O Retorno de Izabel
Sarai
Acordo na manhã seguinte e encontro o lado de Victor da cama frio e vazio. Aperto o travesseiro dele contra o peito e o seguro perto de mim. Ele tinha uma reunião às oito com um contato em Bernalillo. Queria que eu fosse junto, mas fico exausta com as viagens, sobretudo quando não são de avião.
Já que a localização da academia de krav maga foi “comprometida”, como Victor diz, ele acha melhor sairmos do Novo México quanto antes. Meu objetivo do dia é fazer as malas, levando tudo o que eu puder da casa. Isso, contudo, não deve ser tão difícil, já que o guarda-roupa e os pertences de Victor não são iguais aos de uma pessoa normal. Ele não tem uma “gaveta de cacarecos” onde joga vários itens que vão ficar lá, sem serem usados, pelo resto da vida. Os armários não são cheios de caixas velhas de sapatos e pilhas de documentos guardados só por segurança, ou roupas que ele não veste há cinco anos. Os armários da cozinha não são cheios de jogos caros de porcelana que só são retirados do lugar nos feriados e em ocasiões especiais. Não há retratos de família pendurados em uma bela fileira na parede do corredor, nem enfeites organizados em uma estante, recebidos de pessoas importantes, dos quais ele não consegue se desfazer por razões sentimentais. Algumas caixas devem bastar. Os ternos dele. Minha coleção cada vez maior de roupas, perucas, joias, maquiagens e um zilhão de sapatos. Parece que vou encaixotar só as minhas coisas.
Aperto um botão no controle remoto e a TV de LCD da sala ganha vida. Deixo em um dos canais de notícias só para fazer barulho de fundo. O sol atravessa a porta de vidro que emoldura a vista do Novo México atrás da casa. Observo a paisagem só por um momento, sentindo que preciso mudar de ares. Depois de passar a maior parte da minha vida no México, rodeada de areia, árvores retorcidas, grama seca e calor... bem, fico feliz em me mudar. Victor disse que a nova casa vai ser em Washington ou Nova York. Qualquer uma das duas cidades está ótima para mim, ambas bem diferentes daquilo com que estou acostumada.
Vou saber com certeza amanhã.
Tomo um café da manhã simples, um ovo mexido e uma fatia de torrada acompanhados por um copo de leite. Faço meus exercícios matinais e tomo um banho rápido, vestindo um short preto e um top apertado de algodão da mesma cor. Prendo o cabelo em um rabo de cavalo, separo em duas metades e puxo, para deixá-lo mais firme. De pé diante do enorme espelho do banheiro, começo a me maquiar, mas percebo que estou com muita preguiça para isso no momento e volto a cuidar da mudança. Enquanto pego os ternos de Victor do armário, um por um, e os guardo em capas compridas com zíper, sinto alguma coisa sob a minha mão ao ajeitar uma manga sobre o peito do paletó. Afasto a manga na cama e desabotoo o paletó. Enfio a mão no bolsinho interno e pego um pequeno envelope. É meio grosso, mais ou menos 1 centímetro.
Antes de tirá-lo todo do bolso, penso em guardá-lo de novo, minha consciência me dizendo que aquilo não é da minha conta. Mas olho mesmo assim.
O envelope está velho e surrado, com as bordas esgarçadas e amarelado. É pequeno, mais quadrado do que retangular, e deveria ser de algum cartão de aniversário ou convite. Há fotografias dentro. Fotografias antigas. Tiro a aba de dentro do envelope e o abro, despejando a pequena pilha na mão. A primeira foto é de um homem de cabelo claro e queixo forte. Ele usa camisa branca e gravata marrom. Está sentado em uma poltrona de couro, rodeado por paredes revestidas com um papel cafona que imita tapeçaria. Um garotinho de cabelo castanho e uma menina ainda mais nova com cabelo louro bem claro estão de pé ao lado dele, dando um sorrisão para a câmera.
A foto seguinte é também do menino e da menina, posando com uma mulher loura, de cabelo longo e ondulado, linda, ao ar livre, no que parece ser um parque.
Todas as fotos são velhas, alaranjadas e com rachaduras nas bordas, onde elas foram dobradas ao longo dos anos. Olho cada uma delas e leio o verso. Versalhes, 1977; Paris, 1977; e Versalhes, 1976, rabiscados no canto esquerdo e quase ilegíveis, pois a tinta começou a desbotar. Nas fotos seguintes, o menino está mais velho, talvez com uns sete ou oito anos, e está de pé com o braço sobre o ombro de outro menino. Munique, 1981, e Berlim, 1982. Meu coração afunda quando me dou conta de que todas aquelas fotos são de Victor e Niklas, com quem acredito serem seu pai e a mãe de Victor. A menina deve ser uma irmã.
Parte meu coração saber que ele carrega essas fotos assim. É mais uma prova de que Victor não é desprovido de emoções, de que no fundo de sua alma há um homem que ficou escondido do mundo, forçado a carregar as únicas lembranças da infância dentro de um bolso.
É a prova de que ele é humano, um ser humano perdido e traumatizado que quero desesperadamente curar.
Viro a cabeça ao ouvir passos dentro da casa.
Deixo as fotos na cama e pego a 9mm do criado-mudo, tirando o pente para verificar se está cheio. Insiro o pente na arma de novo e, descalça, corro em silêncio pelo quarto, com as costas coladas na parede, na direção da porta. Mantenho a arma na altura da cabeça, segurando-a com as duas mãos, e paro para escutar. Nada. Quer dizer, nada além da porcaria da televisão, que me arrependo de ter ligado.
Começo a achar que só pode ser Fredrik, mas não vou me arriscar.
Ainda com as costas na parede, contorno o batente e vou para o corredor ao ver que está vazio. Uma sombra se move no piso de terracota na outra extremidade do corredor, e eu fico imóvel. Sinto o coração pulsar nas pontas dos dedos, coçando para apertar aquele gatilho com toda a força. Continuo imóvel, com gotículas de suor surgindo na nuca, e fito o chão por um longo momento, sem piscar, temendo perder algum outro movimento. Ouço os passos de novo, mais distantes desta vez, e ando com cuidado pelo corredor na ponta dos pés.
Ao chegar perto do fim, paro a centímetros do canto e encho os pulmões de ar. Expiro devagar e em silêncio antes de prestar atenção de novo. As vozes do noticiário falando sem parar sobre o “Obamacare” me dão nos nervos, pois se sobrepõem a quaisquer vozes ou passos que eu poderia ouvir e saber de que direção estão vindo.
Finalmente, ouço vozes murmurando:
— Verifique os quartos — diz um homem. — Ela deve estar escondida debaixo de uma cama ou dentro de um armário.
Não, babaca, estou esperando que você venha pelo corredor para meter um tiro na sua cara.
Um homem de terno preto surge no canto, de arma em punho, e eu atiro no mesmo instante em que ele aparece no fim do corredor. O tiro ecoa nos meus ouvidos, e o homem cai no chão, o sangue esguichando do ferimento na lateral do pescoço. Ele tosse e sufoca, tentando cobrir o ferimento com as mãos, agora cobertas de sangue.
Dou a volta no corpo dele, ignorando os perturbadores sons de gargarejo que ele faz, e viro a quina da parede, atirando mais três vezes. Consigo atingir mais um homem antes que uma dor cegante atravesse minha nuca. Enquanto caio, vejo o segundo homem em quem atirei caindo à minha frente. E vejo Stephens, de pé ao lado do cadáver, em toda a sua glória altiva e sombria. Minha arma não está mais em minhas mãos, e estou tão desorientada pelo que bateu na minha nuca, seja lá o que for, que demoro um pouco para me dar conta de que estou deitada no chão frio, com a bochecha encostada em uma fenda do assoalho. Apalpo minha nuca e sinto sangue nos dedos quando toco o cabelo.
Stephens se agacha ao meu lado, com um sorriso ameaçador criando rugas profundas ao redor de sua boca dura. Seu cabelo grisalho parece mais escuro, ele parece maior, a covinha no centro de seu queixo, mais pronunciada. Ele me olha de cima, apoiando os cotovelos nas coxas, com as mãos enormes relaxadas entre as pernas, o pulso direito adornado com um grosso relógio de ouro. Ele tem um cheiro forte de colônia e charutos.
— Você é difícil de achar, garota — observa Stephens.
— Vai se foder — digo, tão casualmente quanto se estivesse comentando que o tempo está bom.
Stephens abre um grande sorriso com a boca fechada, e é a última coisa que vejo antes que tudo fique preto.