercepta e se defende com facilidade de todas as minhas tentativas.
Ele me ataca e, por instinto, me esquivo e ando ao redor dele, longos fios do meu cabelo que escaparam do rabo de cavalo presos entre meus lábios e grudados no nariz. O suor escorre da minha nuca e desce pelas costas, grudando na pele o tecido fino da camiseta preta de um jeito nojento.
Spencer me ataca de novo e eu uso algo que já aprendi, golpeando-o no meio da garganta, um lugar vulnerável, o que o faz perder o equilíbrio no mesmo instante. Parto para cima dele com velocidade antes que ele consiga se recuperar e seguro sua nuca, curvando-o para baixo e enfiando o joelho em seu rosto, uma, duas, três vezes seguidas.
Ele cambaleia para trás, apertando a mão sobre o nariz. Se Spencer quisesse me machucar de verdade, não teria parado. Teria lutado contra a tontura e a dor e continuado a me bater até me matar.
— Cacete, garota — diz ele, misturando riso à voz grave, abafada pela mão. — Acho que você quebrou meu nariz.
Balanço a cabeça para ele, decepcionada por ele ter parado, embora tenha aprendido semanas atrás a aceitar que ele sempre vai parar.
— Não, acho que ele já era torto — rebato, brincando.
Ele ri de novo e tira a mão do rosto para apontar para mim com um ar ameaçador, com o olho direito mais fechado que o esquerdo.
Vou até a borda do tatame preto, onde minha toalha está jogada, e a uso para enxugar o suor do rosto. Puxando a gola da camiseta, tento me refrescar, contente por estar usando uma calça de malha preta aderente que reduz o suor.
Fredrik passa pela porta alta de vidro na entrada da academia. Não parece feliz.
Ele atravessa o tatame usando um jeans escuro, camiseta cinza bem justa e um All Star branco novinho em folha com cadarços vermelhos. Não consigo decidir o que é mais imperativo: explicar para ele o que estou fazendo ou perguntar se ele acordou de manhã achando que era outra pessoa.
— Como você me encontrou? — Jogo a toalha molhada no tatame, ao lado dos meus tênis pretos.
— Por que você saiu? — pergunta ele, por sua vez.
Reviro os olhos e balanço a cabeça, olhando para Spencer, não muito longe, que observa Fredrik e a mim com curiosidade, os enormes braços cruzados rigidamente sobre o peito maciço. A mulher dele, Jacquelyn, entra no prédio pela mesma porta por onde Fredrik acaba de entrar.
Eu me viro para Fredrik.
— Quantos anos você tem? Vinte? — pergunto, correndo os olhos pelas roupas dele.
Ele fica bem nelas, admito, mas duvido que um dia eu vá me acostumar a vê-lo usando qualquer coisa além de terno. É que não consigo imaginá-lo torturando um homem até a morte usando All Star. Afasto essa imagem estranha da minha mente.
— Respondendo perguntas com perguntas — observa Fredrik, um pouco irritado. — Eu encontrei você depois de ligar para Victor. Ele me falou que você poderia estar aqui.
— Ele ficou bravo? — Sinto meu rosto murchando. Espero que ele não esteja chateado.
Fredrik balança a cabeça.
— Não — diz ele, como se essa verdade o decepcionasse. — Ele disse que não tinha problema você vir aqui hoje. — Ele me encara com ar autoritário. — Mas você deveria ter pelo menos me avisado em vez de sair escondida. Quantos anos você tem? Quinze?
Dou um sorrisinho para ele.
— Está tudo bem aí? — pergunta Spencer, aproximando-se e olhando com frieza para Fredrik. Jacquelyn desaparece no escritório do outro lado da sala.
— Sim, está tudo bem. Spencer, este é Fredrik. Fredrik, este é Spencer, meu treinador.
Os olhos castanho-escuros de Spencer se voltam para mim em sua cabeça imóvel, depois passam a observar Fredrik.
— Ele é alguém que Victor conhece? Victor me deu ordens específicas para não deixar ninguém visitar você aqui, além dele. — Spencer estreita os olhos para Fredrik, e parece pronto para derrubá-lo a qualquer momento.
Fredrik, por outro lado, está sorrindo, com as mãos cruzadas à frente e uma postura elegante. Fredrik pode não ser capaz de derrotar Spencer na luta corpo a corpo, mas na verdade estou mais preocupada com Spencer, porque sei do que Fredrik é capaz.
Eu me posiciono entre os dois.
— Victor conhece Fredrik. Só que ele não esperava que Fredrik precisasse vir aqui.
Os dois se examinam em silêncio, e então Spencer assente e me diz:
— Tudo bem, mas se você precisar de alguma coisa...
— Eu sei. Obrigada. — Sorrio.
Spencer se afasta. Ele desaparece no escritório com Jacquelyn e alguns alunos entram no prédio, deixando as mochilas no chão, perto da parede oposta.
— Victor volta hoje à noite — informa Fredrik, abaixando a voz e olhando por cima do ombro depois.
Eu me afasto mais das pessoas que se preparam para treinar.
— Estou surpresa por você ter conseguido falar com ele. Tentei ligar uma vez, ontem, mas a ligação não completou.
Fredrik assente.
— Onde ele estava não tem sinal de celular a maior parte do tempo.
Olho por cima do ombro.
— Então ele... terminou o serviço? — pergunto, em um sussurro.
— Sim. Já fez o que precisava com Velazco. Eu vou cuidar do outro filho hoje à noite.
— Você vai matá-lo? — sussurro ainda mais baixo, olhando o tempo todo ao redor para me assegurar de que ninguém está perto o suficiente para ouvir nossa conversa tão criminosa.
Fredrik arregala os olhos só um pouco, para indicar que ele prefere não dizer nada mais comprometedor neste lugar. Ele me pega pelo braço, segurando com cuidado meu cotovelo, e me leva até a porta. Só quando estamos lá fora, na calçada, ele se sente seguro para conversar.
— Ele merece morrer — garante Fredrik, e tenho a sensação de que ele achou que eu poderia discordar disso.
Talvez eu discorde, de certa forma. Só agora me dou conta.
— Bom, o que... — Hesito, respirando fundo. — O que, exatamente, David fez para merecer morrer? O que André Costa fez? Eu sei que o pai deles, Velazco, fez muito mal a muita gente, mas só que... Sei lá, parece que você está castigando os dois com a mesma brutalidade de Velazco pelas coisas que só Velazco fez.
Fredrik balança a cabeça para mim, melancólico.
— Não. Os filhos de Velazco e os homens que trabalham para ele são quem põe a mão na massa de verdade. São eles que realizam os sequestros, que executam a maioria dos assassinatos e estupros. Cada um deles merece o que vai receber.
— Mas como você sabe que André Costa e David sequestraram, estupraram ou mataram alguém?
— Tenho minhas fontes — afirma Fredrik. — É só isso que você precisa saber.
— Achei que eu fazia parte desse esquema — respondo, um pouco ofendida.
— Não é você quem vai matar os caras. — Fredrik enfia as mãos nos bolsos do jeans. — Se um dia você precisar matar alguém, aí vai poder fazer quantas perguntas quiser.
Não gosto dessa resposta, mas aceito e deixo por isso mesmo. Suspiro, vou até a parede e me encosto nela, cruzando os braços e apoiando um pé na parede atrás de mim para manter o equilíbrio.
— Por falar em matar pessoas, sinto que Hamburg e Stephens estão cada vez mais distantes. Estou cansada de esperar. Quero matar os dois. Quero fazer isso de uma vez.
Fredrik se aproxima, apoiando as costas na parede também.
Olhamos para a rua, observando os carros passarem no sinal verde.
— O que você vai fazer quando eles estiverem mortos? Vai parar por aí? Acabar com eles, se vingar e então tocar a vida?
— Não — respondo, sem olhar para Fredrik, a voz distante porque minha mente está dispersa, pensando em tudo. — Não, eles não vão ser os últimos.
Percebo que isso é algo que ainda não contei nem para Victor. Não porque queira esconder dele, mas porque só agora eu mesma me dei conta. Surpresa por minha própria resposta, me perco em pensamentos, olhando para o cruzamento e para os carros que entram e saem de foco.
— Você não é muito diferente de mim. Sabe disso, não sabe? — pergunta Fredrik.
Enfim, inclino a cabeça para o lado e olho para ele. Observo sua silhueta alta e ameaçadora, seu semblante calmo, que sei ser só um disfarce para esconder muito bem o homem perigoso que na verdade habita aquele corpo, não muito abaixo da superfície. Vejo um homem que, embora eu não tenha a menor ideia de por que ou como se tornou o que é, além do que Seraphina fez, sei que passou por algo muito pior do que qualquer coisa que ela pudesse ter feito. Sinto isso. Percebo isso. E, de maneira muito perturbadora, sinto que de alguma forma posso me identificar.
— Pode ser — assumo, desviando o olhar. — Mas quando se trata da maneira como... a gente lida com as pessoas... você e eu não temos nada em comum.
— Ah, não sei ao certo se isso é verdade — retruca Fredrik, com um sorriso na voz.
Talvez o fato de eu não discutir com ele de imediato seja a prova de que ele pode ter razão.
Felizmente, Fredrik muda de assunto.
— Já tomou café da manhã?
— Não estou com muita fome.
Ele desencosta da parede, tirando as mãos dos bolsos e se colocando à minha frente. Acena com a cabeça e diz:
— Vamos, estou morrendo de fome. Tem uma padaria aqui na rua. Faz tempo que não como um doce decente.
Minha primeira reação é recusar o convite, mas então decido ir com ele. Inclino a cabeça para dentro da academia, com metade do corpo para fora, e grito para Spencer e Jacquelyn, do outro lado da sala, informando aonde vou e que volto mais tarde. Spencer, com aquele olhar desconfiado, discute comigo por um segundo, dizendo que eu não deveria perder mais nenhum treino. Ele tem razão, mas sei que me ver saindo da academia com Fredrik é o que o preocupa de verdade.
Momentos depois, entro no carro de Fredrik para irmos à padaria, a alguns quilômetros dali.
— Fredrik, por que você acha que Niklas traiu Victor daquele jeito?
Fredrik entra na rodovia.
— Não sei. Por inveja, talvez. Niklas sempre viveu à sombra de Victor dentro da Ordem. Desde que conheço os dois.
— Certo, mas... — Suspiro, olho de relance para ele e depois mantenho os olhos fixos na estrada. — Eu não entendo por que ele fez isso, tipo... — Encaro Fredrik, formulando o que eu quero dizer. — Niklas tentou me matar para proteger Victor. Ele atirou em mim. Acho que minha dificuldade é entender o que o levou a trair o irmão, depois de tudo o que ele fez para protegê-lo. Como alguém pode mudar tanto assim.
Viramos à direita no Paseo De Peralta, e logo vejo a grande placa oval vermelha da padaria quando nos aproximamos.
— Eu trabalhei com eles por muitos anos — conta Fredrik, observando o trânsito. — Niklas sempre foi meio desequilibrado. Faria qualquer coisa pelo irmão, mas sempre tive a impressão de que ele era uma bomba prestes a explodir. — Fredrik olha para mim e nossos olhares se cruzam por um breve momento. — Para ser sincero, acho que você teve muito a ver com o motivo para Niklas ter traído Victor.
Engulo em seco e olho para baixo por um momento, entrelaçando os dedos nervosamente. Também especulei muitas vezes sobre isso, parte de mim quase convencida de que tudo foi minha culpa, mas eu não apenas não queria acreditar nisso, como também me sentia idiota por me imaginar capaz de abrir tamanho abismo entre duas pessoas. Não sou tão importante assim. Não tenho todo esse poder, nem mesmo sobre Victor.
Com certeza não...
— Por que você acha isso? — pergunto, esperando que nenhuma resposta dele consiga me convencer. Que a resposta seja ridícula, até.
— Porque, de certa forma, Victor escolheu você em vez do irmão.
Todas as minhas expectativas desmoronam ao meu redor. A resposta de Fredrik não é nada ridícula, faz total sentido. E me odeio por isso.
— Victor decidiu sair da Ordem depois que conheceu você — explica Fredrik. — Ele podia ter algumas desavenças com Vonnegut antes, mas, no fim das contas, você foi o estopim. E, mesmo antes de Victor sair, ele estava arriscando a posição que tinha na Ordem e a própria vida para ajudar você. Niklas tentou evitar que Victor se destruísse. Matar você, pensava ele, era a única maneira de fazer isso, porque conversar com Victor a seu respeito não funcionava. Victor até mentiu para Niklas sobre você. — Fredrik me olha de novo. — Na visão de Niklas, Victor escolheu você em vez dele, substituiu o próprio irmão.
Chegamos ao estacionamento da padaria, mas, em vez de entrar, percebo que Fredrik está olhando pelo retrovisor, concentrado nele e na estrada à frente ao mesmo tempo.
Com a sensação clara de que ele está olhando para alguma coisa atrás de nós, faço menção de me virar.
— Não — pede ele depressa.
Tudo naquela palavra me faz estremecer até o âmago. Mas a expressão de Fredrik, seu semblante e o modo como ele continua a guiar de maneira despreocupada, com as mãos na parte de baixo do volante, parecem indicar que não há nada de errado.
— O que foi? — pergunto, incapaz de mascarar como ele a preocupação na voz.
— Estamos sendo seguidos.
Meu coração dá um salto e paro de respirar por um momento. Estou louca para olhar para trás, mas opto em vez disso por olhar pelo retrovisor do meu lado, sem fazer nenhum movimento drástico. Uma SUV preta, que parece um Navigator, está na nossa cola.