O Retorno de Izabel
Capítulo Onze
Sarai
Levanto o rosto do peito de Victor, fungando as malditas lágrimas que mais uma vez me traíram em um momento de fraqueza.
— Você vai me ajudar a matá-los?
Ele assente.
— Vou.
— Obrigada — digo, baixinho.
Fico na ponta dos pés e dou um beijo suave em sua boca.
Da porta de vidro atrás de nós, a empregada diz com uma voz fraca:
— O café está pronto.
Ela nos fita com seus olhos escuros e curiosos, sem dúvida por ter ouvido a discussão enquanto estava lá dentro.
— Marta faz uns ovos mexidos ótimos — comenta Fredrik, com um sorriso radiante, como se nada tivesse acontecido. — Frita em gordura de bacon. — Ele junta os dedos nos lábios e os beija. — Adoro comida americana.
Ele vai atrás de Marta.
— Se bem que parece que ovos mexidos em gordura de bacon é uma comida do Sul, não? — pergunta ele, olhando para nós enquanto o seguimos.
Victor dá de ombros.
— Bem, Marta não é exatamente do Alabama — continua ele, ao entrarmos na cozinha. — Mas sabe cozinhar como se fosse.
Fredrik e Victor continuam tagarelando sobre comida, provavelmente para me fazer esquecer o que aconteceu. Mas, nesse momento, nada mais me importa além do rosto de Dahlia e Eric na memória. Sei que estou sendo punida. Pela vida. Pelo destino. Não sei por quem ou pelo quê, só sei que faria qualquer coisa para devolver a vida aos meus amigos.
Nós três nos sentamos à mesa com tampo de vidro da cozinha e comemos. E acho quase engraçado Fredrik fazendo Marta provar a comida antes de nos servir, como se ele tivesse aprendido essa técnica paranoica no Manual de Victor Faust.
Durante o café, que dura muito tempo por causa da conversa, Fredrik acaba liberando Marta pelo resto do dia. Isso acontece logo depois que ele começa a falar em sueco com Victor. Odeio não entender o que eles dizem, mas fica claro para mim que era por causa de Marta, e não por mim.
Marta pega a bolsa e se despede de nós, agradecendo a Fredrik por pagar um dia inteiro.
— Por que isso? — pergunto, depois que ela vai embora.
Apoio o garfo no prato ao terminar meu café.
— Temos muito o que conversar — explica Fredrik, tomando um gole de suco de laranja. — E ela não pode ouvir a conversa. — Ele aponta para mim e sorri. — E Marta, embora não pareça, ouve tudo o que acontece por aqui.
— Então por que vocês não continuaram conversando em sueco? — questiono.
— Você fala sueco? — rebate Victor.
— Não.
— Bem, você tem que participar da conversa — diz ele, deixando o copo d’água na mesa.
Sorrio. Nesse momento, me sinto parte deles pela primeira vez. Dos dois. Nós três sentados à mesa, que minutos depois já está livre dos pratos e dos copos, substituídos por pastas e fotografias de serviços de execução. Para mim, é meio surreal discutir detalhes de interrogatórios e assassinatos tão casualmente, como se estivéssemos falando do tempo. Mas também, pela primeira vez na vida, sinto que pertenço a algum lugar. Não estou mais andando por um túnel escuro, com as mãos à frente, procurando a porta. A porta está bem ali, à mostra, e já passei por ela. Enfim encontrei meu lugar na vida. E estou com Victor, o que para mim é mais importante do que tudo.
Finalmente estou com Victor.
Victor e eu saímos da casa de Fredrik nas colinas de Los Angeles no fim da tarde e dirigimos por onze horas até Albuquerque, Novo México. No caminho, paramos em um shopping, onde gasto praticamente uns 2 mil dólares em roupas e sapatos novos, acessórios e maquiagem, já que tudo o que tenho está no Arizona ou ficou no hotel em Los Angeles. Encho o banco de trás com sacolas de compras e caixas de sapatos, mas, lá pela nona hora de viagem, me arrependo de ter comprado tanta coisa. Tudo o que quero é me arrastar para o banco de trás e dormir, mas tenho que me conformar em ficar apertada na frente, encolhida em uma posição desconfortável no banco do Cadillac CTS preto de Victor, com a cabeça apoiada na janela. Desde que Victor saiu da Ordem, ele não tem mais a conveniência de usar jatos particulares para viajar. Se quisesse, com certeza poderia pagar um do próprio bolso, mas ser alguém que a Ordem quer matar significa não dar na vista e abrir mão de alguns luxos que poderiam levar Niklas até ele.
Ao que tudo indica, esses luxos abdicados incluem as residências extravagantes e multimilionárias nas quais Victor sempre preferiu morar. Sua casa em Albuquerque é bem diferente daquela onde ele morava na Costa Leste, com vista para o mar. Quando paramos na entrada de terra batida, vejo uma casa de tamanho médio, com paredes nuas de reboco bege e em um formato de caixa que me faz lembrar as casas que eu construía com peças de Lego quando era criança. Contudo, a julgar pelo jardim elaborado que envolve o caminho branco e liso até a porta e o lado esquerdo da casa, é óbvio que Victor não abriu mão de todos os luxos. Isso fica mais óbvio ainda quando entramos, pois o interior é tão bonito quanto o da casa de Fredrik, apesar do estilo mais interiorano e menos luxuoso. Vermelho-ferrugem, marrom e amarelo dominam o ambiente, com pé-direito alto sustentado por vigas e sarrafos de madeira escura, que fazem a casa parecer muito maior por dentro do que por fora. Uma aconchegante lareira de pedra ocupa uma das paredes da espaçosa sala de estar, com dois espelhos decorativos de metal pendurados acima dela. As paredes são amarelas, combinando com os pisos de terracota que parecem ocupar toda a casa.
— De uma coisa tenho certeza: você sempre consegue as melhores empregadas — comento, deixando várias das minhas sacolas no chão da sala.
— Desta vez, não — diz Victor atrás de mim. Ele deixa as outras sacolas que trouxe do carro perto do sofá de couro marrom-alaranjado. — Sou só eu.
— Sério? Mas está tudo tão limpo. Acho que você não passou muito tempo aqui, então, não é?
— Uns quatro meses. — Ele olha para mim. — Você gostou? Espero que sim, porque é o seu novo lar.
Um sorriso desponta no meu rosto.
Victor desabotoa e tira a camisa, deixando-a nas costas de uma poltrona de couro marrom. Observo discretamente seu corpo enquanto ele anda por um corredor longo e bem-iluminado com uma entrada em arco.
Sigo Victor.
— Claro que você sabe que não vamos ficar aqui para sempre. — Entramos em um quarto grande. — Mas é nosso lar por enquanto, pelo menos.
Ele tira a calça e me esforço ao máximo para não olhá-lo com intensidade demais, mas isso fica cada vez mais difícil.
— Vem cá — chama ele, parado diante de mim sem nada além de sua cueca boxer preta e apertada, que pouco ajuda a esconder o volume crescendo por baixo do tecido.
Engulo em seco, nervosa, embora não saiba a razão para esse nervosismo repentino, e me aproximo dele. Sinto um espasmo entre as pernas, e também não sei ao certo por que isso acontece. É como se meu subconsciente estivesse mais a par do que vai acontecer do que minha parte consciente. Ou então apenas perdi o controle sobre minha mente e só consigo pensar no que eu gostaria que acontecesse.
Olho para Victor, curiosa, inclinando um pouco a cabeça para o lado.
— Não sei bem o que é isso entre a gente — diz ele, com cuidado —, mas tenho certeza de que não quero que acabe. Seja o que for.
— Eu também.
Um pouco confusa quanto ao rumo que a conversa está tomando, inclino a cabeça para o outro lado e pergunto:
— Algum problema?
Ele balança a cabeça devagar.
— Não, problema nenhum.
— Bem, se você está preocupado que eu vá me apaixonar e grudar em você feito chiclete, não precisa.
— Você não está apaixonada por mim? — pergunta Victor, e não parece nada além de uma simples questão.
— Não, eu não amo você, Victor.
Ele parece concordar.
— Ótimo. Porque eu também não estou apaixonado por você.
Acho que nem eu nem ele sabemos de fato o que essa palavra significa em uma situação assim. Ambos exibimos a mesma expressão de aceitação, mas também parecemos um pouco confusos.
— Mas... eu, hã... — Entrelaço os dedos atrás das costas e olho para o chão, mexendo o pé como se estivesse tentando afundar os dedos na areia. Paro para encará-lo. — Mas eu, hã, talvez... preferisse que você não dormisse com mais ninguém. Eu... bom, acho que eu não ia gostar muito disso.
— Concordo — diz Victor, assentindo mais uma vez, com firmeza. — Acho que se eu pegar você com outro homem vou ter que matá-lo.
Balanço a cabeça algumas vezes, de maneira tão casual quanto ele.
— Com certeza — concordo eu. — O mesmo vale para você.
— De acordo.
Há um momento de silêncio constrangido entre nós, e corro os olhos pela cama king-size com dossel alto de cerejeira, que está a alguns passos de distância.
Victor se aproxima e eu me viro para observá-lo. Ergo os braços quando ele passa os dedos por baixo da minha camiseta e a tira.
— Também quero dizer que não me incomodo se você grudar em mim feito chiclete. — Ele enfia os dedos no elástico da minha calcinha. — Só para constar.
— Mesmo?
Victor se agacha diante de mim ao descer a calcinha por meus quadris e minhas pernas. Fica ali, me olhando de baixo, com a cabeça na altura do meu umbigo.
— Sim — responde ele. — Mas claro que você não pode me atrapalhar quando eu estiver tentando fazer um serviço.
— Sim, claro — digo, e minha pele reage aos seus lábios, que beijam a área logo acima da minha pélvis. — E-eu nunca atrapalharia o seu trabalho — gaguejo.
Minhas mãos começam a tremer quando ele desce e para entre as minhas pernas, abrindo meus grandes lábios com os polegares.
Afasto os joelhos só um pouco, o bastante para que ele tenha acesso.
— Mas nada de me abandonar em algum lugar distante enquanto você viaja pelo mundo para cumprir os contratos — digo, enfiando os dedos no cabelo dele, com a respiração irregular e acelerada. — Não quero ser dona de casa, entendeu?
Um suspiro agudo corta o ar perto da minha boca quando a ponta de sua língua lambe meu clitóris. Quase derreto ali mesmo, os músculos das coxas perdendo força a cada segundo.
— Sim, entendo o que você quer dizer — diz Victor, e me lambe de novo, explorando entre as minhas pernas. Jogo a cabeça para trás e puxo seu cabelo com mais força, enrolando-o nos dedos. — Você vai aonde eu for. Para eu poder ficar de olho em você.
— De olho em mim. Claro.
Que resposta patética. Só consigo pensar na cabeça de Victor no meio das minhas pernas, e naquela sensação quente e formigante que está amolecendo minhas entranhas.
Victor me ergue segurando minha bunda com firmeza e com minhas coxas em torno da cabeça. Então me lambe furiosamente por um momento antes de me jogar de costas na cama.
Com os joelhos dobrados no peito, vejo sua boca entrar no meio das minhas coxas e reviro os olhos enquanto ele me faz esquecer tudo.