O Retorno de Izabel

J. A. Redmerski · Capítulo 9 de 37

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O Retorno de Izabel

Sarai

 

Quando volto, Victor está na sala, acomodado na beira do sofá, curvado sobre a mesinha de centro feita de vidro que está cheia de pedaços de papel e fotografias. Entro, mas ele continua remexendo neles sem erguer a cabeça para me olhar. Só que ele não me engana, sei que sente a minha presença tanto quanto quero que ele sinta.

Vasculhei o guarda-roupa de Fredrik procurando uma camiseta branca, que vesti sobre meus seios nus. Infelizmente, tive que usar a mesma calcinha de antes, mas as cuecas boxer de Fredrik não são exatamente o tipo de lingerie que eu gostaria de usar para seduzir Victor. Só uma camiseta e uma calcinha. Claro que fiz questão de vestir o mínimo possível, porque desejo Victor e não tenho nenhuma vergonha de deixar isso claro. Mas ainda custo a acreditar que estou no mesmo cômodo que ele, depois de meses achando que ele havia ido embora para sempre.

Acho que o beijo no elevador é onde minha mente ficou suspensa, como se o tempo tivesse parado naquele momento e cada parte de mim ainda deseje que aquele instante continue. Contudo, o resto do mundo continua passando ao meu redor.

Eu me sento ao lado de Victor, recolhendo um pé descalço para o sofá e enfiando-o sob a minha coxa.

— O que é isso tudo? — Olho para os papéis e fotografias na mesa.

Ele mexe em alguns pedaços de papel, empilhando-os.

— É um serviço — explica ele, colocando a foto de um homem de camiseta regata na pequena pilha. — Agora eu trabalho por conta própria.

Isso me surpreende.

— Como assim? — Acho que sei o que ele quer dizer, mas custo a acreditar.

Ele pega a pilha de papéis e bate as laterais na mesa para ajeitar todas as folhas. Então enfia o maço em um envelope de papel pardo.

— Eu saí da Ordem, Sarai. — Ele olha para mim.

Victor aperta as pontas do fecho prateado para fechar o envelope.

Meus pensamentos se embaralham, minhas palavras ficam confusas na ponta da língua. Luto, desesperada, para acreditar no que ele acaba de me contar.

— Victor... mas... não...

— Sim — confirma ele, virando-se para mim e me olhando bem nos olhos. — É verdade. Eu me rebelei contra a Ordem, contra Vonnegut, e agora eles estão atrás de mim. — Ele volta a mexer nos outros papéis na mesa. — Mas ainda preciso trabalhar, por isso agora trabalho sozinho.

Balanço a cabeça sem parar, sem querer engolir a verdade. A ideia de Victor sendo caçado por aqueles que o fizeram ser como ele é, por qualquer um, faz um pânico febril correr pelas minhas veias.

Solto um longo suspiro.

— Mas... mas e Fredrik? E Niklas? Victor, eu... O que está acontecendo?

Ele respira fundo e deixa a folha de papel cair suavemente na mesa, então reclina as costas no sofá.

— Fredrik ainda trabalha para a Ordem. Está lá dentro. Ele vigia Niklas e... — seus olhos cruzam com os meus por um instante —... tem me ajudado a manter você a salvo.

Antes que eu consiga fazer mais perguntas presas na garganta, Victor se levanta e continua a falar, enquanto fico sentada e o observo com a boca semiaberta e as pernas dobradas sobre a almofada.

— Como você sabe, quando alguém está sob suspeita de trair a Ordem, é imediatamente eliminado. Mas acredito que Niklas deixou Fredrik vivo e não transmitiu suas preocupações a Vonnegut pelo simples fato de que Niklas está usando Fredrik para me encontrar. Assim como deixou você viva todo este tempo, esperando que um dia você o levasse a mim.

O que mais me choca não é o que Victor diz, mas o que ele deixa de fora. Tiro as duas pernas de cima do sofá e pressiono os pés no chão de madeira, apoiando as mãos nas almofadas.

— Victor, o que você está me dizendo? Quer dizer que... Niklas continua com Vonnegut?

Espero que não seja isso que ele esteja tentando me dizer. Espero de todo o coração que minha decisão de deixar Niklas vivo aquele dia no hotel, quando ele atirou em mim, não tenha sido o maior erro da minha vida.

Os olhos de Victor vagam para a porta de vidro, e sinto que uma espécie de sofrimento infinito o consome, mas ele não deixa transparecer.

— Você estava lá. Eu disse para o meu irmão que, se ele decidisse continuar na Ordem caso eu resolvesse sair, eu não ficaria bravo com ele. Dei a ele a minha palavra, Sarai. — Victor vai até a porta de vidro, cruza os braços e olha para a piscina azul iluminada que reluz sob o céu cinzento. — Agora é hora de Niklas brilhar, e não vou tirar isso dele.

— Que absurdo! — Salto do sofá com os punhos fechados. — Ele está atrás de você, não é? — Cerro os dentes e contorno a mesinha de centro. — Caralho, é isso, Victor? Para provar seu valor para Vonnegut, ele foi encarregado de matar você. Aquele merda do seu irmão traiu você. Ele acha que vai pegar o seu lugar na Ordem. Puta que pariu, não acredito...

— É o que é, Sarai — interrompe Victor, virando-se para me encarar. — Mas, neste momento, Niklas é a menor das minhas preocupações.

Cruzando os braços, começo a andar de um lado para outro, olhando os veios claros e escuros da madeira sob meus pés descalços. Minhas unhas ainda têm o esmalte vermelho-sangue de duas semanas atrás.

— Por que saiu da Ordem?

— Eu tive que sair. Não tinha escolha.

— Não acredito.

Victor suspira.

— Vonnegut descobriu sobre a gente — conta ele, ganhando minha atenção total. — Foi Samantha... na noite em que ela morreu. Antes que eu saísse da Ordem, encontrei Vonnegut em Berlim, o primeiro encontro frente a frente que tive com ele em meses. Foi em uma sala de interrogatório. Quatro paredes. Uma porta. Uma mesa. Duas cadeiras. Somente eu e Vonnegut sentados frente a frente, com uma luz brilhando no teto acima de nós. — Victor olha para trás pela porta de vidro e depois continua: — No início, eu estava certo de que ele tinha me levado para lá com a intenção de me matar. Eu estava preparado...

— Para morrer? — Se Victor responder que sim, vou dar um tapa na cara dele.

— Não — responde ele, e consigo respirar um pouco melhor. — Eu fui para lá preparado. Raptei a mulher de Vonnegut antes de ir encontrá-lo. Fredrik a manteve em uma sala, pronto para fazer... as coisas dele, caso fosse necessário.

No mesmo instante, quero perguntar o que são as “coisas” de Fredrik, mas deixo a pergunta de lado por enquanto e digo:

— Se Vonnegut quisesse matar você, a esposa dele seria a sua moeda de troca.

De costas para mim, ele assente.

— Samantha estava sendo vigiada pela Ordem. Provavelmente há muito tempo.

— Eles desconfiavam da traição dela? Por que não a mataram, então, como fizeram com a mãe de Niklas, ou como queriam fazer com Niklas?

Victor se vira para me encarar de novo.

— Eles não desconfiavam dela, Sarai, ela era... — Victor respira fundo e aperta os lábios.

— Ela era o quê? — Chego mais perto dele. Não gosto do rumo que a conversa está tomando.

— Ela era mais leal à Ordem do que eu jamais poderia ter imaginado — conta ele, e isso fere meu coração. — Sentado naquela sala com Vonnegut, quanto mais ele falava, mais eu começava a entender que Samantha me traiu da mesma forma que Niklas. Vonnegut me contou coisas que ele não tinha como saber. Ele sabia que eu ajudei você. Em algum momento antes de morrer, naquela noite, Samantha conseguiu passar informações a Vonnegut sobre nossa estadia por lá.

— Não acredito nisso. — Golpeio o ar com a mão diante de mim. — Samantha morreu tentando me proteger. Já falamos sobre isso. Não acredito em você, Victor. Ela era uma boa pessoa.

— Ela era boa manipuladora, Sarai, nada mais do que isso.

Balanço a cabeça, ainda sem acreditar.

— Foi Niklas quem contou a Vonnegut que você me ajudou. Só pode ter sido. Niklas sabia até que você tinha me levado para a casa de Samantha.

— Sim, mas Niklas não sabia que eu fiz Samantha provar nossa comida antes de a gente comer, naquela noite. Assim que Vonnegut mencionou quanto eu ainda desconfiava dela depois de tantos anos, eu soube que ela havia me traído.

— Mas isso não faz nenhum sentido. — Começo a andar pela sala de novo, de braços cruzados e com uma das mãos apoiada no rosto. — Por que ela me protegeria de Javier?

— Porque ela não era leal a Javier.

Jogo as mãos para o ar, atônita com aquela revelação.

— Não dá para confiar em ninguém — digo, me jogando no sofá e olhando para o nada.

— Não, não dá — concorda Victor, e eu olho para cima, detectando um significado oculto por trás de suas palavras. — Agora talvez você entenda por que eu não me envolvo com ninguém. Não é só o trabalho, Sarai. As pessoas em geral não são confiáveis, especialmente na minha profissão, na qual a confiança é tão rara que não vale a pena perder tempo e esforço procurando por ela.

— Mas você parece confiar em Fredrik — observo, olhando para Victor do sofá. — Por que me trouxe logo aqui? Não aprendeu a lição com Samantha?

Sua expressão fica um pouco mais sombria, ressentida pela minha acusação.

— Eu nunca disse que confiava em Fredrik. Mas no momento ele é meu único contato dentro da Ordem e, nos últimos sete meses, não fez nada que não o tornasse digno de confiança. Ao contrário, fez tudo para provar sua lealdade a mim.

— Mas isso não significa que seja verdade.

— Não, você tem razão, mas logo vou saber com cem por cento de certeza se Fredrik é confiável ou não.

— Como?

— Você vai descobrir comigo.

— Por que se dar a esse trabalho? Você disse que a confiança é tão rara que não vale o esforço.

— Você faz muitas perguntas.

— Pois é, acho que faço. E você não responde o suficiente.

— Não, acho que não. — Victor abre um sorrisinho, e meu coração se derrete instantaneamente em uma poça de mingau.

Desvio os olhos dos dele e disfarço meus sentimentos.

— Não estou segura aqui — digo, encarando-o novamente.

— Você não está segura em lugar nenhum — corrige Victor. — Mas, enquanto estiver comigo, nada vai acontecer com você.

— Quem está falando merda agora?

Ele levanta uma sobrancelha.

— Você não é meu herói, lembra? — digo para refrescar a memória de Victor. — Não é minha alma gêmea que jamais deixará que nada de ruim aconteça comigo. Devo confiar nos meus instintos primeiro e em você, se eu decidir confiar, por último. Você me disse isso certa vez.

— E continua sendo verdade.

— Então como pode dizer que nada vai me acontecer se eu estiver com você?

A expressão de Victor fica vazia, como se pela primeira vez na vida alguém o tivesse deixado sem palavras. Olho para seu rosto silencioso e sem emoção, e apenas seus olhos revelam um traço de torpor. Tenho a sensação de que ele falou sem pensar, que manifestou algo que sente de verdade, mas que jamais quis que eu soubesse: Victor quer ser meu herói, vai fazer qualquer coisa, tudo o que puder para me manter a salvo. Quer que eu confie totalmente nele.

E confio.

Ele volta para perto de mim e se senta ao meu lado. O cheiro de seu perfume é fraco, como se ele fizesse questão de usar o mínimo possível. Estou tonta de desejo. Ansiosa para sentir novamente seu toque, saborear seus lábios quentes, deixar que ele me tome como fez algumas noites antes que nos víssemos pela última vez. Não tenho pensado em nada além de Victor nos últimos oito meses da minha vida. Enquanto durmo. Como. Vejo TV. Transo. Me masturbo. Tomo banho. Cada coisa que fiz desde que ele me deixou naquele hospital com Dina fiz pensando nele.

— Você acha que Fredrik vai contar a Niklas onde a gente está? — Mudo de assunto por medo de deixar transparecer muita coisa cedo demais.

— Acho que se ele fosse fazer isso teria contado a Niklas o pouco que sabia sobre o seu paradeiro há muito tempo, e Niklas já teria tentado matar você — responde Victor.

— Tem alguma coisa... estranha em Fredrik. Você não sente?

Victor passa a mão pelo meu cabelo úmido. O gesto faz meu coração disparar.

— Você tem grande sensibilidade para as pessoas, Sarai — comenta ele, levando a mão ao meu queixo. — Tem razão sobre Fredrik. — Ele passa o polegar pelo meu lábio inferior. Um calafrio percorre o meio das minhas pernas. — Ele é... como dizer?... desequilibrado, de certa forma.

Minha respiração acelera, e sinto meus cílios tocando meu rosto quando os lábios de Victor cobrem os meus.

— Desequilibrado de que forma? — pergunto, ofegante, quando ele se afasta.

De olhos fechados, percebo que ele está observando a curva do meu rosto e meus lábios e sinto a respiração que sai suavemente de suas narinas.

Cada pelinho minúsculo se eriça quando a outra mão de Victor sobe e encontra minha cintura nua por baixo da camiseta. Seus dedos longos dançam sobre a pele do meu quadril e param por ali.

Abro os olhos e vejo os dele me encarando.

— Algum problema? — pergunta ele, e sua boca roça a minha de novo.

— Não, eu... eu só não esperava isso.

— Esperava o quê?

Sinto seus dedos levantando o elástico da minha calcinha. Minha cabeça está girando, sinto meu estômago se transformar em um emaranhado de músculos, trêmulo e nervoso.

— Isso — respondo, piscando. — Você está diferente — acrescento, baixinho.

— Culpa sua — diz Victor, e então seus lábios devoram os meus.

Ele me deita no sofá e se encaixa entre as minhas pernas.

Seu celular vibra na mesinha de centro, e percebo quanto sou humana quando xingo Fredrik por estragar aquele momento, mesmo que seja para me avisar de que Dina está a salvo.