O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 34 de 37

Páginas do PDF

O Retorno de Izabel

Victor

 

A trama — Três semanas atrás...

 

Niklas está sentado diante de mim à longa mesa coberta por documentos espalhados, manchas de café e fotos de alvos futuros. Seu cabelo castanho está desgrenhado e as bordas dos seus olhos, vermelhas, pois ele bebeu demais na noite passada. Ele passa as mãos pela pilha de várias fotos de Edgar Velazco, um famigerado chefe de quadrilha venezuelano que fomos contratados para matar.

Niklas balança a cabeça, contrariado, e se reclina na cadeira, erguendo as mãos e passando-as pelo rosto.

— A gente não pode adiar isso — afirma ele, olhando para mim por cima da mesa. — Temos o paradeiro de André Costa. Precisamos resolver isso agora.

Não ergo o olhar do texto que está à minha frente.

— As coisas mudaram — digo, sem levantar a voz. Passo para a próxima folha. — Sarai é a minha prioridade. Foi inesperado, eu sei, mas não posso mudar o que ela fez. — Olho bem nos olhos dele, torcendo para que Niklas entenda e não discuta comigo. — Niklas, não vou abandonar nem prejudicar o que estamos fazendo aqui. O contrato de Edgar Velazco vai ser cumprido. Antes do prazo.

Ele suspira de novo e baixa os olhos por um momento. Depois tira um cigarro do maço na mesa diante dele. Pondo-o entre os lábios, ele o acende com um estalo do isqueiro.

Niklas sabe que não gosto quando ele fuma aqui dentro, mas acho que preciso dar uma folga ao meu irmão, considerando tudo o que ele fez por mim e por Sarai nos últimos meses.

— Sem querer desrespeitar você, irmão — começa Niklas, com a fumaça saindo de seus lábios —, mas o que vai fazer com ela? Você não pode levar uma vida dupla e sabe disso. E a gente não pode usar nossos recursos eternamente para fazer serviço de babá, não para alguém como ela, que não é fácil acompanhar. Ela é tão impulsiva quanto eu era com 23 anos.

Concordo com um aceno.

— Sim, nisso você tem razão. Ela é mais parecida com você do que eu gosto de admitir.

Niklas sorri e bate as cinzas do cigarro no cinzeirinho de plástico.

— Ah, vamos lá, irmão, eu não sou tão ruim assim, sou?

Não preciso responder a essa pergunta, e Niklas sabe.

Ele dá mais uma tragada rápida no cigarro e o deixa na borda do cinzeiro.

— Então o que você vai fazer?

Niklas relaxa as costas na cadeira novamente e entrelaça os dedos atrás da cabeça.

— Tem certeza de que quer saber a resposta?

Isso parece atiçar sua curiosidade.

— Porra, claro que quero. — Ele tira as mãos da nuca e se inclina para a frente, apoiando os braços no tampo da mesa, com ar preocupado. — O que você fez?

Espero um minuto e respondo:

— Enquanto estávamos na casa de Fredrik, depois de muitas súplicas, e das ameaças de Sarai sobre sua segurança, concordei em ajudar a treiná-la.

— O quê?

— Sim — confirmo, pois ele parece precisar disso. — Ela está determinada a matar Hamburg e Stephens com as próprias mãos. Eu poderia fazer isso, mas...

— Você deveria fazer isso, Victor.

— Não — retruco, balançando a cabeça. — Dei a ela minha palavra...

— E daí, caralho? — rebate Niklas. — Victor, isso é suicídio. Onde é que você estava com a cabeça?

Ele pega o cigarro de novo e dá um trago mais longo, como se estivesse precisando da nicotina para acalmar os nervos. Esticando o pescoço, ele solta uma fumaça espessa dos lábios.

— Já pensei nisso antes, bem antes que ela inventasse essa confusão com Hamburg, bem antes que ela me desse o ultimato. Eu a quero comigo, Niklas. Quero treiná-la. Acho que ela é capaz de conseguir. E ela se recusa a ser tratada como uma criança. Por qualquer um. Especialmente por mim.

— E se ela não conseguir? — Niklas olha para mim, com uma expressão sincera e preocupada. Preocupação comigo, não necessariamente com Sarai. — Victor, você está se metendo em uma vida de sofrimento. Apaixonar-se por alguém. — Ele ri com desprezo, embora mais de si mesmo, eu sei. — Eu já me apaixonei uma vez, você lembra, e veja como acabei. Como ela acabou. Ela acabou morta e eu, destruído por causa disso. — Ele balança a cabeça. — E preciso lembrar o que aconteceu quando Fredrik se apaixonou? Não, achei que não precisava mesmo.

Ele fica de pé e apaga o cigarro no cinzeiro.

— Sinto muito, Victor, mas acho que essa ideia é ruim pra caralho.

— Mas é a única ideia — digo, sem perder a calma. — E espero que você a respeite o suficiente para não termos uma repetição do incidente de Los Angeles.

Eu sabia que minhas palavras iriam incomodá-lo. Usar o incidente no qual ele atirou nela em um hotel, um incidente que ele considerava já superado. Niklas me encara com ressentimento e dor no olhar.

— Sério, irmão? — pergunta ele, descrente, apoiando as mãos na borda da mesa e se curvando para a frente. — Depois de tudo o que fiz nestes meses para ajudar a proteger essa garota? Depois que dei minha palavra de irmão, de sangue do seu sangue, de que nunca mais iria fazer nada para machucá-la? Se eu quisesse, já poderia ter matado Sarai mil vezes. Você sabe, Victor. Achei que a gente já tivesse superado isso.

Abaixo o olhar, deixando a culpa que sinto fazer o que quiser comigo. Niklas é leal a mim. Sempre foi. Quando atirou em Sarai em Los Angeles e tentou matá-la, foi só por causa de seu amor e lealdade a mim. Porque ele sabia que a forma como ela me afetou seria minha perdição, que eu acabaria morrendo por esse motivo. E, embora eu não justifique o que ele fez e jamais vá perdoá-lo por isso — e ele sabe —, entendo os motivos, de qualquer forma.

Em uma vida como a nossa, às vezes precisamos fazer coisas terríveis com quem amamos a fim de abrir um caminho para novos começos. Meu irmão, por mais insuportável que seja, não é exceção. Aliás, ele é um exemplo claro dessa regra.

E hoje as coisas estão diferentes. Ele não vai matar Sarai, mas não vai hesitar em matar por Sarai.

— Eu confio em você, Niklas. Espero que acredite nisso.

Ele assente devagar, aceitando minhas desculpas e parecendo absorto em pensamentos.

— Não estou pedindo que você prove isso, Victor. Mas tem uma coisa que precisa ser feita. Pelo bem do nosso negócio. Pelo bem da nossa vida. — Ele começa a andar de um lado para outro na frente da mesa.

— O que é? — pergunto, olhando-o da minha cadeira.

Ele para ao lado da mesa, cruza os braços e me encara com desconforto no rosto.

— Se Sarai vai se envolver nas nossas operações de qualquer maneira — começa ele, com cuidado —, você sabe que ela precisa passar pelo mesmo nível de testes que qualquer outra pessoa que trabalha para nós enfrentaria. Só porque você sente algo por ela não significa que essa regra deva mudar.

— O que você está sugerindo?

Sei exatamente do que ele está falando, mas o que quero saber, na verdade, é até onde ele quer ir com isso. Niklas não costuma fazer nada pela metade. Ele continua:

— Eu estou dizendo que sei que você não quer passar pelo que Fredrik passou com Seraphina. E sei que você não quer lidar com outra Samantha. A lealdade de Sarai a você precisa ser testada. Não digo isso como forma de me vingar dela nem porque quero que ela traia você para provar alguma coisa. — Ele ergue as mãos. — Só quero ter certeza de que a gente pode confiar nela, de que, se um dia ela for capturada, não vai ceder e entregar a gente.

— Eu confio nela. Sei que ela não me trairia. Confio nela.

Não importa quantas vezes eu diga essas palavras em voz alta ou na minha cabeça. Confio nela. Confio em Sarai. Confio nela. Sei que Niklas tem razão. Há muita coisa em jogo. Nossos negócios no mercado negro, nossa vida e a vida de muitas pessoas que trabalham para nós. E com Vonnegut e a Ordem atrás de mim, não posso me arriscar.

— O que você propõe? — pergunto, aceitando a verdade.

Niklas balança a cabeça, aliviado com a minha cooperação e compreensão.

Ele respira fundo e se prepara para explicar.

— Vou abordar Hamburg. Ganhar a confiança dele fingindo que estou vendendo você para ele. Ele vai acreditar que sou só um irmão que não perdoa e que foi incumbido pela minha própria Ordem de matar você, já que saiu da organização e traiu a nós todos. Tudo pelo amor de uma garota. Uma garota que, não é segredo, Hamburg agora quer ver morta mais do que nunca.

Concordo antes que ele termine de explicar, com uma imagem nítida da situação na minha mente. Niklas continua o raciocínio:

— Na hora certa, vou levar os homens de Hamburg até Sarai...

Niklas continua a explicar a trama para iniciar Sarai e ao mesmo tempo ter Hamburg e Stephens onde queremos que eles estejam.

— Mas não quero que ela se machuque. Se fizermos isso, você precisa me dar a sua palavra de que não vai deixar ninguém ir longe demais. Que você não vai longe demais. — Estreito o olhar para ele.

— Quanto ela aguenta? — pergunta Niklas.

— Ela aguenta muito. É forte. Mas, antes que isso aconteça, quero que ela treine o máximo que puder. Posso levá-la para Spencer e Jacquelyn, em Santa Fé. A experiência vai fortalecê-la um pouco mais. Deixe-me prepará-la o máximo possível no curto tempo que temos antes de começar essa história.

— Certo — concorda Niklas.

— Sabe que ela vai odiar você ainda mais quando tudo isso acabar.

Niklas assente.

— É, imagino que sim. Mas não me importa quanto ela me odeie. Não sou eu quem tem que dormir com ela. — Ele ri, baixinho. — É um risco que estou disposto a correr em nome de tudo. A verdadeira preocupação é: quanto ela vai odiar você, depois que tudo isso acabar.

Desvio o olhar e fito a parede.

— É um risco que eu também estou disposto a correr — digo, distraído.

— Talvez ela entenda — comenta Niklas, tentando acalmar os pensamentos preocupados que estampam meu rosto. — Se ela se juntar a nós, se vai se juntar a você, vai precisar saber como e quando separar a relação entre o trabalho de vocês e o relacionamento afetivo.

— Sim. Ela vai precisar aprender isso.

Ele bate de leve na mesa.

— E, se ela é tão forte quanto você diz, vai entender e superar.

Fico em silêncio.

— Então está combinado. Vou para Los Angeles à noite. Tenho mesmo uma reunião com Fredrik.

— Presumo que ele ainda não tenha falado nada a meu respeito para você.

— Não — confirma Niklas. — O cara é tão firme quanto um católico em um confessionário. Ele não vai trair você, Victor. Por que ainda tem medo de que ele faça isso? — Niklas pega o maço de cigarro e a chave do carro de cima da mesa. — Ele passou no seu teste há meses. Quanto tempo o prenderam naquela sala? Seis dias? Fredrik é leal. Ninguém dobra esse cara.

— Não tenho tanta certeza — digo, olhando para os veios da madeira da mesa. — Você parece esquecer qual é a especialidade de Fredrik. Ele tortura as pessoas com brutalidade e sente prazer nisso. Acho que se alguém pode passar por um interrogatório sem ceder, esse alguém é Fredrik Gustavsson.

Niklas me olha de lado.

— O que você está pensando? — pergunta ele, intrigado com meu raciocínio.

Olho para ele.

— Tenho mais um teste que preciso fazer com Fredrik. Se eu o deixar a sós com Sarai, ele vai acreditar que confio nele cem por cento. Vai parecer que eu abaixei a guarda. — Eu me levanto e vou até a estante, refletindo sobre o novo plano que acabo de elaborar. — Se ele entrar em contato com você e contar que está com Sarai, então saberemos que sua lealdade na verdade está com a Ordem. Sarai é a isca perfeita. Qual é a melhor maneira de permitir que Vonnegut me atraia do que usar a garota pela qual eu...

Ficamos em silêncio. Sinto o olhar inquisidor de Niklas nas minhas costas.

— A garota pela qual você está se apaixonando?

Faço uma pausa.

— Sim...