O Retorno de Izabel
Capítulo Quatro
Sarai
— Se encostar em mim — digo para o guarda-costas de terno à porta da sala particular de Hamburg —, enfio suas bolas em um moedor de carne.
As narinas do segurança se dilatam e ele olha para Stephens.
— Você solicitou uma reunião com o sr. Hamburg — diz Stephens atrás de mim. — É claro que vamos revistá-la antes para verificar se está armada.
Droga!
Calma. Fique calma. Faça o que Izabel faria.
Respiro fundo, encarando-os com desprezo e um ar ameaçador. Então jogo minha bolsinha preta no segurança. Ele pega a bolsa quando ela bate em seu peito.
— Acho que está bem claro que eu não conseguiria esconder uma arma em um vestido como este, a menos que a enfiasse na boceta — digo, olhando para Stephens. — Minha arma está na bolsa. Mas nem pense em tocar...
— Deixem a moça entrar — ordena da porta uma voz familiar.
É Hamburg, ainda balofo e grotesco como antes, usando um terno imenso que parece em vias de estourar se ele respirar fundo demais.
Abro um leve sorriso para o segurança, que me encara com olhos assassinos. Conheço esse olhar, até demais. O homem tira a pistola e me devolve a bolsa.
— Sr. Hamburg — diz Stephens —, eu deveria ficar na sala com o senhor.
Hamburg balança a papada, rejeitando a sugestão.
— Não, vá cuidar do restaurante. Se essas pessoas tivessem vindo me matar, não seriam tão óbvias. Eu vou ficar bem.
— Pelo menos deixe Marion à porta — sugere Stephens, olhando para o guarda-costas.
— Sim — concorda Hamburg. — Você fica aqui. Não deixe ninguém interromper nossa... — diz ele, me olhando com frieza — reunião, a menos que eu peça. Se em algum momento você não ouvir minha voz por mais de um minuto, entre na sala. Como precaução, é claro.
Ele abre um sorrisinho para mim.
— É claro. — Imito Hamburg e sorrio também.
Ele dá um passo para o lado e me convida a entrar.
— Pensei que isso tivesse acabado, srta. Seyfried.
Hamburg fecha a porta.
— Sente-se — pede ele.
A sala é bem grande, com paredes lisas e arredondadas, sem cantos, de um lado a outro. Uma série de grandes quadros retratando o que parece ser cenas bíblicas rodeia uma grande lareira de pedra. Cada imagem é emoldurada em uma caixa de vidro, com luzes na parte de baixo. A sala é pouco iluminada, como o restaurante, e o cheiro é de incenso ou talvez de óleo aromático de almíscar e lavanda. Na parede à minha esquerda, há uma porta aberta que leva a outra sala, onde a luz cinza-azulada de várias telas de TV brilha nas paredes. Chego mais perto para me sentar na poltrona de couro com encosto alto diante da escrivaninha e espio dentro da saleta. É como eu imaginava. As telas mostram várias mesas do restaurante.
Hamburg fecha essa porta também.
— Não, está longe de acabar — respondo, enfim.
Cruzo as pernas e mantenho a postura ereta, o queixo levantado com ar confiante e os olhos em Hamburg, enquanto ele atravessa a sala na minha direção. Puxo a barra do vestido para cobrir completamente o punhal preso na coxa. Minha bolsa está no meu colo.
— Vocês já tiraram minha esposa de mim. — A indignação transparece na voz dele. — Não acham que foi o suficiente?
— Infelizmente, não. — Abro um sorriso malicioso. — Não foi o suficiente para você e sua esposa tirarem uma vida? Não, não foi — respondo por ele. — Vocês tiraram muitas vidas.
Hamburg morde o interior da bochecha e se senta atrás da escrivaninha, de frente para mim. Ele apoia as mãos gordas sobre o tampo de mogno. Percebo quanto ele quer me matar ali mesmo onde estou. Mas não fará isso porque acredita que não estou sozinha. Ninguém em sã consciência faria algo assim, vir até aqui sozinha, inexperiente e desprevenida.
Ninguém, a não ser eu.
Preciso garantir que ele continue acreditando que tenho cúmplices até descobrir como vou matá-lo e sair da sala sem ser pega. O pedido de Hamburg para que o guarda-costas entrasse na sala depois de um minuto sem ouvir sua voz pôs mais um obstáculo no plano que, na verdade, nunca tive de fato.
— Bem, devo dizer uma coisa — diz Hamburg, mudando de tom. — Você é deslumbrante com qualquer tipo de peruca. Mas admito que prefiro a morena.
Ele acha que meu cabelo castanho-avermelhado era uma peruca. Ótimo.
— Você é doente. Sabe disso, certo? — Tamborilo com as unhas no braço da poltrona.
Hamburg abre um sorriso medonho. Estremeço por dentro, mas mantenho a compostura.
— Eu não matei aquelas pessoas de propósito. Elas sabiam no que estavam se metendo. Sabiam que, no calor do momento, alguém poderia perder o controle.
— Quantas?
Hamburg estreita os olhos.
— O que importa isso, srta. Seyfried? Uma. Cinco. Oito. Por que não diz logo o motivo da sua visita? Dinheiro? Informação? A chantagem assume muitas formas, e não seria a primeira vez que enfrento uma. Sou um veterano.
— Fale sobre a sua esposa — peço, ganhando tempo e fingindo ainda ser quem dá as cartas. — Antes de “ir direto ao assunto”, quero entender sua relação com ela.
Uma parte de mim quer saber de verdade. E estou incrivelmente nervosa; sinto um enxame zumbindo no meu estômago. Talvez jogar conversa fora ajude a acalmar minha mente.
Hamburg inclina a cabeça para o lado.
— Por quê?
— Apenas responda à pergunta.
— Eu a amava muito — responde ele, relutante. — Ela era a minha vida.
— Aquilo é amor? — pergunto, incrédula. — Você manchou a memória dela ao dizer que ela era uma viciada em drogas que se suicidou, só para salvar a própria pele, e chama isso de amor?
Noto uma luz se movendo no chão, por baixo da porta da sala de vigilância. Não havia ninguém lá dentro antes, ao menos que eu tivesse visto.
— Como a chantagem, o amor assume muitas formas. — Hamburg apoia as costas na poltrona de couro, que range, cruzando os dedos roliços sobre a enorme barriga. — Mary e eu éramos inseparáveis. Não éramos como outras pessoas, outros casais, mas o fato de sermos tão diferentes não significava que nos amávamos menos do que os outros. — Os olhos dele cruzam os meus por um momento. — Tivemos sorte por encontrar um ao outro.
— Sorte? — pergunto, pasma com o comentário. — Foi sorte duas pessoas doentes se encontrarem e se unirem para fazer coisas doentias com os outros? Não entendo.
Hamburg balança a cabeça como se fosse um velho sábio e eu fosse jovem demais para entender.
— Pessoas diferentes como Mary e eu...
— Doentes e dementes — corrijo. — Não diferentes.
— Chame como quiser — diz ele, com ar de resignação. — Quando você é tão diferente assim da sociedade, do que é aceitável, encontrar alguém como você é algo muito raro.
Sem perceber, cerro os dentes. Não porque Hamburg esteja me irritando, mas porque nunca imaginei que esse homem nojento pudesse me dizer qualquer coisa que me fizesse pensar na minha situação com Victor, ou qualquer coisa que eu pudesse entender.
Afasto esse pensamento.
A luz fraca sob a porta da sala de vigilância se move de novo. Finjo não ter notado, sem querer dar a Hamburg qualquer motivo para achar que estou pensando em outra saída.
— Vim aqui saber nomes — digo de repente, sem ter pensado bem a respeito.
— Que nomes?
— Dos seus clientes.
Algo muda nos olhos de Hamburg, ele vai tomar o controle da situação.
— Você quer os nomes dos meus clientes? — pergunta ele, desconfiado.
Que merda...
— Pensei que você e Victor Faust já estivessem de posse da minha lista de clientes.
Continue séria. Não perca a compostura. Merda!
— Sim, estamos, mas me refiro àqueles que você não mantinha nos registros.
Acho que vou vomitar. Parece que minha cabeça está pegando fogo. Prendo a respiração, torcendo para ter me livrado dessa.
Hamburg me examina em silêncio, vasculhando meu rosto e minha postura em busca de qualquer sinal de autoconfiança abalada. Ele coça o queixo gordo e cheio de dobras.
— Por que você acha que existe uma lista fantasma?
Suspiro meio aliviada, mas ainda não estou fora de perigo.
— Sempre existe uma lista fantasma — afirmo, embora não faça nem ideia do que estou dizendo. — Quero pelo menos três nomes que não estejam no registro que nós temos.
Sorrio, sentindo que recuperei o controle da situação.
Até ele falar:
— Diga você três nomes da lista que já tem, e eu dou o que você quer.
É oficial: perdi o controle.
Engulo em seco e me controlo antes de parecer “pega no flagra”.
— Você acha que eu carrego a lista na bolsa? — pergunto com sarcasmo, tentando continuar no jogo. — Nada de negociações ou meios-termos, sr. Hamburg. O senhor não está em condições de fazer nenhuma barganha.
— É mesmo? — pergunta ele, sorrindo.
Ele suspeita de mim. Posso sentir. Mas vai garantir que está certo antes de dar o bote.
— Isso não está em discussão. — Eu me levanto da poltrona de couro, enfiando a bolsa debaixo do braço, mais frustrada do que antes por ter que entregar minha arma.
Pressiono os dedos na escrivaninha de mogno, apoiando meu peso neles ao me curvar um pouco na direção de Hamburg.
— Três nomes, ou saio daqui e Victor Faust entra para espalhar os seus miolos naquele belo quadro do menino Jesus atrás de você.
Hamburg ri.
— Esse não é o menino Jesus.
Ele se levanta junto comigo, alto, enorme e ameaçador.
Enquanto vasculho minha mente e tento entender como ele descobriu que sou uma farsante, Hamburg se adianta e anuncia seu raciocínio como um chute na minha boca.
— É engraçado, Izabel, você vir aqui pedir nomes que não aparecem em uma lista que você... — diz, apontando para a minha bolsa — ... nem carrega consigo, porque como você saberia que os nomes que eu daria não estão nela?
Estou muito ferrada.
— Vou dizer o que eu acho — continua ele. — Acho que você veio aqui sozinha por causa de alguma vingança contra mim. — Ele balança o indicador. — Porque eu me lembro de cada detalhe da porra daquela noite. Cada merda de detalhe. Especialmente a sua expressão quando percebeu que Victor Faust tinha vindo matar minha esposa em vez de mim. Era a expressão de alguém pega de surpresa, que não fazia ideia de por que estava ali. Era a expressão de alguém que não está familiarizada com o jogo.
Ele tenta sorrir com gentileza, como se quisesse demonstrar alguma espécie de empatia pela minha situação, mas o que leio em seu rosto é cinismo.
— Acho que, se houvesse mais alguém aqui com você, ele já teria aparecido para salvá-la, porque é óbvio que você está ferrada.
A porta do quarto principal se abre, o guarda-costas entra e a tranca. Por uma fração de segundo, tive a esperança de que fosse Victor vindo me salvar na hora certa. Mas foi só um desejo. O guarda-costas me olha com desprezo. Hamburg acena para ele, que começa a tirar o cinto.
Meu coração afunda até o estômago.
— Sabe — diz Hamburg, dando a volta na escrivaninha —, na primeira vez que a gente se viu, lembro que fiz um acordo com Victor Faust. — Ele aponta para mim. — Você se lembra disso, não?
Hamburg sorri e apoia a mão gorda nas costas da poltrona na qual eu estava sentada, virando-a para mim.
Todo o meu corpo está tremendo; parece que o sangue que passa pelas minhas mãos virou ácido. Ele corre pelo meu coração e pela minha cabeça tão rápido que quase desmaio. Começo a tentar alcançar meu punhal, mas eles estão perto demais, aproximando-se pelos dois lados. Não tenho como enfrentar os dois ao mesmo tempo.
— Como assim? — pergunto, tropeçando nas palavras, tentando ganhar um pouco de tempo.
Hamburg revira os olhos.
— Ora, por favor, Izabel. — Ele gira um dedo no ar. — Apesar do que aconteceu naquela noite, fiquei decepcionado de verdade por vocês dois irem embora antes de cumprir o acordo.
— Eu diria que, em vista do que aconteceu, o acordo não vale mais nada.
Ele sorri para mim e se senta na poltrona de couro. Percebo Hamburg espiar de relance o guarda-costas, dando uma ordem só com o olhar.
Antes que eu consiga me virar, o segurança prende minhas duas mãos nas minhas costas.
— Você vai cometer um erro do caralho se fizer isso! — grito, tentando me livrar das garras do segurança.
Ele me leva à força até uma mesa quadrada e me joga sobre ela. Meus reflexos não são rápidos o suficiente e meu queixo bate no mármore duro. O gosto metálico do sangue enche minha boca.
— Me solte! — Tento chutá-lo. — Me solte agora!
Hamburg ri de novo.
— Vire a cabeça dela para esse lado — ordena ele.
Dois segundos depois, meu pescoço é torcido para o outro lado e mantido ali, minha bochecha esquerda pressionada contra o mármore frio.
— Quero ver a cara dela enquanto você a fode. — Hamburg me olha de novo. — Então vamos continuar do ponto onde paramos naquela noite, tudo bem? Você concorda, Izabel?
— Vai se foder!
— Ah, não, não — diz ele, ainda com o riso na voz. — Não sou eu quem vai foder você. Você não faz o meu tipo. — Seus olhos famintos percorrem o corpo do segurança que está me pressionando por trás.
— Eu vou matar você — digo, cuspindo por entre os dentes. A mão do segurança sobre a minha cabeça impede que eu a mexa. — Vou matar vocês dois! Me estupre! Vamos lá! Mas os dois vão estar mortos antes que eu saia daqui!
— Quem disse que você vai sair daqui? — provoca Hamburg.
O zíper da calça dele está aberto; sua mão direita está parada ao lado da braguilha, como se ele estivesse tentando manter algum autocontrole e não se masturbar ainda.
Então Hamburg acena com dois dedos para o guarda-costas, que me mantém imóvel segurando meus cabelos da nuca.
— Lembre-se disso — diz ele ao segurança. — Ela não vai sair daqui.
Sinto a mão direita do guarda-costas soltar meu cabelo e se mover entre as minhas pernas. Enquanto ele ergue meu vestido, aproveito para alcançar o punhal na minha coxa e tirá-lo da bainha, golpeando atrás em um ângulo desajeitado. O segurança grita de dor e me solta. Puxo o punhal ainda firme na mão, que está coberta de sangue. Ele cambaleia para trás, com a mão na base do pescoço, o sangue jorrando entre seus dedos.
— Sua puta do caralho! — ruge Hamburg, saltando da poltrona e vindo atrás de mim como um elefante descontrolado, a calça caindo de sua cintura flácida.
Corro na direção dele com o punhal levantado e colidimos no meio da sala. Seu peso me joga de bunda no chão e o punhal cai da minha mão, deslizando pelo piso ensanguentado. De pé, Hamburg se abaixa para me segurar, mas me reclino no chão e levanto o pé com toda a força, enfiando o salto da minha sandália na lateral do seu rosto. Ele geme e cambaleia para trás, com a mão na bochecha.
— Eu vou acabar com você! Puta que pariu! — berra ele.
Engatinho na direção do punhal, vendo o segurança no chão, em meio a uma poça de sangue. Ele está engasgando com os próprios fluidos; tentando em vão encher os pulmões de ar.
Pego o punhal com firmeza e rolo no chão enquanto Hamburg se aproxima, derrubando a poltrona de couro. Fico de pé e corro até a mesa, empurrando-a na direção dele. Hamburg tenta tirá-la da frente, mas o móvel balança sobre a base e ele acaba tropeçando. Seu corpo desaba no chão de barriga para baixo e a mesa cai quase na sua cabeça. Salto sobre suas costas e monto em seu corpo obeso. Meus joelhos mal tocam o chão. Agarro seu cabelo, puxo a cabeça dele para trás na minha direção e aperto o punhal em sua garganta, imobilizando-o em segundos.
— Pode me matar! Foda-se! Você não vai sair viva daqui mesmo. — A voz de Hamburg é rouca, sua respiração, rápida e ofegante, como se ele tivesse acabado de tentar correr uma maratona. O cheiro de seu suor e de seu medo invade minhas narinas.
Ocupada com a lâmina em sua garganta, me assusto com o som de batidas fortes na porta. A distração me pega desprevenida. Hamburg consegue se erguer debaixo de mim como um touro, rolando de lado e me derrubando no chão. Deixo cair o punhal em algum lugar, mas não tenho tempo para procurá-lo porque Hamburg consegue se levantar e parte para cima de mim. Ouço a voz de Stephens do outro lado da porta, que vibra com seus socos.
Rolo para sair do caminho antes que Hamburg consiga pular em cima de mim, pego o objeto mais próximo — um peso de papel de pedra, bem pesado, que estava na mesa antes de ser derrubada — e golpeio Hamburg com ele. O som do osso de seu rosto quebrando com o impacto faz meu estômago revirar. Hamburg cai para trás, cobrindo a cara com as mãos.
As batidas na porta ficam mais fortes. Numa fração de segundo, levanto a cabeça e vejo a porta sacudindo com violência no batente. Preciso sair daqui. Agora. Meu olhar varre a sala procurando o punhal, mas não há mais tempo.
Corro para a sala de vigilância, contornando os obstáculos.
Graças a Deus, há outra porta lá dentro. Abro a porta e desço correndo a escada de concreto, torcendo para que seja uma saída e eu não encontre mais ninguém no caminho.