O Retorno de Izabel
Capítulo Nove
Sarai
Estou mordendo o lábio por dois motivos: porque estou torcendo para que seja uma boa notícia e porque estou sexualmente frustrada. Victor fala com Fredrik por menos de dois minutos, desliga e digita outro número. Quando consegue falar com Dina, ele me passa o celular.
Pego o aparelho e o encosto no ouvido.
— Dina?
— Sarai, meu Deus, onde você está? O que está acontecendo? Eu estava sentada na sala vendo TV e um homem bateu na porta. Eu não ia deixar ele entrar, fiquei desconfiada na hora; estava quase pegando minha espingarda. Mas ele disse que queria falar de você. Ah, Sarai, fiquei com tanto medo de que tivesse acontecido alguma coisa! — Ela finalmente respira.
— Você está bem? — pergunto, baixinho.
— Sim, sim, estou ótima. O melhor que eu poderia estar. Mas ele me falou que iríamos para a delegacia encontrar você. Até me mostrou um distintivo. Não acredito que caí nessa. O cavalheiro mentiu para mim. — Dina para de falar e abaixa a voz, como se estivesse sussurrando para ninguém ouvir. — Ele me levou para a casa de uma prostituta. O que está acontecendo? Sarai...
— Vai ficar tudo bem, Dina, prometo. E não se preocupe. Seja lá quem more nessa casa, duvido que seja uma prostituta.
Os olhos de Victor cruzam com os meus. Desvio o olhar.
— Onde você está? Quando vai voltar? Sei que você está metida em alguma encrenca, mas sempre pode me contar tudo.
Gostaria que isso fosse verdade. Mais do que tudo, neste momento. Mas a verdade maior é que não sei como responder às perguntas de Dina. Victor deve ter percebido a fisionomia confusa no meu rosto, porque tirou o telefone da minha mão.
— Sra. Gregory — diz ele ao telefone. — Aqui é Victor Faust. Preciso que a senhora me ouça com bastante atenção. — Ele espera alguns segundos e continua. — A senhora vai precisar ficar onde está pelos próximos dias. Vou levar Sarai para vê-la em breve, e vamos explicar tudo, mas, até lá, precisa ficar escondida. Não, sinto muito, mas a senhora não pode voltar... Não, não é seguro lá. — Ele assente algumas vezes, e percebo, pelas leves rugas que se formam entre seus olhos, que ele não se sente à vontade falando com ela, como se alguém colocasse de repente um bebê no colo dele. — Sim... Não, me escute. — Ele perde a paciência, então vai direto ao assunto. — É uma questão de vida ou morte. Se a senhora sair ou ligar para qualquer conhecido, vai acabar morrendo.
Tenho um sobressalto e me encolho com essas palavras, não por serem verdade (isso eu já sabia), mas porque fico imaginando a reação de Dina a elas. Só posso imaginar o que ela deve estar pensando nesse momento, como deve estar apavorada. Apavorada por mim, não por si mesma, e isso faz doer ainda mais.
— Sim, ela está bem — afirma Victor mais uma vez para tranquilizá-la. — Só mais alguns dias. Eu vou levar Sarai aí.
Falo com Dina por mais alguns minutos, contando o que posso, mas sem revelar demais, para acalmá-la. Claro que isso não está ajudando muito, considerando as circunstâncias. Nós desligamos e eu fico ali na sala, me sentindo muito diferente de como me sentia antes da ligação.
Acho que enfim caiu a ficha do tamanho da merda que fiz.
Antes, quando achava que era eu quem corria o maior perigo, e depois que disse para Eric e Dahlia saírem de Los Angeles, eu estava preocupada, mas não tanto assim. Os danos que causei afetam mais do que minha própria segurança. Sem querer, pus todas as pessoas que conheço e amo em perigo.
A realidade de tudo isso, dos meus atos e das consequências em efeito dominó, o fato de Victor ter me deixado, de eu ter tentado levar uma vida normal e fracassado; não consigo mais. Não suporto mais nada disso. Cacete, até a dorzinha por ter encontrado Dahlia com Eric está começando a me incomodar. Não por causa de Eric, ou porque ele era meu “namorado”, mas porque o que eles fizeram não me afetou como deveria ter afetado.
Sou uma aberração. E, no momento, não consigo perdoar Victor por me fazer passar por essa situação, por me jogar em uma vida que nós dois sabíamos que não serviria para mim e por esperar que eu me adaptasse. Eu não queria desde o começo. E foi exatamente por isso que não deu certo.
As lágrimas começam a inundar meus olhos. Deixo que caiam. Não me importa.
Sinto a presença de Victor atrás de mim, mas antes que ele me toque me viro para encará-lo com a raiva distorcendo meu rosto. E enfim certas coisas que eu queria dizer a ele depois de todo esse tempo saem, em uma tempestade de palavras furiosas.
— Você me abandonou, porra! — Bato com as palmas das mãos em sua camisa social justa. — Você deveria ter me matado e pronto! Você consegue imaginar o que me fez passar?! — Lágrimas cheias de raiva escorrem dos cantos dos meus olhos.
— Me desculpe...
Franzo a testa na mesma hora.
— Você quer se desculpar? — Solto o ar ruidosamente. — É só isso que você consegue dizer? Me desculpe?
No fundo, sei que nada disso é culpa de Victor, sei que ele só fez o que fez para me proteger. Mas a maior parte de mim, a parte que não quer acreditar que eu não tenho mais salvação, quer pôr a culpa em qualquer um, menos em mim mesma.
As lágrimas começam a me fazer engasgar.
— Toda santa noite — disparo, apontando com raiva para o chão, meu rosto retorcido de raiva e rancor —, todas as horas de todos os dias, eu pensava em você. Só em você, Victor. Eu vivia cada dia com esperança, acreditando de coração que você ia voltar para mim. Os dias passavam e você não aparecia, mas nunca perdi a esperança. Eu pensava comigo mesma: Sarai, ele está vigiando você. Ele está testando você. Ele quer que você faça o que ele disse, que tente ser como todo mundo, que tente se misturar. Quer que você prove para ele que é forte o suficiente para enfrentar qualquer situação, se adaptar a qualquer estilo de vida. Porque, se você não consegue fazer algo tão simples quanto levar uma vida normal, nunca vai conseguir viver com ele. — Mordo o lábio inferior e tento sufocar as lágrimas. Balanço a cabeça devagar. — Isso era o que eu pensava. Mas fui idiota por achar que você tinha alguma intenção de voltar para mim. — Um tremor induzido pelo choro percorre meu peito.
Victor, com o semblante angustiado que nunca imaginei ver nele, se aproxima. Recuo, balançando a cabeça sem parar, esperando que ele entenda que não estou pronta para ficar muito perto. Quero ficar sozinha com a minha dor.
— Sarai? — diz ele, baixinho.
— Não — digo, recusando-o com um gesto. — P-por favor, me poupe das desculpas e dos motivos pelos quais sei que não posso culpar você. Eu sou egoísta, ok? Eu sei! Já sei que você fez o que precisava fazer. Já sei...
— Não, não sabe.
Levanto os olhos para encontrar os dele.
Victor se aproxima. Desta vez não me afasto, minha mente está paralisada por suas palavras, por mais escassas ou vagas que elas sejam. Ele segura meus cotovelos e descruza minhas mãos. Seus dedos roçam de leve a pele sensível da parte interior dos meus braços, descem até encontrarem minhas mãos e as seguram.
— Eu saí da Ordem principalmente por causa de você, Sarai — explica Victor, e o resto do meu corpo fica paralisado. — Quando Vonnegut descobriu que eu estava ajudando você, ele soube... — Ele faz uma pausa, parecendo estar vasculhando sua mente à procura das palavras menos perigosas. — Ele soube que eu me comprometi...
Jogo as mãos para cima.
— Fale inglês! Por favor, diga de uma vez sem se esforçar tanto para fazer rodeios! Por favor!
— Vonnegut soube que eu tinha... começado a gostar de você.
Fico paralisada e meus lábios se fecham. Meu coração bate descompassado. Minhas lágrimas parecem secar em um instante, só as que molham minhas bochechas continuam escorrendo.
— Como eu era o Número Um de Vonnegut, seu “favorito”, a última coisa que ele queria era mandar me matar. Ele me afastou do serviço, me desligou por um tempo, até... que eu criasse juízo.
Faço uma cara de “que-droga-isso-significa”.
— Pode chamar de lavagem cerebral — acrescenta Victor.
Ele afasta a ideia com um gesto.
— Não importa. O que importa é que ele ia me dar uma única chance de provar que o meu sentimento por você era só um lapso, e que nunca mais iria acontecer. Pouquíssimos agentes têm uma segunda chance na Ordem.
— Um lapso? — Eu me sento na mesinha de centro. Olho para Victor e digo: — Para mim, parece que Vonnegut queria que você provasse que não é humano, mas sim o soldado obediente a ele, incapaz de ter emoções. Que babaca desequilibrado.
Victor assente e se agacha diante de mim, entrelaçando os dedos, com os cotovelos apoiados nas coxas.
— Vonnegut mandou que eu matasse você — conta ele em voz baixa, sustentando o meu olhar. — Para provar a mim mesmo. Eu disse que ia fazer isso, que queria fazer, provar que eu era digno de confiança, e ele me soltou. Claro que eu não tinha nenhuma intenção de matar você. Parti naquele dia e procurei um esconderijo. Niklas, que só conheceu a Ordem a vida inteira, decidiu ficar. Pensei que talvez ele só precisasse de um tempo para entender o que estava acontecendo e decidir o que era melhor para ele. Eu também estava me escondendo de Niklas. Sem saber onde eu estava, ele não precisaria enganar Vonnegut nem achar que precisava escolher entre mim e ele. Mas aí Fredrik me contou que Niklas foi contratado para me matar e está me procurando desde então.
— Que desgraçado — comento, balançando a cabeça sem acreditar, mas depois penso de novo. — Você disse que saiu da Ordem principalmente por minha causa. Além de mim, qual foi o outro motivo?
— Isso já estava para acontecer havia muito tempo — conta Victor. — Quando precisei matar meu pai para salvar meu irmão, entendi que era hora de sair. — Seus dedos fortes acariciam os meus, mais delicados. — Você me deu a motivação final de que eu precisava para fazer isso de uma vez.
Com a ponta dos dedos, acaricio seu rosto com a barba um pouco por fazer. Victor continua a me encarar, seus olhos sondando os meus através do pequeno espaço entre nós, cheios de paixão e compreensão. Eu me curvo e beijo seus lábios.
— Eu sinto muito pelo seu irmão — digo, baixinho.
Ele roça os lábios nos meus, e a sensação se espalha pelo meu corpo até os dedos dos pés, como uma dose de uísque.
— Eu não estava testando você, Sarai. — Ele me beija de novo.
— Então o que você estava fazendo? — Eu o beijo também e derreto ao sentir suas mãos se movendo por minhas coxas.
Victor me ergue nos braços, envolvendo minhas pernas em sua cintura, minha bunda acomodada nas palmas de suas mãos enormes. Meus dedos sobem pelos lados de seu rosto e tocam sua boca antes que meus lábios toquem também.
— Eu estava esperando o momento certo — diz ele enquanto sua boca encontra meu pescoço.
Enfio os dedos em seu cabelo castanho curto, erguendo o queixo ao sentir sua boca explorando meu pescoço e meu maxilar. Meus olhos estão fechados, as pálpebras pesadas, e sinto um formigamento quente ao qual sei que não dá para resistir. Victor me carrega pela sala, embora eu não saiba para onde nem me importe com isso. Aperto mais as pernas nuas ao redor de sua cintura, sentindo a superfície fria e lisa de seu cinto de couro pressionando o interior das minhas coxas. Meus dedos estão trabalhando nos botões de sua camisa, abrindo-os com facilidade.
Victor não responde às minhas perguntas, mas isso também não me importa.
Os lábios dele cobrem os meus, a umidade quente de sua língua se entrelaçando avidamente com a minha. Sem parar de me beijar, Victor me faz apoiar os pés no chão para tirar minha calcinha, uma perna de cada vez. Ele ergue meus braços e tira minha camiseta, jogando-a no chão. Minhas mãos mexem no cinto dele, movendo a lingueta do buraco e puxando a tira de couro de uma só vez em um movimento rápido. Ele tira a calça e a cueca boxer preta. Minha boca recebe seu hálito quente e ofegante enquanto ele me carrega mais uma vez e pressiona minhas costas na parede, como se não quisesse esperar para chegarmos ao quarto de hóspedes. Também não quero esperar. Já esperamos demais.
Sinto seu pau entrando em mim, e, antes que ele deslize até o fundo, uma descarga de prazer corre pelas minhas coxas e sobe pela coluna, relaxando meu pescoço e fazendo minha cabeça se apoiar na parede. Sinto meus olhos formigando e ardendo. A umidade morna entre minhas pernas é inundada por um êxtase quente e trêmulo.
Ele mete uma vez bem fundo e se mantém ali, segurando meus quadris, com minhas costas pressionadas contra a parede fria. Abro os olhos devagar, ainda sem controlar direito as pálpebras, e o encaro. Ele me fita com a mesma intensidade voraz. Minha respiração é curta e irregular quando escapa dos meus lábios entreabertos. Meus braços estão ao redor dele, em um abraço apertado, meus dedos cravados nos músculos rijos de suas costas.
— Eu queria isso há tanto tempo — digo, ofegante.
— Você não faz ideia... — rebate Victor, para então me devorar com um beijo, tão violento que quase perco o controle dos meus músculos.
Minhas coxas se contraem em sua cintura quando ele mete seu pau em mim de novo. Estremeço e gemo, minha cabeça bate com força na parede. Ele segura meu corpo no lugar com os braços encaixados nas minhas coxas, forçando seu quadril contra o meu, e eu sinto pequenas explosões no estômago a cada investida.
Minhas costas se arqueiam, meus seios ficam expostos a ele, que cobre um mamilo com a boca. Ergo os braços acima da cabeça, procurando alguma coisa onde eu possa me segurar para cavalgá-lo, mas não encontro nada. Envolvo seu pescoço com os braços para sustentar meu peso e rebolo em sua virilha, gritando e gemendo, desesperada para mergulhar cada centímetro do seu pau duro tão fundo quanto possível. Seus dedos afundam dolorosamente nas minhas costas. Sua língua se enrosca na minha, seus gemidos atravessam meu corpo.
Gozo rápido e forte, minhas pernas e o ponto entre elas se contraindo ao redor dele, meus músculos tremendo. Ele goza segundos depois e segura meu corpo bem firme no lugar, com minha bunda em suas mãos musculosas, para se esvaziar dentro de mim.
Nesse momento, não estou nem aí para as consequências do que acaba de acontecer. Mas só nesse momento.
Com a cabeça apoiada no ombro dele, Victor me carrega pelo corredor até o banheiro espaçoso em frente ao quarto de hóspedes. Ele me senta na bancada e fica de pé no meio de minhas pernas nuas.
— Não se preocupe. — Ele dá um beijo na minha testa e abre a porta de vidro do boxe do chuveiro.
— Com o quê? — pergunto, confusa.
Ele gira a torneira, que range, e regula a água quente e a fria até encontrar a temperatura desejada. Eu o observo da bancada, o modo como seu corpo alto e escultural se move, as curvas de seus músculos entalhadas em um desenho poético ao redor de seus quadris, suas panturrilhas enrijecendo quando ele anda.
Ele volta para perto de mim e termino de tirar sua camisa, deslizando-a por seus braços musculosos.
— Você não vai engravidar — diz ele, e me manda descer da bancada e segui-lo até o chuveiro. — Não de mim, pelo menos.
Um pouco surpresa, deixo por isso mesmo.
Ele fecha a porta do boxe e começa a lavar meu cabelo. Eu me perco naquela proximidade, no modo como suas mãos exploram meu corpo com tanta precisão e desejo.
Por muito tempo, esqueço que ele é um assassino cujas mãos tiraram muitas vidas sem sequer um pensamento de remorso ou arrependimento. Esqueço que também sou uma matadora cujas mãos tiraram uma vida há poucas horas.
Parece que fomos feitos um para o outro, como duas peças de um quebra-cabeça que de início parecem não se encaixar, mas que se adaptam perfeitamente quando vistas pelo mais improvável dos ângulos.