O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 14 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo Treze

 

Victor

 

Sarai precisa estar preparada não só para as ameaças iminentes, mas também para a vida que a espera. Ela escolheu um caminho há muito tempo, no dia em que me conheceu, embora ainda não soubesse. Eu não queria enxergar, por isso lutei comigo mesmo contra a necessidade estranha e antinatural de ficar perto dela, porque queria que ela tivesse uma vida normal.

Não queria que ela terminasse como eu...

Mas eu sabia, oito meses atrás, antes de deixá-la naquele quarto de hospital ao lado da sra. Gregory, que um dia eu voltaria para ela. Nunca foi minha intenção nem meu plano, eu apenas sabia que acabaria acontecendo, de uma maneira ou de outra.

Por 28 dos meus 37 anos de vida, a única coisa que conheci foi a Ordem. Só conheci disciplina e morte. Nunca conheci amizade ou amor sem suspeitas e traições. Fui... programado para desafiar as emoções e ações humanas mais comuns, mas eu... Só quando conheci Sarai me permiti acreditar que Vonnegut e a Ordem não eram minha família, que me usaram como seu soldado perfeito. Eles me negaram a vida toda os elementos que nos tornam humanos. E não posso permitir que isso fique impune.

Um dia, vou matar Vonnegut e acabar com o resto da Ordem pelo que fizeram comigo e com a minha família. Uma família que eles destruíram. Sarai é minha família agora, e espero que Fredrik prove sua lealdade no teste final que farei com ele. Eles são minha família e não vou permitir que a Ordem também os destrua.

Mas, por enquanto, Sarai é o meu foco, e será pelo tempo que for necessário. Ela precisa ser treinada. Precisa absorver o máximo que puder, o mais rápido que conseguir. É impossível que um dia ela chegue ao meu nível. Ela nunca vai conseguir viver a vida de um assassino como eu, porque levaria metade da vida para aprender. É por isso que a Ordem nos recruta tão jovens. É por isso que Niklas e eu fomos levados quando éramos crianças.

Sarai nunca vai ser como eu.

Mas ela tem outros talentos. Tem habilidades que, mesmo depois de tantos anos de treinamento, eu jamais conseguiria superar. A vida de Sarai na fortaleza no México lhe garantiu um conjunto único de habilidades que não se aprendem em uma aula nem se leem em um livro. Ela mente e manipula com maestria. Pode se tornar outra pessoa em dois segundos e enganar uma sala cheia de gente que ninguém mais conseguiria enganar. Consegue fazer um homem acreditar no que ela quiser com muito pouco esforço. E não tem medo da morte. Ela é melhor do que uma simples atriz. Porque ninguém percebe a farsa até que seja tarde demais. Javier Ruiz foi o verdadeiro professor de Sarai. Ele lhe ensinou coisas que eu jamais conseguiria transmitir. Foi seu verdadeiro treinador, ensinando os talentos mortais que agora começam a defini-la como assassina. E, como todos os mestres perversos, Javier Ruiz também foi a primeira vítima de sua aluna favorita.

Assim como foi com as habilidades que Sarai já possui, para aprender a lutar e entender a luta de verdade, ela precisa vivê-la e respirá-la todos os dias. Forçá-la a treinar com Spencer e Jacquelyn é necessário para a sua sobrevivência porque ela precisa aprender o máximo que puder sempre que for possível. Mas são as habilidades que ela já tem que vão transformá-la em um soldado único.

São essas habilidades que nos tornam a dupla perfeita.

Antes disso, contudo, Sarai precisa entender a fundo do que é capaz. E precisa passar pelos testes. Todos eles, até aqueles que podem fazê-la me detestar.

Não tenho dúvidas de que isso vai acontecer. Ela passar nos testes, pelo menos. Se ela vai me detestar, ainda é discutível.

Chegamos a Phoenix logo depois do pôr do sol e somos recebidos à porta da casinha branca por Amelia McKinney, o contato de Fredrik. Ela é uma mulher linda, voluptuosa e com um longo cabelo louro, embora sua característica menos atraente seja seu grande par de peitos de plástico, que com certeza devem lhe dar dor nas costas. E ela usa roupas bem chamativas para uma mulher com doutorado que dá aula no ensino fundamental há cinco anos.

— Olá, Victor Faust — cumprimenta ela, com um tom sedutor, segurando a porta aberta para mim e Sarai. — Ouvi falar muito de você.

— Muito? Interessante.

Com uma das mãos, ela deixa aberta a porta de tela, dá um passo para o lado e acena para entrarmos na casa, sacudindo um monte de pulseiras com pingentes de ouro. Vários anéis enormes enfeitam seus dedos. E ela cheira a sabonete e a pasta de dente.

Coloco minha mão nas costas de Sarai e deixo que ela entre antes de mim.

— Fredrik me falou de você — conta Amelia, fechando a porta. — Mas acho que “muito” é exagero nesse caso, já que ele mesmo não parece saber muita coisa a seu respeito. — Ela gira a mão ao lado do corpo e acrescenta: — Mas imagino que o fato de eu saber tão pouco é o que torna você ainda mais intrigante.

— Nem pense nisso — intervém Sarai, parando nossa pequena fila indiana e se virando para encará-la.

Disciplina, Sarai. Disciplina. Suspiro em silêncio, mas admito que fico de pau duro ao vê-la tão superprotetora com o que lhe pertence.

Amelia levanta as mãos, por sorte em um gesto de resignação e não de desafio.

— Sem problemas, meu anjo. Não tem problema nenhum.

Sarai aceita essa bandeira branca e andamos mais pela casa, onde encontramos Dina Gregory na cozinha, preparando o que parece ser uma ceia de Ação de Graças para umas 15 pessoas.

Sarai corre para os braços abertos de Dina, e começam os sorrisos e as palavras de alívio e empolgação. Ignoro tudo isso por um momento, voltando minha atenção para assuntos mais prementes: o que está ao meu redor e essa mulher que não conheço.

Não confio em ninguém.

Amelia, como muitas mulheres do círculo de Fredrik Gustavsson, não sabe nada sobre a Ordem nem sobre o envolvimento que eu ou Fredrik temos com organizações do tipo. Ela não é o que Samantha, do Abrigo Doze no Texas, era para mim. Não, a relação de Amelia e Fredrik, embora tecnicamente não possa mais ser chamada assim, é muito mais... complicada.

Começo a vasculhar a casa em busca de câmeras e armas, tateando estantes, vasos de plantas, cacarecos e móveis, instalando minha própria parafernália secreta de espionagem no caminho.

— Fredrik disse que você talvez fizesse isso — diz Amelia, atrás de mim, embora eu tenha certeza de que ela não viu o pequeno aparelho que acabo de grudar embaixo da mesinha da TV. Ela ri baixo. — Eu limpei a casa muito bem antes de você chegar. Cadê as suas luvas de borracha? — brinca ela.

Não viro para trás nem paro o que estou fazendo.

— Você recebeu alguma visita desconhecida desde que a sra. Gregory veio para cá? — pergunto, debruçando-me sobre uma mesa ao lado de uma cadeira reclinável e examinando um abajur.

— Uau, você e Fredrik são mesmo os caras mais paranoicos que já conheci. Não. Não que eu lembre. Bom, um vendedor de TV por satélite veio uma vez semana passada, querendo que eu desistisse da TV a cabo. Além dele, ninguém.

Ela se aproxima de mim por trás e abaixa a voz:

— Por quanto tempo essa mulher vai ficar na minha casa? — Noto com a visão periférica que ela olha para a porta da cozinha, para garantir que ninguém consiga ouvi-la além de mim. — Ela é legal e tudo, mas... — Amelia suspira com ar culpado. — Olha, eu tenho 30 anos. Não moro com meus pais desde os 16. Ela está atrapalhando o meu jogo. Eu trouxe um cara aqui semana passada e ele pensou que ela fosse minha mãe. Ficou chato. Não transo desde que ela chegou.

Eu me viro para encará-la.

— E há quanto tempo você conhecia o sujeito que trouxe aqui?

— Hein?

— O homem. Há quanto tempo estava dormindo com ele?

Suas sobrancelhas finas e bem-cuidadas se juntam no meio da testa.

— E isso por acaso é da sua conta? Vai me perguntar em quantas posições a gente trepou também?

— Quanto tempo?

— Conheci o cara em um bar, sábado passado.

— Bem, ele conta como uma visita desconhecida.

Ela quer discutir, mas se contém.

— Ok. Tudo bem. O cara do satélite e o quase peguete do bar. Só eles.

— Antes que eu vá embora, vou precisar do nome desse cara e de qualquer outra informação que você possa me dar sobre ele, incluindo uma descrição detalhada.

Ela balança a cabeça e ri, contrariada.

— Não sei por que aguento essas merdas do Fredrik. — Então Amelia abre uma gavetinha da mesa e tira um bloco de notas e uma caneta.

— Porque você não resiste — observo, mas sem querer ser desagradável. Outra coisa que preciso praticar: ficar de boca fechada quando as mulheres dizem certas coisas que dispensam comentários.

Ofendida, ela arregala os olhos azuis brilhantes. Rabisca alguma coisa na folha, arranca-a do bloco e a enfia na minha mão.

— O que isso significa? — Contudo, antes de me dar a chance de cometer outra gafe, ela muda o tom de voz, chega perto de mim e sussurra de maneira sedutora: — Ei... O que vocês dois têm em comum, afinal?

Sei exatamente sobre o que Amelia está perguntando. Ela especula sobre as minhas preferências sexuais e provavelmente torce para que sejam tão sombrias quanto as de Fredrik. Mas ela está pisando em um território muito perigoso, com Sarai na sala ao lado.

— Não muito — respondo, enfiando no bolso a folha com o nome e a descrição do homem. Então continuo a investigar a casa dela.

— Que pena — comenta Amelia. — Qual é a dele, afinal? Ele fala alguma coisa de mim?

Por favor, pare com isso...

Suspiro e paro na entrada do corredor, olhando-a nos olhos.

— Se você tem perguntas para ou sobre Fredrik, faça o favor de perguntar diretamente a ele.

Amelia joga o cabelo para trás em um gesto orgulhoso e revira os olhos.

— Tudo bem. Só pergunta para o Fredrik quanto tempo mais vou ter que ficar de babá, ok?

Ela passa por mim e se junta a Sarai e à sra. Gregory na cozinha, enquanto aproveito a oportunidade para inspecionar o resto da casa.

Por falar em Fredrik, ele me liga quando estou a caminho do quarto de hóspedes.

— Tenho informações sobre a missão de Nova Orleans — diz ele do outro lado da linha. Ouço trânsito ao fundo. — O contato acha que o alvo voltou para a cidade.

— Por que ela acha isso?

— Ela acha que o viu em frente a um bar perto da Bourbon Street. Claro que ela pode ter imaginado isso, mas acho que a gente deveria investigar. Só por segurança. Se a gente esperar e ele voltar para o Brasil, ou onde quer que ele esteja se escondendo, pode levar mais um ou dois meses antes de termos outra chance.

— Concordo. — Eu me fecho no quarto de hóspedes. — Estou com Sarai na casa da Amelia agora, mas vou terminar as coisas por aqui mais cedo. Vá para Nova Orleans na minha frente e eu encontro você lá amanhã no início da noite. Mas não faça nada.

— Não fazer nada? — pergunta Fredrik, desconfiado. — Se eu encontrar o cara, posso prendê-lo e começar o interrogatório, pelo menos.

— Não, espere a gente. Quero que Sarai faça isso.

Fredrik fica em silêncio por um instante.

— Você não pode estar falando sério, Victor. Ela não está pronta. Pode estragar a missão toda. Ou morrer.

— Não vai acontecer nada disso — rebato com calma e confiança. — E não se preocupe, é você quem vai fazer o interrogatório. Só quero que ela prenda o sujeito.

Sei que há um sorriso macabro no rosto de Fredrik sem precisar vê-lo ou ouvir sua voz. Deixar que ele faça o interrogatório é praticamente o mesmo que dar uma seringa para um viciado em heroína.

— Vejo você em Nova Orleans, então — diz ele.

Desligo, enfio o celular no bolso de trás da calça preta e termino a inspeção da casa antes de ir para a sala e me juntar às mulheres, todas já com pratos de comida no colo.