O Retorno de Izabel
Capítulo Oito
Victor
Fredrik fecha a porta de correr feita de vidro.
— Ela não sabe nada sobre Niklas? — pergunta ele, como eu já previa.
— Não, mas vou ter que contar. Ela vai precisar ficar atenta o tempo todo. Agora mais do que nunca.
— Ela não pode ficar aqui por muito tempo — aconselha Fredrik, olhando, através do vidro, Sarai sentada no sofá lá fora e nos observando. — Você também não.
— Eu sei. Quando Niklas descobrir que ela participou do assassinato no restaurante de Hamburg, vai saber na mesma hora que também estou envolvido nisso. Ele não é bobo. Se Sarai está viva, Niklas vai saber que estou tentando ajudá-la.
— E como ele desconfia de que agora trabalho com você — acrescenta Fredrik —, ela corre tanto perigo perto de mim quanto de você.
— É verdade.
Fredrik balança a cabeça para mim, com um sorriso escondido no fundo dos olhos.
— Não entendo esse envolvimento. Respeito você como sempre, respeitei, Victor, mas nunca vou entender a necessidade de um homem amar uma mulher.
— Eu não estou apaixonado por ela. Ela só é importante para mim.
— Talvez não — retruca ele, indo para a cozinha. — Mas parece que o amor e o envolvimento trazem as mesmas consequências, meu amigo. — Sigo Fredrik até a cozinha iluminada e ele abre um armário. — Mas estou do seu lado. O que você precisar que eu faça para ajudar, é só pedir. — Ele aponta para mim perto do armário, agora com um pão na mão.
A empregada de Fredrik entra na cozinha, roliça e mais velha do que nós dois juntos, exatamente o tipo de mulher que jamais o atrairia, e foi por isso que ele a contratou. Ela lhe pergunta em espanhol se pode voltar para casa e ver a família mais cedo hoje. Fredrik responde em espanhol, concordando. Ela assente respeitosamente e passa por mim na sala. De soslaio, eu a observo pegar uma bolsa volumosa de couro marrom do chão, perto da espreguiçadeira, e colocá-la no ombro. Depois ela vai até a porta, fechando-a devagar ao sair.
Sarai está de pé nas sombras da sala quando desvio o olhar da porta. Nem ouvi a porta de vidro correr quando ela entrou, e pelo jeito Fredrik também não.
Ela vai para a cozinha iluminada, de braços cruzados, os dedos delicados segurando seus bíceps femininos, mas bem-definidos. Ela é linda demais, mesmo quando está desgrenhada assim.
— Quanto tempo vocês planejavam me deixar lá fora? — pergunta ela, com um traço de irritação na voz.
— Ninguém disse que você precisava ficar lá, gata — responde Fredrik.
Ele gosta dela, isso é óbvio para mim, e ele deve saber. Mas também sabe que vou matá-lo. Ainda assim, minha confiança em Fredrik é maior do que minha preocupação de que ele volte para o lado sombrio e a machuque. Fredrik Gustavsson é uma fera do tipo mais carnal, que adora mulheres e sangue, mas tem limites e critérios, além de levar a lealdade, o respeito e a amizade muito a sério. Sua lealdade a mim é, afinal, o motivo para ele trair a Ordem todos os dias me ajudando.
Sarai se aproxima de mim e me olha nos olhos, inclinando um pouco a cabeça para o lado. O cheiro de sua pele e o calor tênue que emana dela quase me fazem perder o controle. Tenho conseguido me conter bastante desde que a beijei no elevador. Pretendo continuar assim.
Ela não diz nada, mas continua me encarando como se esperasse alguma coisa. Fico confuso. Ela inclina a cabeça para o outro lado e seu olhar se suaviza, embora eu não saiba ao certo por quê. Parece maliciosa e cheia de expectativa.
Ouço Fredrik rir baixinho e a porta da geladeira se fechar, mas não tiro os olhos de Sarai.
— As coisas são tão mais fáceis do meu jeito. — Ouço-o dizer, com um sorriso na voz.
— Entre em contato comigo assim que tiver a informação sobre Niklas — peço, ainda olhando nos olhos de Sarai e ignorando o comentário dele. — E quando souber pelo seu contato se Dina Gregory está a salvo em Phoenix.
— Pode deixar — diz Fredrik, e então vai para a porta do corredor que leva ao seu quarto. Mas ele para e olha para nós. — Se você não se importa...
Enfim desvio o olhar de Sarai e dou atenção total a Fredrik.
— Não se preocupe — interrompo —, eu sei onde fica o quarto de hóspedes.
Ele enfia na boca um sanduíche que mal notei que ele preparava e morde, rasgando um pedaço de pão. Eu o vejo piscando para Sarai antes de desaparecer da sala. Foi algo inofensivo, uma menção ao que ele acha que pode acontecer entre nós quando sair, e não uma tentativa de flerte.
— Que informação sobre Niklas? — pergunta Sarai, seus traços suaves agora encobertos pela preocupação.
Estendo a mão e passo os dedos por algumas mechas do cabelo dela.
— Preciso contar muita coisa para você — anuncio, tirando a mão antes de perder o controle e acabar tocando nela mais do que pretendo. — Sei que você deve estar exausta. Por que não toma um banho e fica à vontade primeiro? Depois conversamos.
Um sorrisinho suave emerge em seus lábios, mas logo desaparece em seu rosto enrubescido.
— Você quer dizer que eu estou nojenta? — pergunta ela, tímida. — Esse é o seu jeito de me dizer que preciso lavar meu corpo nojento?
— Na verdade, sim — admito.
Por um momento ela faz uma careta e parece ofendida, mas então só balança a cabeça e dá risada. Admiro isso em Sarai. Admiro muita coisa nela.
— Tudo bem. — Sua expressão brincalhona fica séria de novo. — Mas você precisa me contar tudo, Victor. E eu sei que você deve ter muito para contar, mas saiba que também preciso dizer muita coisa para você.
Eu já esperava isso. E, antes que ela fique na ponta dos pés, incline o corpo na minha direção e me beije, já sei que, quando ela sair do banho, vou precisar decidir o que vamos fazer. Vou precisar tomar algumas decisões importantes, que nos afetarão.
Porque de uma coisa eu tenho certeza: Sarai não pode voltar para casa.