Obras Posthumas
Endechas.
Enxuga as tranças
Da Nynfa loura,
E nellas doura
Os farpões seus.
Negras &c.
Caldas ditosas
Teu nome cresça,
Alça a cabeça
Até os Ceos.
Negras &c.
O pobre Anfriso,
Que estas calçadas
Deixou regadas
Dos olhos seus,
Negras &c.
Hoje em triunfo
De seus pezares
Levanta altares
De Gnido ao Deos.
Negras &c.
ENDECHAS.
No sacro Templo
Que Amor habita
Minha alma afflicta
Fui immolar.
Na ruiva flamma
Que silva ardendo
A mão detendo
Jurei-te amar.
Fumoso sangue,
Mal findo o voto,
Do peito roto
Vi gotejar.
D'alma opprimida
A insana pena
Causou-lhe Elena
Que soube amar.
Nos fidos peitos
O morto lume
Negro Ciume
Hia ateiar.
Vulcano féro
Ante Mavorte
O rival forte
Não póde olhar.
Dos desprezados,
Que soffrem tanto,
O rouco pranto
Feria o ar.
Aqui jaz Delio
Terno, e vencido.
Sem de Cupido
Premio alcançar:
Que Dafne esquiva,
Com triste agouro,
Em verde louro
Vio transformar.
Pan segue a Nynfa,
Que tanto adora;
Seu fado chora
Vendo-a mudar.
De tenras cannas
Amor lhe manda,
Que a frauta branda
Vá fabricar.
Cercada Dido
De angustias fêas,
Ah falso Eneas!
Se ouve bradar.
Seus lindos olhos
Frouxos erravão;
Em vão buscavão
O vago mar.
Subtís enredos
De acerbo dano
Bifronte engano
Eu vi tramar.
Por Thisbe bella,
Que busca errante,
Pyramo amante
Vai acabar.
Conhece a amada
O infeliz erro,
Ousa impio ferro
Em si cravar.
Serve-lhe a terra
De duro leito,
Vê-se-lhe o peito
Inda arquejar:
As pardas sombras;
Que Amor mistura,
Na Estyge escura
Vão aportar:
Desenrugando
A crespa fronte,
Lédo Acheronte
As foi buscar.
E eu combatido
De mil pezares
Vou pelos ares
A suspirar.
Sei ser-te amante
Sem premios vivo,
Este o motivo
Do meu penar.
Vês mil exemplos,
E jámais pensas
Que póde offensas
Amor vingar.
Ah! sê piedosa:
As cruas penas
Torne serenas
Teu brando olhar.