Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 56 de 63

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Obras Posthumas

Ode.

 

Das virtudes guiados

Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos;

Nem sempre esquivos fados Se nos hão de mostrar surdos, e

injustos:

Abrem vasto thesouro,

E nos mandão por Vós a Idade de

Ouro.

Do Rei aos Ceos erguido

O Reino, e o coração tendes herdado,

Benigno, enternecido,

De mil virtudes solidas dotado;

Por genio piedoso,

E digno em fim de tempo mais ditoso.

Da Eterna Providencia

Os beneficos raios fuzilárão;

Já se estima a innocencia,

Já os tempos de Ferro se abrandárão,

Já vem o ar talhando

A Piedade, e a Justiça os braços

dando.

Com subita alegria

Tornai a ver os conhecidos lares,

Tornai a ver o dia,

Vós que habitastes horridos lugares,

Lugares deshumanos

Onde passastes dez, e outros dez

annos.

Do chão desentranhados

Vinde jurar os novos Reis felizes:

Nos pulsos descarnados

Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes,

E os grilhões inda quentes

Na praça triunfal deixai pendentes.

Que lagrimas levaste,

Patrio Téjo, na tua escura veia

Quando turvo passaste!

E as ondas, que quebravas sobre a

areia,

Que cinzas que regárão!

Que triste sangue para o mar levárão!

Mas torna, oh manso Téjo,

Torna a volver corrente prateada:

Já taes males não vejo:

E até já foge a nuvem carregada,

Que á triste Lusa terra

Promettia fatal, e pronta guerra.

De pelouro violento

Não vê cahir o exangue companheiro;

E dorme ao som do vento

Em campo aberto o molle pegureiro;

O lavrador cantando

Em paz herdados campos vai

cortando.

Da sorte das batalhas

Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes;

Pendurem duras malhas,

E os temperados lucidos arnezes

Os ardidos soldados

Das lagrimosas Mãis em vão chamados.

Que dias florecentes

Ao vosso fiel povo preparastes!

Quando com mãos prudentes

O pezo dos negocios espalhastes

Sobre os hombros robustos

De Ministros inteiros, sabios, justos.

Gemêo maniatado

Longo tempo o infeliz merecimento;

Mas já, o collo alçado,

Sacode o negro pó do esquecimento,

E a virtude innocente

De illustres palmas lhe coroa a frente.

Já vingadas seráõ

Do vil tutor as timidas donzellas;

Já não erguem em vão

As mãos, e os tristes olhos ás

estrellas;

Nua de falsidade

Aos ouvidos dos Reis chega a

verdade.

Mil louvores lhe cantão,

O limpo coração pondo no rosto:

E n'alma lhe levantão

Novo Throno, sobre ella melhor posto,

Que entre espessas falanges,

Que sobre ouro, ou perolas do

Ganges.

Novos Reis Soberanos,