O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 5 de 37

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O Retorno de Izabel

Capítulo Cinco

 

Sarai

 

Desço a escada de concreto de dois em dois degraus, segurando no corrimão de metal pintado com as mãos ensanguentadas, até chegar ao térreo. Uma placa vermelha com a palavra SAÍDA está à minha frente. Corro pela passagem mal-iluminada, onde uma lâmpada fluorescente pisca acima de mim e torna o lugar ainda mais ameaçador. Empurro com força a barra da porta com as duas mãos e ela se abre para um beco. Um homem de terno está sentado no capô de um carro, fumando, quando saio para a rua.

Eu fico paralisada.

Ele olha para mim.

Eu olho para ele.

Ele nota o sangue nas minhas mãos e olha de relance para a porta, depois para mim.

— Vá — diz ele, acenando para a caçamba de lixo à minha direita.

Sei que não tenho tempo para ficar confusa nem para perguntar por que ele está me deixando ir embora, mas pergunto assim mesmo.

— Por que você está...?

— Apenas vá!

Ouço passos ecoando na escada atrás da porta.

Lanço um olhar agradecido ao homem e dou a volta na caçamba, desço o beco e me afasto do restaurante. Ouço um tiro segundos depois que dobro a esquina e torço para que seja aquele homem fingindo atirar em mim.

Evito espaços abertos e corro por trás de prédios, protegida pela escuridão, tanto quanto minhas sandálias de salto alto permitem. Quando sinto que estou longe o suficiente para parar um pouco, tento me esconder atrás de outra caçamba e tiro as sandálias. Arranco a peruca loura e a jogo no lixo.

Não consigo respirar. Estou enjoada.

Meu Deus, estou enjoada...

Encosto na parede de tijolos atrás de mim, arqueando as costas e apoiando as mãos nos joelhos. Vomito com violência no chão, meu corpo rígido, o esôfago ardendo.

Pego as sandálias e saio correndo de novo na direção do hotel, tentando esconder o sangue das mãos e do vestido, mas percebo que não é tão fácil. Recebo alguns olhares desconfiados ao passar depressa pela recepção, mas tento ignorá-los e torço para que ninguém chame a polícia.

Em vez de arriscar ser vista por outras pessoas, subo pela escada até o oitavo andar. Quando chego lá, e depois de tudo o que corri, sinto que minhas pernas vão ceder. Encosto na parede e recupero o fôlego, com os joelhos tremendo descontroladamente. Meu peito dói, como se cada respiração trouxesse poeira, fumaça e cacos microscópicos de vidro para o fundo dos pulmões.

O quarto que divido com Eric está trancado e eu não tenho a chave. Aliás...

— Puta merda...

Jogo a cabeça para trás, fecho os olhos e suspiro, arrasada.

Não estou mais com a minha bolsa. Eu a perdi em algum momento da luta na sala de Hamburg. A chave do meu quarto. Meu celular. Minha arma. Meu punhal. Não tenho mais nada.

Bato na porta, mas Eric não está no quarto. Não esperava que estivesse, na verdade, já que não são nem onze da noite. Só para o caso de estar enganada, no entanto, tento o quarto de Dahlia.

— Dahl! Você está aí? — Bato na porta com pressa, tentando não incomodar os outros hóspedes.

Nenhuma resposta.

Já desistindo, jogo as sandálias no chão e apoio as mãos na parede. Minha cabeça desaba. Mas então ouço um clique baixinho e vejo a porta do quarto de Dahlia se abrindo devagar. Levanto a cabeça e a vejo parada ali.

Sem me demorar para questionar a expressão estranha no rosto dela, entro no quarto só para sair do corredor. Eric está sentado na poltrona perto da janela. Noto que seu cabelo está meio bagunçado. O de Dahlia também.

Meu instinto está tentando chamar minha atenção, mas não me importo. Acabei de apunhalar um homem no pescoço e de tentar matar outro. Quase fui estuprada. Estava correndo pelos becos de Los Angeles para fugir de homens armados que vinham atrás de mim. Nada que esses dois façam pode superar isso.

— Meu Deus, Sarai — diz Dahlia, aproximando-se de mim. — Isso é sangue?

A expressão estranha e silenciosa que ela exibia quando entrei no quarto desaparece em um instante quando ela me vê no quarto bem-iluminado. Seus olhos se arregalam, cheios de preocupação.

Eric se levanta da poltrona.

— Você está sangrando. — Ele também me olha de cima a baixo. — O que aconteceu?

Os olhos de Dahlia correm pela minha roupa e pelo meu cabelo preso dentro da touca da peruca.

— Por que... Hã, por que você está vestida assim?

Olho para mim mesma. Não sei o que dizer, então não digo nada. Eu me sinto como um cervo diante dos faróis de um carro, mas minha expressão continua firme e sem emoções, talvez um pouco confusa.

— Você encontrou Matt — acusa Dahlia, começando a levantar a voz. — Puta que pariu, Sarai. Você foi se encontrar com ele, não foi?

Sinto os dedos dela apertando meu antebraço.

Eu me desvencilho de Dahlia e caminho até o banheiro para tirar a touca do cabelo. Enquanto tiro os grampos, noto uma camisinha boiando na privada.

Eric entra no banheiro atrás de mim. Ele sabe que eu vi.

— Sarai, e-eu... Eu sinto muito — diz ele.

— Não se preocupe — respondo, tirando o último grampo e deixando-o na bancada creme.

Passo por Eric e volto para o quarto. Dahlia está me encarando, com o rosto cheio de vergonha e arrependimento.

— Eu...

Ergo a mão e olho para os dois.

— Não, é sério. Não estou brava.

— Como assim? — pergunta Dahlia.

Eric parece agitado. Ele põe a mão na nuca e passa os dedos pelo cabelo.

— Olhe, sem querer ofender — digo a Eric —, mas tenho fingido tudo com você desde a primeira vez que a gente ficou junto.

Ele arregala os olhos, embora tente não deixar que o choque e a mágoa da minha revelação transpareçam demais. Grande parte de mim se sente bem por dizer a verdade. Não por vingança, mas porque eu precisava tirar isso do peito. Mas admito que, depois de descobrir que os dois têm trepado pelas minhas costas, uma pequena parte de mim também fica feliz em magoá-lo. Acho que a vingança sempre encontra um caminho, mesmo nos gestos mais insignificantes.

— Fingido?

— Não tenho tempo para isso — digo, indo na direção da porta. — Vocês dois podem ficar juntos. Não tenho nada contra. Não estou brava, só não me importo mesmo. Preciso ir.

— Espere... Sarai.

Eu me viro para olhar Dahlia. Ela está muito chocada, mal sabe o que pensar. Depois de alguns segundos de silêncio, fico impaciente e a olho com cara de “vai, desembucha”.

— Para você... tudo bem mesmo?

Uau, não sirvo mesmo para o estilo de vida deles. O estilo de vida normal. Nem consigo entender essas coisas de namoro, melhores amigas, infidelidade, competição e joguinhos psicológicos. A cara que eles fazem, tão vazia e mesmo assim tão cheia de incredulidade e dúvida, por causa de uma situação que, para mim, não é tão importante... Tenho coisas mais graves com que me preocupar.

Suspiro, aborrecida com as perguntas vagas e confusas dos dois.

— Sim, por mim, tudo bem — digo, e então me viro para Eric, estendendo a mão. — Preciso da chave do nosso quarto.

Relutante, ele enfia a mão no bolso de trás e pega a chave. Tomo da sua mão, saio dali e vou para o quarto ao lado. Eric vem atrás e tenta falar comigo enquanto guardo minhas coisas na mala.

— Sarai, eu nunca quis...

Eu me viro de repente e o encaro.

— Tudo bem, só vou dizer isto uma vez, depois você muda de assunto ou volta para lá e fica com a Dahlia. Não estou nem aí para o que vocês dois fazem, mas, por favor, não apele para esse clichê de novela de que você nunca quis que isso acontecesse, porque... é muito idiota. — Eu rio baixinho, porque acho idiota mesmo. — Só falta você dizer que o problema não é comigo, é com você. Caramba, você faz ideia do que isso parece? É tão difícil assim acreditar quando digo que não me importo e que estou falando sério? Sem joguinhos. É verdade. — Balanço a cabeça, levanto as mãos e digo: — Não. Me. Importo.

Viro para a mala, fecho o zíper, abro a parte lateral e pego a chave do quarto secreto. Ainda bem que eu tinha uma cópia.

— Preciso ir — digo, andando até a porta e passando por Eric.

— Aonde você vai?

— Não posso contar, mas me escute, Eric, por favor. Se alguém aparecer me procurando, finja que não me conhece. Diga o mesmo para Dahlia. Finjam que nunca me viram na vida. Aliás, quero que vocês dois saiam hoje. Vão para qualquer lugar. Só... não fiquem aqui.

— Você vai me dizer o que aconteceu ou por que está toda ensanguentada? Sarai, você está me deixando assustado pra cacete.

— Eu vou ficar bem — digo, atenuando minha expressão. — Mas prometa que você e Dahlia vão fazer exatamente o que falei.

— Você vai me contar um dia?

— Não posso.

O silêncio entre nós fica mais pesado.

Enfim, abro a porta e saio para o corredor.

— Acho que sou eu quem deveria estar pedindo desculpas.

— Por quê?

Eric fica na porta, com os braços caídos ao lado do corpo.

— Por pensar em outra pessoa durante todo esse tempo em que eu estava com você. — Olho para o chão.

Nós nos encaramos por um breve momento e ninguém diz mais nada. Ambos sabemos que estamos errados. E acho que nós dois estamos aliviados por tudo ter vindo à tona.

Não há mais nada a dizer.

Eu me afasto pelo corredor na direção oposta à do meu quarto secreto e dou a volta por trás, para que Eric não veja aonde estou indo. Quando me tranco no quarto, só consigo desabar na cama. A exaustão, a dor e o choque de tudo o que aconteceu esta noite me atingem em cheio assim que a porta se fecha, e me engolem como uma onda. Eu me jogo de costas no colchão. Minhas panturrilhas doem tanto que duvido conseguir andar sem mancar amanhã.

Fico olhando para o teto escuro até ele desaparecer e eu pegar no sono.