O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 27 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo Vinte e Três

 

Victor

 

Sarai se culpa por muitas coisas, e em alguns casos com razão. Foi tolice falar do treinamento com Spencer — mesmo que de maneira tão vaga — para Dina e Amelia. Mas ela tomou cuidado com as informações que decidiu divulgar. Foi cuidadosa, mas não o suficiente. Sarai é jovem. Inexperiente. No entanto, está aprendendo, e aprender do jeito mais difícil, no fim das contas, é de fato a única maneira.

— Você não vai aprender a nadar lendo um livro — digo a ela, na viagem de volta para Albuquerque. Desta vez, achei melhor pegarmos um carro para voltar, em vez de nos arriscarmos em aeroportos de novo. — É a melhor maneira, Sarai. Para aprender com os erros, você precisa errar. De verdade. Nenhum tempo de treinamento, nenhuma situação ensaiada vai ensinar melhor do que a vida real.

Sarai está sentada em silêncio no banco do passageiro, olhando pela janela. Ela não quer olhar para mim. Mal disse uma palavra desde que saímos da casa do meu contato perto de Phoenix, meia hora atrás. A lua está baixa no céu da madrugada, parecendo enorme sobre a extensão escura da paisagem do deserto.

— Isso não é desculpa — diz ela, enfim, embora com voz distante.

— É uma desculpa — rebato. — Aqui não é Hollywood, Sarai. Você não vai aprender as coisas que quer no tempo em que acha necessário. Você cometeu erros. Vai cometer muitos outros...

Ela se vira de repente para mim.

— Eu disse que não é desculpa. — Ela pronuncia as palavras entre os dentes, com os olhos arregalados e implacáveis. Implacáveis para si própria, não para mim. — Fui eu que me meti nisso. Eu escolhi esta vida. Falei para você que era o que eu queria. Implorei para você me ajudar. — Ela aponta com severidade o indicador para si mesma, hesita e cerra os dentes. — Eu escolhi esta vida. Não sou criança, Victor. Você não pode me dizer que o que fiz não tem problema, que tenho o direito de errar. Porque, nesta vida, erros causam mortes.

Eu a admiro mais agora do que antes. Porque ela entende. Ela se recusa a pegar a saída mais fácil, aceitando o salvo-conduto que lhe ofereço. Ela se recusa a receber a permissão de errar, embora eu saiba que vai errar mesmo assim, porque é humana. E Sarai vai aprender com os erros mais depressa do que alguém que opta por aceitar as desculpas. Ela é uma garota desafiadora. Ela é durona, impulsiva e destemida até demais. Mas é determinada e forte. Apesar da falta de disciplina e de ainda não ter assimilado completamente o raciocínio criminoso e assassino, que é crucial para se manter viva, sei que ela pode dar certo nesta vida.

— Você se arrepende? Você se arrepende da vida que escolheu?

— Não — diz ela, com voz neutra, honesta, com os olhos observando o asfalto negro da estrada ser engolido pelo capô do carro. — Não me arrependo. E não quero desistir.

Ela ergue as costas do banco e me encara de novo.

— Eu quero matar Hamburg e Stephens — afirma, com determinação. — E aí, depois disso... — Ela faz uma pausa, mas não tira o olhar determinado do meu. Só desvio os olhos pelo tempo suficiente de olhar a estrada. — Preciso contar isso para você. É uma coisa que contei para Fredrik. Depois que Hamburg e Stephens estiverem mortos, não quero que eles sejam os últimos.

Desde o momento em que Sarai me disse que queria matá-los pessoalmente, soube que eles seriam apenas os primeiros em uma longa série de futuros assassinatos. Dava para ver essa resolução nos olhos dela, a sede de vingança, a fome de sangue. A morte de Javier Ruiz por obra de Sarai foi o que selou o destino dela. O primeiro assassinato é sempre o estopim, o instante na vida no qual tudo muda, no qual o caráter da pessoa assume uma forma nova e mais sombria. Sei que ela pensa em matar Hamburg todo santo dia, desde a noite em que o conheceu. Sei porque lembro o rosto do meu segundo alvo, o modo como o cacei durante uma semana como um assassino em série caçaria sua próxima vítima. Eu só conseguia enxergar o rosto dele. Tudo o que eu queria era acabar com sua vida miserável do modo como acabei com a do meu primeiro alvo. Porque fui gerado e treinado para isso. Ansiava pelos elogios que Vonnegut me dirigiu depois da minha primeira missão bem-sucedida, aos 13 anos. Vê-lo sorrir com orgulho como sempre quis que meu pai sorrisse. Eu ansiava por saborear a admiração que os outros garotos da Ordem sentiam por mim. Assim, do meu primeiro assassinato em diante, dediquei a vida ao trabalho, abrindo mão do ressentimento por ter sido separado à força da minha mãe. Matei para agradar Vonnegut pela maior parte da minha vida, até que comecei a ver que ele tirava de mim mais do que me dava.

Agora, mato porque é a única coisa que sei fazer.

Sarai e eu matamos por motivos diferentes, somos movidos por necessidades muito distintas, mas, no fim das contas, somos ambos assassinos, e sei que isso nunca vai mudar. Não podemos recuar diante disso, e a maioria dos que matam mais de uma vez não quer.

Volto a olhar para a estrada.

— Isso incomoda você? — pergunta ela, sobre a verdade que acaba de revelar. — Que não quero que eles sejam os últimos?

— Não — respondo, baixinho. — Não me incomoda.

Noto que ela desvia o olhar e o silêncio preenche o carro, restando apenas o som dos pneus se movendo com velocidade na estrada.

— O que vai acontecer com Amelia? — pergunta ela.

— Fredrik vai levá-la para um abrigo ou matá-la.

Eu esperava que ela tomasse um susto e virasse a cabeça ao ouvir isso, mas Sarai nem se sobressalta. Ela assente, aceitando o fato de maneira tão casual quanto eu.

Sarai já está ficando mais dura. Já é inflexível quanto aos próprios erros e não deixa que eles a definam. E, para ter certeza de que não os repetirá, abandona as únicas coisas que lhe restam.

Sua humanidade.

Sua consciência.

 

Já é fim de tarde quando chegamos em casa. Achei que Sarai fosse dormir a maior parte do caminho, mas ela não pregou os olhos. Está acordada há mais de 24 horas, mas continua alerta, sem exibir nenhum sinal de cansaço. É a adrenalina. Estou bem familiarizado com os efeitos dessa substância sobre a mente. No momento, contudo, estou tão exausto pela viagem que me tornarei inútil se não dormir logo.

Verifico a casa com cuidado antes de considerá-la segura o bastante para relaxar, embora eu tenha conferido as câmeras pelo laptop antes de chegarmos. Não tenho nenhum motivo para crer que Stephens e seus homens saibam onde estamos, mas, como sempre, não posso abaixar a guarda. Ainda é um mistério como Stephens descobriu a existência de Amelia McKinney e Dina Gregory. Não importa o que pareça, sei que Fredrik não teve nada a ver com isso. No entanto, por mais que essa brecha me preocupe, agora ela não importa. Neste momento, sei que vou ter que abandonar meus planos de treinar Sarai por meses ou até anos, dando tempo para que ela talvez mudasse de ideia. Ou decidisse me deixar fazer o trabalho para ela. Sei agora que nada vai fazê-la desistir, e, por mais que eu tente convencê-la, ela nunca vai aceitar que eu faça o serviço.

Talvez eu devesse matá-los assim mesmo...

— Victor?

Sou arrancado de repente da minha reflexão.

Sarai está diante da porta de vidro, olhando para a paisagem infinita do deserto. O sol está se pondo no horizonte, iluminando as grossas faixas de nuvens com um cor-de-rosa profundo.

— Tem uma coisa que eu preciso lhe dizer.

Ando até ela devagar, curioso, impaciente e até preocupado com o que ela vai falar.

— O que é? — pergunto, chegando mais perto.

Ela não se vira para me encarar, em vez disso mantém os olhos no vidro alto e impecavelmente limpo. Seus braços estão cruzados, os dedos pousados nos bíceps.

— Tomei uma decisão — começa ela, com voz baixa e em tom de desculpas. Minhas entranhas estão começando a se revirar. — Só espero que você entenda.

Ela enfim me olha, virando só a cabeça. Seu cabelo castanho, longo e macio, desce em cascatas pelo meio das costas, deixando os ombros à mostra. Ela usou uma blusinha branca de tecido fino durante a viagem de volta. Adoro vê-la de branco. Faz com que pareça angelical, para mim. Um anjo que carrega a morte no bolso.

— Conte — peço, com voz relaxada, embora não esteja nada relaxado, no momento, e não saiba por quê. — Que decisão?

Seus olhos escuros se desviam dos meus, e esse pequeno gesto insignificante parece uma tragédia.

Ela umedece os lábios, mordendo seu suculento lábio inferior por um momento.

— Depois que Hamburg e Stephens estiverem mortos... Eu vou embora. — Ela se vira para me encarar. Meu coração parou de bater. — Vou levar Dina comigo para algum lugar e ficar por minha conta.

Mal consigo organizar meus pensamentos, muito menos formar uma frase mais complexa.

— ... Não entendo.

Sarai inclina a cabeça para um lado e descruza os braços, deixando-os pender soltos em toda a sua elegância. Ela se aproxima de mim. Quero tomá-la nos braços e beijá-la, mas não consigo.

Por que eu não consigo, porra?

— Victor, eu entendo agora que não consigo viver assim. Pelo menos não com você. E com Fredrik. Vocês dois são profissionais, e eu não posso manter essa ilusão de achar que algum dia serei capaz de acompanhar um de vocês, muito menos os dois. — Ela levanta uma das mãos como se eu fosse retrucar, e, embora eu não esteja pronto para falar, percebo que ela deve estar lendo a discordância crescente no meu rosto. — Olha, não estou fazendo isso para chamar atenção. Nem para você me dizer que estou errada. Eu sei que, por mais que eu queira ficar com você, isso não é possível. Se eu não acabar morrendo, vou acabar causando a sua morte. E sei que jamais conseguiria conviver com isso.

— Bom, eu realmente acho que você está errada — digo, com dificuldade, desejando poder explicar melhor.

— Não — rebate ela. — Não estou. E você sabe disso.

— Mas aonde você iria? O que iria fazer? — Meu tom de voz se torna urgente. — Sarai, você já tentou levar uma vida normal. Você tentou, e veja o que aconteceu.

Por que estou dizendo essas coisas? Eu deveria estar comemorando o fato de ela finalmente cair em si.

Ela dá um suspiro suave. Vejo seus ombros delicados se erguendo e baixando.

— Não faça isso — pede Sarai, balançando a cabeça. — Não finge que isso incomoda você, ou que quer que eu mude de ideia. Por favor. Você sabe que isso é o certo, tanto quanto eu sei agora. Se eu tivesse escutado você há mais tempo, se tivesse desistido dessa vingança idiota contra Hamburg e seguido com a minha vida, estaria em casa no Arizona com Dina e Dahlia, e até com Eric...

— Mas você não o amava.

Por que eu disse isso? Entre todas as coisas que eu poderia ter dito, todos os tópicos que poderia ter explorado, por que tinha que ser logo esse?

— Não, não amava. — Ela me olha nos olhos, pensativa. — Mas ele era normal. Era o que você queria para mim, mas na época fui egoísta demais para entender que você estava certo. Aquele tipo de vida era o certo.

Dou um passo para trás.

— Espere — digo, erguendo a mão por um momento e passando a ponta do dedo pela boca, olhando para baixo. — Então você está dizendo que quer uma vida normal agora?

— De jeito nenhum — responde ela, balançando a cabeça. — Eu jamais conseguiria voltar para aquilo. Só estou dizendo que, se eu não tivesse insistido no meu plano de matar Hamburg, as coisas não estariam tão ruins como estão agora.

Inclino a cabeça para o lado, com uma expressão confusa no rosto cada vez mais sério.

— Então o que você está dizendo, exatamente? O que vai fazer? Começar a matar gente por conta própria?

Isso é quase risível para mim, mas não deixo minha opinião transparecer. Sei que Sarai tentaria. Sei que ela mataria e talvez até conseguisse se safar algumas vezes, mas não para sempre. Não sem os recursos que tenho.

— Ainda não decidi — responde ela.

Sarai coloca a mão no puxador da porta de vidro e a desliza, deixando a brisa suave do fim de tarde entrar na casa. Ela sai para o pátio dos fundos.

Estou lá fora ao lado dela antes que minha mente alcance o movimento apressado das minhas pernas.

— Você não está falando coisa com coisa.

Sarai entra no alcance do sensor de movimento, e a luz inunda o pátio de concreto. Ela fica no limite do feixe brilhante, deixando só parte do rosto coberto pela penumbra do sol quase extinto.

— Eu tenho pendências no México — esclarece ela, e fico atordoado. — Hamburg não é a única pessoa que pensei em matar nos últimos oito meses, Victor. — Ela olha para a paisagem plana de novo. Só consigo olhar para ela. — Quando você e Fredrik me contaram que os irmãos de Javier estão no comando da operação, isso só inflamou meu ódio. Eles precisam morrer. Todos eles. Cada um daqueles babacas envolvidos. Todos os Andrés e Davids. — Ela me olha. — Ainda há muitas garotas com eles. Eu sei que havia 21 quando fugi escondida no seu carro. Dezenove agora, sem Lydia e Cordelia. Que tipo de pessoa eu seria se seguisse com a minha vida sabendo que lá no México há uma fortaleza onde um monte de garotas das quais aprendi a gostar estão sendo mantidas à força? Sendo estupradas, espancadas e mortas?

Faço menção de tocá-la, mas paro no último instante.

Não sei por que isso é tão difícil para mim... Por que há tanto conflito dentro de mim...

Sarai sai do alcance do sensor e a luz se apaga, imergindo-nos na meia-luz. Uma brisa leve balança o cabelo dela, fazendo-o dançar suavemente nas costas.

— Isso é tolice, Sarai — digo, enfim encontrando palavras que acho adequadas. — Mesmo com a minha ajuda, fazer uma coisa dessas levaria muito tempo. O que faz você crer que conseguiria sozinha? Como encontraria a fortaleza sem a minha ajuda, para começar?

— Eu consigo fazer isso sozinha — retruca ela, com calma, mas com uma determinação inabalável. — Quer dizer, posso pelo menos tentar, e isso é melhor do que não fazer nada. E você não me dá o crédito que mereço, Victor. Sou tão capaz de somar dois mais dois quanto você. Posso pegar o que aprendi, informações às quais tive acesso, e encontrar o caminho para lá. Não deve ser difícil encontrar Cordelia. Sei que ela mora na Califórnia. Sei que ela é filha de Guzmán e que você foi enviado para a fortaleza por ele para encontrá-la e matar Javier Ruiz por tê-la raptado. Até sem você sou capaz de descobrir a localização da fortaleza. Vou começar com Cordelia e Guzmán.

Minha garganta está seca. Meu estômago parece um bloco de concreto.

Ela tem razão, não lhe dei o crédito que merecia. Sarai é muito mais esperta do que eu imaginava. Sabia que ela era inteligente, mas com certeza fiquei surpreso.

Ela não sorri nem se gaba de tudo isso, só fica ali me olhando concentrada, com intensidade e o tipo de determinação que me assustam tanto. A fúria assassina e vingativa de Sarai é muito mais profunda do que eu pensava, mais profunda do que ela me revelou.

Como não percebi isso?

— E também tem os ricaços que Javier me levava para visitar, me exibindo para que quisessem comprar as outras garotas — conta ela, com desprezo. — Eu lembro o que você me contou. John Gerald Lansen, você disse que ele é o diretor-executivo da Balfour Enterprises. — Sarai assente, confirmando o nome no meu rosto. — É, eu me lembro de muita coisa. E passei muito tempo na casa da Dina antes de ir a Los Angeles para matar Hamburg, pesquisando esses homens. Lembrando aos poucos os nomes, os rostos, somando dois mais dois para descobrir quem eles são, onde moram, quanto dinheiro têm. Quando eu não estava pensando em você, estava mergulhada neles, aprendendo tudo o que podia sobre esses caras com o objetivo de matá-los aos poucos, um por um. — Ela fica na minha frente e me olha nos olhos. — E é isso o que pretendo fazer.

— Você não vai conseguir sem mim.

Estou ficando furioso. Como Sarai pode dizer essas coisas, tomar uma decisão dessas sem me envolver?

Minhas mãos estão tremendo.

Desvio o rosto, sabendo que, se olhar demais, vou me perder nas profundezas daqueles olhos verdes.

— Tolice — digo, pronto para dar a noite por encerrada e acabar com aquela conversa absurda. — Vou tomar banho e dormir. Pode vir comigo se quiser.

Quero que ela aceite.

Sinto que ela não vai aceitar...

— Eu não vou com você. Estou falando sério. Quando isto acabar, quando os dois estiverem mortos, eu vou embora.

Eu me viro para ela com as mãos fechadas, sentindo os punhos da minha camisa branca mais apertados nos meus pulsos.

— Você não vai a lugar nenhum. Não desse jeito. Não vou deixar. — Dou uma risada seca. — Meu Deus, Sarai, você tem mesmo muito a aprender. Estou chocado por você não perceber a idiotice que isso é!

— Idiotice? — repete ela, com desprezo. — Não... Tudo bem, talvez você tenha razão, mas o que é ainda mais idiota é achar que eu poderia ter algum tipo de vida com você. Eu me odeio pelo que fiz você passar, pelo que fiz Dina passar. E estou aqui, como uma órfã abandonada à sua porta, esperando que você cuide de mim, me alimente e me ensine como levar uma vida fora do convencional e não morrer fazendo isso. Você não pediu por isso, eu nunca deveria ter me jogado na sua vida como fiz.

De tanto tempo cerrando com força os dentes sem perceber, eles estão começando a parecer plástico. Meu peito sobe e desce com a respiração profunda, furiosa e até apavorada. Sinto que não pisco há minutos, meus olhos estão começando a secar com a brisa incessante que os atinge. Parece que meu coração quer sair do peito.

Nunca me senti assim antes... pelo menos não desde criança. Nunca estive tão furioso e... assustado.

— Sinto muito ter feito você passar por isso, Victor — repete Sarai, com calma e sinceridade. — Quero agradecer por tudo o que você fez para me ajudar. Duvido que qualquer coisa que eu possa fazer ou dizer retribuirá a sua ajuda. Eu sei. Mas o mínimo que posso fazer é deixar você em paz para viver a sua vida do jeito que você sabe. Você não precisa de alguém fazendo merda o tempo todo.

Ela me dá as costas e começa a se afastar.

— Sarai! — grito, e ela para no mesmo instante. Tento acalmar minha voz. — Espere... espere só um minuto.

Ela se vira para me olhar.

Estou tropeçando nas palavras que se formam na minha cabeça, tentando escolhê-las na minha confusão e juntá-las de forma adequada para que façam sentido. Mas é difícil. É difícil pra cacete!

— Eu... — Olho para os meus sapatos, para a cadeira de ferro batido do pátio, para seus cachos agitados sobre os ombros nus e macios. De novo olho para os meus sapatos. — Eu não quero que você vá embora.

— Mas eu preciso ir, Victor — insiste Sarai, com tanta ternura e compreensão na voz que quase racho ao meio. — Você sabe que preciso. É o melhor para nós dois.

— Não — digo com severidade, erguendo o queixo e me recompondo. Não vou aceitar isso. — Você vai ficar comigo. Eu posso manter você segura. Não vamos mais falar disso. Agora vamos para cama.

Estendo a mão para ela.

— Não, Victor. Sinto muito.

Pego a mão de Sarai e a puxo para perto de mim. Ela não resiste nem se encolhe, tampouco parece surpresa. Seguro seu rosto com as mãos e a admiro, seus olhos quase infantis, embora tão sagazes. Uma pequena loba se esconde dentro daquela corça. Minha loba.

— E-eu quero que você fique comigo.

— Por quê?

— Porque é isso que eu quero.

— Mas isso não é motivo, Victor.

— Não importa, Sarai, você precisa ficar comigo.

— Mas eu não vou ficar.

Eu a sacudo, ainda segurando seu rosto.

— VOCÊ NÃO PODE IR EMBORA! — Minha alma está tremendo. Não consigo suportar essas emoções.

Ela ainda não reage, mas vejo seus olhos começando a marejar.

Sarai balança a cabeça nas minhas mãos com delicadeza.

— Eu vou embora e não tem nada que você possa fazer para mudar isso.

— NÃO, SARAI! EU PRECISO DE VOCÊ NA MINHA VIDA!

De repente, eu a solto e olho para minhas palmas, abertas à frente, como se de alguma forma elas tivessem me traído. Meu peito se agita em um turbilhão, como se emoções que estavam adormecidas durante a vida toda tivessem enfim acordado e eu não soubesse mais o que fazer.

Querendo apenas me esconder no quarto para tentar entender o que acaba de acontecer comigo, giro sobre os calcanhares e sigo para a porta de vidro.

— Victor. — Eu a ouço chamar baixinho atrás de mim.

Paro. Não tenho forças para me virar.

Sinto que Sarai se aproxima por trás, sinto o calor de sua presença, o aroma doce da sua pele.

— Olhe para mim — pede ela, com a voz leve como a brisa.

Eu me viro devagar.

Ela se aproxima e segura meu rosto com as mãos, com mais delicadeza do que quando segurei o dela. Inclina a cabeça para um lado e depois para o outro, me encarando com os olhos cheios de lágrimas. Ela fica na ponta dos pés e me beija de leve na boca.

— Não reprima nada — diz ela, com uma urgência suave. — Diga tudo o que está sentindo agora. Neste exato momento. Por mais errado, constrangedor ou esquisito que pareça, diga assim mesmo. Por favor...

Não notei quando minhas mãos se ergueram e seguraram os pulsos dela, com a mesma delicadeza com que seus dedos tocam minhas bochechas. E me examino por dentro, tentando entender o que Sarai está fazendo comigo. O que ela fez comigo. Penso no que ela disse e, contrariando minha aparência tão dura, só quero lhe dar o que ela deseja.

— Eu... Sarai, eu nunca me senti assim antes. — Não consigo olhá-la nos olhos, mas ela me força a isso mesmo assim.

— Conta tudo. Eu preciso ouvir.

O desespero na voz dela é apaixonado e condiz com o que sinto por dentro. Examino o rosto dela. Seus olhos. Sua boca, os lábios tão suavemente entreabertos que fazem a boca parecer inocente e convidativa. As maçãs do seu rosto. Seu queixo. A linha elegante do seu pescoço.

Mas os olhos dela...

— Sarai, você é importante para mim — digo, desesperado, em um murmúrio urgente. — Você é mais importante para mim do que qualquer coisa ou qualquer pessoa. Ter você aqui comigo não é um fardo. Eu quero treinar você. Pelo tempo que for necessário. Quero acordar todo dia com você ao meu lado. Preciso de você na minha vida mais do que jamais precisei ou quis qualquer outra coisa.

Faço uma pausa e olho para baixo. E então me afasto dela. Suas mãos abandonam meu rosto.

Engulo em seco.

— Não vou forçar você a ficar comigo — obrigo-me a dizer, apesar do que sinto. — Mas saiba de uma coisa... Se você partir, você vai se tornar um fardo. Se você acha que ficando aqui vai foder a minha vida, nem faz ideia de como isso vai ser verdade se tentar ir embora e ficar sozinha. Porque eu vou passar cada momento de cada dia da minha vida tentando proteger você! — Meu coração está disparado. — Não vou conseguir dormir sabendo que você está por aí, tentando se encaixar em uma vida que não passa de uma sentença de morte para quem não tem um treinamento adequado! Sarai... ISSO VAI ME MATAR! SERÁ QUE VOCÊ NÃO ENTENDE? VOCÊ VAI ME MATAR SE DECIDIR IR EMBORA! — Estou tremendo todo, meu corpo todo abalado por dor, medo e angústia.

Em um segundo, Sarai está diante de mim novamente, a poucos centímetros do meu peito, seus dedos dançando no meu rosto como instantes atrás. Ela parece calma. Mas há algo mais em seus olhos, agora, algo que não estava lá há pouco. Alívio? Felicidade? Não consigo decifrar a emoção, quando tudo o que quero é puxá-la para perto de mim e abraçá-la até morrermos.

Ela passa a ponta do dedo indicador sob meu olho. Uma lágrima.

Uma lágrima?

Consumido pela confusão, não consigo falar nem me mexer. Olho primeiro para a mão dela e vejo o que resta da lágrima brilhando em seu dedo. Volto a fitar seus suaves olhos verdes, que estão sorrindo para mim, não com arrogância, mas com ternura.

Lobinha esperta...