O Retorno de Izabel
Fredrik
Vinte e cinco anos atrás...
O homem de cabelo ruivo e desgrenhado, cujo nome eu não era digno de saber, me deu um tapa no rosto com tanta força que um clarão branco encobriu minha visão. Minhas pernas nuas, ossudas e desnutridas, cederam e caí na calçada de pedra. O sangue jorrou da minha boca no momento em que a ponta da bota dele atingiu meu queixo.
— Garoto idiota! — sibilou o homem, cuspindo de ódio. — Você me custa mais do que vale! Garoto insolente!
Gritei e me curvei ao sentir a dor queimando minhas costelas.
— O que você está fazendo? — Ouvi Olaf dizer com severidade de algum lugar atrás de mim.
Eu quase não conseguia me mexer, apenas envolvi minhas costelas com os braços esqueléticos, esperando protegê-las de novos golpes e tentando amortecer a dor. Mal conseguia respirar. A bile se agitava no estômago, e eu me esforçava ao máximo para não vomitar, pois sabia que, como da outra vez, isso só faria minhas costelas doerem ainda mais.
— Você nunca vai conseguir vender o garoto se danificá-lo — disse Olaf.
Eu odiava Olaf tanto quanto odiava todos os homens que me mantinham naquele lugar, mas quase fiquei feliz quando ele chegou. Ele impediria que os outros me espancassem. Que me violentassem. Olaf também fazia o que queria comigo, mas era delicado e nunca me machucou. Eu o odiava e queria vê-lo morto, assim como o resto deles, mas ele era meu único conforto no inferno que era minha vida.
O homem de cabelo ruivo e desgrenhado cuspiu no chão ao meu lado, tão perto que senti uma gotícula na minha bochecha, que estava encostada na pedra fria.
— Então resolva você — grunhiu ele. — Eu lavo minhas mãos com este aí. É um idiota! Não é tão desaforado, mas é idiota. Quatro meses e ainda não aprendeu nada!
Eu me recusava a abrir os olhos. Queria só ficar no chão, encolhido em posição fetal e sozinho, para morrer ali. Sentia cheiro de fezes, urina e vômito vindo do banheiro no corredor. Dava para sentir a brisa úmida da janela quebrada ali perto, roçando as pedras e meu rosto. Pensei na minha mãe, embora ela não fosse minha mãe de verdade. Era um animal horrível em forma de mulher, que administrava o orfanato que cuidava de mim. O orfanato que havia me vendido àqueles homens três meses antes, dois dias depois que eu completei 7 anos, segundo disseram. Como Olaf, eu odiava a Mãe. O modo como ela batia na minha bunda com a vara até sangrar. Odiava o modo como ela me mandava para a cama sem me dar comida por três, às vezes quatro noites seguidas. Mas eu daria tudo para voltar aos cuidados dela e não estar com aqueles homens.
— Talvez o problema seja o professor — acusou Olaf, com voz calma. — Você é duro demais com ele. Ele é mais frágil do que os outros. A raspa do tacho, como Eskill diz.
— Ele não come! — gritou o ruivo.
Eu o via agitando as mãos, suas grandes narinas se dilatando de fúria, acentuando a cicatriz do lado esquerdo do nariz. Via o vermelho vibrante de suas bochechas, que sempre parecia uma urticária quando ele se zangava.
— Ele não consegue segurar a comida — disse Olaf. — O dr. Hammans examinou o garoto ontem, antes que você voltasse. Disse que o garoto está sofrendo de estresse emocional.
— Estresse?! — exclamou o ruivo, soltando uma risada esganiçada.
— Sim — confirmou Olaf, mantendo a expressão calma. — Acho que é melhor que eu assuma o caso dele, daqui por diante.
Minhas pálpebras se abriram um pouco, apenas o suficiente para ver o semblante do ruivo debruçado sobre mim. Ele estava sorrindo, mas me apavorava. Fechei os olhos de novo assim que percebi que ele olhava na minha direção.
— Você acabou de dizer que não queria mais cuidar do garoto — disse Olaf. — Algum problema?
Seguiram-se alguns segundos de silêncio.
— Não — disse o ruivo. — Pode levá-lo. Talvez você consiga fazer mais do que eu.
Os dois não trocaram mais nenhuma palavra.
Olaf me carregou até seu carro e me deitou com cuidado no banco de trás.
— Eu vou cuidar de você — sussurrou ele, do banco da frente.
Eu tremia incontrolavelmente com a dor nas costelas e na cabeça. Lágrimas, catarro e sangue escorriam para a boca.
— Vou ser gentil com você, garoto — disse Olaf, ao tirar o carro do estacionamento do prédio. — Até que você não me deixe escolha.
Ele me levou para um lugar que eu nunca tinha visto antes. E eu fiquei lá, sob os cuidados dele, aprendendo a superar meu medo dele, dos outros homens e da vida que fui obrigado a levar. Até que o envenenei enquanto dormia, cinco anos depois, e fugi.