Obras Posthumas
Soneto Xxii.[5]
E de manhãa a todos atravessa,
A cuja hirsuta sordida cabeça
Nunca chegou juizo, nem navalha;
Que os gazeos olhos pela meza
espalha
Por ver se ha mais comer que tire,
ou peça,
Entrando nelle com tal fome, e
pressa
Qual faminto frizão em branda
palha;
Por crimes de alta gula, e pouco sizo,
De meza bem servida, mas severa,
Foi n'hum dia lançado de improviso.
Hoje chorando o seu perdão espera:
Perdêrão dous glotões o Paraiso,
O antigo por maçãa, este por pera.
Aos toucados altos.
SONETO XXII.[5]
Foi ao Manique hum homem accusado
Por contrabandos ter; elle sciente
Chama a quadrilha, corre diligente,
Entra, busca, e não acha o
Malsinado.