Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 31 de 63

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Obras Posthumas

Endechas.

Enxuga as tranças

Da Nynfa loura,

E nellas doura

Os farpões seus.

Negras &c.

Caldas ditosas

Teu nome cresça,

Alça a cabeça

Até os Ceos.

Negras &c.

O pobre Anfriso,

Que estas calçadas

Deixou regadas

Dos olhos seus,

Negras &c.

Hoje em triunfo

De seus pezares

Levanta altares

De Gnido ao Deos.

Negras &c.

 

ENDECHAS.

 

No sacro Templo

Que Amor habita

Minha alma afflicta

Fui immolar.

Na ruiva flamma

Que silva ardendo

A mão detendo

Jurei-te amar.

Fumoso sangue,

Mal findo o voto,

Do peito roto

Vi gotejar.

D'alma opprimida

A insana pena

Causou-lhe Elena

Que soube amar.

Nos fidos peitos

O morto lume

Negro Ciume

Hia ateiar.

Vulcano féro

Ante Mavorte

O rival forte

Não póde olhar.

Dos desprezados,

Que soffrem tanto,

O rouco pranto

Feria o ar.

Aqui jaz Delio

Terno, e vencido.

Sem de Cupido

Premio alcançar:

Que Dafne esquiva,

Com triste agouro,

Em verde louro

Vio transformar.

Pan segue a Nynfa,

Que tanto adora;

Seu fado chora

Vendo-a mudar.

De tenras cannas

Amor lhe manda,

Que a frauta branda

Vá fabricar.

Cercada Dido

De angustias fêas,

Ah falso Eneas!

Se ouve bradar.

Seus lindos olhos

Frouxos erravão;

Em vão buscavão

O vago mar.

Subtís enredos

De acerbo dano

Bifronte engano

Eu vi tramar.

Por Thisbe bella,

Que busca errante,

Pyramo amante

Vai acabar.

Conhece a amada

O infeliz erro,

Ousa impio ferro

Em si cravar.

Serve-lhe a terra

De duro leito,

Vê-se-lhe o peito

Inda arquejar:

As pardas sombras;

Que Amor mistura,

Na Estyge escura

Vão aportar:

Desenrugando

A crespa fronte,

Lédo Acheronte

As foi buscar.

E eu combatido

De mil pezares

Vou pelos ares

A suspirar.

Sei ser-te amante

Sem premios vivo,

Este o motivo

Do meu penar.

Vês mil exemplos,

E jámais pensas

Que póde offensas

Amor vingar.

Ah! sê piedosa:

As cruas penas

Torne serenas

Teu brando olhar.