O Retorno de Izabel
Capítulo Vinte e Dois
Sarai
Minhas mãos estão apertadas nos cantos do banco de couro vermelho onde estou sentada. Não tiro os olhos do espelho retrovisor nem paro de pensar na possibilidade de ser quem estou pensando e de que vai acontecer o que imagino. Não consigo ver o passageiro nem o motorista através dos vidros escuros da SUV.
— Tem certeza? — pergunto.
Fredrik liga a seta e nós viramos à esquerda na esquina seguinte. Ele mantém o carro abaixo do limite de velocidade e parece evitar que os ocupantes do veículo de trás saibam que ele está ciente da presença deles. Só espero que ele esteja errado.
— Eles estão nos seguindo desde que saímos da academia — explica Fredrik, e meu coração afunda. — Estavam nos espionando, estacionados no terreno do outro lado da rua.
— Então foi por isso que você decidiu tomar café.
Fredrik assente e vira à direita no semáforo seguinte.
Estou me torturando por dentro. Eu me sinto insignificante e inexperiente por não ter sido esperta o bastante para notar essas coisas. Não observei direito ao meu redor para saber que estávamos sendo vigiados o tempo todo. Mas este não é o lugar nem o momento de ficar frustrada comigo mesma. Só espero que haja tempo para isso mais tarde.
— O que a gente vai fazer? — pergunto, nervosa.
Fredrik afunda o pé no acelerador, e de repente estamos a 80 quilômetros por hora em uma via de 55, seguindo direto para a rampa de acesso à rodovia. A SUV está bem próxima e continua no nosso encalço. Agarro o cinto de segurança, aperto-o com mais força e volto a me segurar no banco.
— Vamos despistar esses caras — responde Fredrik, aumentando a velocidade de 80 para 110 quilômetros por hora em poucos segundos ao pegarmos a estrada.
Estou me segurando, desesperada, com o coração na garganta, enquanto nosso carro costura loucamente, entra e sai do tráfego, corta outros veículos e até os ultrapassa pelo acostamento. Mas a SUV continua na nossa cola, abrindo espaço pelo mesmo caminho que fazemos. Buzinas ecoam barulhentas, furiosas conosco ao passarmos a toda a velocidade.
— SE SEGURA! — grita Fredrik.
No mesmo segundo, Fredrik faz uma curva brusca, passando da faixa do meio para a da direita, a poucos centímetros do para-choque da frente de um carrinho branco, e sou jogada contra a janela lateral. Ouço os pneus cantando, os nossos e os do carro branco, e então sou arremessada para o outro lado do assento quando ele endireita o veículo com um golpe do volante.
Desajeitada, me viro no banco da frente, com o cinto de segurança ainda preso ao corpo e tentando me segurar no lugar, vendo a SUV surgir de trás de um carro azul. O carro patina para a esquerda, tentando sair do caminho, e bate no carro branco que acabamos de ultrapassar. Os dois automóveis giram com violência no meio da rodovia, e o branco para com uma freada brusca na faixa da esquerda, quase batendo na barreira de concreto que separa uma pista da rodovia da outra. Os pneus soltam fumaça. O carro azul capota de lado. Solto um gemido e levo as mãos à boca.
A rodovia fica toda parada, do ponto do acidente para trás, todos menos nós e a SUV, que nos segue de perto. À frente, as pessoas, vendo o que está acontecendo, já abrem caminho para passarmos. Seguimos como foguetes a 140 quilômetros por hora, obrigando uma fila de carros a parar no acostamento.
Quanto mais nos afastamos do acidente, mais numerosos são os carros à nossa frente, e voltamos à mesma situação anterior, costurando em meio aos veículos, com buzinas tocando e meu corpo batendo na porta e na janela a cada virada mais brusca.
Fredrik passa depressa para a faixa da esquerda, a faixa mais rápida.
— A gente precisa sair da rodovia!
— Precisamos despistar os caras antes!
— Como é que a gente vai fazer isso, cacete? — pergunto, olhando para trás de novo. Eles ainda estão perto de nós, os para-choques a centímetros de distância.
Fredrik não responde. Ele está vigiando tudo, mantendo os olhos na estrada em frente, nos carros ao redor e na SUV atrás. Depois de alguns minutos, começo a achar que ele está montando um plano na cabeça.
De repente, no último segundo, Fredrik sai da faixa rápida, atravessa três faixas e pega a saída da rodovia a 110 quilômetros por hora, passando a centímetros da parede de concreto e dos barris laranja que separam a saída da rodovia. Foi tudo tão rápido que a SUV não teve tempo de prever o que Fredrik ia fazer e pegar a saída atrás de nós. Bato a cabeça na janela lateral. Há um semáforo no fim da estrada, mas Fredrik está indo rápido demais para parar e passa com tudo. Felizmente, essa estrada não parece muito movimentada, e nenhum carro bate no nosso.
— Que porra foi essa? — grito com a mão no peito, tentando controlar meus batimentos cardíacos.
Ele não responde até estarmos bem longe da saída, depois de cruzar várias ruas. Ambos continuamos olhando em todas as direções, procurando a SUV.
— Se eu ficasse na pista da direita — explica ele —, o cara ia entender que eu queria pegar a primeira saída.
Por mais que aquilo quase tenha me matado de medo, não posso negar que o plano louco de Fredrik funcionou.
— Você podia ter matado a gente!
— Até parece que isso é novidade para você — provoca ele.
Eu rio alto.
Fredrik retorna para a rodovia na direção oposta, de volta para a academia de krav maga. Contudo, antes de chegarmos perto do destino, ele vira em uma rua que não conheço.
— Aonde a gente está indo?
— De volta para Albuquerque — responde ele. — Pelo caminho mais longo. Só por segurança.
Seis horas de vigilância obstinada pelas janelas da casa, e o carro de Victor enfim estaciona na entrada da garagem. Fredrik e eu ficamos de pé assim que ouvimos as pedrinhas estalando e se partindo debaixo dos pneus.
Victor deixa a chave na bancada da cozinha primeiro e vem para a sala, pondo a maleta na mesinha de centro.
— Algum sinal deles? — pergunta ele a Fredrik antes de falar qualquer outra coisa.
Ele me olha, e não consigo decifrar sua expressão, o que, como aprendi, em geral significa que ele tem coisas demais na cabeça e está tentando se manter concentrado.
Antes que Fredrik responda, Victor me pergunta:
— Você está bem? Está ferida?
— Não, não estou ferida. — Desvio o olhar para a parede quando ouço Fredrik falando.
— Não fui seguido até aqui. Garanti que isso não acontecesse. Fiz um desvio de uma hora do caminho só para ter certeza. E não tem nenhum sinal de que alguém esteve aqui, só alguns carros na estrada, mas nada suspeito.
Victor dá a volta na mesinha de centro, senta-se nela do jeito que eu mesma muitas vezes faço e me encara quando me sento no meio do sofá, também olhando para ele. Parece preocupado. E furioso. Não comigo, mas com quem estava naquela SUV, acho.
— Antes que você diga qualquer coisa...
— Como falei para Fredrik — interrompe ele, com calma, pondo as mãos entre as coxas e apoiando os cotovelos nas pernas —, eu não esperava que você ficasse aqui, enfurnada nesta casa durante toda a minha ausência. Não peça desculpas por ter saído.
Surpresa com essa tolerância, fico sem palavras por um momento.
— Eu não iria para qualquer outro lugar — digo, enfim, ainda sentindo que fiz besteira de novo. — Achei que, como eu já tinha passado tanto tempo lá treinando com Spencer, não faria diferença se eu decidisse ir hoje ou esperasse até você voltar.
— E você estava certa — afirma Victor. Ele coloca as mãos nos meus joelhos. — A questão não é você ter saído. — Ele olha para Fredrik, que se senta no lugar vazio. — A gente precisa descobrir como eles sabiam onde você estava.
Vejo algo no rosto de Victor que Fredrik não consegue ver, algo que me deixa tensa. Victor tem o ar de um homem que desconfia de alguém, que desconfia de Fredrik. Olho para um e para outro, tentando entender os pensamentos de Victor. Será que estamos revivendo o que aconteceu com Samantha no Texas? Será que Victor depositou muito da pouca confiança que tem na pessoa errada mais uma vez? Esse era o teste, então? Deixar Fredrik sozinho comigo?
Cerro os punhos e minhas unhas afundam na pele das mãos. Victor me usou para testar a lealdade de Fredrik?
— Já andei pensando nisso — diz Fredrik. — E espero estar errado, mas tenho a sensação de que sei como encontraram Sarai.
Era algo que Fredrik e eu já havíamos discutido antes de Victor chegar. Mas agora... agora que estou vendo a desconfiança nos olhos de Victor, não consigo deixar de me perguntar se nesse tempo todo, enquanto esperávamos a volta dele, Fredrik não estava apenas enchendo minha cabeça de mentiras para nos despistar da possibilidade de ter sido ele.
Agora não confio em nenhum dos dois. Eu me sinto uma prisioneira de novo, presa entre homens perigosos dos quais sei que não posso fugir.
E meu coração dói.
Victor tira as mãos dos meus joelhos e dirige sua atenção para Fredrik. Continuo calma e imóvel, fazendo o que sei fazer melhor: fingindo.
— Acho que a gente deveria ir para Phoenix quanto antes — continua Fredrik. — Eu tentei ligar para Amelia, imaginando que talvez ela soubesse de alguma coisa, mas ela não atendeu nem retornou minhas ligações. Não é do feitio dela.
Victor se levanta da mesinha de centro e se senta ao meu lado, curvando-se para abrir sua maleta. Ele tira o laptop e passa o dedo em um sensor para destravá-lo.
— O que você está fazendo? — pergunto.
— Verificando meus equipamentos de vigilância na casa de Amelia — explica ele, abrindo algum programa na área de trabalho. — Não faço isso desde que tiramos a sra. Gregory de lá.
Alguns minutos depois de vasculhar vários vídeos (um deles claramente relevante, no qual homens entram na casa de Amelia e a capturam), ele balança a cabeça e fecha o laptop.
— O que foi? — pergunta Fredrik.
Victor guarda o laptop na maleta.
— Eles estiveram lá. O vídeo é cortado logo depois. Devem ter achado um dos dispositivos que eu plantei na noite em que levei Sarai para ver a sra. Gregory.
Fico em pânico pensando no que Stephens pode ter feito com Amelia, ou mais ainda com o que ela pode ter contado a eles.
— Fredrik tem razão — digo. — A gente precisa ir para Phoenix.
— Então vamos. — Ele estende a mão para mim.
Com relutância, seguro sua mão e fico de pé com ele. O que quero, na verdade, é lhe dar um belo tapa na cara.
— Victor? — chamo quando ele me dá as costas, na direção da porta.
Ele para e se vira a fim de me olhar.
— Nada disso estaria acontecendo se Hamburg e Stephens já estivessem mortos.
Phoenix, Arizona – 1h
Pegamos um voo para Phoenix e um táxi até a casa de Amelia. Ao que tudo indica, uma viagem de seis horas de carro estava fora de cogitação, pois Victor quer respostas já, sem perder mais tempo. Temo que Amelia esteja morta, uma vez que não respondeu às ligações de Fredrik. Acho que ele pensa a mesma coisa. Quando ainda estávamos em Albuquerque, cada vez que ligava e ela não atendia, Fredrik ficava mais frustrado. Preocupado, até. Eu achava aquilo estranho vindo de alguém como ele, que parece usar as mulheres para sexo e não tem a capacidade de gostar de nenhuma delas. Mas agora não consigo deixar de acreditar que aquilo era tudo teatro, que ele só estava fingindo se preocupar com ela, quando, na verdade, ele mesmo deve ter matado Amelia.
Em todo caso, fico feliz por termos tirado Dina da casa antes de isso acontecer.
O táxi nos deixa a uma quadra da casa de Amelia, e andamos o resto do caminho sob o manto da escuridão. A luz da varanda está acesa, revelando o revestimento branco e sujo da lateral da casinha e os degraus de concreto rachado que levam até a porta. Outra luz fraca brilha na janela da sala de estar, onde sombras se movem em um espaço pequeno e dão a impressão de que a luz vem da TV ligada. Quando subimos os degraus de concreto e ficamos diante da porta, Victor gira a lâmpada quente acima da nossa cabeça, apagando a luz.
Fredrik vai até a janela e olha para dentro.
Victor fica na minha frente e tenta me empurrar discretamente para trás dele com o intuito de me proteger, mas afasto sua mão. Ele vira de lado e olha meu rosto, zangado. Cerro os dentes e balanço a cabeça, revelando que estou furiosa e que é melhor ele não me tocar.
Ele desvia o olhar, mantendo a atenção em Fredrik.
— Não estou vendo Amelia — sussurra Fredrik. — Nenhum sinal de luta.
Victor saca sua 9mm das costas, põe a mão na maçaneta e tenta virá-la. Está trancada. Fico nervosa quando Fredrik puxa a arma também. Victor fica para trás e acena para que Fredrik entre na frente dele. Parece que ele quer que Fredrik bata na porta, mas acho que a ideia é ficar de olho nele.
Fredrik bate três vezes e nós esperamos. Victor não olha mais para mim, nem eu esperava que fizesse isso, em uma hora dessas. Também fico mais interessada nos gestos de Fredrik, esperando que ele nos ataque a qualquer momento.
Há movimento lá dentro. A cortina da janela perto da porta se mexe, e então ouvimos o som de um corpo pressionando a própria porta enquanto quem está lá dentro espia pelo olho mágico. Desta vez, Victor me força a ficar atrás dele, e não discuto, mais preocupada com quem está lá dentro do que com meu ressentimento em relação a ele.
Ouço a correntinha deslizando, depois o clique de um trinco, e então o som da maçaneta virando devagar. Quando a porta se move, abre apenas alguns centímetros, e um rosto bonito olha pela fresta, com o longo cabelo louro desgrenhado ao redor dos olhos inchados.
— Fredrik? — chama Amelia, em voz baixa e ríspida. — Você não deveria estar aqui. — Vejo que ela olha para todos os lados, nervosa, espiando a rua atrás de nós.
Victor fica na frente de Fredrik e empurra a porta com a palma da mão. O cheiro de um pot-pourri de canela e café queimado invade minhas narinas. Amelia dá um passo para trás, enfiando as mãos entre os braços cruzados, cobertos por um roupão de banho azul que vai até pouco acima dos tornozelos. O lado esquerdo do rosto tem muitos hematomas e há sangue no branco do seu olho. Seu lábio parece estar se recuperando de um corte.
Victor me empurra para dentro da casa com ele e Fredrik nos segue, fechando e trancando a porta em seguida. Antes que qualquer um fale, Victor e Fredrik vasculham cada cômodo da casa, de armas em punho, certificando-se de que ninguém está à espreita.
Eles voltam para a sala ao mesmo tempo, enfiando as armas na cintura.
— O que aconteceu com você? — pergunta Fredrik a Amelia. — Por que não atende ao telefone?
Ela está tiritando, os braços tremem dentro do roupão.
Victor olha para tudo, menos para ela. Ele começa a vasculhar a sala, mas sei que também está prestando atenção em cada palavra que ela diz.
— Não atendi porque sabia que era você — explica ela para Fredrik. — E você não deixou nenhum recado. Nunca deixa recado. Eles grampearam meu telefone, Fredrik. Eu não podia correr o risco de atender.
Fredrik segura Amelia com delicadeza pelo cotovelo e vai com ela até o sofá. Ele se senta ao lado dela.
— Me conte o que aconteceu — insiste ele.
Eu me sento na borda da poltrona do canto, com as costas encurvadas, as mãos cruzadas entre as pernas.
Amelia olha para Victor, que está passando os dedos por uma estante, procurando alguma coisa.
— Eles acharam todas aquelas coisas — anuncia ela. — Quando entraram aqui, três homens reviraram a porra da minha casa, colocaram tudo de cabeça para baixo, procurando aqueles aparelhos, ou sei lá o quê, escondidos pela casa toda.
Ele volta a vasculhar, mas se mantém no nosso campo de visão. No meu campo de visão.
Amelia se volta para Fredrik. Ela está sentada com as mãos entre os joelhos, a perna direita inquieta, batendo o pé no tapete cor de ferrugem.
— Eles vieram três dias depois que vocês foram embora — continua ela. — Me amarraram em uma cadeira da cozinha. Me espancaram. Ameaçaram minha família...
— O que você contou para eles? — interrompe Victor, parado na frente de Amelia.
— Eu não tinha nada para contar — diz ela, o medo cada vez mais evidente em sua voz trêmula. — Eles queriam saber onde ela estava. — Amelia olha para mim. Agora que estamos na sala com a luz da TV, noto como sua pele está amarela ao redor do olho. — Mas eu não sabia. Não podia contar o que eu não sabia. Merda! Eles também queriam saber onde Dina estava. Isso eu também não sabia. Eles não acreditaram, por isso me espancaram mais! — Ela respira fundo e tenta se controlar, talvez para não chorar. Parece prestes a cair no choro.
— Mas você deve ter contado alguma coisa para eles — sugere Fredrik, ao lado dela. Sua voz tem urgência, mas não é totalmente acusadora. — Pense, Amelia.
Amelia olha para as mãos trêmulas e afasta o cabelo louro desalinhado do rosto.
— E-eu não aguentava mais — conta ela, envergonhada, sem conseguir olhar Fredrik nos olhos. Ela olha para o tapete. — Achei que eles fossem me matar, me espancar até a morte. E-eu só contei que Dina a chamava de Sarai e que me falava dela, às vezes. — Amelia encara Fredrik, preocupada, esfregando os cantos dos olhos vermelhos. — Mas não era nada que eu achasse que eles poderiam usar.
— O que você contou? — pergunta Victor, com severidade.
Ela olha para ele.
— E-eles pediram informações recentes, qualquer coisa que Dina tenha me dito sobre Sarai, ou Izabel, ou sei lá qual o nome dela. Queriam alguma coisa atual. Eu pensei muito nas conversas que Dina e eu tivemos sobre ela, e o que me lembrei foi de quando vocês estiveram aqui. Ela falou de treinar. Maga ou qualquer coisa assim.
Pisco e balanço a cabeça. Lembro que contei a Dina que eu estava aprendendo krav maga.
Dou um salto da poltrona.
— Porra, eu não aguento mais! — grito. — Victor, desculpa. E-eu só faço merda. Você tinha razão. Essa vida não é para mim. Eu queria muito que fosse, mas não dá mais. Todo mundo vai morrer por minha causa!
Por um momento, esqueci que ele parece ter me usado para testar a lealdade de Fredrik. Talvez não tenha esquecido, mas deixei isso de lado por enquanto, porque minhas atitudes idiotas são mais imperdoáveis do que o comportamento de Victor.
Victor segura minha mão e faz com que eu me sente de novo.
— Você contou para Dina Gregory onde estava treinando? — pergunta ele, com voz calma.
— Não — respondo, olhando para ele. — Tomei o cuidado de não dar informações detalhadas. Nem contei onde eu estava morando. Nós três estávamos só conversando na cozinha. Dina queria saber o que eu andava fazendo. Foi uma conversa casual.
Fredrik olha para Victor.
— Stephens deve ter posto homens para vigiar todas as academias de krav maga daqui até a Flórida desde aquele dia. Isso explicaria por que eles levaram quase três semanas para descobrir em qual delas Sarai estava treinando.
— Espere aí... — intervém Amelia, como se tivesse acabado de pensar em algo horrível. — Dina está bem? Por favor, me digam que ela está bem. Eu queria minha casa de volta só para mim, mas gostava muito daquela mulher. Ela era gentil comigo.
— Dina Gregory está ótima — responde Victor, e tanto Amelia quanto eu ficamos aliviadas.
Amelia solta um suspiro de gratidão, mas seu corpo volta a ficar tenso e ela encara Fredrik com desespero no olhar, esticando o pescoço na direção dele.
— Ma-mas vocês não podem ficar aqui. Precisam ir embora. — Ela olha para nós. — Todos vocês.
— Esta era a minha próxima pergunta — observa Victor. — Por que eles não mataram você?
— Eles esperavam que vocês voltassem — explica Amelia. — Ou ao menos que tentassem me ligar. — Seus olhos correm para Fredrik de novo. — Eu não podia atender.
Fredrik assente, aceitando a explicação e as desculpas e deixando claro que a entende.
Amelia se vira para Victor.
— Depois de um tempo, fingi que odiava todos vocês — continua ela. — Reclamei de estar com raiva de Fredrik por desovar aquela velha coroca no meu colo daquele jeito. Aí falei um monte de merda sobre você. — Amelia se volta para Fredrik. — Quando enchi a cabeça deles de baboseiras, eles acharam que podiam me usar para encontrar vocês, para atrair vocês até aqui. Eu era só uma mulher desprezada que queria se vingar de Fredrik. Era isso que eu queria, ganhar a confiança deles para que não me matassem. Eu estava com medo, Fredrik. Acho que eles me matariam se eu não fizesse isso.
Fredrik assente de novo. Noto que ele quer pôr a mão no joelho dela para acalmá-la, mas não consegue porque o gesto o deixa constrangido. Em vez disso, ele oferece mais palavras de consolo.
— Você fez a coisa certa — afirma ele, com gentileza. — E tem razão, eles iam mesmo matar você.
Ele fica de pé e olha para Victor.
— A única pergunta sem resposta — afirma Fredrik — é como eles souberam que deveriam vir até aqui. — Ele levanta as mãos em um gesto de rendição. — Juro que não fui eu.
Meu corpo fica tenso. Olho de um para outro, tentando interpretar suas expressões. A tensão na sala aumenta, quase me afogando, mas logo percebo que a tensão é toda minha, pois estou me preparando para algum tipo de enfrentamento entre os dois. Contudo, quanto mais olho, mais sinto que Fredrik está dizendo a verdade e que Victor acredita nele.
— Eu sei que não foi você — diz Victor, enfim.
Fico atordoada. E confusa. E um pouco incomodada com a confiança imediata de Victor.
— Como é que você sabe? — pergunto, com rispidez.
— Porque, se Fredrik fosse entregar você, não faria sentido contar para eles onde Dina Gregory já esteve. Semanas atrás.
Rosno e cruzo os braços.
— Você me usou para testá-lo — disparo. — Você me deixou sozinha com Fredrik para ver se ele ia trair você e contar a Stephens onde me encontrar. — Eu o fuzilo com os olhos de maneira acusadora e implacável. Não é a hora nem o lugar de confrontá-lo com isso, mas não consigo mais me segurar.
Victor se aproxima e estende as mãos, querendo segurar meus braços. Tento me afastar, mas a poltrona está no caminho. Suas mãos quentes tocam minha pele, aqueles dedos longos segurando meus bíceps. Ele olha nos meus olhos e eu vejo sinceridade e determinação em seu rosto.
— Não foi isso que eu fiz — insiste Victor. — Você precisa confiar em mim quanto a isso. E precisa confiar em Fredrik. O inimigo não é ele.
— É tão fácil julgar e confiar — digo, irritada. — Então por que você me deixou sozinha com ele daquele jeito? O que significou aquela conversa antes de você ir embora sobre confiar nos meus instintos?
As mãos de Victor me soltam.
— A gente precisa sair daqui — diz ele.
Ele se vira para Fredrik, e me sinto ao mesmo tempo furiosa com a falta de explicações e apreensiva com o tom de urgência.
— Fredrik — continua Victor —, a decisão é sua. Pode levá-la para um abrigo ou deixá-la à própria sorte aqui.
Amelia, alerta e apavorada, arregala os olhos inchados e vermelhos. Ela se levanta do sofá em um salto, deixando abrir o roupão na cintura e revelando uma camisola branca por baixo.
— O que isso quer dizer? — pergunta ela, aterrorizada, mexendo na faixa do roupão para fechá-lo de novo. Ela encara Fredrik. — O que ele está dizendo, Fredrik?